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15 janeiro 2024

O silêncio e o respeito


De há uns anos para cá a fase final da supertaça espanhola é disputada na Arábia Saudita, vá-se lá saber porquê…

No passado dia 10 jogou-se uma das meias-finais entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid. Antes do início da partida estava programado um minuto de silencio, em homenagem ao grande futebolista alemão, Franz Beckenbauer, recentemente falecido.

Na prática não foi de todo um minuto de silêncio, dado que as bancadas resolveram assobiá-lo do princípio ao fim. Li, depois, tratar-se de uma questão cultural. Dizem que o silencio pelos mortos não é tradição na região. Pode não ser, mas…

Será tradição pelo menos dos convidados que estavam no relvado e, mesmo não o sendo dos “anfitriões”, o respeito pelas tradições dos outros, especialmente pelo luto alheio, é daquelas coisas que não devia ser necessário muito esforço para respeitar.

Há uns anos estive em Londres em novembro, durante as celebrações do armistício da I Grande Guerra. Com tantos milhares de pessoas na rua, assistir ao silencio absoluto daqueles dois minutos foi uma experiência impressionante. Certamente mesmo para quem não tenha vivido e sentido a guerra, para quem não tivesse o hábito de momento semelhante, não havia alternativa senão ficar imóvel e em… silêncio.

Diferenças culturais… eles compram tudo e não parecem aprender nada.

30 outubro 2020

Três tempos e…

Tempo hoje:

Em outubro de 2020, num bonito e cerimonioso cenário, na Sorbonne, entre as figuras de Vitor Hugo e de Louis Pasteur, repousa a urna e é homenageado por toda a França o professor Samuel Paty, assinado por um islamista radical, e cujo crime foi ter mostrado numa aula as famosas caricaturas de Maomé, do Charlie Hebdo, no âmbito de uma discussão sobre a liberdade de expressão. Evocadas generosamente as três palavras: liberdade, igualdade e fraternidade.

Tempo antes:

Quantos “Maires”, galhardamente envergando a faixa tricolor, agora inquestionavelmente solidários com o luto, proclamando e repetindo as três palavras mágicas, num tempo antes, não fecharam os olhos e até ajudaram a construção de madraças suspeitas, com financiamentos de origem suspeita, com formações suspeitas, desde que isso os ajudasse a preservar o poder? Democracia a quanto obrigas?

Quantos intelectuais e outros que tais, que aplaudiram o filme de Jean-Luc Godard, o preservativo no nariz de João Paulo II, todas as provocações de bom e mau gosto, do “é proibido proibir”, estão calados, amedrontados ou intelectualmente acorrentados e porquê?

Tempo depois:

Diz o Presidente de lá que a França não renunciará às caricaturas religiosas. Do ponto de vista do princípio é coerente. Na prática, um vendaval se levanta, até maior do que a decapitação original provocara. Apetece questionar até onde irá este vendaval. Até as caricaturas serem aceites, sem causarem mortos, ou até um pouco mais de autocensura e chamemos-lhe respeito virem definitivamente amedrontar e acorrentar a liberdade de expressão? Certamente haverá mais mortos… mas qual será o próximo tempo?

 

25 outubro 2017

Respeito



Não é meu hábito fazer simples eco do que vai pelas ruas mediáticas, quando não tenho muito a complementar ou a contrapor, face ao coro geral. Abro aqui uma exceção para o tema Harvey Weinstein e outros, relativos às denúncias de assédio e de abuso sexual.


Tenho uma frase registada, da qual já perdi a origem, que diz que pecado só há um, é o de roubar, apropriar-nos de algo que não é nosso. Depois, muda aquilo que é roubado. Dentro do objeto do roubo, uma das coisas mais terríveis que se pode roubar a alguém é a dignidade.

Um pequeno parêntesis para nesta indignação generalizada não misturar os casos provocados e procurados de “promoção horizontal”, nem excluir as situações de género abusador diferente, certamente menos frequentes, mas não menos condenáveis.

Há uma coisa chamada a “lei do mais forte”, alguém poderá especular se tem raízes no processo de seleção natural, mas cuja aplicação em diversos domínios e escalas é a fonte da larga maioria dos males de que sofre o mundo. Para lá das evoluções científicas, tecnológicas e mesmo de hábitos sociais e culturais, estaremos sempre a cair para a bestialidade enquanto não resistirmos a usar a força.

