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22 maio 2026

Quando se desperdiça energia renovável


A energia elétrica tem a particularidade de necessitar de um ajuste permanente e instantâneo entre a produção e o consumo. Historicamente o parque produtor tinha flexibilidade suficiente para se conseguir esse equilíbrio com alguma facilidade. A produção eólica e principalmente solar vieram trazer uma fonte muito variável e de difícil controlo. Com o seu aumento, torna-se mais difícil fechar esse balanço. O apagão de abril 2025 parece ter sido a consequência de uma falha nessa gestão.

No entanto, nos períodos com excesso de produção e quando há energia a ser oferecida a custo zero e mesmo marginalmente abaixo de zero, os consumidores domésticos estão num tarifário de “pico” e a restringir o consumo. Há aqui algo que não faz sentido, já que os esquemas tarifários continuam a ser os herdados de outro século e de outra realidade.

Se as grandes empresas podem gerir dinamicamente o seu consumo e a sua fatura em função do preço real, seria lógico que a nível doméstico se criassem mecanismos e tarifas dinâmicas para que equipamentos tolerantes à intermitência como aquecimentos de água, climatizações e carga de veículos elétricos, por exemplo, pudessem estar informados e reagir automaticamente, aproveitando esses períodos de excesso de produção e esses preços baixos.

Comportaria alguns desafios técnicos e regulamentares (e de contra lóbi), se bem que a dificuldade não estará ao nível de um projeto Artemis. Permitira os produtores serem melhor remunerados, os consumidores pagarem menos e os reguladores terem uma dimensão de controlo adicional.

O que não faz sentido é estarem os consumidores a travarem consumos, porque o custo da energia é alto quando o sistema rebenta pelas costuras com excesso de oferta e são travadas e desperdiçadas capacidades de produção renováveis.



02 setembro 2025

Dust Bowl


O famoso romance de John Steinbeck, “As vinha da Ira”, começa com a partida de Tom Joad e família do Oklahoma pobre e arruinado, para a Califórnia, a suposta terra prometida.

O facto histórico por trás da ruína dos Joad e de muitos agricultores das planícies centrais dos USA, foi uma das maiores catástrofes ecológicas do século XX. A designação inglesa original é “Dust Bowl” e ocorreu nos anos 30 do século passado. Os detalhes do fenómeno podem ser facilmente encontrados na internet (sugiro aqui, donde retirei a ilustração acima).

Resumidamente, a sequencia começou com a instalação de colonos nessas planícies e a sua adaptação a terreno agrícola. Essa alteração arrancou a flora original, de raízes profundas, fundamental para a estabilização dos solos. De seguida vieram longas secas que transformaram o solo fragilizado em pó. Para acabar, ventos fortes arrastaram essa camada de poeira, empobrecendo ainda mais os terrenos e criando nuvens negras que duravam dias e percorriam enormes distâncias, uma catástrofe ecológica, económica e social enorme.

Como é evidente, a causa do problema e respetiva dimensão foi uma intervenção humana desastrada, que a natureza não perdoou… Certo que há 100 anos talvez não se soubesse tanto como hoje e a própria difusão da informação seria mais limitada.

A ocorrer hoje, vai uma aposta 1 x 1 milhão em como a “responsabilidade” seria atribuída às alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa…? Sim, que as há, mas usá-las para desresponsabilizar incompetências e ignorâncias não é bom serviço à causa…

09 abril 2024

As alterações das causas


 Citando, disse-se hoje que:

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) decidiu nesta terça-feira que o caso dos seis jovens portugueses contra Portugal e outros 31 Estados é inadmissível relativamente à jurisdição extraterritorial dos restantes Estados mencionados no processo no combate às alterações climáticas…

Se é indiscutível que por várias razões devemos ter atenção e frugalidade relativamente à utilização dos recursos do planeta, já começa a ser irritante a facilidade com que se invocam as “alterações climáticas” para justificar tudo e mais alguma coisa.

