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20 abril 2026

Y Viva España


Vejo nas notícias em Portugal que o nosso Presidente da República está em visita oficial a Espanha, encontrando-se com o Primeiro-Ministro e o Rei. É a sua primeira viagem oficial ao estrangeiro.

Vou espreitar os jornais “hermanos” que acompanho, El País e El Mundo, deste até tenho assinatura, e na página principal nem sinais de AJ Seguro. Resolvo fazer uma pesquisa à palavra “Portugal” e os resultados são os da imagem. Incrível! Dois dos principais media espanhóis ignoram absolutamente a visita (a menos que esteja tão escondido que não vi).

De uma forma geral, Portugal é notícia em Espanha em três situações.

  • a)       Quando aqui ocorre uma desgraça
  • b)       Quando aqui ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso
  • c)       Quando lá ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso, em Espanha, e eles resolvem autoflagelarem-se dizendo: Vejam que até Portugal consegue fazer melhor do que nós

Curioso… e representativo

01 dezembro 2020

De charanga y pandereta


Este título faz parte de um poema irónico e corrosivo sobre uma certa Espanha caricatural e retrógrada, escrito pelo andaluz António Machado (1875-1936). Encontrei-o num CD de Joan Manuel Serrat, de músicas feitas sobre textos do poeta, sendo a mais famosa a do “Caminante no hay camino, se hace camino al andar” e revi-o mais recentemente citado num livro sobre a Andaluzia, antes, durante e depois do domínio muçulmano: Andalousie, Vérités et Legendes, por Joseph Perez.

Lá como cá, esse período da história tende a ser visto de forma redutora, seja como um desvio pontual e rapidamente normalizado, seja como um período culturalmente rico que as armas castraram. Uma realidade que ultrapassa 5 séculos é naturalmente muito mais complexa e este livro veio-me parar às mãos no processo de mais aprender sobre o tema, mas esse não é o tema de hoje.

Sobre a imagem “típica” do flamengo, ciganos e touradas, da “charanga y pandereta”, diz J. Perez que sua popularidade cresce numa certa franja da população espanhola e muito fortemente na Andaluzia, como reação à tentativa de modernizar e de trazer ao país as luzes europeias, um efeito colateral das invasões napoleónicas do início de século XIX. Enquanto o pé direito carrega no acelerador, promovendo uma certa (a sua) ideia de evolução e modernidade, o esquerdo trava, reforçando a ligação ao passado e à especificidade local, contrariando o importado (para a imagem ser mais feliz, talvez os lados dos pedais devessem ser permutados).

É um processo relativamente comum de reação à mudança, especialmente presente em muitas comunidades expatriadas, que tanto se podem integrar, como amplificar o seu arreigo à identidade e cultura originais. Quanto mais me querem impingir hambúrgueres, mais aprecio a posta mirandesa. Menos ironicamente, podemos recordar como o Estado Novo utilizou e promoveu uma certa imagem da “cultura popular”, para bloquear o interesse e incentivar a falta do mesmo por coisas mais “modernas”…

As tradições tanto podem ser fonte de riqueza e raiz fecunda, como um lastro que atrasa a evolução. O empurrar a modernidade tanto pode ter como consequência um efetivo e positivo progresso como o enquistamento e um retrocesso nocivo. Nem o povo se educa e se desenvolve por decreto, por muitos iluminados que sejam/se julguem ser os legisladores, nem o congelamento em referências antigas tem futuro. Obviamente… ! E em nada ajuda a religião do fraturar, que tantos gostam de praticar…  quase um século depois, continuando a citar Machado, lá continuam e dificilmente reconciliáveis “las dos Españas”.


12 outubro 2017

O que os espanhóis adoram


O El País publicou um artigo sobre “o autarca corrupto que os portugueses adoram” e enganou-se, não na primeira parte da frase, mas na segunda. Quem adora, ou pelo menos confia, em Isaltino são os finórios de Oeiras. Não são os portugueses na generalidade, mas o título “funciona” melhor assim! Seria interessante, e diria que jornalisticamente quase obrigatório, se também fossem referidos os casos paralelos de Valentim e Narciso, a quem os respetivos eleitores, aparentemente, não adoraram.

