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29 agosto 2025

Ser comunista (III)

 3)       Marxismo hoje

Quase dois séculos decorridos desde o estabelecimento das teorias de Karl Marx, os regimes políticos na Europa/Ocidente estabilizaram nos seus fundamentais e algumas experiências de marxismo foram realizadas por esse mundo fora, todas indiscutivelmente sem sucesso.

Deixando de lado as derivas criminosas como o estalinismo ou os khmers vermelhos, o certo é que a coletivização e estatização da economia não trouxeram prosperidade em nenhuma latitude onde foram testadas, pelos menos comparando com os países liberais e capitalistas. Funcionário dificilmente rima com inovador.

Alguns partidos socialistas europeus, que até incluíam o marxismo na sua certidão de nascimento, fatalmente colocaram-no na gaveta ao chegarem ao poder e ao serem confrontados com a realidade. Sim, falo da famosa frase de Mário Soares e também, por exemplo, da mais recente metamorfose do Syriza na Grécia.

Ninguém, no poder, defende largos programas de estatização da economia. As nacionalizações que vemos são boias de salvamento pontuais, lançadas a empresas “estratégicas” em dificuldade (por norma com sucesso muito questionável), mas não parte de uma política intervencionista geral.

Sem pôr em causa o modelo fundamental, os inquilinos do poder anunciam umas nuances publicitárias, a direita será mais amiga dos ricos e a esquerda dos pobres. A questão fundamental aqui é se o objetivo principal é acabar com os ricos ou acabar com os pobres.

As previsões de Marx de que quanto mais capitalismo, mais condições e probabilidades de uma revolução socialista também falharam redondamente. É a pobreza que cria instabilidade, não a riqueza. Apesar de algumas injustiças sociais que existem, as condições relativas da “classe operária” não têm comparação com as do século XIX e não faltam exemplos de operários que com capacidade e iniciativa se tornaram empresários, criando riqueza sem precisarem de lançar revoluções disruptivas.

O Estado tem um papel fundamental a desempenhar, certamente, mas de regulação e supervisão, não de propriedade e de gestão direta.

De um ponto de vista estritamente racional, continuar hoje a defender a viabilidade e a bondade do modelo marxista, não está ao mesmo nível de defender que a Terra é plana, mas pouco menos, tantas são as evidencias em sentido contrário.

Então, se não é por racionalidade, será por emotividade?

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06 dezembro 2023

Por outros dias

Por estes dias celebrou-se um aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro. Pondo de lado a vergonhosa incapacidade das instituições em investigarem e apurarem a causa direta e a fundamental do atentado (ver aqui), pode ser um momento de reflexão sobre o legado e personalidade de uma figura ímpar e determinante numa fase critica da história do país. O livro acima representado é uma interessante e instrutiva visita à sua vida e àqueles tempos.

Na altura era atacado como potencial fascista, quando o seu combate era o de retirar a tutela dos militares sobre os partidos, extinguir o Conselho da Revolução, rever a Constituição, e o aí decretado “caminho para o socialismo", e permitir a reversão das nacionalizações brutais de 1975. Visto a esta distância, estava errado? Certamente muito mais anti ditatorial do que aqueles que disso o acusavam.

No ponto de vista pessoal a integridade e frontalidade como assumiu a sua vida pessoal e amorosa são ainda hoje motivo de admiração. O grande progressista Mário Soares não hesitou em lhe dar uma canelada quanto à sua incapacidade de “governar a sua família”. Posteriormente, como primeiro-ministro, recusou-se a fazer passar uma alteração legislativa que lhe resolveria o problema do seu divórcio pendente, para não ser simultaneamente decisor e beneficiário.

Não convém olhar para Sá Carneiro como um imaculado herói cuja morte prematura santifica. No entanto há no seu desprendimento, sinceridade, irreverencia e clareza de princípios um exemplo que é importante realçar sempre e especialmente nos tempos que correm. Recomendo o livro.

 

13 julho 2022

Poder – a disputa e o exercício


Uma coisa é disputar o poder e defendê-lo quando ele é precário; outra coisa é exercê-lo quando na respetiva posse. Uma coisa é disputar o leme; outra coisa é navegar.

Há vários exemplos de líderes que se aplicaram com sucesso na conquista e que falharam redondamente depois. Há algum tempo, Cavaco Silva recordou a herança da sua maioria absoluta. É certo que se trata de uma figura pouco empática. Mais rapidamente se perdoa a Soares injuriar um polícia no exercício das suas funções do que a Cavaco por comer bolo-rei atabalhoadamente. Inquestionável é constatar a herança significativa na organização do país deixada por este último.