Relativamente ao caso acima citado, do TEDH, os jovens portugueses terão atribuído às ditas cujas os brutais incêndios de 2017 e respetivas vítimas. Que me lembre, há incêndios florestais desde a década de 70 e a floresta/mato abandonada, limita-se a acumular matéria combustível até arder um dia e não é por um grau a mais ou a menos que as labaredas avançam ou recuam.

Quanto às vítimas, que o envergonhado e sumariamente detalhado monumento acima representado evoca, todos sabemos que há mais de falta de Proteção Civil, Siresp, coordenação e outras razões do que graus a mais.

Não misturem, por favor….

15 dezembro 2023

O soco da realidade


Dizia a Reuters um destes dias que neste ano de 2023 as estratégias ousadas dos fabricantes automóveis quanto a veículos elétricos (VE) levaram um soco da realidade. Aqui

E referem dois motivos que esfriaram expectativas, adiaram investimentos, reduziram os ritmos de produção e … preços. Um é obviamente o preço. Para lá dos clientes desafogados para quem 20 K Eur a mais ou a menos é um detalhe para o gosto de andar na crista da onda tecnológica e outros, também mediamente desafogados, que aceitam e lhes serve bem um VE como segundo carro… para o comum dos mortais o preço/capacidade conta muito, atendendo aos seus recursos limitados e necessidades de mobilidade.

Apesar de algumas benesses públicas, os VE ainda são caros e não sei bem se é aumentando ainda mais essas ajudas que a questão se resolve estruturalmente. Uma coisa é certa, muito sangue vai correr, muitos construtores irão sofrer (e fechar…), esperando que não cheguemos a ver um mercado basicamente achinesado e um pouquito teslizado…

O segundo ponto são as restrições do carregamento em termos de disponibilidade e tempo de espera, para quem não consegue vencer os percursos diários com uma única carga. Há uma dimensão de liberdade na utilização de um automóvel, e de prazer, que desaparece quando se passa o tempo a olhar para a evolução do nível da bateria e rezando ao santinho mais próximo para que o próximo posto de carregamento esteja ativo e disponível quando se lá chegar.

Outro ponto que ainda não está na primeira linha, mas que, já agora, acrescento eu, também vai chegar, são os custos de reparação/substituição de baterias após acidente. Substituir uma bateria amachucada por uma pancadita qualquer custa muito dinheiro e em solo ou partilhado em seguro, as faturas lá terão que ser pagas...

Atendendo ainda a todo o ciclo de produção de baterias, que de economia linear nada tem, atendendo à problemática da produção de energia elétrica que durante muito tempo não vai evitar a utilização de combustíveis fósseis… isto do acelerar a exclusividade dos VEs está um pouco coisa de bois à frente dos mesmos (com todo o respeito que merece a raça bovina).

21 outubro 2023

Contas no ambiente


É inquestionável que estamos a viver acima das possibilidades do planeta e algo tem que ser feito para garantir a sobrevivência e sustentabilidade do mesmo. É necessário mudar!

Essa mudança tem que ser racional, sustentada cientificamente e obviamente não religiosa. Há mudanças tecnológicas, mudanças de políticas e, sobretudo, mudanças de hábitos. Enquanto pensarmos que basta passar a uma tecnologia mais limpa e exigir legislação, não chega. Enquanto as tentativas de mudança forem pintadas com cores sectárias e radicais, não serão consensuais. Enquanto as exigências forem ingénuas e incoerentes não serão tomadas como sérias. Enquanto a frugalidade e a racionalidade na utilização de recurso não forem a prioridade de todos e da cada um, não há legislação que valha.

Dentro dos equívocos neste processo, está o proposto agravamento do IUC para os automóveis antigos. Em primeiro lugar, muitos desses proprietários não estão disponíveis para comprar um belo e reluzente novo elétrico por algumas dezenas de milhares de euros e não é este castigo que os vai motivar. Depois, certo que um carro com mais 15 anos polui mais ao km, mas a contas não acabam aí. Para o tipo de utilização típico destes “clássicos”, de dar umas voltinhas, o impacto é bem menor do fazer largas centenas de kms de lazer a 140 (e+) km/h mesmo num carro novinho em folha.

