21 janeiro 2024

Voos turbulentos


Ao que parece, a turbulência com a gestão e a tutela pública da TAP ainda não terminou. Depois de uma longa, penosa e por vezes caricata comissão parlamentar de inquérito, que supostamente tudo analisou e esclareceu, a defesa apresentada pela própria TAP ao processo que a ex CEO lhe colocou, veio trazer mais alguns fatos e argumentos curiosos…

Em primeiro lugar, ao contrário do que sempre afirmou a tutela, a senhora não seria uma grande gestora e a recuperação da empresa foi mais pelo contexto do que pelo mérito da equipa de gestão. Depois, a CEO ocupava outros cargos incompatíveis com o estatuto a que estava obrigada. Isto constitui motivo para despedimento com justa causa, mesmo tendo sido “descoberto” pela TAP, depois de a ter despedido… aqui não se pode falar de protelamento de decisões, foi agir até antes de conhecer.  Do outro lado, diz-se que essa situação teria sido previamente exposta e autorizada.

Não sei como isto vai acabar, mas uma coisa é certa. Quando o Estado Português quiser contratar um Profissional de primeira água, vai ser muito difícil convencer alguém sério e competente a trilhar caminhos que podem conduzir a estes imbróglios.

Entretanto, enquanto ouvimos loas à fantástica recuperação e rentabilidade da empresa, esta recebe mais 343 milhões de euros do Estado, para aumento do capital social. Estava previsto, aparentemente ainda haverá outro para o próximo ano, mas se as coisas estão a correr tão bem à empresa, o fluxo financeiro não deveria ser no outro sentido?!

19 janeiro 2024

O 25 de Abril no (FC)Porto


 Já tive oportunidade de dizer aí para trás que não me entusiasmo sobremaneira com as quezílias tribais do futebol, que o meu “clube” foi uma herança familiar e que minha vida apenas vi na ao vivo meia partida por eles jogada, há umas boas décadas.

Também já referi que não identifico o espírito e valores da cidade do Porto com os do FCP e, por tudo isso, não tenho muito interesse pela disputa à sucessão de Pinto da Costa.

No entanto…. No discurso de apresentação do candidato André Villas-Boas há uma frase que é má demais a ser verdade: “cortar com o ‘status quo’ existente, onde impera o medo e não se pode exprimir livremente o que se pensa sem ser ameaçado ou censurado”. Isto, a ser verdade, e aparentemente as ameaças de que tem sido alvo o simples candidato vão nesse sentido, não são coisa deste nosso mundo…

50 anos depois, a liberdade do 25 de abril vai chegar ao principal clube da liberal cidade do Porto? Mais vale tarde do que nunca…

18 janeiro 2024

Obrigado, Mr Trump


Quem já passou pelo Irão ou teve algum contacto com Persas, sabe que ali existe uma cultura com um nível muito superior ao que as notícias sobre as suas lideranças e respetivas políticas sugerem. Sabe que há uma grande parte da sua sociedade com vontade de viver em liberdade, com respeito completo pelos direitos humanos, como no mundo ocidental.

Quando foi celebrado o acordo nuclear em 2015, muitos persas e muitas persas rejubilaram pelo que podia ser uma aproximação e um prenuncio de integração do país num mundo mais livre. Posteriormente em 2018, Mr Trump decidiu abandonar esse acordo, por razões de fundo que ignoro, simpatia pelos sauditas…?

O certo é que, apesar dos defeitos e falhas do acordo, este, apesar de tudo, integrava e condicionava minimamente o país. Depois o Irão voltou a ser pária. Hoje o Irão ajuda a Rússia a massacrar a Ucrânia; hoje o Irão xiita apoia ativamente o Hamas, sunita, histórica e financeiramente patrocinado por outros atores. Os seus procuradores Hezbollah e Houthis, estão mais fortes e ativos do que nunca, com estes últimos a porem causa grandes rotas marítimas internacionais e a escalarem o conflito. Não, não há caso para agradecer ao Mr Trump, apenas desejar que este mundo avance noutra direção, mas talvez seja apenas ingenuidade minha.

15 janeiro 2024

O silêncio e o respeito


De há uns anos para cá a fase final da supertaça espanhola é disputada na Arábia Saudita, vá-se lá saber porquê…

No passado dia 10 jogou-se uma das meias-finais entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid. Antes do início da partida estava programado um minuto de silencio, em homenagem ao grande futebolista alemão, Franz Beckenbauer, recentemente falecido.

