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24 janeiro 2026

As campanhas modernas


Na análise do que houve de novo nas últimas eleições presidenciais, refere-se a natureza das campanhas. Há os candidatos que as fizeram “à antiga”, com os habituais beijinhos e abraços em ruas e mercados para os telejornais e os que apostaram nas redes sociais, fazendo pinos, flexões de braços e outras gracinhas. Parece que há um público, jovem, para estes canais, que até nem tem o hábito de  ver telejornais.

Pode-se argumentar que Marcelo também fez a sua notoriedade como “influenciador”, simplesmente em média diferente, na televisão tradicional e não nas redes. Não me parece assim tão óbvio o paralelo. Por muito que se possa discordar e questionar o seu dilúvio de palpites e comentários, tratava-se de palavras que nos desfiavam a pensar, um pouco. Muito diferente será vermos “influenciadores” políticos a ganharem popularidade com habilidades e gracinhas, em concorrência com skaters aventureiros e imprevistos gatinhos. O mundo (nisto e não só) não muda por decreto nem a partir de simples lamentações, mas era importante não ficar pela constatação do: É assim, para os jovens tem de ser assim!

Está em causa mais do que as faculdades de entretenimento de um personagem e o grande desafio será mesmo cativar e motivar os jovens para a política pelo que ela é e pelo que realmente impacta na sua vida. Não é fácil? Pois não… e também é verdade que os beijinhos e abraços nos mercados de substância têm pouco.

15 dezembro 2025

Quanto o T perde o I

 

Iot significa “Internet of Things” e a designação aplica-se às coisas que se ligam à internet. Já aqui atrás falei de alguns casos em que coisas se ligam algures, mesmo sem os seus utilizadores saberem, podendo se tratar de automóveis, autocarros, pneus e outras que nem se imagina...

Outro campo é dos “gadgets” (propositadamente deixado em inglês) tecnológicos cuja conexão, controlo, atualização e respetiva app são apresentados como uma mais-valia apreciada pelos utilizadores. Podemos falar de bicicletas, sistemas de iluminação, de rega ou segurança, sensores e de todo o tipo de eletrodomésticos, como, por exemplo, aspiradores…

Recentemente a americana Roomba, criadora do popular aspirador IRobot entrou em processo de falência, submergido pela concorrência chinesa. Parece que vai ser salva pela empresa que lhe fabricava os aparelhos, a Picea Robotics, chinesa…

O drama potencial nestes processos surge quando o aparelho é tão dependente da app e dos serviços da empresa, que em caso de falência técnica e ou económica do fabricante fica órfão e inútil.

VanMoof é uma marca de bicicletas conectadas extremamente particulares, com design exclusivo e muitas particularidades tecnológicas. Chamavam-lhe a “Tesla das bicicletas”. A empresa faliu em 2023, entretanto foi retomada, mas no seu período de agonia foi um calvário para os proprietários dos brinquedos caros. As especificidades mecânicas e eletrônicas implicavam que os problemas apenas podiam ser respondidos pelo fabricante e este não conseguia dar resposta.

Em conclusão, para lá de todas as questões de privacidade e de se ter uma coisa com olhos e ouvidos em casa ou no bolso, procurem garantir que o fabricante irá sobreviver ao tempo de vida esperado do dispositivo. Se não for o caso, convém que este consiga resistir decentemente às exéquias do seu fundador.


10 dezembro 2025

Até onde se liga


O alarme disparou na Noruega, quando descobriram que os seus autocarros de transportes públicos de um fabricante chinês estavam “conectados” sem eles saberem… A marca em causa, Yutong, tentou tranquilizar os ânimos dizendo que os dados recolhidos não iam para a China, ficavam armazenados na Alemanha. Grande consolo!

O problema não será apenas com autocarros, nem com China, nem apenas com veículos. Cada vez mais usamos equipamentos que por facilidade de manutenção e não só, de alguma forma conversam com um mestre algures. Até os pneus Pirelli estão sob escrutínio por existirem versões conectadas e terem parte do capital em mãos chinesas… penus !!!