E ainda, manter o mesmo veículo durante 20 anos, contra trocar por novo a cada 4 anos… é também menos desperdício de recursos, não será?

02 junho 2023

E porque não esvaziar-lhes o barco ?

Acho gira a imagem acima que documenta um protesto climático realizado há algumas semanas por uns ativistas no porto de Sines.

É uma imagem plena de significado. O pessoal protesta, mas não dispensa as comodidades. Vamos exigir o fim do petróleo, mas avançamos numa barcaça movida a gasolina… não podiam ter ido num barco a remos…? Com aquele grande motor, poluente, estão mesmo a pedir que alguém vá lá abrir a válvula e esvaziar-lhes o pneumático, como andam por aí a fazer aos SUVs.

Em tudo o que se vê na fotografia, barco, vestes e coletes dos ativistas, muito pouco ou mesmo nada não terá um poço de petróleo na origem. Estrutura do barco – podiam ter usado uma canoa em madeira, construída manualmente. As roupitas podiam ser de algodão biológico (em oposição ao sintético!?), mas não seriam tão quentes nem adequadas ao mergulho posterior. Os coletes, serão de cortiça? E a faixa e a respetiva pintura?            

Fazem-me lembrar aqueles fundamentalistas islâmicos que maldizem e atacam tudo o que é ocidental e infiel, mas, para o fazerem, não se inibem de usar telemóveis, internet, automóveis, aviões… e a lista é infindável.

Comecei por dizer que acho giro, mas não, acho caricato e incoerente e, sobretudo, evidenciador que não é com reivindicações infantis assim que vamos salvar o planeta. 

31 maio 2023

Pata larga, pata fina


Na imagem deste veículo, salta à vista a largura reduzida dos pneus, que, para os padrões atuais, até parecem algo ridículos. Recordam-me o meu saudoso Uno 45 S, que apesar dos curtos 45 cv, andava que se fartava, pelo menos para as minhas necessidades.

 A imagem é do Dacia Spring, o elétrico lowcost mais popular do mercado, e a largura fina dos pneus é certamente motivada pela necessidade de andar muitos kms a gastar poucos kwh. Quem tem experiência de pedalar e de sentir muito diretamente a relação entre o esforço e o resultado, sabe bem que quanto mais largos os pneus, e maior         a superfície de contacto com a estrada, mais estes agarram, para o bem… e para o mal.

Nesta cruzada pela sustentabilidade e sobrevivência do planeta, decretou-se que os veículos elétricos fazem religiosamente parte da solução. Deixando de lado a produção e o ciclo de vida das baterias normal e anormal (pequeno acidente e perda total), assim como a origem da energia elétrica que as carrega, podemos realmente questionar se é ambientalmente responsável ter carros elétricos com algumas centenas de cavalos, obrigando a usar pneus de pata larga, que fazem gastar muito mais energia do que os de pata fina. Ao fim e ao cabo, excluindo quem vai salvar vidas, apagar fogos ou perseguir malfeitores, quem precisa, precisa mesmo, de andar a 140 km/h e ir dos 0-100km/h em menos de 10 segundos? Precisar, mesmo, mesmo…? (De ministros e afins, é melhor nem falar!)

 Curiosamente, este Dacia Spring terá 45 cavalos. Certamente não tão fogosos como os do meu velho Uno, mas suficientes para as reais necessidades de muito boa gente. Não tão divertido como outras opções, mas, enfim, para diversão há outras alternativas.

15 dezembro 2022

O Titanic e o MSC World Europa

Cheira-me que se o MSC World Europa, o último grito dos navios de cruzeiro, ultramoderno e sofisticado, chocasse com um incontornável e imprevisto iceberg, a “culpa” seria certamente atribuída às alterações climáticas.

O Titanic, que teve esse azar há 110 anos, por azar simples, aselhice, incompetência ou outra coisa qualquer, não teve essa sorte. A ser hoje, seria certamente e apenas mais uma vítima da desregulação climática que está a libertar icebergues no Atlântico…

Não, claramente que temos problemas de sustentabilidade neste planeta, mas atribuir tudo e todos os “azares” às alterações climáticas… é simplificar a coisa.