Dentro da imprensa internacional que consulto com regularidade estão o “El Mundo” e o “El País”, de sensibilidades diferentes, como convém. Notícias sobre Portugal, para lá das obrigatórias, como no dia depois de umas eleições, fundamentalmente só de desgraças e vergonhas. Não vou dizer que os espanhóis apenas se interessam pelo que se passa em Portugal quando é negativo ou caricato… mas quase. Pues, hermanos seremos. E que passem bem.

11 outubro 2017

A Catalunha e os donos da razão



Independentemente da contabilidade de razões e erros de parte a parte, tomar decisões com o impacto das que foram tomadas recentemente na Catalunha, com base no que se passou a 1/10 é coisa de "donos da razão". São uma espécie para quem os “errados” têm apenas o ténue direito a existir e a calar, já que serão inimigos mal-intencionados ou, no melhor dos casos, mal-esclarecidos. Mesmo que exista uma maioria de “errados”, de opinião diferente, primará a visão de que estão “errados”.

Para os donos da razão, só há um caminho possível, o deles, o “certo”. O que se pise e destrua para lá chegar, é irrelevante, face ao grande desígnio final. Democracia e respeito pelas instituições valem enquanto servirem os objetivos; se se tornarem um obstáculo, será necessário tirá-los do caminho, como se faz a qualquer coisa que se atravesse na nossa frente.

Os donos da razão tornam-se muito perigosos quando chegam ao poder. Nesta Europa, com a subida dos extremismos, os partidos tradicionais começam a sucumbir à tentação de vender uma parte da alma ao diabo. Mesmo sendo parcial, essa transação envenena espíritos e destrói a cultura democrática e de respeito pelas minorias (já sem falar das maiorias). Que impere o bom senso e se guardem os valores de tolerância e os princípios garantes da liberdade que tanto prezamos. Senão, entraremos em tempos sombrios.

07 outubro 2017

Independência para…?


Sim, o referendo não foi constitucional; sim, não era necessária tanta violência para o impedir, esta até ajudou a causa separatista; sim, assumir como válido o resultado de tal palhaçada, onde cada qual votava onde lhe apetecesse e quantas vezes quisesse, é digno de uma república das bananas… Sim, mas passando ao lado destes aspetos relevantes e indo ao fundo da questão.

O que é que a Catalunha ganha objetivamente, talvez, com a independência …? Considerando que não reduz a criação de riqueza local, deixará de a repartir com as regiões mais desfavorecidas de Espanha. Parece-me uma causa digna dos defensores de uma supremacia racial, um egoísmo a roçar a xenofobia, donde que não entendo como a extrema-esquerda apoia isto quando, em princípio, eles terão a solidariedade no seu ADN. Ganhará a pureza de fugir à corrupção que grassa em Madrid? Deixa-me rir…!

O que é a Catalunha perde com a independência? Muitíssimo. A integração em Espanha e na Europa, e, sobretudo, a confiança para o investimento numa região conduzida pelo “povo na rua”, secundarizando as normas escritas. Ou acharão eles que a suposta supremacia laboral, moral, etc e tal da nação catalã é tanta que a visão exterior não sairá afetada por estas trapalhadas? Uma pequena curiosidade, apenas ilustrativa: o excitado FC Barcelona que campeonato e troféus iria disputar? Um pequeno detalhe, enorme: o que custará a uma Catalunha isolada construir acordos comerciais com o resto do mundo, presumindo que não pretenderão viver “orgulhosamente sós”?

Pedir/exigir independência unilateralmente, porque queremos e logo se verá, sem uma avaliação e um enquadramento mínimo para a fase transitória e a seguinte, é digno de anarquistas. Alguns acham giro e excitante isto do anarquismo, mas não dá de comer a ninguém, pelo contrário, costuma trazer fome. Então, uma das regiões mais ricas de Espanha e da Europa, está a ser pilotada por anarquistas? Assim parece.

26 setembro 2017

Como é que isto vai acabar?


Desde que o parlamento catalão votou a realização de um referendo pela independência e o poder central o julgou ilegal, em sede de Tribunal Constitucional, que muitas cosas estranhas se passam por ali.