Há diferente dimensões. Os códigos e políticas de uma empresa estatal chinesa são diferentes (quando conhecidos) dos de um fabricante ocidental, eventualmente cotado em bolsa. Considerando que essa ligação pode servir para recolher informação, como também para passar ordens, esta última opção à mercê de uma grande potencia mundial é um risco brutal. Se eles se zangarem com um país podem-lhes parar os autocarros, metros, veículos particulares e sabe-se lá que mais… Neste momento uma situação destas é bastante improvável, até porque seria comercialmente suicida, mas isto ser possível não é nada confortável.

Quando falamos apenas na recolha de informação, de recordar que esta é hoje um ativo enorme. A fantástica IA vive de sofisticados algoritmos que correm em poderosos equipamentos informáticos, mas o seu combustível é informação/dados. Sem isso seria inútil. A recolha de dados valiosos sem o consentimento/conhecimento de quem os gera é uma espécie de roubo… que aliás já acontece cada vez que abrimos uma página na internet.

Há ainda outra preocupação sobre o acesso a esses dados. Podem as entidades que os recolhem terem todos os protocolos e procedimentos para a sua proteção, mas há sempre alguém que pode furar e lá chegar e, às vezes, nem precisa de ser um grande hacker. Um amigo meu cuja mulher trabalhava no seu banco, contava-me que por vezes ela lhe ligava depois de ele pagar à saída de uma loja, dizendo-lhe: “já que estás aí, compra-me isto”.

Em resumo, entre o espiar, e eventualmente controlar, a frota de transportes públicos de uma grande cidade e ver os movimentos bancários do marido, a diferença é enorme, mas o mundo é o mesmo.

15 maio 2022

Logo se vê…


Dois dos principais temas na primeira linha da atualidade mediática nacional, a receção aos refugiados ucranianos em Setúbal e a inconstitucionalidade da lei dos metadados, aparentemente muito distintos, revelam algumas semelhanças na atitude de como somos governados. Colocando de lado segundas intenções dissimuladas e assumindo que tudo não passa de simples distração e inação, é demasiado.

Assumir responsabilidades, gerir e governar não passa apenas por cumprir normas e carimbar despachos; inclui muito de “e se, e se, e se…?”: prever, avaliar, analisar possíveis consequências e antecipar soluções.

Ninguém se ter preocupado, nem se sentir responsável por ter russos pro-kremlin a receber e a registar refugiados ucranianos é dormir na forma e, já agora, para que precisamos de serviços de informação? Quando já em 2014 o tribunal de justiça da União Europeia tinha colocado em causa a validade da recolha dos metadados, ninguém responsável se ter preocupado e termos continuado 8 anos a instruir e a julgar processos, que agora se esvaziam … 8 anos… é incompetência ou irresponsabilidade, muitas.  

Como se nos lembrássemos de pensar nos travões apenas depois de bater no muro…

12 maio 2022

Metadados e vídeovigilância


Na polémica atual sobre a (in)constitucionalidade do registo indiscriminado de meta dados encontro algum paralelo com a questão da gravação de imagens vídeo na via pública. Obviamente que não faz sentido que tudo e todos sejam objeto de gravação sistemática e indiscriminada do destino das suas chamadas telefónicas ou dos seus passeios higiénicos.

Mas, considerando a importância fundamental que tais registos possam ter na investigação e prova de atividades criminosas, será que a opção tem que ser mesmo entre o tudo ou nada? Não será possível que tais registos sejam realizados e mantidos em caixa negra, apenas para serem abertos caso necessário por ordem judicial?

Não gostaria, eu e imagino que os cidadãos em geral, que o que se possa passa em frente à nossa casa fosse permanentemente registado e acessível a qualquer um, mas, caso aí ocorresse um assalto ou uma agressão, seria muito útil ter uma caixa negra que pudesse ser aberta. Não me parece muito complicado…

30 maio 2019

Enquanto eram parafusos…


Tempos houve em que o antigo império do meio, começou a fazer parafusos. Eram baratos, o controlo de qualidade um desafio, mas quando os senhores que sabiam bem de parafusos lá se instalaram, as coisas ficaram melhor organizadas e evoluíram. Hoje é muito mais do que parafusos e já se dispensam senhores de fora para muitas competências.

