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24 julho 2026

Parabéns aos USA

Os Estados Unidos da América celebraram este mês 250 anos e não é necessário ir a Teerão para os ver serem condenados como o grande Satã e o mais maléfico país da história da humanidade. Certamente que não têm currículo limpo, mas esses acusadores podem fazer o favor de apontar um, um único, exemplo de uma grande potência que possa atirar a primeira pedra…

São também tempos controversos. Por um lado, temos um Presidente que só lhe falta mudar o nome do país para TSA (Trump States of America) e com mais alguns detalhes de atitude e valores muito afastados dos princípios e práticas dos pais fundadores do país.

Outra figura, com bastante menos poder executivo, mas com grande exposição e apreciação mediática é o progressista Presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani. Aparentemente sente-se algo desconfortável com a data e o contexto da fundação do país, provavelmente por ter sido pouco inclusivo. Esperemos que a moda não pegue, caso contrário ainda veremos alguns iluminados a condenarem a celebração da fundação de Portugal, pela intolerância de D. Afonso Henriques face aos mouros.

Apesar de todos os defeitos e pecadilhos, os USA são o país da liberdade e das oportunidades, num registo que não tem paralelo. O seu nascimento marca o nascimento irreversível de um sistema onde não há poderes sem escrutínio popular, não hã mandatos temporais de suposta origem divina e é o povo quem valida e sanciona o exercício do poder. O extrato a seguir da declaração de independência é extraordinariamente eloquente e forte:

…todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade. — Que, para assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. — Que sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva desses fins, é direito do povo alterá-la ou aboli-la, e instituir um novo governo, estabelecendo seus fundamentos sobre tais princípios e organizando seus poderes de forma que lhes pareça mais adequada para garantir sua segurança e felicidade

É curiosa esta evocação do “direito à felicidade”. A felicidade é algo talvez difícil de definir juridicamente, mas com toda a subjetividade implícita, é dever dos governantes proporcionarem felicidade aos seus governados.

A implementação destes princípios após a independência não foi perfeita, certamente, sobretudo quando se pensa em negros e em índios. Mesmo hoje o valor de cada um não é exclusivamente função do seu mérito e do que ele faz. Continuam a existir alguns privilégios de casta, na prática.

Apesar de todas essas deficiências práticas não deve haver no mundo contemporâneo um país com um sistema mais são. Os resultados estão à vista em muito do que temos à nossa frente no nosso dia-a-dia e certamente que o seu sistema irá resistir a todas as Trumpices e Mamdanices que o ameaçam.

A fundação dos EUA marca a fundação de uma forma de governo que cortou com tudo o que então existia e, não sendo perfeita, é ainda hoje melhor do que todas as outras. 

 

09 janeiro 2026

Segurando o PS


A degradação do nosso regime (não só do nosso, mas por hoje focamo-nos aqui) e a erosão dos partidos tradicionais são, a prazo, um retrocesso e um risco para o sistema democrático em que nos habituamos a viver, em liberdade.

Por muito eco que as propostas extremistas possam ter em gente séria, bem-intencionada e com motivos concretos e válidos para estar desiludida com o “sistema”, é evidente que a sua eventual colocação em prática não irá nada resolver, muito pelo contrário.

Os radicais de esquerda podem invocar bons-sentimentos e projetos de uma humanidade mais justa e generosa, mas a sua implementação sempre falhou, tanto na vertente económica, sem geração de riqueza não há milagres, como no próprio campo que lhes é teoricamente caro, o da liberdade. Os de direita, podem apelar à salvaguarda de valores tradicionais e uma certa ordem e segurança, mas também trazem o risco de uma discriminação injusta e até violenta.  Em ambos os casos, a prazo, não haverá tolerância, segurança e sucesso.

Parece-me claro que o modelo que funciona melhor é o atual e o problema não está nos seus princípios, mas sim nos seus intérpretes. Dentro dos protagonistas recentes que se distinguiram pelas piores razões, está obviamente o PS. Falamos de Sócrates e dos seus órfãos e afilhados, assim como dos coitados por ele “enganados”, que nada viram. Também não há anjos, longe disso, mas o PS leva a medalha de ouro (?!) de longe no campeonato da degradação e descredibilização do nosso sistema.

A candidatura de AJ Seguro às Presidenciais não é certamente um toque mágico que tudo pode resolver, mas o seu sucesso, que sinceramente gostaria de ver acontecer, seria um grande passo na regeneração de um dos partidos fundamentais do nosso regime. Sou eu a ser otimista, mas às vezes é preciso.