Nos casos concretos em contexto profissional, em que está em causa uma carreira, uma realização pessoal, ou simplesmente a subsistência, acho-os profundamente revoltantes, pela “facilidade”, pela continuidade e pela proximidade penosamente vivida. Tudo o que possa configurar algo próximo sequer, é-me profundamente repugnante, levando mesmo a questões extremas. Considerando que as relações afetivas têm naturalmente altos e baixos e ciclos, começam e acabam, será que o risco de essa instabilidade contaminar a relação profissional é suficiente para regulamentar a ponto de banir completamente relacionamentos dentro das organizações? Não sei, podemos dizer que será questão de bom-senso, sendo que felizmente, ou infelizmente, toda a gente considera tê-lo!

14 março 2017

Os clássicos


Não sou nada apologista da apologia sistemática das glórias passadas. O foco principal deve estar no que ainda está para vir, mas… o que foi feito também conta e, de vez em quando, não faz mal olhar para isso um pouco.

Uma vez por ano reunimos os “clássicos” da “Efacec Robótica”. O nome original não era bem assim, já mudou, mudará (… como é que é mesmo o próximo?), mas este continua a ser ainda a referencia familiar. Passei por lá 14 anos, saí há 16 e ainda é família.

Não estão todos, alguns por impedimento circunstancial, outros talvez injustamente ainda não convocados, mas lá estivemos a revisitar histórias do passado, comentar as do presente e conjeturar sobre as do futuro, numa pequena volta ao mundo, decorada com episódios de todo o tipo e feitio, sucessos e algumas trapalhadas.

A mesma frontalidade de sempre, a mesma ironia na esquina de cada frase, a mesma forma de tudo questionar, a sério ou a brincar e, sobretudo, infalivelmente, a mesma lealdade mútua. Cada qual na sua forma, no passado ou no presente, reencontra identificação e empenho no projeto que vimos nascer e crescer. Que, como disse o Sr Reding, para grande frustração no momento e posterior desafio: “Está tudo muito bem, mas isso não é coisa que se faça em Portugal!”. Mas fez-se e essa afirmação, proferida com sotaque alemão, acabou por se transformar numa enorme fonte de motivação.

Para o ano lá estaremos, certo?

18 maio 2016

Para onde vamos?

Discordar de uma ideia, contestar um ponto de vista, criticar uma decisão tem/deve ter uma base racional, podendo originar uma discussão construtiva, por mais antagónicos que sejam os pontos de partida. Outra coisa será classificar os “outros” de corja, talibans e sei lá que outras formas mais de deseducação e de insulto.

As redes sociais e as caixas de comentários nas notícias on-line permitem inúmeros fóruns de grande alcance e com registos indeléveis, sendo importante ter sempre presente a diferença entre pronunciar um desabafo entre três amigos e registá-lo publicamente. Para evitar o pingue-pongue das agressões verbais e tristes desrespeitos, exige-se contenção e elevação (leia-se também educação), exigência tanto mais elevada, quanto maior a responsabilidade pública e política de cada individuo.

A infelicidade nos tempos que correm é que esse vírus, do gatilho ligeiro, contamina desde o simples cidadão até senhores deputados (e passo ao lado dos snipers “profissionais”, que parecem popular o meio), alastrando a uma velocidade surpreendente (viral?).

A frequência da utilização de expressões conclusivas do tipo “está tudo dito” é sintomática da recusa do diálogo e do contraditório. Dispara-se e espera-se que com eficácia suficiente para abater definitivamente o adversário. Se não for o caso e ele ainda estrebuchar, carrega-se nova bazuca! Eu sei que é impossível eliminar estas posturas, apenas peço aos senhores com responsabilidades acrescidas para tentarem dar o bom exemplo.

22 janeiro 2016

Pequena declaração


Depois de amanhã iremos votar. Sendo mais ou menos claro quem sairá vencedor no final, quase apetece dizer que seja depressa, à primeira volta, quanto mais depressa se encerrar esta coisa triste e se tenham todas as instituições a plenos poderes, melhor.

A ponta final fica marcada pela fragilidade de Maria de Belém, que à partida até parecia ter condições para encher aquele espaço central, donde, naturalmente, é mais fácil ver sair um Presidente da República.