09 dezembro 2022

Energia grátis

Não deixamos de ouvir falar e de sentir os aumentos no custo de energia elétrica e os impactos ambientais da sua produção. Sabemos também que o caminho não passa por apenas esperar novos grandes projetos, mas muito pela mudança de hábitos e contributos individuais.

Dentro da contribuição possível de cada um inclui-se a instalação de painéis fotovoltaicos domésticos, sendo que a motivação ambiental sobrepõe-se muitas vezes à avaliação financeira pura do investimento.

Feito o investimento, há desde logo a questão de desalinhamento entre o pico da produção, durante o pleno sol quando a casa está vazia (sobra energia que vai para a rede) e o consumo quando a casa está ocupada e já não sol há (falta energia que vem da rede).

Pareceria ser lógico e justo que o operador nos cobrasse o diferencial entre a energia que forneceu e a que recebeu, só que este balanço é feito e fechado em intervalos de apenas 15 minutos. Significa que o grosso da energia excedentária não é deduzida/contabilizada.

Teoricamente pode ser vendida, mas após um largo conjunto de procedimentos, como se essa venda fosse um desígnio relevante do processo, e mendigando junto dos operadores quem dá qualquer coisinha pelos kwh que nos sobram.

Não é muito motivador. O excedente deveria ser diretamente deduzido do consumo, eventualmente com ajuste regulamentado de tarifa. Esta burocracia e discricionariedade não ajudam à causa. 

Atualizado a 11/12 com a publicação no "Público"




06 dezembro 2022

Faz sentido?

A União Europeia decidiu proibir a comercialização dos veículos a combustão a partir de 2035. Ainda não sabemos como vai evoluir todo o contexto até lá, nomeadamente quanto à rede de carregamento, a disponibilidade de energia elétrica e o custo/ciclo de vida das baterias.

Não sabemos também como vai evoluir a relação de propriedade/utilização do automóvel. Da mesma forma como já muitos não compram CDs e DVDs físicos, apenas pagam para ter acesso temporário aos conteúdos, será que vamos deixar de ser proprietários “permanentes”?

Certo é que já neste momento, para um segundo veículo e utilização em contexto urbano, o elétrico serve perfeitamente e até é energicamente oportuno, sobretudo se carregar durante a noite, quando há frequentemente excedente de produção de eletricidade renovável.

A Citroen apresentou recentemente este protótipo de um possível veículo elétrico básico e irreverente, o Oli. Sendo ainda apenas um protótipo, pode-se questionar se esta abordagem faz sentido. Parece-me que sim. Para a tal utilização urbana não necessitamos de um produto com todas as opções e sofisticações tecnológicas. Baste que ande e seja barato na aquisição e na utilização. Se tiver um design irreverente, isso compensa um pouco o minimalismo.

O fato é que a migração para a mobilidade elétrica não passa por apenas trocar depósito, injeção e pistões por bateria, conversor e bobinas de cobre. Há mais coisas que mudam, potencialmente…


23 novembro 2022

Os cucos das belas causas

Uma particularidade dos cucos é a de colocarem os seus ovos em ninhos alheios, aproveitando o esforço e a dedicação de outras espécies para fazerem vingar as suas crias, expulsando inclusive do ninho os inocentes que a ele tinham direito.

Nos anos 80 fui expulso de uma marcha “pela Paz”, organizada na sequência do anúncio da instalação de misseis americanos na Europa. Aparentemente, os Pershing americanos constituíam uma ameaça à paz, mas os SS-20 soviéticos não. Dizer “Nem a leste, nem a oeste” não era coisa aceitável dentro dos objetivos dos organizadores. Hoje ainda continuamos a ver muitos “pacifistas unilaterais” e algumas posições quanto à tragédia em curso na Ucrânia estão aí, claras.