Nenhum equipamento conectado é uma ilha, havendo cada vez mais coisas que se conectam e sendo cada vez mais fácil fazê-lo. Uma “coisa conectada”, seja um telemóvel, um automóvel, um frigorifico ou uma casa, tem uma ponte e uma porta de entrada para o mundo exterior. E aqui não tenho dúvidas… garantias de inviolabilidade não há. É apenas questão de esforço e habilidade.

Sempre, e hoje ainda mais, a informação é fundamental, a informação é poder. E aqui também não tenho dúvidas … poucos ou pouquíssimos resistirão à tentação de aspirar toda a informação a que tenham acesso, caso isso lhes traga alguma vantagem. Sabemos que cada passo nosso de cada dia é aspirado por quem saber o que somos, para depois vender essa informação a quem quiser comprar, servindo tanto para nos impingir bugigangas como propaganda política.

Na atual crise EUA – China, a separação entre a Google e a Huwaei é a crónica de um divórcio anunciado. Quem viaja à China, já sabe que Google, e outros, lá não existem por questões de segurança nacional. As diferentes ambições e projetos de sociedade tornam inevitáveis o estalar desta desconfiança, que, recorde-se, é recíproca.

Assim, está em curso a construção uma nova cortina de ferro, que não sendo física, não é menos significativa. Hoje o ecossistema da internet na China é já substancialmente diferente do ocidental. A continuar por este caminho, atingindo as bases de hw e sistemas operativos, o mundo dos sistemas de informação vai mesmo partir-se em dois e anuncia-se uma batalha feroz pelo controlo de territórios, da mesma forma como durante a guerra fria, as superpotências disputavam o controlo de países terceiros.

Para lá dos estragos imediatos que a perda da concorrência e redução de escala provocarão, fica uma questão especulativa. Até que ponto o ocidente será competitivo sem poder contar com as bases de produção e o mercado na China e como esta reagirá a não poder aceder à evolução e a inovação tecnológica ocidental e respetivo mercado. Não necessariamente quem ganha, mas quem perderá menos?

23 agosto 2018

Deem palco aos charlatões


O Websumit tem uma enorme cobertura mediática. Desconheço quantos frutos concretos trará, mas palpita-me serem bastante inferiores ao seu impacto nos média. Enfim, cada qual faz como quer e gasta o seu tempo e dinheiro como entender, a menos que haja por lá dinheiro público/meu. De todas as formas, face a todo o mau emprego que fazem com os meus impostos, não será também tema para eu me preocupar em demasia.

Como não sei bem para que serve a tal conferência, não consigo avaliar se um personagem político como Marine le Pen tem lá enquadramento. No entanto, parece-me claro que não ganhamos nada em ostracizar quem teve 34% nas últimas eleições presidenciais de um dos maiores países europeus.

As suas ideias são perigosas e demagógicas? Sim, mas não é por lhe tirar o microfone que ela não as divulga. Acho mesmo que, pelo contrário, deve dar-se palco aos charlatões para os confrontar e desmascarar. A postura paternalista de que o “povo” sofre de menoridade intelectual, é de fraco discernimento e, por isso, devem existir uns tutores ideológicos que os protejam de influências nefastas é o primeiro passo para uma coisa muito feia.

Assim, deem palco a Le Pen, Maduro, Lula, Orbin e a todos os órfãos de Estaline. Desde que seja um palco livre e inteligente, não manipulado, temos todos a ganhar… menos os charlatões.