Sobre Sampaio da Nóvoa já falei. Não entendo aquela câmara de ressonância confusa, nem as reais motivações de quem o carrega ao colo, na penumbra. Confesso que até me provoca alergias…

Henrique Neto não será certamente eleito e poderá nem obter uma votação significativa. No entanto, dentro dos supostamente capazes, é o único a quem reconheço frontalidade, honestidade intelectual e um percurso de vida e de luta coerente feito pelo próprio, sem colinhos. Ao que me parece, nem vendido nem comprável e, para mim, isso vale muito.

Terá o meu voto.

12 janeiro 2015

Défice do fundo


Os 900 milhões de euros que a PT perdeu na Rioforte começaram por ser explicados como uma simples aplicação de tesouraria, quase de rotina. Na altura, surpreendeu a aparente imprudência. O desfecho infeliz deu uma machadada forte no valor e na imagem da empresa, em processo de fusão com a Oi.

Após a última auditoria da PwC, descobre-se ser muito pior. Os 900 milhões não eram um excedente de tesouraria; eram fundos que a PT foi buscar ao mercado para os entregar ao grupo Espírito Santo. Ou seja, um acionista forçou a empresa a endividar-se para o ajudar, e até a fundo perdido. Para lá do que os restantes acionistas poderão pensar, protestar ou processar, há uma reflexão que me fica. A PT não era uma daquelas empresas “para-publicas” esclerosadas. Até há pouco tempo era considerada uma empresa de referência, com uma gestão de excelência, premiada internacionalmente. Qual a cultura real existente? Quais os valores que prevaleciam mesmo na organização? É possível a coexistência e a sobrevivência de profissionais sérios, focados no rigor e na excelência com tamanha e descarada manipulação e abuso?

O valor das empresas não se esgota no balanço quantitativo; não menos importante é a cultura e a ética que o enquadra. Neste capítulo, a PT perdeu mais do que os 900 milhões de euros. O pós-troika está a relevar outros défices, para lá do quantitativo das contas públicas, sendo que, em boa parte, o problema nasceria mesmo aí. Sejamos optimistas e acreditemos que o futuro será mais limpo.

25 novembro 2014

Ainda os ricos espertos

Depois do escândalo (pseudo) fiscal luxemburguês a que me referi atrás, há naturalmente muitas pressões sobre o Sr Juncker, questionando a sua legitimidade. Ele argumenta que no seu programa está precisamente combater as evasões e as fraudas fiscais na Europa. Lembrei-me do outro do filme, que após passar meia vida a falsificar notas, mudou-se para a polícia para os ajudar a apanhar falsários. Provavelmente o Sr Juncker terá um enorme conhecimento técnico para realizar esse trabalho, mas precisa de algo mais: autoridade e reconhecimento.

Enquantos os eurofóbicos fustigam o novo presidente, e com razão, os do sistema pedem para seguir em frente. Não é o escalpe dele que resolve o problema e uma queda do novo executivo provocaria um atraso de meses no plano de investimentos que a Europa tanto necessita. Esquecem-se de uma coisa: o pragmatismo não pode matar os princípios. À força de repetirem “é circular, não se passa nada”, acabarão por reduzir a nada a sua credibilidade. Depois, não se queixem nem chorem quando os “Le Pen” e afins ganharem eleições. Sobretudo, nessa altura não evoquem (falta de) princípios porque será caricato.

19 setembro 2014

A fábrica

Leio hoje que a Cerâmica de Valadares irá retomar a produção. Não sei o suficiente para julgar os méritos e os deméritos de quem a geria quando caiu e de quem a retoma agora. Uma coisa parece-me evidente: com a situação actual da construção na Península Ibérica a missão não será fácil.

O meu pai trabalhou quase toda a vida “na cerâmica”, que às vezes até era simplesmente “a fábrica”. Os tempos não eram para luxos, mas “a fábrica” era uma referência muito forte. Não apenas pela estabilidade que transmitia, mas também pela sua força como referência comunitária. Não me recordo de tudo, mas as actividades desportivas, sociais e culturais, formais e informais, estavam lá em cada esquina, marcando fortemente o tempo livre do meu pai e também, em parte, da família.

Não seria caso único e talvez ainda existam outras “fábricas”, sobreviventes, com esse cariz e essa força comunitária. Poderão não ser exemplos de eficiência ou de sucesso económico, mas mereciam ser estudadas. Certamente que quem vive, porque trabalhar também é viver, em empresas que são compradas e vendidas a cada passo, onde o objectivo é esbeltar ou engordar o porquinho, melhorar a sua aparência, seguindo naturalmente as melhores práticas de gestão, para melhor serem vendidas a seguir, não viverá muito bem.