As autoridades de Madrid, querem fazer aplicar a lei, doa a quem doer. Os independentistas parecem estar borrifando-se para isso e acham que a vontade do povo (pelo menos duma parte, da deles…) é soberana. Vimos assim saírem ordens de prisão para todos os que organizarem, promoverem ou divulgarem o referendo e vemos autarcas, membros do governo local e até mesmo forças da ordem (os “Mossos”) a ignorarem determinações de juízes!

Estamos num ponto onde uma discussão e um debate razoável e civilizado já não parecem possível. Não sei julgar onde está a “culpa” maioritária ou minoritária, se na arrogância centralizadora, se no menosprezo pela lei dos separatistas. É certo que a História passa por vezes por saltar as leis, mas duvido muito que isso seja válido/necessário no enquadramento atual.

Vale tudo, até dizer que os governantes catalães interrogados, são presos políticos! É curioso ver alguém outorgar-se o direito de ignorar uma deliberação do poder judicial e a seguir queixar-se de sofrer uma suposta violação do Estado de Direito (que formalmente até não existe). O achar que as leis são para cumprir apenas quando no nosso interesse, é o princípio de uma coisa muita feia.

Em Portugal não temos uma Catalunha (parcialmente) assanhada, mas esta lógica (e esta lata) de alavancar poder com argumentação falaciosa que não resiste a duas simples perguntas, parece ser moda e, pior, eficaz, já que a tática é não responder objetivamente a perguntas, mas apedrejar argumentos. A ligeireza irresponsável, a arrogância intelectualmente desonesta e o faciosismo tribal, não auguram nada de bom para a futuro da liberdade e da democracia, nem na Catalunha nem aqui.

11 março 2016

Outras vítimas

Já aqui atrás contei a história da última vítima dos atentados de Madrid do 11 de Março de 2004. Não morreu pelas bombas terroristas. Morreu vítima da manipulação e da prepotência. Em resumo, e para quem não abriu o link acima, trata-se da mulher do comissário de polícia de Vallecas, local onde se encontrou a mochila-bomba não explodida, prova fundamental para identificar a origem muçulmana dos atentados e arrumar de vez com a fantasia da ETA que tanto jeito dava ao PP. Este nunca perdoou ao polícia ter sido o involuntário responsável pelo desmascarar da sua mentira.

Para lá do contexto específico, ser Espanha ou outro país, se quem manipula é um partido de direita ou de esquerda, é certamente muito grave alguém morrer devido não ao ato terrorista, claramente ilegal, com leis claras que o marginalizam e objeto de ação policial que o persegue, mas simplesmente sucumbindo ao assédio injustificável de quem tinha poder e aparelho mediático à disposição. É absolutamente repugnante que poderosos ressabiados, sejam capazes de atacar inocentes de forma tão despudorada, espezinhando-os sem piedade.

O PP perdeu as eleições três dias depois dos atentados, em grande parte, como castigo da sua atitude imoral, mas não aprendeu. O que falta a esta humanidade para ser consistentemente mais honesta, aceitando como únicas regras do jogo válidas as da verdade e as que começam e acabam no respeito pelos semelhantes.

Poder-se-á dizer resignadamente que “nunca”, que é uma utopia. No entanto, sem dúvida, a qualidade do quadro humano e social em que vivemos/viveremos é tanto maior quanto mais próximos estivermos da utopia, quanto menos traficarmos dolos e enganos. Num momento em que no nosso país, parece regredir para um “vale tudo” desde que no interesse próprio; do “manda quem pode” e “quem discorda que se cale” (mesmo tendo razão), não é inoportuna esta reflexão.

30 setembro 2014

Não foi em envelope

Depois de alguns dias de reflexão o nosso primeiro-ministro veio dizer que nada recebeu como remuneração da Tecnoforma nem da sua ONG satélite. Foi apenas reembolso de despesas efectuadas. Era importante saber um pouco mais sobre isso porque facturas há muitas…

E lá se aguenta, como também se aguenta o seu homólogo espanhol, à partida até bem pior colocado. Ao que parece, ele e demais notáveis do partido, recebiam notitas dentro de envelopes, geridos e distribuídos pelo tesoureiro do partido.