Penso que estamos atualmente a viver um momento em que, conquistado o poder e anulados os inimigos, o governo está perdido sem saber como o exercer. Que ficará para a história como legado de António Costa, de positivo? Em que aspetos o país no final da corrente legislatura estará estruturalmente melhor do que estava em 2016? Tenho dificuldade em hoje identificar e sérias dúvidas sobre o que possa ainda chegar. Espero estar enganado.

12 novembro 2020

Triste podium


O livro de António Barreto, “Salazar, Cunhal e Soares” é um interessante retrato dos três políticos que mais marcaram o século XX português. Não havendo muitas dúvidas sobre a pertinência da escolha, uma análise do perfil e da obra dos mesmos acaba por ser bastante deprimente sobre as grandezas e pequenezas (mais estas…) da nossa história recente e a herança que nos deixaram.

Para começar, a longevidade do Sr de Santa Comba. Vamos apostar que, sem o desgaste da guerra colonial, o regime não tinha caído, pelo menos naquela altura, pelo menos daquela forma tão rotunda? A esperteza oportunista em que tudo é pequenino e as lideranças se querem autoritárias, avaras e patriarcais não se institui em credo nominativo. Não há neossalazaristas que se vejam, mas o povo revê-se e aceita com alguma facilidade um líder austero e ditador, que faz e desfaz as regras como entende, controlando a distribuição de uns (poucos) rebuçaditos aos meninos. Um severo ministro das finanças é uma instituição recorrente e a respeitar.

Cunhal, paradoxal. Um partido dos que mais se proclamavam ao serviço do povo e do país, tentou anular a democracia e colocou os interesses de uma potencia estrangeira acima dos interesses nacionais como nenhum outro. A famosa coerência que tantos louvaram tem outro nome: teimosia cega e incapacidade/ desonestidade, típicas do maior cego. Certamente que se o “processo” não tivesse abortado em 1975, Cunhal teria ficado para a história numa galeria bastante diferente. Muito interessante o relato de Jorge Miranda sobre os tempos conturbados “Da Revolução à Constituição - Memórias da Assembleia Constituinte”.

Soares: a empatia e o mérito de ter lutado por um regime muito mais próximo do desejado e acarinhado pela larga maioria do povo, que se queria ver num modelo progressista, mas em meridiano mais ocidental. Este enorme espaço da esquerda moderada foi liderado por Soares, aproveitando também o trabalho de Salazar, que conseguiu colocar indeléveis dúvidas no povo sobre a natureza dos pequenos-almoços comunistas e a real harmonia dos respetivos amanhãs. Para lá deste Soares lutador pela democracia, há brigas a mais na sua vida e realizações a menos, distinguindo-se mais na disputa pelo leme e muito menos na qualidade da navegação, uma vez ao comando. Quanto ao seu lado lunar, não se fica a olhar para Soares da mesma forma após ler “Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido” de Rui Mateus.

E vão três.


13 outubro 2020

O dia em que o PS morreu


 

Após o 25 de Abril, o PS tornou-se rápida e claramente o maior partido português. Para lá da empatia e bonomia de Soares, havia um grande desejo de mudança, de progresso e de justiça social, mas em contexto ocidental. Sábia a escolha do povo. Era a vontade de uma coisa assim tipo Suécia, quando o outro partido, que na altura ainda não se chamava social-democrata, para muitos cheirava um pouco à antiga senhora.

Hoje, esse PS está morto e não é questão de lamentar a ausência dos fundadores, não foram santos e limpos como muitos imaginam. E ao executor darei um nome: Sócrates. Se não há virgindade antes do mesmo, a escala deste é outra e a sua herança assusta. Independentemente do resultado do processo que corre na justiça, ele está politicamente acabado, mas tanta trafulhice não é nem pode ter sido obra de um homem só, por mais poderoso que fosse. Houve Sócrates e houve companhia.

E à morte darei um momento. Quando António José Seguro foi saneado pela companhia.

E hoje podemos passar a certidão. As mudanças na Procuradoria Geral da República e no Tribunal de Contas, para lá de coisas de importância formal menor, como Vitor Escaria no gabinete do PM, atestam que a companhia está pujante e bem instalada. Atestam que o se o cancro até pode ter nascido com Sócrates, não morreu com o seu afastamento.

O PS, tal como muitos o viam em 1974, está definitivamente morto e ai, ai os populismos! São uma séria ameaça.

