11 outubro 2026

Genocídio, disse ela


Se um individuo apunhala outro na via pública, matando-o, é um crime, condenável, contra o qual podemos expressar a maior condenação e repugnância. Tal não autoriza que o apelidemos de “serial killer”, porque, a ser assim, face a um verdadeiro como lhe iriamos chamar? Supra serial Killer? Naturalmente que esse criminoso nunca iria a tribunal e seria condenado por essa acusação excessiva.

Podemos considerar que Israel cometeu crimes em Gaza e manifestar condenação e repugnância. No entanto falar em genocídio neste contexto é brincar com o peso das palavras, dá certamente grande impacto mediático, mas genocídio não é uma caraterização subjetiva. Está bem definido, desde 1948.

Há três tipos de enquadramentos para estas situações, relacionadas com atos de guerra fora das normas. De uma forma simplificada

  1. Crimes de guerra: Ataques deliberados a civis ou a militares fora do teatro de guerra, sem objetivos puramente militares
  2. Crimes contra a humanidade: Ataque generalizado e sistemático contra uma população exclusivamente civil
  3. Genocídio: Quando há intenção deliberada de aniquilar um grupo étnico, racial ou religioso, de forma organizada e sistemática.

Na altura isto ainda não tinha sido definido e tipificado, mas, por exemplo, os bombardeamentos das cidades ingleses, alemãs ou japonesas durante a II Guerra Mundial hoje seriam provavelmente classificados como crimes contra a humanidade, já que numa grande parte não existiam objetivos militares associados aos bombardeamentos. Hiroshima foi muito brutal, mas não foi um genocídio.

O que se passa em Gaza, mesmo havendo muitas vítimas civis inocentes, não pode ser chamado genocídio, uma vez que as ações em causa, por condenáveis que sejam, não visam a exterminação dos palestinianos. Se tal fosse a intenção de Israel, muitas mais vítimas existiriam e, mesmo na Cisjordânia, apesar dos condenáveis colonatos e dos incidentes que ocorrem, não há nenhum movimento organizado para liquidar tudo o que seja palestiniano. No próprio Estado de Israel existem cidadãos palestinianos, árabes e muçulmanos, com todos os direitos, incluindo representação parlamentar.

Sobre Gaza, entre o crime de guerra e contra a humanidade, talvez seja o primeiro caso. A forma como o Hamas cobardemente se infiltra na população, fazendo quarteis em escolas e hospitais, torna difícil defender que os alvos de Israel sejam exclusivamente civis.

Acusar sim, mas com justiça.

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