Esta remuneração B de políticos, melhor ou pior enquadrada, é uma praga que vai para lá dos aspectos fiscais de rendimentos não declarados ou incompatibilidade com o estatuto de exclusividade. Mesmo até com facturas certinhas e rendimentos declarados, não há almoços grátis. O dinheiro que circulou pela tal ONG que origem tinha e qual o propósito real da sua utilização? Obviamente que não se explica por uma lógica económica “normal”. Como milionários excêntricos não há assim tantos a fumarem notas pelo prazer de gastar, há neste e em tantos outros casos uma razão que a ética desconhece.

A autoridade só existe se houver moral em quem a exerce, independentetemente dos sacrifícios em curso que vivemos, que simplesmente a tornam mais premente.

16 maio 2014

Terreno perigoso

Aviso prévio: Esta história é parcialmente ficcionada e pisa terreno perigoso.

Triana queria ser servidora da causa pública e estrategicamente colocou-se à sombra da chefona local, Carrasco. Começou por correr bem. A chefona mandava em tudo, fazia e desfazia e todos a seguiam. Triana trabalhava para a administração sem ter um vínculo claro, mas isso não era importante, desde que houvesse bênção de Carrasco. Triana participou mesmo nas listas eleitorais e ficou a um lugar de ser eleita.

Um dia algo correu mal entre elas e Triana caiu em desgraça. Para o seu lugar foi aberto um concurso oficial, ela concorreu mas ficaram-lhe à frente muitos novos protegidos. Entretanto, um dos eleitos demitiu-se, em desacordo com Carrasco, e, em princípio, Triana seria chamada para a substituição. Alguém decidiu, no entanto, que a substituição não seria feita por faltarem poucos meses para as novas eleições, assim como decidiu que nunca Triana poderia de novo integrar nenhuma lista do partido. A sua carreira política acabava ali.

Triana não encontrou trabalho, nem na administração pública nem no privado. Talvez por falta de oportunidades ou de capacidade, mas, para ela, era ainda o braço longo de Carrasco que a todo o lado chegava e castigava. Aparentemente a sua carreira profissional na terra acabava ali.

O castigo não foi apenas passivo, a administração pública implacável explorou a informalidade da sua colaboração anterior para encontrar quantias indevidamente recebidas, que ela foi condenada a devolver. Era muito dinheiro e o pedido feito para pagar em prestações foi recusado. Entretanto, Carrasco coleccionava cargos em tudo o que era público ou próximo, chegando à dúzia. Apresentava-se numa reunião de uma entidade em veículo oficial de outra e apresentava despesas para reembolso como se tivesse utilizado a sua viatura particular, mas ninguém tinha coragem de a questionar, nem nada devolveu, apesar de o assunto ter sido denunciado na imprensa nacional.

Triana vê-se a perder tudo, até mesmo em risco de ter de vender a casa para pagar a dívida e desespera. A mãe dela, face à cria ameaçada, compra uma pistola e mata Carrasco friamente à queima-roupa.

Esta história tem bastantes semelhanças com aldo que aconteceu em Leão, Espanha, com desfecho no passado dia 12/5. Nada justifica a morte, melhor seria terem-lhe pregado apenas um valente susto. Entretanto o bispo já abençoou o corpo da servidora da “causa pública”, tragicamente tombada. A barbaridade do fim é muito forte, sobrepõe-se e quase anula a importância do resto, mas a democracia pediria que se fosse ao fundo e se condenasse e banisse este caciquismo puro e duro, aquela coisa do “Quem se mete comigo, leva! E leva com a força toda! E eu tenho muita força”. O serviço público não devia ser assim.

14 março 2014

A última vítima do 11 de Março

Um amigo espanhol mais de esquerdas do que de direitas chamava ao jornal “El Mundo” o “Imundo”, tal era a falta de isenção e arrogância quando se tratava de defender a outra Espanha, a conservadora. Ao ler agora algumas notícias e análises evocativas dos 10 anos dos atentados de Madrid de 11 de Março, descobri algo pior do que imaginava.

Os atentados ocorreram 3 dias antes das eleições legislativas e ao PP no poder dava jeito que tivesse sido a ETA. Afirma o juiz Baltasar Garzon que La Moncloa (sede do governo) deu instruções para ser afirmado que a organização basca era a autora dos atentados. Numa altura em que ainda não se tinham contado as vítimas e em que a própria polícia não encontrava a assinatura da ETA nos indícios, já Aznar sabia e decretava quem era responsável.