Imagem: versão impressa no Público de hoje.


13 setembro 2017

A Esquerda em regressão democrática

É um título que certamente dará direito a etiquetarem-me de pafioso e outros mimos, mas adiante…

Desde há vários anos que os partidos do poder em Portugal (e não apenas) se tornaram bastante próximos nas suas práticas (incluindo nas más). Em parte, por acomodação, mas, na minha opinião, fundamentalmente por o modelo social em que vivemos estar estabilizado e poucos estarem verdadeiramente interessados em aventuras extremas. Há quem vote em extremistas, mas, muitas vezes, apenas como protesto e com a convicção e a esperança de que estes nunca chegarão mesmo ao poder. 

Depois das eleições de outubro de 2015 algo mudou. Temos um governo de “esquerda” que, supostamente, estará a implementar politicas significativamente diferentes das do consulado de “direita” anterior. Ora bem, isto é um embuste. O governo sob a troika foi o que foi e seria o que foi, independentemente de quem governasse – vejam o exemplo do bravo Tsipras. Os tempos estão substancialmente melhores do que em 2011, permitindo algumas flores, algumas faturas das reversões chegarão, mas estamos na fase do folgar as costas. 

O que me choca neste momento é que no frenesim de “afirmar uma diferença”, muito mais de contexto do que de “política” (ou a bancarrota de 2011 foi devida à conjuntura internacional e as melhorias de 2017 fruto desta governação?), não há um mínimo de serenidade e de seriedade na discussão pública. Vai tudo a pontapé. Passos Coelho, por quem não tenho apreço especial, é depenado todos os dias (se está politicamente morto, podiam deixá-lo jazer em paz), Francisco Assis é delapidado cada vez que abre a boca, Cavaco Silva falou uma vez e foi um “Ai Jesus” (Mário Soares, esse sim, tinha estatuto para dizer o que lhe apetecesse, todas as semanas). 

Ou seja, uma voz que apresente uma visão diferente e crítica, não é analisada e contestada pelo conteúdo dos seus argumentos. É etiquetada, insultada e “está tudo dito”. Chama-se a isto intolerância e é bastante antidemocrático. 

Os que agora me estão a insultar e a catalogar de pafioso, podem recuar e ler o que fui escrevendo entre 2011 e 2015. Se quiserem, é claro.

02 setembro 2017

Assim estamos


Não tenho nenhuma simpatia por Cavaco Silva. Acho-o culturalmente mal preparado e com grandeza curta. O episódio das escutas foi das coisas mais grotescas dos últimos anos da nossa vida política e o seu discurso de vitória na reeleição foi assustadoramente abusivo. Tem amigos com casos de polícia, sim, mas nem sequer é campeão nesse campo, dentro dos ex-Presidentes da República.

Há uns dias saiu do retiro para fazer umas declarações públicas, à Cavaco, que não deveriam surpreender muita gente. Podia ter falado de outras coisas, noutro registo, mas foi coerente com o que nos habituou. Ora bem, se é verdade que o conteúdo das suas afirmações é razoavelmente assertivo e merecedor de atenção e discussão, são muito curiosas as criticas que ignoram o fundo, centrando-se no argumento de que “um ex-PR não pode/deve falar assim” e vindas daqueles que toleravam e até aplaudiam todas as diatribes de Mário Soares. Ou seja, clubite acrítica, uma vez mais.

Assim estamos e assim não andamos.


Foto: Lusa

07 janeiro 2017

Mais do que Soares, o Povo

Não é por Mário Soares ter falecido que muda a minha opinião sobre ele. Se posso marcar uma mudança, essa terá ocorrido após a leitura dos “Contos Proibidos” de Rui Mateus, um livro muito incómodo para o PS. Certamente que da sua intervenção na vida política nacional ficará como mais marcante a sua intervenção no verão de 1975 e o travar da “ditadura do proletariado”. Soares teve o sentido de oportunidade para ocupar e liderar o espaço existente por todos os aspirantes a uma democracia em liberdade, identificados com a esquerda, mas frontalmente opostos e desconfiados dos que comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Entendo que ele teve a capacidade de identificar esse movimento e de o liderar, mas a vontade de viver em liberdade estava no povo, não foi ele quem a criou. A isso juntou-se um enorme e brutal carisma e capacidade de criar empatia com o povo.