As melhores práticas de gestão dizem que as pessoas e a sua motivação são importantes, mas a prática não é algo que possa ficar pela montra. Motivação e identificação não se decretam, constroem-se. Muitas vezes serão construídas com sucesso por quem não leu livros de gestão, mas que sente as pessoas. E desejo boa sorte à nova velha fábrica .

05 julho 2014

Respeito aos símbolos

A história do processo da bandeira enforcada dá que pensar. Não conheço em detalhe a legislação, mas concordo com o princípio de que devem existir leis e estas serem cumpridas. No entanto, isto de levar a tribunal estes desrespeitos simbólicos é típico de regimes autoritários inseguros. E, já agora, o pessoal que nos estádios usa a bandeira como rodilha, avental ou sei lá que mais, também não estará para lá dos limites legais?

Acredito ainda que há uma coisa chamada “respeito”, que é um valor civilizacional superior a decretos e despachos. Por exemplo, no último 10 de Junho foi-se muito para lá desse limite e gostava de ver a reacção de Mário Nogueira se/quando um dia for assim apupado num seu discurso.

Tão importante como se a bandeira pode ser dobrada ou amarfanhada é a relação de respeito mútuo que deve existir entre os vários actores públicos e especialmente os institucionais. Quando ouvimos alguns discursos dos nossos políticos, agressivos, descaradamente hipócritas e francamente deseducados, muitas vezes em lugares a merecer o maior respeito como a Assembleia da República, não me ficam dúvidas de que eles estão a “amarfanhar” seriamente as nossas instituições. Não peço que sejam levados a tribunal como o estudante de belas artes; apenas que tenham consciência do mal que fazem e tentem civilizar-se.

Nota: poderei ter problemas um dia por publicar esta foto de uma bandeira rota!?

01 março 2014

Uma saída suja

Muito se tem filosofado e especulado sobre o cenário pós-troika, entre a saída limpa e o programa cautelar. No entanto, isso não é o mais importante. O fundamental é reconhecermos que continuarão a ser necessários cortes e dever-se-ia discutir, isso sim, quais a manter e quais a rever. A menos que o fim da tutela da troika seja, na visão de alguns, uma licença para gastar e depois logo se verá.

Saída limpa significa ficarmos sem tutela e dependentes dos tais malvados “mercados” que nos podem emprestar ou não e com condições que dependerão dos seus humores e da sua perspectiva sobre o país. Com um programa cautelar teríamos a manutenção de algum tipo de tutela e ao mesmo tempo alguma protecção contra os malditos capitalistas. No meu ponto de vista, o balanço entre um e outro cenário depende da qualidade de quem nos governa e da sua capacidade de inspirar confiança, fazendo o necessário e o justo.

Neste contexto há duas notícias recentes pouco abonatórias. Uma é mais um episódio do caso dos submarinos, a caminho da submersão judicial final do problema, com as satisfações visíveis nas caras onde deveria estar vergonha. A outra é o recente ressuscitar de Miguel Relvas para o topo do aparelho do PSD. Por tudo o que foi e o que é esta figura, dispensando comentários detalhados, Passos Coelho está a escolher um caminho com muitas nódoas
.

22 janeiro 2014

Os recolectores do alheio

Num passado longínquo o ser humano era recolector. Passava e apanhava o que a natureza tinha para dar. Há um processo evolutivo posterior em que passamos a viver do que plantamos e a usufruir do que construímos. Esta organização social, que nos permite viver com uma qualidade muito, muito superior à desses tempos de recolectores, deixa pouco espaço para andarmos por aí a apanhar coisas na natureza.

Esta reflexão vem a propósito de duas notícias que me passam à frente dos olhos. O caso da China em que funcionários e próximos do aparelho do poder deitaram a mão a uns largos milhares de milhões e os aconchegaram em oportunos paraísos fiscais. Outro caso mais próximo e mais comezinho, passa-se na casa Fernando Pessoa, em Lisboa, que encomenda serviços directamente a uma empresa que tem sede na residência da sua directora artística. Em ambos os casos, local e dimensão à parte, há aparentemente um ponto comum: aproveitar uma oportunidade para ficar com uma maçã que está ali à mão, mesmo sem ter direito a ela. Há ainda outro ponto comum: não ocorrem em meios tipicamente capitalistas. Um dos casos ocorre num país/partido comunista/popular; o outro num meio artístico/cultural. Isto presume que o fenómeno é certamente muito transversal e abrangente e, quem sabe, herança dos genes recolectores que subsistam.