03 maio 2018

A base de dados dos melhores, dos piores e vice-versa


Eu sei que agora com os cookies e outros cozinhados que nos fazem nos computadores e telefones, eles sabem tudo, tudo… mas…

Quando vejo mais uma declaração do melhor ou uma lista dos 10 mais qualquer coisa, por norma à escala mundial, ou os piores ou o assim, assim, não deixo de me surpreender e questionar quanto à origem de tanto conhecimento, rigorosamente escalonado. É certo que algumas ordenações, chamadas rankings para quem gosta de evidenciar modernidade, têm definidas as variáveis de base e os critérios de ponderação. Ao menos, nesses casos, podemos perceber um pouco de onde a coisa sai…

Noutros, pura e simplesmente a coisa parece vir do céu, (de um céu azul?) e ficamos a pensar como de lá terão caído, com mais ou menos trambolhões e reviravoltas. Qual o universo de onde saíram, com que método? Serão apenas fruto de umas sondagens entre amigos numa mesa do café ou entre tipo amigos de rede social?

Como me custa a aceitar existir assim tanta superficialidade sem fundamentação documentada e excluindo a simples feitiçaria, só vejo uma hipótese. Deve ,existir, algures, uma base de dados mundial, de fazer inveja aos googles, facebooks e afins, coisa que não é fácil, onde estarão registadas essas classificações e uns privilegiados irão aí buscar as tais ordenações. Tem que exsitir…! Não pode ser assim inventado à toa.

11 novembro 2017

As redes sociais ameaçam a democracia?


Este era o título da capa de um “The Economist” recente, de onde extraí a imagem. Ao confirmar-se a influência pró-ativa da Rússia nas últimas eleições americanas, parece ter ficado muita gente histérica e indignada, numa de “não pode ser!”, “É preciso fazer alguma coisa!!”.

A propaganda e a manipulação da informação não são ciências novas nem específicas da Rússia. Sempre existiram. Um país tentar condicionar a opinião pública em terceiros, de forma direta ou camuflada, não é nenhuma novidade e não deveria espantar ninguém.

A internet e as redes sociais trazem uma diferença na forma. Constituem enormes amplificadores de “opiniões” e de noticias falsas e verdadeiras. Facilitam a difusão e a camuflagem. Mas tanto o fazem para o “mal” como para o “bem”, neste último caso na denúncia de situações e na mobilização para causas que a comunicação social tradicional ignora, especialmente em regimes controlados.

Assim, a simplificar, a internet está para a informação como a globalização está para a economia. Curiosamente, o próprio “Economist”, quando aborda questões e polémicas relacionadas com os aspetos negativos da globalização, reais ou percecionados, costuma acabar sempre no mesmo acorde: a globalização permite criar mais riqueza globalmente e, a prazo, é isso que conta. Até lá, são apenas alguns sobressaltos.

Embora eu não tenha uma posição tão liberal, do quanto mais aberto melhor, acho que neste caso da informação, quanto mais melhor. Acredito mesmo que a brutal diversidade de fontes de informação só pode, a prazo, melhorar o conhecimento da sociedade sobre si própria e sobre a humanidade. Todos sabemos que há mentirosos e manipuladores neste mundo. Antes estávamos expostos a meia dúzia, agora estamos expostos a umas centenas ou milhares, pelo tal efeito de amplificação. Teremos que nos habituar a isso. O controlo efetivo do que se publica na internet nunca, mas nunca pode ser efetivo nem eficaz, sobretudo num quadro de Estado de Direito onde estamos enquadrados. Vejam os Estados de Não Direito que bem a tentam controlar de todas as formas e feitios, cega ou seletivamente, à bruta ou à fina… e nem eles conseguem.

Significa que tudo é/deve ser permitido? Não. Haverá sempre um enquadramento legal a respeitar, mas, dada a dimensão deste universo,
é impossível ser completamente abrangente. É ainda de recordar que os “beneficiados” não são sempre os “Trumps”.

19 julho 2017

A Altice e novas espécies de políticas económicas

Não tenho nenhuma simpatia especial pela Altice. Acabo até de cancelar um contrato com a MEO e zangado de tal forma que, tão cedo, não quero voltar a ouvir falar desse serviço. Apesar de tudo, o que me cobraram abusivamente ainda é inferior ao que, como todos os portugueses, perdi com as negociatas da empresa, quando esta estava na esfera pública.

