Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.
Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente
ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais
dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com
ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será
desperdício.
Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as
instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai
resolver…
O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira
linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de
dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e
2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O
problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até
operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período
de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir
falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai
funcionar? A função antes não existia?
O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de
cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O
Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a
coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não
intervém em decisões desta natureza, para que serve?
Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser
julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e
isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização
de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das
necessidades de saúde da população?

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