Para lá do enquadramento legal, policial e penal que se pode dedicar a estes fenómenos com mais ou menos empenho e eficácia, há um aspecto fundamental. O aproveitar uma situação/oportunidade para deitar a mão ao que não é nosso, destrói o fundamento da nossa sociedade e é um retrocesso civilizacional. A tentação é grande e não parece conhecer restrições quanto ao meio em que se desenvolve mas, no entanto, a qualidade de vida que todos queremos depende do que construímos. São os valores que estão na base da criação da riqueza que se destroem e isto é pior do que o prejuízo material associado.

28 outubro 2013

Que raio de “cracia”!

Chegou-me a mensagem de um contacto antigo. Participava num concurso, sério, onde estava em causa mérito e desempenho dos participantes. Não era uma coisa do bebé mais bonito, nem do maior português de todos os tempos. O prémio em disputa seria atribuído a partir de votação numa rede social famosa. Assim, ele informava e convidava os seus amigos e contactos a participarem.

Como considero não ter a mínima competência para o julgamento em causa e como discordo profundamente deste tipo de “democracia digital ad-hoc” não votei, sentindo alguma deslealdade para com a pessoa em causa, que me merece todo o respeito e consideração. Aparentemente é habitual e moda fazerem-se as coisas desta forma, mas não deveria ser assim. Uma avaliação séria deve ser feita a partir de um universo de avaliação competente, baseado em critérios objectivos e nunca dependente da capacidade de mobilização digital de cada um.

São votações que valem o que valem… já colocaram Salazar num belo pedestal e levaram os “Homens da Luta” à Eurovisão. No entanto, estas são anedotas muito visíveis e facilmente denunciáveis. Mais grave é haver outros casos menos mediáticos, em que se está a julgar trabalho, competência e desempenho, e que ficam à mercê de uma qualquer fábrica de “likes”, informal ou até mesmo formal, como já existem, onde se encomendam e pagam cliques ao milhar.

Se o valor reconhecido tende a ser função da dimensão do “universo de amizades” e da facilidade com que se mobilizam cliques imediatistas, por simpatia ou por outro argumento paralelo qualquer, estamos a criar um sistema de valores muito pouco justo. E quando a justiça falha para algo tão fundamental como o reconhecimento do mérito, o prejuízo é enorme.

25 abril 2013

Mais um ..

Por ter ido ouvir uma actuação musical acabei por, sem querer, assistir a umas comemorações do 25 de Abril. E é algo triste. Triste não pela tristeza dos tempos em que vivemos em si, triste pela evocação da causa-efeito entre o “não” 25 de Abril e a situação a que chegamos. A data da revolução é uma data querida para mim e não gosto de a ver apropriada desta forma porque aqueles que clamam por outro Otelo. Para já não falar dos que vão mais atrás ao Regicídio de 1908 e dos que continuam a achar que se não tivesse havido 25 de Novembro é que estaríamos bem.

Se todos os problemas da situação em que estamos fossem devidos apenas à malvada direita teríamos apenas metade deles! Onde estamos e como estamos é consequência de uma falha com origem em muitas latitudes. É abusivamente simplista e pouco sério suspirar, ou gritar, por outro Abril.

Depois, é uma falácia insistir na tecla da distribuição da riqueza como se fossemos simples recolectores. O nosso problema principal é pouca criação de riqueza que não se cria sozinha. Recorrendo à tal linguagem, para isso são necessários trabalhadores, de todos os tipos, e também investidores e capital. Com seriedade e respeito. Se há algo que quero pedir neste Abril é isso mesmo: seriedade e respeito.

24 fevereiro 2013

Questão de respeito

Sou contra todo o tipo de falta de respeito e uma falta de respeito não justifica outra. No entanto, quando o Primeiro-Ministro vem publica e oficialmente manifestar repúdio contra a acção da qual foi vítima Miguel Relvas, esquece uma coisa: o facto de este ser e continuar a ser ministro é uma grave falta de respeito para com os portugueses. Num país em que houvesse um pingo de respeito pelos cidadãos, há muito que, por um décimo dos factos em causa, esse individuo teria desaparecido do Governo. E, Sr. Primeiro-Ministro, a primeira coisa a fazer antes de pedir respeito é respeitar.