Coincidindo com a compra da dona da TVI pela Altice, uma parte da nossa classe política aparece, de repente, muito preocupada com o futuro da PT. O PM até fez uma intervenção no Parlamento digna de terceiro-mundo, onde o poder se permite enviar publicamente bocas e remoques, conforme os seus humores, aos operadores económicos do país. Eu levaria mais a sério esta onda de preocupações, se lhes tivesse visto alguma quando a desastrosa gestão “política” da empresa fez derreter o seu valor, até ser comprada pela Altice por tuta e meia.

Dentro dessa onda de declarações, achei assaz curioso um comentário de Catarina Martins. Não entendia que a Altice estivesse a despedir pessoas da PT, quando afinal tinha dinheiro para comprar a Média Capital. Ou seja, o número de pessoas numa empresa não é determinado pelo necessário para ela ser eficaz e poder competir num mundo concorrencial, mas sim pelo recheio do cofre dos seus proprietários. Já agora, segundo Catarina Martins, como se enche esse cofre? Gostava de ver esta teoria económica melhor explicada e, de preferência, ilustrada com um exemplo de algum sucesso.

É assim tão difícil imaginar que os fundos disponíveis numa empresa não são uma espécie de herança recebida, para gastar, mas sim resultado de ser eficaz e competitivo? É assim tão difícil entender que quem “empata” dinheiro numa empresa, tem a expetativa de o recuperar com algum adicional, senão não investiria? É assim tão difícil entender ser indispensável haver quem invista, certamente que com regras e respeito pelas mesmas? Como não quero acreditar que exista tanta ignorância, é assim tão difícil a classe política ser séria?

26 maio 2016

Nomadismo laboral


Um destes dias, em Kenitra, Marrocos, depois de concluída a reunião do início da manhã e comprado o bilhete do comboio para Tanger das 11h25, sentei-me numa esplanada ao lado da estação. Abri o computador, liguei-me à internet, respondi às mensagens pendentes, fiz o relatório da reunião da manhã, acompanhei a evolução de umas encomendas e até fiz um desvio pessoal pelo banco.

Entretanto, o transito passava na rua à minha frente, dois engraxadores vieram oferecer os seus serviços e eu continuei, pouco menos do que imperturbável a bater nas teclas. Curiosamente, era o meu 6º local de trabalho improvisado em 24 horas e já sem contar as consultas apressadas ao telemóvel, com um olho a ler e outro a espreitar o próximo obstáculo do caminho. No início da manhã anterior tinha aberto praça na sala de espera de Campanhã, a seguir no comboio Porto – Lisboa, depois num cantinho estratégico do aeroporto de Lisboa que tem uma tomada elétrica ao lado, depois no comboio Casablanca – Kenitra e finalmente no hotel. Desses 6 locais, 5 eram públicos.

Numa reflexão, ao assistir ao à vontade com que abri o PC e me instalei na esplanada, questionei-me. Se estivesse a fazer isto no meu local de trabalho fixo, trabalharia de forma muito diferente? Tirando um certo stress de controlar o relógio para não perder o comboio, a resposta, curiosamente, é: não. Não seria muito diferente. Sem chegar ao ponto de dizer que ficaria perturbado com a tranquilidade, embora, no futuro, quem sabe…

PS. E logo a seguir voltei a montar tenda no comboio Kenitra – Tanger.
E o monitor está escurecido para poupar a bateria...

18 maio 2016

Para onde vamos?

Discordar de uma ideia, contestar um ponto de vista, criticar uma decisão tem/deve ter uma base racional, podendo originar uma discussão construtiva, por mais antagónicos que sejam os pontos de partida. Outra coisa será classificar os “outros” de corja, talibans e sei lá que outras formas mais de deseducação e de insulto.