A teoria da ETA não pegou e em grande parte devido a essa atitude vergonhosa o PP perdeu as eleições. Foi um choque brutal para o seu orgulho. Rodolfo Ruiz era comissário da polícia em Vallecas, um dos locais em que explodiram as bombas. Entre o material recolhido pela sua equipa estava uma mochila com uma bomba por explodir, cuja investigação foi determinante para chegar aos autores dos atentados e definitivamente excluir a ETA. Para o PP esta mochila foi fatal e melhor seria ela não ter aparecido… e… se tivesse sido uma manipulação? É uma mochila maldita e todas as suspeições e insinuações são possíveis e permitidas sobre o comportamento do polícia responsável pela sua existência.

Uns anos mais tarde, o mesmo polícia interpela dois militantes do PP que numa manifestação de direita tentam (aparentemente) agredir um ministro socialista. Não faltou mais nada para ser declarado inimigo mor do PP. É julgado por essa interpelação, é condenado e posteriormente absolvido pelo Supremo. Em paralelo é vítima de uma campanha violentíssima de insultos e difamação por parte do “Imundo” e da hierarquia religiosa, chegando a ser até acusado de ter colaborado com os terroristas.

Ele quebra psicologicamente e a mulher assume a defesa da honra e da imagem do marido e da família. É uma luta perdida. Os “conspiranóicos”, como ficaram conhecidos pelo outro lado, não têm nada a corrigir nem a desculpar. Ela fica arrasada também e acaba por se suicidar. Foi mais uma vítima do 11-M e, sobretudo, duma certa Espanha arrogante, facciosa e sem valores. Não é toda assim, evidentemente, mas penso que em poucos países do mundo civilizado isto poderia, a estes níveis, ter chegado a este ponto.

23 janeiro 2013

Ignorar ou destestar?

Não sou muito adepto de sentimentos fortes negativos como odiar ou detestar. Desgastam e não acrescentam nada. O que não presta e não nos afecta deve ser simplesmente ignorado; contra aquilo que nos pode prejudicar efectivamente, devemos argumentar e actuar com discernimento, pragmatismo e firmeza.

Vem isto a propósito da visão dos “nossos irmãos” sobre o nosso país. Dentro da empresa estrangeira que “folheio” electronicamente com alguma regularidade está o El País, e uma coisa é certa: notícias de destaque sobre Portugal apenas as negativas ou caricatas. Ainda esta semana apareceu bem destacada na página principal a história do tal falso perito da ONU, com direito a foto e tudo. Não se pode dizer que seja muito actual, já passou um mês, mas entenderam que o ridículo merecia sempre divulgação em forma.

Hoje Portugal “regressou aos mercados”, tentando colar-se à Irlanda e ensaiando uma saída da tutela financeira externa. É um assunto sem dúvida de interesse e com forte correlação com a situação espanhola, que nos fundamentos não é tão diferente da nossa como eles gostariam. Não é notícia na página principal. Intrigado lancei uma pesquisa para averiguar se eles teriam realmente ignorado o tema. Encontrei-o algures numa página de economia. A ilustrar a noticia uma fotografia de 2 moedas de 1 euro: uma portuguesa e a outra não era irlandesa nem espanhola, mas sim …. grega! Que lata! 

10 agosto 2012

As "Bonds"

Não, não são as “girls” do James… Já toda a gente deve ter ouvido falar de Eurobonds e quem gosta de fugir aos palavrões chama-lhes “mutualização da dívida”. O princípio é, em vez de cada qual pedir o que precisa e ficar responsável por isso, põe-se tudo num bolo comum e a responsabilidade é de todos. Logicamente, este misturar das coisas só interessa quando há desequilíbrios e é pedido pela parte que fica beneficiada, é lógico…

Como é óbvio nem toda a gente está disposta a ser fiadora de dívida alheia. Aqui a nossa vizinha Espanha quer Eurobonds e os alemães, mauzinhos, dizem que não vão nessa cantiga do “eu recebo e nós ficamos responsáveis”. Se precisam de fundos e não conseguem, peçam um “programa de ajuda” em que ficam aí de trela curta. O curioso é que dentro da própria Espanha há algo de análogo. As comunidades autónomas estão desesperadas sem crédito e pedem “Espanobonds”. E o governo central que é apologista da mutualização da dívida europeia e se “recusa” a ser resgatado responde: “Peçam resgate!” Poderá ser lógico no interesse, mas não é coerente no princípio… e depois os mauzinhos são os alemães e a Sra Bruxa Merkel.