Na prática não foi de todo um minuto de silêncio, dado que as bancadas resolveram assobiá-lo do princípio ao fim. Li, depois, tratar-se de uma questão cultural. Dizem que o silencio pelos mortos não é tradição na região. Pode não ser, mas…

Será tradição pelo menos dos convidados que estavam no relvado e, mesmo não o sendo dos “anfitriões”, o respeito pelas tradições dos outros, especialmente pelo luto alheio, é daquelas coisas que não devia ser necessário muito esforço para respeitar.

Há uns anos estive em Londres em novembro, durante as celebrações do armistício da I Grande Guerra. Com tantos milhares de pessoas na rua, assistir ao silencio absoluto daqueles dois minutos foi uma experiência impressionante. Certamente mesmo para quem não tenha vivido e sentido a guerra, para quem não tivesse o hábito de momento semelhante, não havia alternativa senão ficar imóvel e em… silêncio.

Diferenças culturais… eles compram tudo e não parecem aprender nada.

12 janeiro 2024

Quem chamou a Troika ?


 A esta distância a questão pode parecer irrelevante, mas esta polémica marca um antes e um depois na nossa vida política e (i)maturidade democrática. A polémica nasce na campanha para as legislativas de 2015, onde num debate com Passos Coelho, António Costa tenta colar ao PSD a responsabilidade pela vinda da troika para Portugal e o sofrimento experimentado por muitos portugueses nesse período.

Sabemos que os políticos gostam de criar “narrativas”, mas aquela era tão evidentemente desonesta e claramente não sustentada que parecia apenas fazer cair no ridículo quem a avançava. Tinha sido o próprio PS de A. Costa a levar o país à bancarrota, o programa fora negociado pelo PS e teria sido aplicado por quem quer que seja que estivesse no governo na altura. Quem está nas mãos de credores para as suas necessidades básicas não tem muitas alternativas, nem as pernas dos banqueiros tremem como as dos meninos de coro.

Infelizmente a mensagem pegou. Ainda hoje se associa esses tempos da troika a uma maldade da “direita” e o alívio posterior a um mérito da “esquerda”. Aquilo que poderia ter constituído um crescimento na maturidade política e cívica do país, acabou por ser um retrocesso. Em vez de ter aumentado a consciência de que o importante é permitir a criação de riqueza e o contributo e responsabilização de todos, ficamos com a imagem de que a solução é um partido virtuoso que põe o Estado a resolver de tudo, nacionalizando TAPs, Ctt, grupos de média, salvando tudo o que for mal gerido, já sem falar na animosidade contra o contributo da iniciativa privada em domínios relevantes e carenciados como a educação e a saúde.

Esta suposta virtuosidade é ainda complementada com a demonização da oposição, plena de más intenções, reais ou potenciais. Esta é a herança destes últimos anos. Andamos para trás. Precisamos de cidadãos responsáveis e responsabilizados e não infantilizados, passivamente beneficiando da generosidade de um “Estado” caridoso. A prazo empobrecemos.

31 dezembro 2023

Um Bom Espinosa Ano


 Buscando acrescentar eliv fugir um pouco aos votos clássicos…

Ouvi um destes dias uma entrevista a J Rodrigues dos Santos, de promoção do seu novo livro sobre este filósofo neerlandês de origem portuguesa. O nome sonava-me, mas a dimensão menos. Devo dizer que li 3 livros de JRS, para testar…. Lêem-se bem, são didáticos, mas falta-lhes aquela coisinha que separa um relato descritivo de um romance literário. De todas as formas, tem muito mérito por escrever, ter sucesso e pôr muita gente a folhear páginas escritas.

Resolvi, portanto, ir visitar o personagem, começando de forma um pouco mais séria e menos romanceada, através da obra acima representada. Neste momento, longe de mim a pretensão de ter absorvido o seu pensamento nalgumas centenas de páginas, lidas uma vez, e muito menos de o vir aqui tentar resumir em meia dúzia de frases, mas algumas reflexões apetece-me desenvolver.

Espinosa é extraordinariamente inteligente, corajoso e clarividente. Deduzir e avançar com as suas ideias e formulações, especialmente naquela época, foi um exercício de liberdade e de promoção da dignidade humana fantástica. Pensar sem barreiras, deduzir sem preconceitos, assumir sem condicionalismos, ser livre e criativo de espírito, sem razões a castrar as emoções e sem limitações a travar a razão… que mais se pode desejar?