14 dezembro 2025

Vice-Rei do Norte


Especialmente nesta altura em que ficou na moda desenvolver novas narrativas sobre o que foi e o que não foi o 25 de novembro, nada melhor do que ler quem o viveu e dele foi protagonista, melhor do que escutar o “disse que disse” de quem repete o que ouviu dizer, na parte que encaixa na sua narrativa preferida.

Esta autobiografia de Pires Veloso, onde obviamente o 25 de novembro de 1975 tem uma quota importante é obrigatória para quem se quiser informar.

O cognome de Vice-Rei do Norte, não é especialmente do meu agrado. Depende de como for pronunciado, com alguma simpatia e respeito ou com sobranceria e algum toque de desdém. Para começar não estamos em contesto monárquico, depois Pires Veloso não foi vice de ninguém. Em Lisboa é que existiam uns candidatos a vice czares. Um vice-rei presume existir algures um rei e aquele ser um personagem que com alguma autonomia governa um território distante.

E em 1975 o Norte e a cidade de Porto foram diferentes de Lisboa, mas não na perspetiva de uma terra longínqua e destacada. Pires Veloso teve sempre um olhar sobre o Portugal inteiro. Este Norte e a cidade do Porto, hostis às forças extremistas (daí catalogados de reacionários e fascistas) é o mesmo que em 1832, durante a guerra civil foi um bastião firme na defesa do liberalismo contra o absolutismo. Os genes são os mesmos. Podem contra-argumentar que esquerda-direita; revolução- contrarrevolução não estão no mesmo alinhamento, mas sim… A bandeira hasteada no Porto nas duas situações foi a mesma: Li-ber-da-de !

Pires Veloso acabou por pagar a sua coragem e integridade, mas penso que a fazer de novo, igual faria, sem se condicionar pelos golpes baixos que a corte, reestabelecida e legitimada graças a, entre outras, à sua contribuição, não hesitou em lhe aplicar posteriormente.

Sobre o conteúdo específico do seu testemunho, uma surpresa para mim foi o lugar de Ramalho Eanes. Tendo pouco ou nada intervindo no dia 25 é espetacular e oportunisticamente catapultado à primeira linha, numa encenação programada e realizada pelo grande maestro Melo Antunes.

Agora vou especular. Aviso colocado, concretizo… O Prec estava exausto, Vasco Gonçalves encostado e as reações populares, a começar no Norte, apontavam a um beco sem saída para aquele caminho; o golpe PCP do 25/11 é travado pela conjugação das forças de Pires Veloso, Jaime Neves e Força Aérea, sob o arbitragem de Costa Gomes e aí… Melo Antunes, conhecido por moderado, mas não necessariamente um democrata pluralista vai colocar a coroa de louros em Eanes que, do mal o menos, permitirá a continuação da influência comunista dentro do que era possível. O mui democrático Conselho da Revolução aguentou-se até 1982.

Dá para entender a alergia que alguns democratas de gema desenvolveram por Ramalho Eanes, especialmente Sá Carneio e em certa medida também Mário Soares.

Se houvesse uma biografia completa e detalhada de Melo Antunes, certamente muita coisa se aprenderia e melhor se entenderia o que aconteceu no país nesta época.

29 novembro 2025

Ainda sobre as vitórias no 25 de novembro

Não resisto em voltar ao tema…

Sabendo que assim como não há maior cego do que aquele que não quer ver, também é difícil desenganar os que aos enganos estão predispostos, mas tento…

Em primeiro lugar quem perdeu foi a esquerda comunista. Aqueles que achavam ser o PREC um bom caminho para um bom destino, perderam e ainda bem. Como se costuma dizer, é possível ser comunista num regime livre, mas é impossível ser livre num regime comunista. E podem agradecer o PCP não ter sido ilegalizado, já que se o desfecho fosse outro, a sorte seria provavelmente diferente para os seus opositores.

Esta data não resolveu tudo, mas fui a última tentativa de intentona e a consolidação da legitimidade democrática, que não é pouca coisa. Na baralhação que se faz agora, até nem se sabe bem quem precipitou os acontecimentos. Umas dúzias de paras descontrolados que deram a desculpa para a direita reagir em força?! Mário Soares seria então na altura de direita? Quero acreditar que se o sucesso tivesse ficado no outro lado, não haveria esta narrativa da orfandade de liderança e saberíamos muito bem quem mandava em quem.