Outra boa causa atualmente parasitada por “cucos” é a do ambiente. Se é indiscutível a necessidade de mudarmos os nossos hábitos, convém recordar que a eficácia virá de uma abordagem racional e científica e não de um fervor religioso ou emocional. Sobretudo, é inquestionável serem os países ocidentais e “capitalistas” quem mais preocupação e ações concretas tem tomado neste capítulo.

Aproveitar a inquietação dos jovens quanto ao futuro e apropriar-se delas para apelar ao “fim ao capitalismo”, sobretudo quando os modelos alternativos pouco ou nada fizeram pelo dito ambiente, é manipulação desonesta, é uma subversão dos objetivos e um péssimo favor à causa. Cucos… 

10 novembro 2022

Concretize, por favor

António Costa foi fazer um bonito à cimeira do clima no Egito. Antes de mais, gostaria de conhecer a pegada de CO2 daquele evento, com todas as deslocações associadas.

Diz brilhantemente o nosso PM que o nosso país antecipa para 2045 a meta da neutralidade energética. E que também não iremos reativar as centrais a carvão como uma cambada de burros e inconscientes estão a fazer pela Europa fora. Não, nós somos tesos e … eventualmente importamos e pagamos energia elétrica, mesmo que produzida a partir do carvão.

Eu sei que quando chegarmos a 2045 ninguém pedirá contas a A. Costa pelo eventual incumprimento e, se pediram, ele arranjará facilmente trinta e um responsáveis alheios, mas, se ele a agora o afirma e assume, que concretize. Certo que os atuais 2/3 de energia elétrica a partir de fontes renováveis são um bom ponto de partida, mas, para a chegada, como vai evoluir o consumo, devidamente acrescentado pela imposta generalização de veículos elétricos, como e onde vai ser feita a geração correspondente? Números, números concretos com datas, por favor. Senão, é apenas cuspir para o ar e não é bonito. 

28 outubro 2022

Há, mas é verde


O anúncio do gasoduto “verde” entre Barcelona e Marselha é uma história mal contada e se foi calculada ainda não o vimos. Em primeiro lugar estamos sem saber porque foi abondando o projeto anterior Midcat, para transportar gás natural pelos Pirenéus, sendo certo que as interligações energéticas na Europa são necessárias e que muita água ainda irá passar por pontes e barragens antes de o gás natural ser banido, como muito bem comportadamente já fizemos com as nossas centrais de carvão.

Depois, fazer um investimento desta natureza para algo que ainda não existe em dimensão que se veja, nem em produção, nem em utilização…!? Alguém fez as contas? E qual o papel de Portugal neste negócio? O hidrogénio verde é feito simplesmente a partir da eletrólise da água usando eletricidade de origem renovável. Por alma de quem vamos fazer isso aqui e enviar o hidrogénio a milhares de quilómetros? Não temos excedente de renováveis e a França até tem eletricidade barata a partir do seu parque nuclear. Alguém fez as contas a que custo o gás chegaria ao destino? Será economicamente viável? Ou vamos fazer as contas depois de se gastar uma pipa de massa no gasoduto?

Ou será isto apenas uma forma “esperta” de fazer um investimento em infraestrutura de gás natural, pintado-o de verde, para poder ser mais facilmente aceite e financiado? De qualquer forma, Portugal, seja pelo singelo terminal de Sines, seja pelo hipotético parque de produção de hidrogénio verde, que não existe nem se sabe como nem quando existirá, não tem nada a ganhar com isto. Apenas uma excelente oportunidade para queimar dinheiro.

03 setembro 2022

A transição a chegar mesmo


Lembram-se dos tempos em que os grandes líderes mundiais viajavam em jatos privados para se reunirem e discutirem as ações a tomar para salvar o planeta? Ou quando ambientalistas iam de Lisboa a Madrid para manifestarem pela sua causa? Lembram-se do tempo em que era consensual a necessidade de travar a utilização dos recursos do planeta, mas poucos efetivamente alteravam os seus hábitos e confortos?