29 dezembro 2023

Vem lobo, vem lobo...


Eu não queria falar disto, mas há quem o esteja a tornar tema obrigatório diário. O Chega é um partido pouco recomendável num sistema politico saudável, pela natureza de algumas propostas, pela inconsistência e irrealismo das mesmas e pela fragilidade de uma estrutura “one man show”… Se uma solução governativa para o país vier a passar por eles não são boas notícias.

Agora, na outra ponta, se é que se pode assumir alguma linearidade neste universo, partidos que têm dúvidas quanto à possibilidade de a Coreia do Norte ser uma democracia, com simpatia para regimes incompetentes e brutais como a Venezuela, condescendentes com o camarada Putin, mesmo quando ele agride brutalmente um vizinho sem um mínimo de justificação ou de humanidade, também não são gente recomendável.

Todos estes podem não ser um problema para a democracia do país no sentido restrito do conceito, mas serão um problema para o modelo de país justo e livre onde queremos viver. Estes alertas constantes do “Vem lobo, vem lobo…” são apelos a que, de um lado ou de outro, ele venha mesmo (e vejam onde anda hoje o partido socialista francês depois de Miterrand ter jogado um xadrez idêntico umas décadas atrás).

22 dezembro 2023

À espera que…


As organizações que se pretendem eficazes e competitivas têm naturalmente horror a vazios de liderança. São fatais. Quando um líder se declara ou é declarado incapaz, a substituição deve ser o mais célere possível.

O Estado não é necessariamente um exemplo de eficácia e, quanto à competitividade, o resultado da sua “gestão” costuma ser num prazo que dificulta a identificação de causa-efeito. De todas as formas, liderança é liderança e sem liderança efetiva, legitimada e plena, não há milagres.

Vem isto a propósito da data das próximas eleições legislativas, dentro de quase três meses. Disse-se na altura que era necessário dar tempo ao PS para se recompor e reconstruir após a demissão do seu líder. Apesar de isso ser um problema do partido e não do país, até já está feito. Para que servem estes longos meses até às eleições e tomada de posse de um novo governo legitimado e efetivo…?

Não sei e até receio que, mais do que discutir propostas e ideias, vamos assistir a um certo concurso de cuspidelas. Quem cospe mais longe e mais grosso.

Temos todo o tempo do mundo? Não. Tempo perdido é tempo perdido.

20 dezembro 2023

A supremacia da esquerda


A supremacia branca foi uma coisa inventada no espírito do “somos todos iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”. A supremacia da esquerda é um conceito com alguma analogia, no sentido de que estamos em democracia, sim senhor, mas a esquerda é mais virtuosa do que a direita, nomeadamente pela sua defesa da liberdade, igualdade e solidariedade, contra uma direita autoritária e protetora dos grandes capitalistas egoístas.

Começando pela liberdade, ditaduras tanto de direita como de esquerda infelizmente não faltam na história universal e digamos até que a esquerda frequentemente convive mal com a democracia, quando os eleitores não reconhecem a suposta bondade exclusiva dos seus propósitos. Recordam-se de por cá, enquanto a direita apenas pretendia ter direito a existir e a ir a votos, a “legitimidade revolucionária” da esquerda procurava condicionar os partidos, cercava e pressionava a Constituinte e todos os discordantes eram liminarmente desclassificados como fascistas?

Sobre a solidariedade há efetivamente algumas diferenças. Convém recordar que não estamos nos tempos em que um azar na vida, pode condenar a uma vida miserável toda uma família. Hoje, neste nosso mundo, se alguém tiver um azar e partir uma perna, é tratado (com mais ou menos espera) antes de se verificar a cobertura de um seguro de saúde ou um limite de cartão de crédito. Se a empresa que alimenta uma família falir, isso não deve implicar fome e privações para todos.

Agora, o que me parece é que essa solidariedade deveria ser tendencialmente temporária e não estrutural. Numa sociedade sã, cada qual deve poder encontrar os meios de viver dignamente sem necessitar de ajuda sistemática do Estado.

Os números atuais de mais de 40% da população a necessitar de ajuda do Estado, não constituem uma realidade virtuosa, nem deveriam ser uma bandeira a empenhar orgulhosamente por ninguém. Pelo contrário, representam uma falência da capacidade de gerar riqueza e de cada qual conseguir pelos seus próprios meios uma subsistência digna. A questão de base anda um pouco à volta de se o objetivo é exterminar os ricos ou acabar com os pobres.