17 julho 2012

A Europa acabou ?

Apesar de o Euro ter sido concebido com regras apenas para os dias de Sol, tem manifestado uma capacidade de resistência formidável nestes dias de tormenta. Com tanta trapalhada e diz/desdiz, faz/desfaz dos líderes europeus, é impressionante como a sua cotação permanece em alta. Apenas estão mal os níveis dos juros que se cobram aos elos mais fracos de cada momento. A resposta da Europa tem sido não pelo “princípio”, mas sim pela natureza, dimensão e capacidade reivindicativa daquele que em cada momento está nesse papel de elo mais fraco.

Quando no dia 9 de Junho Rajoy anunciou uma “muita vantajosa linha de crédito” para os seus bancos problemáticos, frisando que não era um resgate e evidenciando uma diferença de tratamento inaceitável para o problema tão idêntico ao da Irlanda, eu pensei que a Europa estava mesmo a acabar. Depois os Eurocratas vieram dizer que não senhor, que a garantia do empréstimo passava pelo Estado Espanhol, ficando célebre a ironia do: “Tu (Rajoy) dizes tomate, eu digo resgate”. Com o resultado futuro dessa operação, apenas anunciada, a colocar o défice público espanhol em níveis pouco saudáveis, os mercados carregaram e os juros da dívida pública de Madrid subiram para valores insustentáveis. Aí os Eurocratas inventaram que afinal poderia sim, ser uma ajuda directa à banca espanhola, sem penalizar as contas públicas do país. No mínimo estranho: por alma de quem, quem põe o dinheiro lá, de que forma e com que garantias? Mais uma coisa “dita e inventada” na última hora de uma cimeira sem se saber como se implementa. De realçar que sendo o objectivo tapar buraco existente, um estrago já feito, estes fundos não irão facilmente gerar valor para o respectivo reembolso. Como resultado, os “mercados” não acalmaram e os juros continuam lá em cima… e agora, que se inventará mais?

Diz-se que a génese do problema da banca espanhola está no rebentar da bolha de especulação imobiliária, daí o paralelo com a Irlanda. Mas não é bem assim. Os bancos espanhóis geridos seriamente como o Santander e o BBVA não estão a arder. O buraco principal está nas “caixas” que “geridas” politicamente à toa com negócios, negociatas, por amigos e afilhados torraram milhões e milhões. Ou seja, é um cenário algo próximo do nosso famigerado BPN, que o povo português está e continuará a pagar estoicamente. Não seria óptimo que o buraco do BPN fosse tapado directamente por fundos europeus de forma indolor para o Estado e o contribuinte português? Entretanto o povo espanhol tem mostrado nos últimos dias que não aceita passar a ser mais pobre. Têm todo o direito de protestar e pelos vistos têm uma capacidade reivindicativa fantástica, mas eu não pago o orgulho deles e se calhar os alemães também não. Com tomate ou com resgate estes espanhóis estão a fazer mais mal à Europa do que os gregos!

26 março 2011

Curiosidade...


Os dois simpáticos senhores da foto acima, extraída do El País, são Francisco Camps, Presidente da Generalitat de Valencia e, o de óculos de aspecto simpático, Carlos Fabras, Presidente da Diputación de Castellon.


O primeiro é uma das figuras envolvidos no caso Gurtel, o tal das muitas prendas, do alfaiate e dos fatos, mas mais do que isso o de muito dinheiro com percurso estranhos, especialmente em eventos realizados em Valência, como a visita do Papa.


