20 março 2026

A China e eu – Primeiro ato


O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.

Durante a fase de especificação funcional detalhada encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro, que era o homem daquela especialidade.

A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável. Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas. Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista. Impressionante.

O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem saia primeiro.

Na estação central é importante estar bem atento para usar a saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.

Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.

Começada a discussão, o trabalho parecia avançar rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior, fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado confrontá-los com um “erro”.

A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo, mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a ultrapassar este problema?

A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.

Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…

Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente, “foi à China”.

No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me… ou eles mudaram.

Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao acordado, foi a liberdade.

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