A guerra na Ucrânia e o que por aí se adivinha como consequências, talvez venha a ter mais impacto real do que todas as cimeiras e manifestações organizadas até hoje. É que quando não há, não há mesmo. E se aplicássemos os mesmos princípios sancionatórios à Arábia Saudita pelo que têm feito no Iémen e não só…

Somando-se a esta crise energética a seca e a escassez de água, frugalidade deveria ser a palavra-chave e a ter em conta ao antes de acionar um interruptor, abrir uma torneira, avaliar um saldo ou promoção, carregar no acelerador ou planear as próximas férias. Em França. E. Macron, dramatizou anunciando o “fim da abundância”. Na teoria já sabíamos que vivamos de forma insustentável, mas as renúncias voluntarias são limitadas.

A ser concretizada esta travagem, para lá dos efeitos nas comodidades de cada um, haverá repercussões sérias em muitas fileiras de atividade. Se se deixar de gastar, vai sobrar capacidade produtiva, da qual muita gente depende. Esse será um grande problema a gerir, muito maior do que a perda dos confortos consumistas.

31 agosto 2022

DesTAPando o aeroporto


Na discussão sobre a necessidade e as alternativas possíveis para o novo aeroporto de Lisboa, onde uma opção a Sul do Tejo tem implicações e um investimento em infraestruturas enorme, há uma variável que não se costuma colocar na equação e já sem referir o impacto que a limitação das emissões de CO2 e a utilização de combustíveis fosseis terá nos hábitos de mobilidade.

Uma boa parte do tráfego em Lisboa é consequência da existência da TAP e do seu “hub” estar aí baseado. Se a companhia desaparecer essa intermediação entre vários destinos irá desaparecer e o movimento reduzirá de forma significativa.

É certo existirem uns fundamentalistas que juram e prometem que nunca a “nossa” companhia irá desaparecer, que haverá sempre uns milhares de milhões, desviados de outras necessidades, para a manter no ar…

Para mim não é de forma nenhuma garantido que uma companhia desta dimensão e com este histórico e cultura tenha viabilidade a prazo. Nesta eventualidade, as premissas para o novo aeroporto mudam bastante. Será descabido equacioná-lo neste momento?

14 abril 2022

Não, obrigado!


Algures pela segunda metade da década de 70 eu tinha na minha capa escolar um autocolante tipo ovo estrelado do “Energia Nuclear, Não, Obrigado”. Era um tema ainda fresco, havia alguma contaminação entre a ideia do nuclear civil e militar, este último bastante ameaçador na época. O certo é que após a crise petrolífera provocada pelo boicote árabe de 1973, muitos países abraçaram sem hesitação esta alternativa, mais controlável, especialmente do ponto de vista do risco geopolítico.

Hoje, mais de 40 anos depois, tendo-se acrescentado ao contexto a necessidade da limitação das emissões de CO2 e estando algumas centrais nucleares a chegar à reforma, o que podemos dizer quanto ao nuclear sim ou não? Por um lado, continua a haver bastante instabilidade geopolítica na área de origem dos combustíveis fosseis. Além dos tradicionais, de há umas semanas para cá, foi acrescentada a Rússia. As renováveis cresceram muito, mas ainda estão longe de assegurar a integralidade das necessidades.

Do lado da segurança das centrais, tivemos Chernobyl e Fukujima e constatamos uma coisa. Não há forma certa de controlar a besta quando ela desembesta. Não há um modo operatório definido sobre por onde e como reagir com segurança em caso de acidente grave. E as consequências potenciais são brutais.

Não há também ainda forma consensual e segura de como gerir os resíduos radioativos do combustível usado ou do desmantelamento das centrais. Quarenta anos depois ainda se especula sobre se se enterra ou não, em que condições e a que profundidade. Considerando o tempo de vida de alguns resíduos, é assustador… e irresponsável o tema ainda estar verde. Ou então será porque não há mesmo solução adequada…

Diz-se que as novas centrais são muito mais seguras, mas também são muito, muito mais caras. Entretanto, equaciona-se prolongar a vida útil das antigas. Mas se estas são mesmo seguras, a ponto de poderem aguentar mais anos, porque se constrói agora de forma diferente?