Visitando o que se passava no país nessa altura, era óbvio que alguma coisa teria que acontecer e as relações de poder serem clarificadas. Aqui, no desfecho da clarificação, há a assinalar uma outra importante vitória, que é do bom-senso e razoabilidade que evitaram um banho de sangue. Com toda a tensão existente, armas em circulação e posições extremadas, não faltava nada para se despoletar uma violenta guerra civil. Esta não aconteceu e a sensatez que prevaleceu de todos os lados, foi uma grande vitória da sensatez do povo português, que muitas vidas poupou. Parabéns!

30 novembro 2024

As frentes de libertação

A tragédia  que estamos a assistir em Moçambique, tem por vilão uma entidade intitulada “frente de libertação”. Este movimento e outros análogos, protagonizaram uma luta pela emancipação de povos oprimidos, evocando projetos de liberdade e de democracia. Poucos foram, no entanto, os que a seguir cumpriram minimamente as promessas e muito especialmente quanto à democracia.

Depois de ganharam a legitimidade de representarem o povo a libertar, adotaram o princípio do “ganhamos, é nosso”. Nos casos de não ter sido possível encontrar unicidade nessa representatividade revolucionária, seguiu-se guerra civil pela primazia “libertadora”. Nestes processos houve, é certo, influencias externas cujo objetivo era basicamente que as populações “mudassem de dono”. Pode ter havido alguma precipitação nos processos de independência, mas o resultado final é muito longe de brilhante e positivo para as populações objeto dessa “libertação”.

Há uma parte disto que é história, que não podemos mudar, mas talvez aprender. A benevolência ingénua com que os “colonizadores” olharam para o que se prenunciava e, apesar disso, daí lavaram as mãos: Querem autodeterminação? Levem-na!

Hoje a discussão não é essa, mas a pobreza do governo de muitas frentes Ex libertadoras é um problema para as suas populações, para a humanidade em geral e para a Europa em particular, onde uma parte da opinião pública ainda se crê devedora de pecados passados, passíveis de expiação recolhendo massivamente as populações desfavorecidas. Não acredito ser isso a preferência deles, nem o melhor caminho para a humanidade, nem para o desenvolvimento desses países. Entretanto, continuamos a lavar as mãos face às barbaridades, não queremos ser acusados de neocolonialismo.


25 novembro 2024

Onde estavas no 25 de Novembro?


Nesta data não houve uma revolução nem um corte definitivo com a tutela do MFA e do Conselho da Revolução sobre a vida política nacional, mas um passo importante para a consolidação de uma coisa chamada democracia e o fim da chamada “legitimidade revolucionária” que tantas ditaduras neste mundo instaurou, quando os (alguns) que lutaram contra um opressor se arvoram em “legítimos” herdeiros e donos do poder…

Do PS incluído para a direita, todos os partidos apoiaram o movimento. À luz das eleições constituintes de abril de 75, cerca 72% do eleitorado. Nas presidências do ano seguinte, o comandante operacional do movimento, Ramalho Eanes, é eleito Presidente da República à primeira volta com 62% dos votos. Ao longo dos anos, a esquerda pró-soviética e a extrema-esquerda nunca foram muito mais longe do que isso; hoje até são bastante menos.

Porque haveria de haver agora polémica com a data? Basicamente porque o projeto de poder do PS, a partir de 2015, inventou um alinhamento de forças e supostos princípios comuns com uma ampla “esquerda”, onde se incluem órfãos de Estaline e admiradores de Maduros… O PS de 1976 e de Mário Soares sabia que o PCP e Cunhal não eram democráticos e, se o espírito democrático permitiu que o PC continuasse a existir e a ir a votos, era importante impedi-lo de concretizar um projeto totalitário (olhe que sim, olhe que sim…)

Portanto, o PS deverá clarificar e definir-se. Ou é democrata, defensor da liberdade e condena inequivocamente os apetites autoritários dos herdeiros de Cunhal, ou assume efetivamente que tem algo em comum com eles e que o alinhamento na esquerda geringonça é ideologicamente genuíno.

Ou, então, deveria dividir-se em dois… senão, parece-me que anda uma metade a enganar a outra. Viva a democracia!

Atualizado a 27/11 com cópia da publicação no Público

20 fevereiro 2024

Outro mundo


Há cerca de dois anos, o mundo ocidental alertava para a concentração de forças armadas russas junto à fronteira ucraniana. Por estes lados um exército de “idiotas úteis” desvalorizava e até ironizava, comparando até a credibilidade dessas fontes de informação sobre a Rússia com as profecias de Nossa Senhora de Fátima de há um século atrás.