14 fevereiro 2013

O princípio, o sistema e o sorriso

Este texto é bastante especulativo, mas como se trata do Vaticano, que não prima pela transparência, acho que tenho desculpa. Quando o Cardeal Ratzinger foi nomeado Papa, para mim, e para muitos, o sentimento foi de desilusão. Representava uma continuidade da linha de João Paulo II que, arreigado a fundamentos formais, não deixava a instituição Igreja Católica alcançar o lugar que podia e devia ter na sociedade. Escrevi na altura:

Dentro dos nomes potenciais para o novo papa, havia um, para mim, que se destacava claramente pela negativa. Joseph Ratzinger. A sua acção recente tinha sido redutora e autoritária. Mais “correctora” do que “inspiradora”; mais defensora da cidadela ameaçada do que impulsionadora do seu desenvolvimento. Mais preocupada com o impor a toda a sociedade os seus princípios, do que com a promoção e adopção natural dos mesmos; mais centrada na disciplina do rebanho do que no desenvolvimento espiritual do homem.

Agora leio a corajosa resignação de um homem de princípios e nos comentários da imprensa, não aquela paroquiana que comenta os tugas que viram e conviveram com o Papa e outros seus potenciais sucessores, leio que a sua resignação é uma vitória dos conservadores. Espera aí, mas este Papa não era conservador? Sim, mas será conservador mesmo pelo princípio, tendo existido alguma incompatibilidade entre o princípio e o sistema? E, aumentando o grau de especulação, será este um sistema em que os princípios interessam apenas enquanto meios… de poder? Quando vejo a referência a uma organização poderosa chamada “Legionários de Cristo” e mesmo esquecendo a vergonhosa história de vida do seu fundador, Marcial Maciel, claramente assumida e até condenada, fico a tentar imaginar o que diria Cristo sobre esta coisa de no (seu) Vaticano existir uma coisa chamada “Legionário de qualquer coisa”!

Em resumo, e se é para termos esperança, esperemos então que possa aparecer um homem que sorri como este descrito aqui e reproduzido na imagem acima, e que sobreviva ao sorriso. Mas creio que não, não deverá ser de sorriso e nem sequer de princípios. O sistema está bem protegido 
pelos seus legionários nominais e/ou funcionais contra os princípios, e, por maioria de razão, contra os sorrisos!

20 maio 2012

Pressão e descompressão

Se um Senhor José telefona a um jornal com ameaças, pode o jornal ignorar a pressão e considerar que não deve reagir nem divulgar os factos enquanto não houver violação de lei. Aceita-se.

Agora, no caso de Miguel Relvas, pela função da pessoa, pelo conteúdo e pelo contexto, a ser verdade, é demasiado grave para ser ignorado com o simples argumento de não haver suposta violação de lei. Não sei se o código penal chama a isto crime, mas no código moral não há a mais pequena dúvida.

Por isso, a quem direito, jornal, governo, ERC e, se necessário for, a própria policia: por favor lavem esta coisa a fundo, porque senão vai ficar um cheiro pestilento que ninguém aguenta.

25 abril 2012

Abril e democracia

Dizem alguns “abrilistas” que não participarão nas comemorações oficiais da revolução porque não se identificam com o regime actual e que inclusivamente, na opinião deles, está até em causa o seu carácter democrático. Questionar um regime na base do “esta não é a minha (demo)cracia” é declaradamente um abuso a que se permitem apenas os autoritários líderes dos países mesmo pseudo-democráticos.

Que o país que temos hoje não é o que eles gostariam, acredito. Não é aquele que eu nem certamente uma larga maioria dos portugueses gostaríamos de ter. Mas, quase 40 anos depois de Abril, vivermos ou não em democracia? Temos partidos, temos eleições livres e temos alternância do poder. Chegará? O recente episódio das nomeações para o Tribunal Constitucional demonstra claramente que vivemos em “partidocracia”. Não existe poder para lá do que emana dos partidos e num sistema em que as lealdades são mais importantes do que as competências. O poder está cada vez mais centrado em partidaristas de carreira, cujo objectivo principal é ganhar e manter o poder dentro dos seus partidos, o que pode estar muito, muito, longe do interesse último do país e do respectivo povo (“demo”).