A cerimónia em causa na foto é a inauguração do aeroporto de Castellon cuja construção custou 150 milhões de euros, mas ainda não há aviões nem tem voos planeados, não tem licença de operação nem sabe quando a terá. Dizem os políticos que faz sentido inaugurar nestas condições porque assim o povo pode visitar as instalações tranquilamente e até passear pela pista. A necessidade de um novo aeroporto aqui também pode ser questionável, uma vez que Valência e o seu grande aeroporto estarão a cerca de 60 km de distância.


Lá como cá, estão identificados as principais molas que fazem mover os políticos:


- Realizar obras - Fazer inaugurações - Proporcionar entretenimento

10 janeiro 2011

"España no pesa en las urnas"

Assim titulava hoje o "El Pais" o resultado da atribuição dos prémios pela Fifa para melhor jogador e melhor treinador de 2010. De facto, entre os candidatos, para jogador estavam nomeados dois espanhóis e um argentino e ganhou o argentino; para treinador havia dois espanhóis e um português e ganhou o português. Ou seja: Espanha zero.
Custa-me a crer que pelo menos Portugal tenha mais peso nas urnas da Fifa do que Espanha. Doutra coisa tenho a certeza: se tivessem ganho dois espanhóis, não seria pelo peso de Espanha nas urnas, seria sim pelo extraordinário mérito dos mesmos, inequivocamente reconhecido! "Roder" !!!

01 agosto 2010

Desafecto pela Afición

O Parlamento Catalão votou e aprovou a proibição das touradas na região a partir de 2012. Mais um tema quente para aquecer o quente sangue que os espanhóis demonstram nestas coisas.

O inefável Mariano Rajoy lá veio dizer que proibir as touradas era como proibir a caça ou a pesca ou as corridas motorizadas e isso não podia ser regional. Não se entende porquê, como muitas outras coisas que ele diz. Acrescenta que vai pedir à Unesco a classificação da tourada como património cultural da humanidade. Será uma boa ideia para a Sudão, a Somália e outros pediram também respeito pela especificidade cultural de algumas das suas tradições, como, por exemplo, a excisão feminina. Aliás que posição tomará Marian Rajoy e outros quando saltar para o público a polémica sobre a forma de abate dos animais de acordo com os preceitos islâmicos em que são degolados a sangue frio e morrem esvaídos em sangue? Defenderá a especificidade cultural ?

Pode haver uma grande carga emotiva nesta discussão da parte de quem nasceu sentindo e vivendo touros e as touradas, mas uma coisa é certa: na perspectiva histórica evolutiva não há dúvidas sobre para que lado sopra o vento. Nos seus moldes actuais com ferros e sangue a tourada é inaceitável à luz do mínimo respeito pelos animais. A Catalunha está do lado certo.

11 maio 2010

Baltazar Garzón no TPI ?

Baltazar Garzón pediu transferência temporária para o Tribunal Penal Internacional...
Já há quem lhe chame o último exilado do franquismo!
Será que leu o meu post anterior?
"Seria engraçado se Baltazar Garzón fosse interditado em Espanha e reabrisse os processos em Haia..."
Promete...

25 abril 2010

A digestão democrática

Comemora-se por cá o 25 de Abril, já a chegar ao entediante, não fosse uma vez mais Cavaco Silva a mostrar a sua debilidade institucional dizendo não estar surpreendido que “sejam muitos os que se mostram indignados com os prémios, salários e compensações que, segundo a comunicação social, são concedidos a gestores de empresas que beneficiam de situações vantajosas no mercado interno”.

Ora bem, o presidente da República não tem meios para esclarecer e clarificar quais são os bónus desses gestores? Deixa o ónus da afirmação na comunicação social ? Na posição dele, naquele momento, não pode citar uma afirmação da comunicação social desta natureza, sem se envolver no seu fundo: sem a caucionar nem a refutar.

E a propósito de posturas e mensagens, Aguiar Branco, confirmou que seria seguramente melhor líder do PSD do que Passos Coelho, mas isso é outra história.

No momento em que comemoramos tranquilamente o 25 de Abril e a transição para a democracia, consolidada e pacificada, a Espanha está de novo a ferro e fogo com a herança do franquismo. Em breves palavras, durante a transição democrática a Espanha decretou uma amnistia para os crimes do período quente e negro. Recentemente Baltazar Garzón entendeu que, à luz do direito internacional, esses crimes não prescrevem nem podem ser amnistiados e abriu processos. A direita espanhola que o odeia pelo caso Gurtell, que ainda não parou de causar cacos em altos círculos do PP, entende que ele está errado e à luz do direito espanhol abre-lhe um processo que o poderá suspender até à reforma...