Hoje vemos a barbaridade que se passa por ali e penso que só podemos lamentar não ter de imediato e radicalmente cortado todos as compras de combustíveis à Rússia, compras que permitiram financiar a destruição de um país inocente e soberano. Guerra é guerra… e mais vale passar um pouco de frio nas casas e abrandamento na indústria, do que ver os blindados e os misseis a ameaçar.

Por estes dias, soubemos da morte do corajoso Alexei Navalny, cujo “crime” foi questionar, denunciar e afrontar o regime de Putin. Infelizmente é só mais um de uma longa lista de vítimas de uma organização assassina. O regime russo atual não é comunista ortodoxo, de forma nenhuma, mas a sua assinatura é muito semelhante à do estalinismo.

Ao mesmo tempo que a Europa se inquieta, e bem, com a subida dos populismos e xenofobismos da extrema-direita, deveria ser também consensual que o nosso mundo, de liberdade e de democracia, com todos os seus defeitos e fragilidades, é felizmente incompatível com a realidade de Moscovo. O voto contra do PC e do BE no Parlamento Europeu de uma resolução de 2019 que equipara o nazismo ao estalinismo e respetivas justificações são eloquentes. Saberão eles que se forem viver para esse outro mundo, além de muitas outras coisas que lhes faltarão, correm o risco grande de acabarem como Navalny se tiverem a coragem de pensar e de expressar o seu pensamento?

01 dezembro 2023

Ao eleitor o que é do eleitor


Correm preocupações e alarmes quanto ao resultado das últimas sondagens, onde o Chega tem um crescimento espetacular. Não é necessariamente uma boa notícia, mas a democracia tem destas coisas. É o eleitor que decide.

Depois de tantos anos com ouvidos moucos aos designados casos e casinhos e pretendendo que formalmente está tudo bem até eventual condenação e transito em julgado, que esperavam? Que os eleitores aceitassem a bondade dessa formal inocência?

Obviamente que o Chega não tem um projeto sério e consistente, mas ele cresce no lixo que outros criaram. Se o querem combater e contestar, vão aos fundamentos e à incoerência das suas ideias e propostas. Argumentar angelicamente de que “eles são muito diferentes de nós”, não é herbicida, é adubo!

02 agosto 2023

O que há de novo

Depois de uma longa interrupção no blog, se não inédita pouco menos, o recomeço é sempre mais difícil. Sobretudo quando atrás está o Camões.

Nestes quase dois meses passaram-se muitas coisas e certamente teria tido tema para as duas a três publicações semanais da praxe, infelizmente sempre e sempre mais do mesmo. Nada de relevante consigo identificar e isso é um problema.

Vamos falar da (des)qualificação da nossa governação? Das caricatas conclusões da CPI da TAP, do ridículo (não) debate do estado da nação e de outros casos de irresponsabilidade e desrespeito pelo país e pela nossa inteligência, a que gostam de chamar casinhos? No fundo, nada de novo e o mais preocupante é o pouco sobressalto cívico que tudo isto provoca.

A democracia só funciona, mesmo, a qualidade do governo e consequente bem-estar de quem por cá vive com escrutínio e, fatalmente, alternância. Novos rostos, novas ideias, novas atitudes são fundamentais. Tudo coisas que faltam a este governo ressequido. Depois de vermos ministros chegarem diretamente da Camara de Lisboa, irão agora buscá-los às juntas de freguesia da capital? Ou virá alguma jovem estrela brilhante, tipo Miguel Costa Matos? Quem de decente e competente este (des)governo consegue motivar e recrutar?

Neste contexto, o PS deveria estar a ser fortemente penalizado pelo eleitorado. Mesmo que o líder do PSD não seja uma força da natureza, é necessário arejar a casa. O cheiro a podre torna-se insuportável, para quem tenha nariz, e a seguirmos por aqui vai um dia ser bem-vindo um autoritário (como em 1928, há quase 100 anos).

Parece que já não estamos no tempo em que os partidos do arco da governação não tinham (nem assumiam) diferenças fundamentais e o eleitorado flutuante forçava a alternância pelo mérito, por estar farto do inquilino de S Bento e muito pouco pela “ideologia”. Depois de 2015 inventou-se uma clubite, particularmente à esquerda, onde para evitar um governo “inimigo”, fatalmente malvado, se juntam em frente virtuosa socialistas (sociais-democratas) europeus, órfãos de Estaline, admiradores de Maduro, tolerantes de Kim Jong, e tudo o mais que for preciso.