O problema de regime que temos está aqui. Aqueles que agora protestam contra os cortes e medidas de austeridade, teriam muito mais autoridade moral para o fazer se na altura em que se gastou desregradamente e mal, se tivessem insurgido contra esse desperdício. Mas não me recordo de o ver e é feio fazer este aproveitamento político e mediático por quem no passado, por acção ou omissão, ajudou a chegarmos ao que chegamos.

22 abril 2012

Méritos e outros

Não foi ontem nem sequer esta semana. Mais uma vez, num correr de canais antes de desligar a televisão, manobra arriscada, vejo em duas estações diferentes dois supostos concursos em que os candidatos eram supostamente avaliados pela sua capacidade de cantar.

Num deles, os candidatos eram supostamente figuras públicas tentado demonstrar uma valência desconhecida. Nem todos, porque alguns eram mesmo da profissão – concorrência desleal! Lembro-me de uma socialite, a caminhar para tia, desgraçadamente aos saltos a fazer que cantava, mas mal, muito mal, apesar de todo o suporte instrumental e coros. O suposto júri inevitavelmente lá correspondia com os elogios e um consumo desregrado do adjectivo “fantástico” (e telefonem lá para o numerozinho para votarem e a gente facturar).

No canal vizinho era gente desconhecida que pensava ter ali uma oportunidade de encontrar um lugar ao sol das estrelas. Deve ser feito sem nenhuma triagem prévia porque aparecia gente que cantava quase tão mal como eu. O respectivo júri, muito mais selectivo do que o anterior, não se limitava a julgar. O “show” de que o povo gosta, e que permite a tal audiência e facturação associada, pede sangue na arena. E esse sangue é humilhar o concorrente desajeitado de forma arrogante, sarcástica, quase um concurso de cuspidela, ver quem consegue cuspir mais longe e mais grosso. Deselegante, mal-educado e feio. Gostaria muitíssimo de ter visto ali a tal socialite fraquinha, disfarçada para ser mesmo uma cara estranha, a cantar à capela e de a ver avaliada naquele contexto… certamente que não teria direito a “fantásticos” mas a uma enorme enxovalhadela …

Canais comerciais precisam de facturação para a respectiva sobrevivência. O que está mal é usarem a capa de um concurso de méritos de forma desajustada. O mérito merece ser tratado com todo o rigor porque é a base de toda a evolução. Quando se perde a noção do que é o mérito e quando a sua avaliação é deturpada estamos perdidos.

22 março 2012

Memória de Salazar

Depois da famosa votação do “maior português de sempre”, multiplicam-se os sinais de que com Salazar é que estávamos bem e de que com um Salazar hoje estaríamos melhor. É dos livros que nas situações de crise os ditadores emergem e as ditaduras se estabelecem. Espero bem não ser esse o nosso caso hoje, mas quero realçar que nessa nostalgia pelo homem de Santa Comba, há alguma vista grossa a coisas importantes. Vamos pôr de lado a censura, a PIDE e a guerra colonial que, cada qual por si, são já um peso bastante pesado. Não haveria na altura parcerias-público-privadas negociadas e geridas entre a simples catástrofe ignorante e o complexo caso de polícia. Não havia uma terceira autoestrada Porto-Lisboa em construção quando a segunda está vazia, mas também nem havia sequer uma. Associado às compras de submarinos e armamento não terá havido movimentos estranhos para contas partidárias porque não havia partidos. Escândalos de desclassificação de zonas de reserva ambiental para construir centros comerciais também não, por haver poucas ou nenhumas dessas zonas. Mas, mesmo que tivessem acontecido coisas parecidas, não se sabia porque não havia comunicação social que o publicasse…

Vamos então ao principal e assobiando para o lado relativamente a tudo o que está para cima. Vivia-se melhor em Portugal no tempo de Salazar? Quem não o viveu não sabe, mas pode informar-se. Basta ver estatísticas e comparar como estávamos face à Europa e como estamos hoje em termos de mortalidade infantil, rede hospitalar e cuidados de saúde, taxa de analfabetismo, cobertura da rede eléctrica, saneamento, água potável e outros indicadores fundamentais de desenvolvimento social e humano. Senhores saudosistas e ignorantes: peço desculpa mas nem sequer se pode dizer que apesar da ditadura e da guerra se vivia bem. Não, nem esse mérito se pode atribuir ao dito cujo: vivia-se miseravelmente mal.