Para lá dos princípios, na atual prática da guerrilha política, a invocação da suposta bondade e supremacia da esquerda, como ferramenta para aceder e manter o poder, sem o mínimo interesse em resolver estruturalmente a pobreza… é pobre e simples oportunismo.

Nota: Imagem da versão publicada, reduzida, para "caber"...

15 dezembro 2023

O soco da realidade


Dizia a Reuters um destes dias que neste ano de 2023 as estratégias ousadas dos fabricantes automóveis quanto a veículos elétricos (VE) levaram um soco da realidade. Aqui

E referem dois motivos que esfriaram expectativas, adiaram investimentos, reduziram os ritmos de produção e … preços. Um é obviamente o preço. Para lá dos clientes desafogados para quem 20 K Eur a mais ou a menos é um detalhe para o gosto de andar na crista da onda tecnológica e outros, também mediamente desafogados, que aceitam e lhes serve bem um VE como segundo carro… para o comum dos mortais o preço/capacidade conta muito, atendendo aos seus recursos limitados e necessidades de mobilidade.

Apesar de algumas benesses públicas, os VE ainda são caros e não sei bem se é aumentando ainda mais essas ajudas que a questão se resolve estruturalmente. Uma coisa é certa, muito sangue vai correr, muitos construtores irão sofrer (e fechar…), esperando que não cheguemos a ver um mercado basicamente achinesado e um pouquito teslizado…

O segundo ponto são as restrições do carregamento em termos de disponibilidade e tempo de espera, para quem não consegue vencer os percursos diários com uma única carga. Há uma dimensão de liberdade na utilização de um automóvel, e de prazer, que desaparece quando se passa o tempo a olhar para a evolução do nível da bateria e rezando ao santinho mais próximo para que o próximo posto de carregamento esteja ativo e disponível quando se lá chegar.

Outro ponto que ainda não está na primeira linha, mas que, já agora, acrescento eu, também vai chegar, são os custos de reparação/substituição de baterias após acidente. Substituir uma bateria amachucada por uma pancadita qualquer custa muito dinheiro e em solo ou partilhado em seguro, as faturas lá terão que ser pagas...

Atendendo ainda a todo o ciclo de produção de baterias, que de economia linear nada tem, atendendo à problemática da produção de energia elétrica que durante muito tempo não vai evitar a utilização de combustíveis fósseis… isto do acelerar a exclusividade dos VEs está um pouco coisa de bois à frente dos mesmos (com todo o respeito que merece a raça bovina).

14 dezembro 2023

Sobre o futuro

Daqui a meia dúzia de meses quem se vai lembrar desta história das gémeas luso-brasileiras? Quem ainda se lembra das trapalhadas de há uns meses no Ministério das Infraestruturas? Daqui a um ano quem se lembrará do caso de Alexandra Reis e do expedito despedimento de Christine Ourmières (para lá daqueles que considerem ser sócios ou assalariados do Estado Português)? Todos estes casos e casinhos de desgoverno, e respetiva cultura subjacente, contribuem certamente para o marcar passo em que nos enterramos, mas talvez não devessem ser o mais importante tema da atualidade.

Durante vários anos, para não dizer para toda a vida, os jovens cuja educação se degrada suportarão um passivo para si e para o país. A recente avaliação PISA veio demonstrar como estamos assustadoramente a andar para trás. Obviamente que se fosse para a frente, o mérito seria todo do Governo; como é para trás o Ministro não sabe e palpita-me que não vai chegar a querer saber. Não vale a pena olhar para tudo o que aconteceu no passado recente e tentar tirar conclusões? Especular sobre redução das exigências, abolição de exames, facilitismo de toda a ordem, falta de meios durante os longos confinamentos, longas greves e falta de docentes, sobre isso podemos especular. Mas, sobre o futuro do país, numa das suas componentes mais fundamentais, a coisa não deveria ficar pelas especulações.

08 dezembro 2023

Há livros diferentes

Há autores para os quais um ou dois livros lidos implicam a vontade de outros dois e de tudo o que deles apareça. Por vezes o que aparece, já depois dos títulos sonantes terem sido digeridos, não é necessariamente a primeira água, mas tem que ser bebido.

John Steinbeck é um desses autores para mim. Mais “A Leste do Paraíso”, e outros humanamente mais densos, do que “As Vinhas da Ira”, mas se me aparecer à frente um título desconhecido, lá ma rendo a este autor sem Deus conhecido.