Não é só cá. Veja-se a Espanha aqui ao lado, onde Pedro Sanchez, para reivindicar o direito a governar, se assume líder de um suposto bloco vencedor, indo muito para lá do equivalente da nossa “geringonça”. Acrescenta o Bildu, herdeiros do terrorismo da ETA, pouco arrependidos, e fundamentalistas e racistas catalães (sim, porque o racismo não é apenas o da cor da pele).

Em resumo, o que há de novo é que, pelo menos na Península, democracia já não rima com meritocracia e racionalidade. Instaurou-se uma atitude tribal onde se “é de um lado”, como se “é” do Sporting, Benfica ou FC Porto. Certo que entre os nossos irmãos sempre houve duas Espanhas, com um nível de intolerância mútua elevado e uma brutal guerra civil não há muito tempo. Por cá, a guerra civil foi há mais tempo, na afirmação do liberalismo, mas entre 1910 e 1928 também não faltou intolerância e visões “religiosas” das virtudes “ideológicas”, que demasiados excessos justificaram.

Sim, há algo de novo, face às décadas recentes, mas relativamente à Primeira República o odor é semelhante. Já terá nascido algures numa Santa Comba?

12 janeiro 2023

Degradação do regime


O que vimos acontecer no passado domingo em Brasília é indiscutivelmente inaceitável num regime democrático. Acho que podemos dizer com segurança que o tempo das revoluções e pronunciamentos é definitivamente passado no Brasil.

Podemos ver semelhanças com o ataque ao Capitólio de 2021, assim como entre Trump e Bolsonaro, apesar de este não ter, pelos menos assumidamente, apelado à sublevação. Também parece haver em comum que as instituições do Brasil foram/serão suficientemente sólidas para controlar a situação e retomar a normalidade.

Há uma diferença importante que, sem desculpar nem relativizar a gravidades dos fatos, convém referir. Lula não é Biden. Biden não chamou genocida a Trump, não tem o passado judiciário do brasileiro, recordando que este, se se “safou”, foi pela forma e não pelo fundo.

Lula foi eleito, democraticamente, dentro da legalidade, tem toda a legitimidade, mas isso não apaga a repulsa que devem sentir muitos brasileiros. Imaginem, num paralelo, que Sócrates se safava judicialmente e voltava ao poder. A reação, e certamente que a solução, não passaria por invadir o Parlamento, mas o respeito pelas instituições não seria o mesmo. Não é tão cedo que o Brasil se irá pacificar, nem a atual responsabilidade é principalmente de Bolsnaro, apesar de todos os seus defeitos. Por muito tempo haverá brasileiros que não reconhecerão Lula como um presidente que merece o cargo. Se isso justifica e desculpa partir assim a louça, é claro que não.

30 novembro 2022

Falta de escrutínio


 Miguel Alves já se demitiu, a respetiva cabeça já rolou na guilhotina mediática, mas obviamente o assunto não está encerrado. Ainda não sabemos para onde foram nem por onde andam os famosos 300 mil euros, há dois anos transferidos da esfera pública para singelas mãos privadas, para uma empresa de um homem só, criada na hora, sem histórico nem atividade, entregues sem garantia ou contrapartida. Onde estão? Tresmalharam-se?

Na caricata entrevista que o protagonista fez para se defender, muito na base do ou é burro, ou nos toma todos por burros, havia uma verdade. Se ele não tivesse sido nomeado Secretário de Estado, provavelmente o assunto não se teria mediatizado com a mesma amplitude. Que o diga também o recente Secretário de Estado, J. Maria Costa, que vê agora saírem noticias sobre alguns negócios feitos durante os seus largos anos à frente da Camara Municipal do Viana do Castelo.

É perfeitamente natural que a acrescida exposição e maiores responsabilidades políticas aumentem o nível de escrutínio e consequente ressonância mediática dos casos. Isso não é mau. O que é mau é todos os outros negócios e euros que se tresmalham de norte a sul, por pequenos reinos e expeditos reizinhos.

Os melhor habilitados e mais interessados em denunciar são os mais diretamente afetados, os munícipes, sendo também verdade que muitos desses reinos são algo asfixiantes na reação ao questionamento do seu poder (quase) absoluto. Mais democracia e escrutínio, precisa-se!

05 maio 2022

Os limites da Europa


De Lisboa a Vladivostok parece-me um pouco exagerado. Havendo poucas dúvidas quanto ao limite Atlântico a oeste, o Pacifico do outro lado é talvez um pouco exagerado.