As redes sociais e as caixas de comentários nas notícias on-line permitem inúmeros fóruns de grande alcance e com registos indeléveis, sendo importante ter sempre presente a diferença entre pronunciar um desabafo entre três amigos e registá-lo publicamente. Para evitar o pingue-pongue das agressões verbais e tristes desrespeitos, exige-se contenção e elevação (leia-se também educação), exigência tanto mais elevada, quanto maior a responsabilidade pública e política de cada individuo.

A infelicidade nos tempos que correm é que esse vírus, do gatilho ligeiro, contamina desde o simples cidadão até senhores deputados (e passo ao lado dos snipers “profissionais”, que parecem popular o meio), alastrando a uma velocidade surpreendente (viral?).

A frequência da utilização de expressões conclusivas do tipo “está tudo dito” é sintomática da recusa do diálogo e do contraditório. Dispara-se e espera-se que com eficácia suficiente para abater definitivamente o adversário. Se não for o caso e ele ainda estrebuchar, carrega-se nova bazuca! Eu sei que é impossível eliminar estas posturas, apenas peço aos senhores com responsabilidades acrescidas para tentarem dar o bom exemplo.

17 julho 2015

Socializando…


Hossein Derakhshan foi um dos mais relevantes bloggers iranianos na década passada, tendo supostamente atingido as 20 000 visitas diárias. Acabou por ser preso em 2008 pelas razões que se pode imaginar serem imaginadas pela justiça.


Após 6 anos de prisão sem computador e sem internet foi libertado. Disseram-lhe que tinha que estar nas redes sociais para ter visibilidade. Assim fez, mas desiludiu-se com a nova internet. Diz ele que acabou a “idade dourada” dos blogs. Antes, as pessoas escreviam e liam (liam!!!), discutiam ideias e confrontavam opiniões. Cada qual frequentava os locais que entendia, por sua própria iniciativa e escolha.

Acha o facebook uma espécie de televisão. A maior parte dos utilizadores limita-se a ver o que lhe passa à frente, imagens, pequenas frases e filmes que se lançam automaticamente. Digerem o que lhes é sugerido em grande passividade e, sobretudo, pouco leem. Colocar um simples link para um texto externo quase não tem efeito. O ambiente é muito fechado, sendo difícil num post chamar conteúdos externos variados.

É curiosa a imagem de comparar a internet antiga a uma biblioteca e a atual a um televisor: passar de uma ferramenta de conhecimento e formação para simples entretenimento. De fato, tem sempre muito mais sucesso o filme de um homem a correr em cuecas (aquela coisa do viral…) do que um texto sério, por mais pertinente e bem escrito que esteja.

Em cada casa há espaço para livros e televisor e, no fundo, como a água benta, cada qual toma a quantidade que quiser…

03 outubro 2014

Desculpem lá

Leio que o Facebook pediu desculpas aos seus utilizadores por terem sido cobaias involuntárias de uns estudos de comportamentos que alguém fez, utilizando a rede social. Há pouco tempo foram uns ministros que também vieram a público pedir desculpa por umas coisas que correram mal e pelos transtornos causados.


Isto faz-me lembrar aquela expressão do “Desculpem qualquer coisinha…”, que num dado contexto irónico se lê como “se eu fiz algo de errado que vos prejudicou, façam o favor de o esquecer e bola para a frente”.

Ora bem, eu acho que as desculpas caracterizam quem as pede, apenas e nada mais. É sempre preferível uma postura humilde de reconhecer e assumir o erro do que arrogante de o ignorar. Se alguém me prejudicar/afectar negativamente de alguma forma e a seguir pedir desculpa isso altera a forma como eu vejo esse autor, mas não corrige o prejuízo. O fundamental é a contextualização: correu mal por isto e faremos aquilo para que não volte a ocorrer. Dizer “desculpem lá o texto estar pobre” não melhora muito a coisa…

24 julho 2014

Goofazons are cool !

Há 4 meses a Facebook comprou uma empresa de óculos de realidade virtual, Oculus, por uma avultada quantia, levantando interrogações sobre a lógica desse enorme investimento. Uma das interpretações é que dada a volatilidade dos seus utilizadores, como num local de diversão mundana, o FB corre o risco de ficar fora de moda e cair a pique. Assim, da mesma forma como um cinquentão compra um desportivo descapotável para parecer “cool”, esta entrada do FB na realidade virtual pode ser apenas uma forma de rejuvenescer a imagem e de se tentar manter atraente. 

