O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.
Durante a fase de especificação funcional detalhada
encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as
respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas
dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro,
que era o homem daquela especialidade.
A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável.
Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas.
Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista.
Impressionante.
O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para
gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro
a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a
abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem
saia primeiro.
Na estação central é importante estar bem atento para usar a
saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos
por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.
Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós
estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir
descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se
dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse
a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de
matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.
Começada a discussão, o trabalho parecia avançar
rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais
tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior,
fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a
dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram
previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado
confrontá-los com um “erro”.
A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo,
mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos
dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a
ultrapassar este problema?
A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra
pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.
Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa
com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos
hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para
otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um
trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…
Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou
por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente,
“foi à China”.
No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as
diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam
sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me…
ou eles mudaram.
Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente
em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao
acordado, foi a liberdade.

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