Tecnicamente, Mário Soares foi um mau primeiro-ministro; muitas vezes arrogante mais do que bastaria e, principalmente, rodeado de amigos com negócios muito suspeitos. Donde que, vejo Mário Soares como um homem de poder e não de princípios. Mas, enfim, o povo precisa de reisinhos e a comunicação social aproveita e vende.

28 abril 2015

25 de Abril de 1975

Uma data tanto ou mais importante do que a do ano anterior… Sem o Abril de 74 não haveria o de 75, mas este condicionou, para bem, o futuro do país. Uma participação acima de 90%, com longas filas de manhã cedo de quem fazia questão de ir votar e deixar registada a sua opção, são imagens impressionantes e inesquecíveis (imagem recolhida da imprensa da época).

Se os militares em 74 fizeram a revolução e o povo na rua a confirmou, os eleitores em 75 fizeram questão em afirmar que a última palavra era a deles. A grande surpresa, ou não, foi o PC e restantes partidos à sua esquerda terem ficado, todos somados, pelos 20%. O grande vencedor foi o PS, mas não Mário Soares especialmente. Quem votou PS queria mudança e desconfiava da esquerda “estalinista” (e ainda mais de outros “…ismos”), como também desconfiava da genuinidade democrática dos partidos à direita (nalguns contextos eles foram “habitados” por gente com interesses do antigamente).

O 25 de Abril de 1975 retirou legitimidade à chamada “legitimidade revolucionária”; o 25 de Novembro acabou com ela de vez. Para os que consideram esta data como a desgraça final da “sua” revolução, não deixa de ser curioso que Ramalho Eanes, o líder do 25 de Novembro, tenha sido eleito Presidente da República logo a seguir, em 1976 com 62% dos votos…

A democracia é o pior sistema, com excepção de todos os outros…

09 dezembro 2014

Questão de estatuto ?

Recentemente falou-se muito de Mário Soares. Eu considero que a avaliação da sua contribuição para a consolidação da democracia em Portugal, se bem que relevante, está, em geral, algo inflacionada. Também não entendo o mutismo da comunicação social sobre tantas zonas escuras associadas a ele e aos seus amigos, parece que nunca existiram.


Para lá do conteúdo das suas intervenções, polémicas e questionáveis, o que me choca, e muito, é aquela afirmação, recorrente, de que o seu estatuto lhe permitir dizer o que pensa. Isto choca-me porque se há algo de básico numa sociedade livre é cada qual poder dizer o que pensa, sem necessidade de usufruir de um estatuto especial para isso.

Se é necessário ter sido primeiro-ministro, presidente da República e mais de 80 anos para se poder dizer o que se pensa, é muito grave. Assumir isso explicitamente, com toda a naturalidade, é assumir que a nossa sociedade está podre, é hipócrita e refém de interesses que amordaçam a consciência, a iniciativa e, já agora, como consequência, condenam o progresso.

Não digam que a culpa é da troika ou exclusivamente dos malvados da esquerda ou da direita, conforme o ponto de vista. A culpa está em todas as latitudes e achar esta situação “normal” é uma forma de cumplicidade. O meu avô não alcançou um milésimo da notoriedade de Mário Soares e, no entanto, teve sempre estatuto para dizer frontalmente o que pensava.

27 novembro 2014

Uma questão de tempo

Se a prisão no aeroporto de José Sócrates era necessária, não sei. Se a sua prisão preventiva actual se justifica, também não sei. Quero dar o benefício da dúvida à justiça, contrariamente a muitos que não hesitam em afirmar publicamente em alta voz que está errado.


Quanto à intervenção de Mário Soares a pôr as mãos no fogo pela inocência de Sócrates e a etiqueta-lo como “primeiro-ministro exemplar”…. Ou está mesmo senil, ou a militância justifica a desonestidade intelectual, ou o conceito de inocente para ele é algo diferente do do comum dos mortais… Digo e repito: a real acção de Mário Soares está ainda por escrever e é uma história muita mais feia do que a maioria das pessoas pensam.

Só falta mesmo é vê-lo dia a abraçar Alberto João solidariamente, quando este for perseguido pelos fascistas, perdão pelos juízes… haja tempo e lá chegará….ou vice-versa.

25 novembro 2013

Anarquistas, carbonários e Stravoguines

Não, não estamos bem. Temos uma terrível falta de liderança, de competência e de seriedade por parte de quem nos governa. Por acaso, no passado até vivemos algo idêntico, sem troika mas com FMI, e se é certo que com muito mais carisma, quanto a competência e seriedade… venha o Diabo e escolha! Dizem-nos então esses antigos protagonistas que estamos a entrar numa ditadura, que a violência é inevitável e que uma revolução está aí ao virar da esquina. Presumo que a larga maioria dos portugueses tem inteligência suficiente para encolher os ombros a tamanho desplante fruto de senilidade ou duma tentativa de ajuste de contas pouco digno.