Na definição da Europa e seus limites, mais importante do que os meridianos geográficos estão os valores sociais e culturais e, citando a chamada Constituição Europeia, “humanismo, igualdade de todos os seres, liberdade, respeito pela razão”. A história da Europa teve fases brilhantes e períodos sinistros, por vezes escassamente separados, como, em França, com a Declaração universal dos direitos do homem e do cidadão em 1789 e o terror de Robespierre quatro anos depois. Mais recentemente vimos barbaridades como a guerra civil espanhola, aqui ao lado, o Nazismo na Alemanha e o Stalinismo na Rússia.

No entanto, nos últimos 70 anos, após o final da II Guerra Mundial, a Europa parece ter-se estabilizado, reencontrado esses valores e citando de novo: “respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito”. O que se está a passar na Ucrânia é uma clara negação dos valores europeus. Para aqueles que se recusam a vê-lo, como não viram o Gulag, cegueira ideológica é uma explicação algo benigna.

Trata-se antes de uma opção ideológica, veladamente assumida. É não se reconhecer nos valores humanísticos europeus, promover a tal “revolução” purificadora e a reversão deste regime que, sem ser ideal, é o melhor que existe. Não é passivamente ignorar, é ativamente lutar por uma causa perigosa.

10 janeiro 2021

O papel das elites

 

As inverosímeis imagens que vimos esta semana do Capitólio dos EUA constituem uma tentativa de golpe de estado. Uma multidão toma de assalto uma instituição fundamental do regime, com o objetivo de evitar pela força uma transição de poder legitima.

Obviamente que estamos nos EUA onde as instituições são sólidas e apesar dos 70 milhões que votaram Trump, os apoiantes destes métodos serão bastante menos, não sendo suficientes para a consolidação da revolução tentada.

Trump não pertence, se dúvidas ainda houvesse, ao universo dos habituais inquilinos daquelas paragens e instituições. Não se está a ver nenhum outro presidente efetivo ou potencial a comportar-se daquela forma. Mas, aí está a força (e a fraqueza) dele. Ao desconhecer o mínimo respeito pelas instituições e ao apelar aos seus apoiantes à mesma atitude, ele encontra ouvidos nos que entendem que as instituições e respetivos inquilinos habituais não os respeitam também.

A cura para este mal não passa por mais polícia, independentemente de neste caso ter sido insuficiente. A solução depende das elites e do seu trabalho responsável e sério de credibilização, de escuta, de humildade e de exemplo. Deixar arrogantemente a "escumalha" à deriva é armazenar pólvora que só espera a faísca, que se pode chamar Trump ou outra coisa qualquer, nos EUA ou noutro local do planeta. Vejam o perfil e curriculum dos atuais líderes que por aí andam e ouçam-nos a pedir respeito…

09 novembro 2020

70 Milhões de Parvos

 


Ao contrário dos golpes palacianos, ou de caserna, em que ocorrem descontinuidades no poder, sem que a rua participe ou saiba bem o que se passa, nas revoluções há uma ignição, eventualmente provocada por uma questão secundária, mas que vai encontrar eco numa parte significativa da população, recetiva a uma mudança de regime, e que assim se consolida.

Acho que estamos a assistir a uma revolução, não necessariamente ao longo de uma simples madrugada, nem em direção a amanhãs entusiasmantes. Está em curso uma mudança significativa de valores e de princípios valorizados pelos eleitores. Os 70 milhões que nos USA votaram num parvo, não são todos parvos, basicamente não queriam mais do mesmo. Numa versão mais suave do que já foi, o “Front Nationale” francês arrisca-se a eleger o próximo presidente do país. Isto era um cenário de pesadelo considerado absolutamente impossível não há muito tempo. E mais exemplos não faltam.

A eleição de Biden (a derrota de Trump) é algo de positivo, mas não é nem deve ser considerada um alívio porque não consolida nada. A revolução contínua e não serve de muito condenar as faíscas quando se é descuidado com a pólvora.


13 outubro 2020

O dia em que o PS morreu


 

Após o 25 de Abril, o PS tornou-se rápida e claramente o maior partido português. Para lá da empatia e bonomia de Soares, havia um grande desejo de mudança, de progresso e de justiça social, mas em contexto ocidental. Sábia a escolha do povo. Era a vontade de uma coisa assim tipo Suécia, quando o outro partido, que na altura ainda não se chamava social-democrata, para muitos cheirava um pouco à antiga senhora.

Hoje, esse PS está morto e não é questão de lamentar a ausência dos fundadores, não foram santos e limpos como muitos imaginam. E ao executor darei um nome: Sócrates. Se não há virgindade antes do mesmo, a escala deste é outra e a sua herança assusta. Independentemente do resultado do processo que corre na justiça, ele está politicamente acabado, mas tanta trafulhice não é nem pode ter sido obra de um homem só, por mais poderoso que fosse. Houve Sócrates e houve companhia.