Quanto ao risco de acidente, podemos dizer que Chernobyl foi coisa soviética, um contexto que aparentemente já não existe. Será? Fukujima, Japão, aconteceu num país muito organizado e disciplinado. Centrais em países como Egito ou Paquistão terão sempre uma gestão e operação rigorosas e irrepreensíveis?

E a guerra? Vimos recentemente imagens de Chernobyl e Zaporizhia em pleno teatro de guerra e arrepiamo-nos com o que poderia provocar um “tiro ao lado”. Todos os locais nucleares do mundo estão protegidos contra serem apanhados num cenário destes? Não. E se aqueles terroristas que não se ensaiam em provocar os maiores estragos possíveis decidirem atacar um reator… já sabemos que a besta, desembestando …

Pela lógica, racionalidade, preocupação com o ambiente e sustentabilidade do planeta e da humanidade: Nuclear, não obrigado. É irrazoável conviver com estas bestas apocalíticas, confinadas em frágeis jaulas. Há alternativa, mantendo os nossos atuais padrões de vida? Não.

Imagem de versão compactada, publicada no Público.  

31 março 2022

A transição por calcular


É consensual andarmos a consumir mais recursos do que o planeta sustentavelmente disponibiliza e a energia é um dos pontos mais críticos. Precisamos de ser mais frugais.

Temos ministérios com transição energética no título e a redução da utilização dos combustíveis fósseis é uma das suas bandeiras mais vistosas. Decreta-se que veículos elétricos serão o futuro exclusivo, já em 2035. Mas não basta dizer que “se quer” aumentar a produção de energia elétrica de fonte renovável. Hoje em Portugal falta aproximadamente um terço de “renováveis”. Isto é um número concreto, são tantos kWh. Para 2035 qual será a procura de energia elétrica nessa altura, devidamente aumentada pelos novos veículos elétricos? Quantos kWh? De que fontes “renováveis” virão esses kWh? Há um plano, qual? É que mais rios para barragens e montes para eólicas, já não sobram muitos, além da polémica… ambiental com os mesmos.

Na Europa o défice atual é ainda maior, especialmente se o nuclear não for considerado “bom e limpo”. Recentemente até tinha sido decretado que o gás natural podia ser considerado “transitoriamente limpo”; depois Putin complicou as contas. Cheira-me que para as agendas políticas 2035 é noutro século e, ao dia de hoje, o fundamental é capitalizar títulos e declarações de intenções, mas o título não basta. Saber quantos kWh serão necessários e de onde virão é uma exigência básica. Se não sabem quantos kWh, podem apresentar em joules ou em calorias… Entretanto, o pessoal adere a veículos elétricos com uns frugais 300 cv ou mais, achando que esse é o caminho da salvação.

14 fevereiro 2022

#Lítio acima/abaixo


Dizem que a sustentabilidade do planeta passa pela mobilidade elétrica, exclusivamente, que na tecnologia atual necessita de muito lítio para as baterias. Independentemente da origem da energia que carrega as baterias, que é outro tema – #lítio_acima!

Esse lítio necessário vem da extração mineira. De uma forma geral as minas e demais escavações não são vistas como boa vizinhança. No caso particular do lítio, talvez pela maior exposição mediática, a repulsa é larga - #lítio_abaixo!

A fileira do lítio terá certamente algum valor acrescentado e um contributo positivo para a economia do país. #lítio_acima!

A sustentabilidade do planeta passa pela economia circular onde se utilizam recursos renováveis, ao contrário da linear que segue uma sequência extrair-produzir-descartar. Portanto, sem estar clara a gestão do fim de vida das baterias, para já não renováveis - #litio_abaixo!

O melhor é ficar mesmo pelas bicicletas… e não elétricas!