Acreditar que uma solução posso passar pela bastonada é falta de discernimento e/ou de seriedade e, principalmente, brincar com coisas muito sérias e perigosas! Eu sei que os ideais e acções dos anarquistas carbonários e afins do fim do século XIX podem parecer muito românticos e excitantes vistos à distância. Só que nas revoluções há gente que morre, inocentes que são prejudicados e oportunistas que emergem. Do que precisamos é de liderança e não certamente de uma liderança que se imponha à bastonada!

Gosto muito de Dostoivesky e acho muito interessante a figura de Stravoguine, mas passando à realidade fico-me pelo pragmatismo do Fernando Pessoa: “Num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, e romantismo, sim, mas devagar...)”.

Vindo da direita ou da esquerda, com maior ou menor carisma e cultura dos intervenientes, ficou provado que realmente há vida para lá de muitos anos de défice: chama-se troika!

05 maio 2011

Ditadura ou solução ?


“Cachucho não é coisa que me traga a mim mais novidade do que lagostim”. Assim começava o “FMI” de José Mário Branco escrito em 1979 após a primeira passagem da instituição por cá em 1977. Ouvi-o ao vivo no início dos anos 80 num Coliseu, “despejado” pelo autor de uma forma particularmente intensa e dramática. Para uma certa esquerda ainda na ressaca do Novembro de 1975, o FMI se não era o diabo capitalista em pessoa, estava pouco longe. Recordo também a capa, foto acima, do livro de Rui Mateus, “Contos Proibidos”, em que, muito colegialmente sentados numa escada, ele e Mário Soares recebem umas dicas de Helmudt Schmidt, o único que tem papeis nas mãos, na preparação das negociações com o FMI que se aproximavam. Recordo ainda mais recentemente Manuela Ferreira Leite ter dito que para endireitar o país era necessário suspender a democracia por 6 meses.

E recordo tudo isto ao consultar as 34 páginas do documento elaborado pela troika FMI/BCE/CE. Aproveito para sugerir aos interessados que o consultam na íntegra e no original, em vez de andarem atrás dos títulos que os média vão libertando de uma forma quase avulsa, seguidos dos variados palpites opinatórios amadores ou profissionais da praxe.

O conteúdo do documento pode ser bom para Portugal, mas para quem nos governou é arrasador. Um mínimo de pudor deveria abster a classe política de se congratular com o que quer que seja. Não está em causa o ser “melhor do que as piores previsões”. Está em causa é como é possível que haja tanto por fazer e que não tenha sido feito até hoje? Depois de tantos anos de apregoada boa governação e contenção, vem uma equipa a Lisboa e em apenas duas semanas e meia detecta e decreta tudo isto?

Não vislumbro a marca demoníaca imperialista do FMI que nos quer pôr de rastos como a esquerda tanto gosta de anunciar. Muito mais submissão foi e é pedida pelos nossos parceiros europeus ricos, algo fartos de nos pagarem as festas. Não terão a razão toda, mas alguma.

Este documento se não é um programa de governo completo, é-o pelo menos para uma série de capítulos sensíveis. Como é que nenhum governo nosso e democrático conseguiu avançar com uma boa parte destas medidas antes, apesar de toda a necessidade óbvia e visível? Incompetência, irresponsabilidade, rendição a interesses que não o público ou… porque se o tivessem feito teriam perdido as eleições? De todas as hipóteses, a última é a menos grave, mas façam-me um favor: tenham pudor e não sorriam nem mostrem orgulho com o que temos à nossa frente.

No fundo, Manuela Ferreira Leite não tinha razão porque errou no prazo. Não vamos ter seis meses mas sim três anos sem que a “democracia” bloqueie as reformas necessárias. Foi preciso termos falido para o conseguirmos, mas esperemos que no fim saiamos melhor. Se aprenderemos ou não, isso já é outra questão.

18 julho 2010

Amor com amor se paga

Presidenciais 2006

O candidato oficial do PS, Mário Soares, não faz o pleno do eleitorado do partido, nem do chamado flutuante (a que eu prefiro chamar eleitorado crítico). É ultrapassado e humilhado por um independente, Manuel Alegre. Há uma franja do eleitorado que não se revê nem em Alegre nem em Soares e dá a vitória na primeira volta a Cavaco Silva, tornando-se este o primeiro Presidente da República eleito depois do 25 de Abril apoiado oficialmente apenas pela direita.