Recentemente li um artigo na “Courrier” sobre a Google, descrevendo como esta está empenhada e a investir na construção de um futuro melhor para a humanidade. Uma colecção de desafios fantásticos, supostamente comparáveis ao de Kennedy de colocar um homem na lua na década de sessenta: balões para levar a internet aos aborígenes, casas construídas rapidamente com impressoras 3D, turbinas eólicas voadoras, robots inteligentes (sim, porque para burro…). Tudo isto com meios quase infindáveis à disposição, laboratórios de topo, recursos humanos que são os melhores dos melhores, condições de trabalho de sonho …. Até parece que a Google não é uma empresa, mas antes uma excêntrica fundação. Cheira-me a excessivo. Se é certo que os resultados da investigação têm o seu tempo de gestação, alguns resultados devem aparecer. Duas vezes no dossier, era referida uma experiencia que permitiu melhorar em 25% o sucesso do reconhecimento de voz. Não será mau mas cheira a magro. Fico a pensar se o fundo daquela “excêntrica feira de investigação” não será simplesmente a promoção da imagem do que fundamentalmente é “apenas” uma agência de publicidade, também sujeita a forte volatilidade do seu público…

Num contexto um pouco diferente aquele anúncio da Amazon planear usar drones para fazer as entregas também me parece mais uma campanha de imagem do que um projecto industrial e económico sério.

Coisa prática, corri o tradutor da Google para um poema do J Brel do qual fiz uma tradução livre recentemente – aqui - . O resultado, abaixo transcrito, é pouco abonatório para os fantásticos laboratórios que tentam moldar o nosso futuro. Mesmo sem ser coisa de ir à lua, parece-me que poderiam algo um bocadinho mais cool!

São mais de dois mil e eu que ver dois
A chuva tem soldados ele parece uma outra
São mais de dois mil e eu que ver dois
E eu sei que falar ele deve dizer "eu te amo! "
Deve dizer "eu te amo! "
Acho que eles são de nada prometer
Estes dois são muito fina para ser desonesto

São mais de dois mil e eu que ver dois
E de repente ele chora ele chora a ferver
Estão todos rodeados em suado gordura
Eaters e esperança mostre que o nariz
Mas estes dois rasgado super dor
Cães abandonados a façanha de juiz

A vida não faz nenhum presente e o nome de Deus, que está triste
Orly no domingo com ou sem Becaud!

E agora eles choram quero dizer tanto
No início ele era quando eu digo "ele"
Enquanto eles são rebaixados eles não ouvir nada
O choro do outro e, em seguida
E infinitamente como dois corpos que oram
Infinitamente lentamente estes dois órgãos estão separados
E separando ambos lágrima corpo
E eu juro que eles gritam e, em seguida, eles mostram
Mais uma vez tornar-se um reverter fogo
E então, redéchirent preparem-se os olhos
E depois para trás à medida que a maré vai,
Ele consome despedida ele baba algumas palavras
Mexeu a mão vaga e, de repente, ele fugiu
Fugiu sem olhar para trás e, em seguida, ele desaparece
Comido pelas escadas

E, em seguida, ele desaparece comido pelas escadas
E ela fica lá da cruz do coração, a boca aberta
Sem um grito, sem uma palavra ela sabe que a sua morte
Ele vem da cruz agora, ela se transforma
E ainda os retornos seus braços vão para o chão
É isso aí! Ela mil anos a porta está fechada
Aqui sem luz ele gira sobre si mesmo
E ela já sabe ele sempre vai virar
Ela perdeu os homens mas não perde o amor
Amor disse-lhe revoilà desnecessário
Ela morava projetos o que não vai esperar
O frágil revoilà antes de ser para venda

Eu estou aqui, eu sou eu não me atrevo a fazer qualquer coisa por ela
Os petiscos multidão como qualquer fruta

03 julho 2014

O preço do grátis

No texto anterior eu escrevi que a nova geração não está habituada a pagar pela música que ouve e não é só com a música. E a verdade é que estamos extraordinariamente habituados a que nos ofereçam coisas grátis, sobretudo no mundo da internet e derivados. Na realidade, como não há almoços grátis, paga-se sempre de uma forma ou doutra. Muitas vezes a remuneração é via simples publicidade e aí é mais ou menos claro.