Que se passa nesse país que não consegue olhar fria e racionalmente para um passado duas gerações atrás, sem desatar aos berros? Há mesmo duas Espanhas irreconciliáveis?

Se o direito espanhol se sobrepõe ao internacional, porquê apenas em Espanha? Para que serve então o Tribunal Penal Internacional de Haia? Que pensará, por exemplo, o presidente do Sudão, Omar Al-Bashir que recebeu, justamente é certo, um mandato de captura desse tribunal pelos crimes que cometeu no seu país? Só para o terceiro mundo é que existe aplicação da "justiça internacional" ?

Seria engraçado se Baltazar Garzón fosse interditado em Espanha e reabrisse os processos em Haia...

12 junho 2009

Quem pode, pode



Não faço a mínima ideia se os 160 milhões que o Real Madrid gastou em 4 dias são investimento recuperável ou não. Não entendo nada desse tipo de negócios nem estou muito interessado em aprender. Agora, pondo de lado a vertente comercial e desportiva, por muito polémicas que possam ser de "per si", acho surpreendente do ponto de vista financeiro que isso seja feito por um presidente que tomou posse há menos de duas semanas.

E, aqui, das duas uma. A “uma” é que numa semana ele conseguiu identificar capacidade financeira e de endividamento intrínsecas ao clube para realizar estes investimentos. Mesmo considerando a indiscutível capacidade que os espanhóis têm para decidir rapidamente e não empatar, não deixa se ser surpreendente.

A “duas” é que os recursos para o investimento tenham declaradamente base externa trazida pelo novo presidente, sendo o clube apenas um veículo. Neste caso questiona-se então que “jogo” é este. Obviamente que quando alguém com o perfil, a fortuna e a intensa actividade empresarial de Florentino Perez resolve dedicar-se à presidência do Real, isso é também uma interrogação sem resposta pública clara e assumida.

Bom... veremos se chegarmos a ver. Por agora o orgulho castelhano está nos píncaros e quem critica é só por inveja!

23 maio 2009

A perigosa profissão de alfaiate

José Tomás é um bom alfaiate. Francisco Camps um notável do Partido Popular, presidente da Comunidade Valenciana e vaidoso. Francisco Correa um homem de negócios.
E, ainda, há um tal de juiz Baltasar Garzón que dispensa apresentações.

Tomás fez vários fatos, e bem feitos, para o exigente Camps e outros notáveis do PP. Camps não os pagava. Aparentemente Camps tinha contas abertas com Correa que o faziam credor. O pagamento de uma média de 30 000 euros cada seis meses destas prendas a Camps e a outros era feito por empresas ligadas a Correa, frequentemente com maços de notas de 500 Euros, as famosas que o comum dos cidadãos nunca viu mas que têm uma utilização recorde em Espanha. As facturas naturalmente não referiam fatos para Camps.

E Baltazar Garçon lança a Operação Gürtel para investigar uma tramóia de negócios particulares em torno do PP de Madrid e de Valência. São teias complicadas e o importante é encontrar uma ponta por onde pegar. E a ponta que apareceu foi a do alfaiate. Foi convocado e contou ao juiz tudo que sabia e com detalhes. Enquanto prestava declarações, Camps, extremamente nervoso, tentou ligar-lhe inúmeras vezes, sem sucesso, para saber e condicionar o que ele iria depor.

No dia seguinte ao da audiência Tomás foi despedido. Atribuíram-lhe a responsabilidade das facturas “falsas”. Correa está em prisão preventiva. Camps é acossado no parlamento valenciano e declara-se vítima.

O curioso é que considerando o que está em jogo, meia dúzia de fatos mesmo a 2000 Euros cada um, não são nada. Mas são a ponta do iceberg a que todos se agarram com motivações diferentes: uns para expor, outros para anular. E, assim, um alfaiate torna-se figura de primeiro plano em tamanho enredo. E, como muitos almoços, há prendas que também não são nada grátis.

Imagens do El País