Presidenciais 2011
O Presidente em exercício, que parece ainda não ter entendido bem a sua função e o que se espera dele, esbraceja quase desesperado para não ter a humilhação de ser também o primeiro a não ser reeleito para o segundo mandato. Bastaria ao PS ter apresentado alguém como Jorge Sampaio, António Guterres ou Jaime Gama para Cavaco já ter as malas feitas. Mas não. O anterior independente, Manuel Alegre, é agora o oficial do PS mas, por motivos diversos, também não fará o pleno. Mário Soares ainda não digeriu a humilhação e não o apoia. Parece mesmo é desejar um “Manuel Alegre” para o Manuel Alegre actual.

Se Fernando Nobre não fazia sombra suficiente, surge agora Defensor Moura que anuncia só querer encher a actual terra de ninguém à direita de Alegre e assim impedir nova vitória de Cavaco Silva à primeira volta. A história não se repete porque da segunda vez é a farsa.

Resumindo e concluindo: vamos ter umas presidências bastante pobrezinhas...

16 novembro 2005

Contos Proibidos

Num país em que o passado dos políticos é tão escrutinado que até se descobre o escândalo de uma “sisazita” que não foi paga há uma dúzia de anos, é assustador o silêncio de ontem e de hoje sobre este livro de Rui Mateus de 1996: “Contos Proíbidos – Memórias de um PS Desconhecido”.

Obviamente que é um livro a ler com prudência. Foi escrito por alguém ressabiado, abandonado e atirado pela janela fora pelos seus companheiros de estrada.

No entanto, tem demasiadas referências factuais para poder ser rejeitado em bloco. E o que Rui Mateus escreve é arrasador para Mário Soares e para uma certa forma de ser “profissional da política”. Neste momento em que Mário Soares reaparece e se apresenta como providencial salvador da pátria, seria muito interessante que a nossa comumicação social, tão ávida de “escândalos”, como o da famosa sisa de Miguel Cadilhe, pegasse no documento, o trouxesse a público e ajudasse os portugueses a entender quem é e quem foi esta personalidade. Quais as suas motivações e o fundo das suas acções. Em resumo, que ajudassse a acabar com este mito terceiro-mundista.

02 agosto 2005

Para onde vai o Partido Socialista?


Eu tinha decidido que este governo era suficientemente credível para ser avaliado com distância e não no taco-a-taco dos comentários e esgrimas diários. Entendi que uma boa parte das medidas estavam na boa direcção e, se havia alguns erros, isso não era demasiado grave. Só conheço dois tipos de infalíveis, os que não decidem e os que não assumem. Também me irritam os comentadores de bancada, para quem o copo nunca está completamente cheio, e sempre prontos a gritar quando uma gota cai fora do mesmo. É infinitamente mais fácil comentar do que fazer.

Há, no entanto, dois factos recentes que me fizeram repensar. Um é a saída de Campos e Cunha. Foi pelo conteúdo ou pela forma? Se foi pelo conteúdo do que ele disse, é grave, porque será muito difícil não concordar com o mesmo. Se foi pela forma, poderá ser mais justificado porque os jornais não são necessariamente os fóruns em que os membros do governo devem introduzir as suas divergências. Dizer aos portugueses que foi por “motivos familiares”, é chamar-lhes burros e, muitos, não o apreciamos. Será que com estas rotações ainda vamos ver Jorge Coelho chegar ao governo?

O segundo facto é à candidatura de Mário Soares à presidência da República. E já nem falo da idade. Falo do significado deste “ó tempo, volta para trás”. E que tempo foi esse! Li recentemente o livro de Rui Mateus que é absolutamente arrasador. Obviamente que tem que ser lido com distância. Foi escrito em circunstâncias especiais, não proporcionando isenção. No entanto, há nele demasiados factos, circunstâncias detalhadas e cópias de documentos para o podermos rejeitar em bloco.
Também me surpreendi muito que a Fundação Mário Soares se tenha posicionado num dos consórcios para o concurso de privatização da Galp. Sabendo que não há almoços grátis, sabendo que a fundação foi criada ainda com Mário Soares presidente da república, os portugueses gostariam de saber qual era o objectivo dessa participação, ainda que proporcionalmente pequena, e qual a origem desses fundos.