Recentemente apareceu-me este “Um Dia Diferente” e lá foi comigo até à caixa. Confesso que não tinha expetativas muito elevadas, mas enganei-me. Lá estava de novo aquela densidade e simples complexidade de personagens, tão distantes e tão próximos. Há muito tempo que não dava por mim ansioso a ler e saborear, expectante sobre onde tudo aquilo ia terminar. Como acabaria a história daquela trupe tão marginal, tão tresmalhada e tão humana.

Não digo aqui como acabou, mas ainda bem que graças a um Deus qualquer que existe quem consegue ver e contar o mundo como Steinbeck.

 

07 dezembro 2023

As perspetivas da cunha


Andou mal o Presidente da República neste processo das gémeas luso-brasileiras. Para lá dos detalhes que ainda não sabemos, nomeadamente qual o nível de pressão que ele e/ou a sua equipa colocaram na comunicação da solicitação ao governo, ele esteve especialmente mal com a sua “amnésia” inicial.

Face ao pedido, o governo tinha duas opções: ignorar/recusar ou dar seguimento favorável. Se ignorou, significa que todo o processo teve uma evolução normal, como para qualquer cidadão lambda deste país. Não parece, de todo, ter sido o caso. Se resolveu atender ao pedido, recordando o paralelo com a solicitação para a TAP antecipar um voo, com o simples objetivo de agradar ao PR, aí há outra perspetiva para a cunha, que é a de quem a aceitou. A ter havido favorecimento efetivo, não foi a presidência quem deu as ordens ao hospital.

Em todos os contextos e escalas, se restringirmos o direito a condenar a quem nunca deu uma “palavrinha” a alguém para desbloquear e avançar rapidamente com algo na administração pública, ficam poucos para atirar a primeira pedra.

Estes poderes e privilégios não devem existir no país onde queremos viver e o PR e o Governo têm responsabilidades acrescidas. A relação entre dois órgãos de poder, especialmente a este nível, não pode incluir destas transações. Por muito “tradicional” que seja este “desporto nacional”, pelo princípio e pela escala, o caso precisa de ser esclarecido de A a Z.

06 dezembro 2023

Por outros dias

Por estes dias celebrou-se um aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro. Pondo de lado a vergonhosa incapacidade das instituições em investigarem e apurarem a causa direta e a fundamental do atentado (ver aqui), pode ser um momento de reflexão sobre o legado e personalidade de uma figura ímpar e determinante numa fase critica da história do país. O livro acima representado é uma interessante e instrutiva visita à sua vida e àqueles tempos.

Na altura era atacado como potencial fascista, quando o seu combate era o de retirar a tutela dos militares sobre os partidos, extinguir o Conselho da Revolução, rever a Constituição, e o aí decretado “caminho para o socialismo", e permitir a reversão das nacionalizações brutais de 1975. Visto a esta distância, estava errado? Certamente muito mais anti ditatorial do que aqueles que disso o acusavam.

No ponto de vista pessoal a integridade e frontalidade como assumiu a sua vida pessoal e amorosa são ainda hoje motivo de admiração. O grande progressista Mário Soares não hesitou em lhe dar uma canelada quanto à sua incapacidade de “governar a sua família”. Posteriormente, como primeiro-ministro, recusou-se a fazer passar uma alteração legislativa que lhe resolveria o problema do seu divórcio pendente, para não ser simultaneamente decisor e beneficiário.

Não convém olhar para Sá Carneiro como um imaculado herói cuja morte prematura santifica. No entanto há no seu desprendimento, sinceridade, irreverencia e clareza de princípios um exemplo que é importante realçar sempre e especialmente nos tempos que correm. Recomendo o livro.

 

01 dezembro 2023

Ao eleitor o que é do eleitor


Correm preocupações e alarmes quanto ao resultado das últimas sondagens, onde o Chega tem um crescimento espetacular. Não é necessariamente uma boa notícia, mas a democracia tem destas coisas. É o eleitor que decide.

Depois de tantos anos com ouvidos moucos aos designados casos e casinhos e pretendendo que formalmente está tudo bem até eventual condenação e transito em julgado, que esperavam? Que os eleitores aceitassem a bondade dessa formal inocência?

Obviamente que o Chega não tem um projeto sério e consistente, mas ele cresce no lixo que outros criaram. Se o querem combater e contestar, vão aos fundamentos e à incoerência das suas ideias e propostas. Argumentar angelicamente de que “eles são muito diferentes de nós”, não é herbicida, é adubo!