E à morte darei um momento. Quando António José Seguro foi saneado pela companhia.

E hoje podemos passar a certidão. As mudanças na Procuradoria Geral da República e no Tribunal de Contas, para lá de coisas de importância formal menor, como Vitor Escaria no gabinete do PM, atestam que a companhia está pujante e bem instalada. Atestam que o se o cancro até pode ter nascido com Sócrates, não morreu com o seu afastamento.

O PS, tal como muitos o viam em 1974, está definitivamente morto e ai, ai os populismos! São uma séria ameaça.

Imagem: versão impressa no Público de hoje.


25 novembro 2019

Deveria ser consensual



O 25 de novembro é uma data importante na história recente do país, como muitas outras. Quem quiser ver de perto o que se passou no verão desse ano de 1975, não tem dificuldade em concluir que o caminho em curso era o da não liberdade, da não democracia, do não respeito pelos direitos humanos. Era o caminho para uma tirania, cujos exemplos e experiências, terminaram sistematicamente em várias formas de miséria.

Pela lógica seria, portanto, uma data pacífica e consensual. Não deveria servir de arma de arremesso, ou, se tal fosse tentado, o projétil nada atingiria, sendo disparado no vazio. Surpreende-me e preocupa-me que em 2019 essa data possa ser ainda polémica e que ainda haja projeteis e feridos. Sinceramente, alguém defender o que supostamente se perdeu com o 25 de novembro é muito preocupante. Pelo mais básico respeito pela liberdade e pela legitimidade democrática, deveria ser consensual.

12 outubro 2019

O problema do populismo


Não faltam demonstrações de desalento e de preocupação pela entrada do “Chega” no Parlamento, um pouco como alguém se lamentar de ter encontrado um rastro de bicho de madeira em casa, potencialmente ameaçador para a saúde de toda a mobília.

O Chega e outros populistas podem efetivamente minar o regime democrático, para lá do que ele já foi minado pelos menos populistas. Se populismo é apresentar aos eleitores receitas falsificadas, todos são maus. Quanto ao extremismo, não encontro nocividade acrescida no ser de direita. Nunca entendi porque se tolera mais Staline, Mao e Fidel do que Hitler, Mussolini e Franco.

O problema da implantação e do crescimento dos populistas não está, no entanto, nas mentiras que dizem; está precisamente nas (algumas) verdades. Os partidos tradicionais demitiram-se de ser sérios. Pelo politicamente correto divorciado da realidade, pelas desonestidades de todo o tipo, pela negação das evidencias e dificuldade em assumir e corrigir as falhas… demasiadas coisas cheiram mal nos habituais inquilinos do poder.

Não é, portanto, difícil apontar meia dúzia de verdades incómodas, para as quais os eleitores estarão recetivos. É fácil, a seguir, enxertar nesse discurso uma dúzia de meias verdades e duas dúzias de mentiras descaradas.

O bicho da madeira aparece porque não se arejou suficientemente a casa. Não se tendo tido o cuidado de manter um ambiente são, não vale a pena agora chorar pelo apodrecimento adicional. Não reconhecer e não tratar a causa fundamental apenas agrava.

21 maio 2018

O consenso que falta?


É consensual que a Líbia sem Khadafi ficou e permanecerá durante bastante tempo ingovernável. É consensual que o Iraque sem Saddam Hussei ficou ingovernável e veremos até quando. É consensual que Bachar Al Assad na Síria está muito longe de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos direitos humanos e é também consensual que, caindo, iremos ter outro país ingovernável. Só para compor um pouco mais, e sem encerrar o tema, podemos acrescentar a este ramalhete Mohamed Abdelaziz da Mauritânia e Omar al-Bachir do Sudão.

Podemos recordar o consenso de que a colonização não é alternativa, não era justificável nem aceitável, apesar de… apesar do pequeno detalhe que as pessoas (não as ideias), as Pessoas, Homem, Mulheres e Crianças de muitos países viveriam hoje melhor, com mais qualidade de vida, edução e cuidados em geral sob um regime colonial do que no seu atual. Falo das Pessoas, não das Ideias.

No meio de tanto consenso fica, portanto, uma questão em aberto: como pode ser? Se decapitar o ditador não resolve, se não é aceitável deixá-lo ficar a praticar barbaridades, se a administração por terceiros não é correta, qual a solução que permita viver Dignamente as Pessoas?