Quando me pus a hipótese de comprar um tablet analisei a oferta do kindle da Amazon e descobri que, face a outras ofertas mais “caras”, tinha a particularidade de com muita facilidade estar a fazer sugestões de compra. Lançaram agora um telemóvel que parece ter um objectivo principal diferente do telefonar. Apontamos as suas camaras a qualquer coisa, ele identifica a coisa e facilmente nos propõe o preço e o prazo de entrega para a Amazon a colocar no destino que quisermos. As montras deixarão de servir para vender os produtos da loja, mas sim para explicar à Amazon o que lhe queremos comprar…

Mais uma vez, nada disto está muito mal quando as regras são claras. O problema que me preocupa é até que ponto a recolha e exploração de informação está a formatar a sociedade segundo interesses que não controlamos. Li recentemente que o gigante do passado foi a General Electric quando a chave da economia era a energia. Hoje é a Google porque a chave é a informação. Para lá do aspecto filosófico da comparação da energia com a informação como geradores de riqueza, é um facto de as googles, amazons e facebooks são autênticos aspiradores de informação (e já sem falar na espionagem industrial ou militar noutra órbita…). Por vezes encontro sugestões de amigos no Facebook sem nenhuma relação com a minha actividade lá. Ou seja, ele anda a escarafunchar no meu PC para me propor “amigos”. E eu autorizei isso? Quando se põe lá o clique no “aceito as condições”… sabemos até que ponto vamos ser aspirados e a nossa actividade seguida e registada algures fora do nosso controle e conhecimento? Posso pagar para não ser monitorado assim? Se calhar não será “grátis” apagarem-me esses registos... Que dizer da experiencia feita no FB de condicionar as publicações em murais pessoais, para o negativo ou para o positivo, com o objectivo medir o efeito contagiante… !?? Já não é “Big Brother is watching you”, é “Big Brother is driving you!” e isso realmente vale muito dinheiro!

05 fevereiro 2014

Pensei que ele fosse mais inteligente

Supostamente Miguel Sousa Tavares não será limitado intelectualmente mas, por vezes, tem umas tiradas pretensamente superiores a todos os outros seres banais e limitados e que deixam muito a dever, no mínimo, ao discernimento. Sobre o 10º aniversário do Facebook diz ele que o odeia (é livre de o fazer…) e que por não estar lá fica a ganhar em privacidade e tempo. Aí, não me parece que estar no FB tenha um compromisso implícito de perda de tempo ou de privacidade, cada qual o usa e lhe dedica o tempo que entender.

Depois diz que não adere às “desculpas” usadas. Não precisa do FB para divulgar o seu trabalho (bom para ele…!) e que não tem interesse em encontrar os colegas da primária (ainda bem … para os colegas?). No fundo, desculpas desmontadas, aquilo é apenas uma agência de namoros, conclui o senhor.

Como muita coisa (ou tudo) que temos à nossa disposição, a forma como o usamos é que é determinante. Se eu vir passar uns totós de carro, com as janelas abertas e o volume da musica no máximo, poderei afirmar com grande pompa e arrogância que música no carro apenas serve para exibicionismos parvos, atitude com a qual eu não me identifico e por isso não tenho e estou muito contente por não a ter? Poder posso dizer, mas não abona muito a favor da minha inteligência mas uma coisa assim foi o que este senhor fez.

PS: Uma boa parte dos textos que aqui publico são enviados para o jornal “Público”, para secção das “Cartas ao Director” e alguns lá vão aparecendo publicados. Este nem merece o envio.