01 setembro 2026

Estes eslavos do Sul


Uma comunidade é um conjunto de pessoas que em várias dimensões se exprime na primeira pessoa do plural. Nós somos assim, nós fazemos assado, nós gostamos de cozido. Dentro da ficha de identificação comunitária encontra-se muitas vezes a crença: Nós seguimos esta religião.

Por outras palavras, alguém partilhando o mesmo espaço e referencia sociais, só porque tem outra crença deixa de ser “um de nós”.

Muitas das mais violentas e bárbaras guerras civis da história foram consequência de processos de homogeneização religiosa de Estados. Sem querer ser muito exaustivo, três exemplos. As lutas e massacres entre católicos e protestantes na Europa dos séculos XVI e XVII; as inquisições ibéricas; o pós-colapso do império Otomano na Turquia, no século XX, especialmente para os arménios e gregos ortodoxos.

Se há local, relativamente próximo, onde esse violento processo se prolongou muitíssimo, foi nos Balcãs. A Jugoslávia, literalmente país dos eslavos do Sul, inicialmente criada no final da primeira grande guerra, após a derrocada dos impérios vizinhos, nunca se conseguiu cimentar como Estado e pacificar os diferentes grupos étnicos e religiosos,

Os terramotos decorrem do movimento e choque entre placas tectónicas e aquela zona está efetivamente na linha da frente de várias placas culturais/religiosas. Do Noroeste vem a Europa cristã/católica; do Nordeste os eslavos ortodoxos e do Sudoeste os otomanos muçulmanos. Para o Sudoeste sobra o mar adriático.

Perdendo a cola da bota comunista, “não-alinhada”, de Tito, é impressionante como se fragmenta e como gente vizinha por décadas se descobre diferente, inimiga e desata a chacinar-se mutuamente. Até que ponto a procura de posição dominante da Sérvia foi determinante nesse descolamento das regiões é uma questão pertinente, que não sei responder. Arrumadas as restantes províncias em países relativamente hegemónicos, ficou a sobrar no centro a Bósnia.

A Bósnia Herzegovina é talvez o maior símbolo e teatro de impossibilidade de integração de diversidades e, mesmo que se possa hoje chamar um país, na prática está retalhado.

Isto vem a propósito da forma como a Sérvia se prepara para organizar um funeral da Estado para Ratko Mladic, o bárbaro carniceiro de Sarajevo, condenado pelo TPI por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Como se o facto de ser um dos “nossos” ser mais relevante do que os milhares dos “outros” que ele chacinou. Estamos a ver algo de semelhante acontecer na “nossa” Europa? Por exemplo, o atual governo alemão homenagear Hitler, como um grande patriota?

Há aqui diferenças na dimensão humanitária que ultrapassam o simples credo religioso. Estes eslavos…