Dizem que é a democracia. Pelo princípio sim, mas na prática não chega registar partidos e contar votos, enquanto não houver consistência cívica suficiente. Como se chega lá: com tempo, esforço, sensibilização, responsabilização, coisas que não estão ao alcance de um ditador nem de uma democracia imberbe. E mais não digo…

09 abril 2018

O Povo é sereno…?


Estávamos no ano quente de 1975 e durante uma manifestação no Terreiro do Paço, de temperatura diferente da então dominante nas ruas, ouviram-se umas explosões, sem se entender de onde nem como. Na tribuna, Pinheiro de Azevedo ia tentando controlar a situação dizendo “O povo é sereno, o povo é sereno!”. Era um daqueles momentos quando umas palavras noutro sentido facilmente lançariam uma vaga de estragos e violência. Costuma-se dizer que a multidão é acéfala, que quando está na rua e minimamente excitada, umas palavras de ordem incendiárias encontram sempre recetores que a amplificam, desencadeando uma reação em cadeia, descontrolada. As palavras de Pinheiro de Azevedo naquele momento buscavam precisamente desarmar essa carga na multidão e evitar os estragos.

Nos tempos que correm, as concentrações já não são apenas, nem principalmente, físicas e presenciais. Nos fóruns, nas caixas de comentários das páginas de informação ou de opinião e nas redes sociais encontra-se muita gente e, não raro, assistimos a um comportamento que lembra essa acefalia da turba. Seja pelas maldosas (criminosas?) notícias falsas, pelos discursos faciosos, pelas visões rancorosas, pela falta de educação ou pela arrogância da ignorância, não falta combustível a excitar a multidão e esta responde. Está bem que nesse mundo virtual não se sai em magote pelas ruas e praças a quebrar e a incendiar, mas há fraturas e terra queimada que, não sendo físicas, não deixam de ser reais e seriamente prejudiciais ao bem viver em respeito pela pluralidade.

Aqueles que vêm a realidade filtrada pela simpatia, acharão cada fenómeno positivo ou negativo conforme afetar a sua causa ou a do inimigo… e não esquecerão de amplificar, coisa de garantir que funciona para o lado que interessa.

Sendo que a base do fenómeno, o meio em que ocorre, é uma realidade irreversível, como iremos ficar? Haverá um aumento de maturidade e um esmorecer dessa excitação agressiva ou passaremos definitivamente a viver num mundo mais intolerante e irrespirável? O futuro o dirá, sendo que é construído por nós todos. Poderemos sempre dar uma ajudinha… para o mal ou para o bem.

14 dezembro 2017

Aqui, não se discute política … nem futebol!


Tenho uma vaga memória destas palavras de ordem, de tempos longínquos, quentes, onde a discussão de tais temas podia ser assunto “fraturante”, sendo de evitar para uma boa convivência entre amigos e familiares.

Deixemos o futebol sossegado, pode-se pode viver muito bem passando ao lado do mesmo. Precisamos apenas de esquecer o facto de os nossos impostos pagarem “dipositivos de segurança”, cuja necessidade é consequência da agressividade e da falta de respeito nas “discussões” entre especialistas arruaceiros, alguns até supostamente gente responsável. Nunca discuti futebol “a sério” e, se me identifico com a cidade do Porto, tenho alguma alergia ao “espírito” do FCP, precisamente pela forma como os seus dirigentes e apoiantes frequentemente o “discutem”.

Num encontro de ex-camaradas há pouco tempos atrás, soaram de novo as mesmas palavras de ordem, que eu julgava enterradas, principalmente para a política, por supostamente estarmos hoje numa sociedade mais madura, habituada a um pluralismo de opiniões e a alternância de políticas, num cenário bastante diferente do da década de setenta.

Será saudável esta censura da discussão pública, em troca da manutenção da cordialidade nas relações familiares e sociais? Pode, efetivamente, ser um mal menor, mas não deixa de ser um mal e grave! O exercício da cidadania plena passa por questionar e discutir a política, as opções e os atos de quem nos governa. É evidente que dentro de um natural pluralismo, haverá visões diferentes. A incapacidade de debater objetivamente essas diferenças, pela base, pela factualidade e, em vez disso, cair no discurso grosseiro e agressivo, procurar silenciar a toda a força a discordância ou fechar a discussão invocando um simples adjetivo, supostamente desqualificante… não é próprio de uma sociedade civilizada.

Estamos a regredir, a avançar numa direção triste. A intolerância autoritária começa no verbal e acaba onde a deixarmos acabar. Pode ser num sítio feio. Eu gostaria de enviar a fatura desta deriva a quem de direito. Sugestões?