19 janeiro 2022

Discursos de miss mundo


Há bastantes. Não necessariamente quanto ao desejo de haver paz no mundo; esse é antigo e algo gasto, mas muitos sobre a transição energética. É um desejo bonito e fica bem em todos os programas eleitorais pedir o fim da produção de energia elétrica geradora de CO2. Obviamente que também é bonito haver rios livres sem barragens, montes limpos de eólicas e por aí fora. O nuclear também não devia estar bem, mas a Europa decretou recentemente que podia ser usada na transição para a transição. A França, atrapalhada por várias manutenções no seu parque nuclear, mantém o carvão. Nós por cá já fechamos as duas últimas que restavam.

Há também muitos discursos sobre a importância de a paisagem continuar bonita, exatamente como nos tempos pobres e tristes em que não havia eletricidade nas aldeias nem atividade económica no interior, para lá da dura subsistência. Tudo o que seja uma utilização economicamente racional e sustentável da terra é logo um abuso intensivo a limitar. Seja oliveiras, eucaliptos, pinheiros, abacates, morangos ou mirtilos. Aparentemente apenas o trigo do Alentejo e o milho no Norte são aceitáveis aos olhos dos citadinos que gostam de disfrutar da paisagem ao fim de semana.

Acho curiosas estas visões de futuro apenas compatíveis com o passado dos romances neorrealistas, independentemente da qualidade literária dos mesmos. Não, não defendo um vale tudo, mas um pouco de realismo nunca fica mal.

11 agosto 2021

Fim (do desenvolvimento?) dos motores de combustão


Há cerca de 4 anos, Carlos Tavares, na altura com as rédeas da PSA, Opel e Vauxhall, surpreendia meio mundo no salão de Frankfurt ao afirmar que evoluir para exclusivamente veículos elétricos, era um sinal de que “o mundo está louco” e que os políticos estavam a tomar decisões sem pensar em todas as consequências e sem equacionar toda a preparação que tal mudança exige.

Recentemente, agora acrescentadas a Fiat e a Chrysler na Stellantis (estes novis grupis têm sempre nomis assim sonantis), veio dizer que o grupo vai mergulhar a fundo nos eletrões, a DS sem motores de combustão em 2024, a Alfa em 2027, a Opel em 2028 e a Fiat a 2030. É certo que a “Europa” decretou o fim dos motores de combustão para 2035 e nestas coisas é inglório tentar ser salmão e nadar contra a corrente.

É também certo que à velocidade a que estas tecnologias evoluem, muito pode acontecer até deixarmos de ver pistões nestas marcas, mas isto parece-me um pouco pôr o carro à frente dos bois. Se na bela Europa ainda não se consegue garantir toda a mobilidade de forma elétrica, que dizer do resto do mundo onde muitas vezes o fornecimento de energia elétrica para necessidades básicas não está assegurado, nem ninguém pode prever se/quando ficará resolvido.

E é ainda certo que, para os pequenos citadinos, o elétrico carregado à noite faz todo o sentido. Mas, por curiosidade, ao consultar a página da Fiat, um grande especialista de pequenos carros dentro do grupo Stellantis, encontrei um Fiat Panda (até com um toquezinho de hibridação), desde 11 470 Eur e o mais barato do outro lado que vi foi o novo 500 Berlina Action… desde 23 800 Eur. Uma certa diferença. Quando não houver mais pistões, o Panda elétrico ou o seu sucessor vai andar porque preço? Em termos de custo total de utilização, pode-se acrescentar que o Panda atual tem um tempo de vida, custo de manutenção e desvalorização bem balizados, enquanto do outro lado, a bateria… traz algumas incógnitas…

Daqui para a frente só dá para especular, mas palpita-me que poderão eventualmente aliviar os apertos progressivos às emissões dos motores de combustão. - Se são para acabar, não nos peçam para continuar a investir em novas gerações de motores Euro X+1 !

E ainda, a Alemanha negocia com a Rússia a construção de uma novíssima conduta de gaz natural… será para “descarbonizar” a mobilidade… ou isso!

E ainda, como reagirá o nosso orçamento de Estado ao fim dos impostos sobre combustíveis? Se já na aflição atual eles não largam nem um cêntimo e preferem legislar sobre as margens … dos outros. Logo se verá, não é?