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19 abril 2016

De certa forma, já não chega?


Vimos recentemente mais uma iniciativa mediática sobre o tema dos refugiados, desta vez a visita do Papa à ilha grega de Lesbos, culminada na recolha de 3 famílias muçulmanas. Parece-me estarmos distraídos vendo apenas um certo tipo de árvore, esquecendo a floresta. Não seria mais importante, por exemplo, chamar a atenção do mundo para o Iémen onde de há um ano para cá ocorre uma guerra brutal que está a deixar o país completamente destruído e destruturado? Ou sobre os dois “Sudões”? Ou sobre a Nigéria onde 2 anos depois ainda não reapareceram as 200 estudantes raptadas, pelo contrário, outros raptos e massacres se somaram ainda.

Dentro do simbolismo, não seria mais representativo ter trazido também (sublinho: também) cristãos e yazidis que, mais do que da guerra, fogem do extermínio e da escravatura? Mais importante do que apelar ao espírito humanitário de acolher quem sofre, não teria maior impacto e seria bastante mais eficaz pôr a nu as reais causas da desgraça e denunciar abertamente os senhores da guerra, sejam eles quem forem?

Os refugiados que estão algures entre o Médio Oriente e a Europa, são uma pequena parte de todos os que sofrem e estão ameaçados no mundo. A solução, se o objetivo é encontrar soluções para lá do expor a miséria, não é traze-los para a Europa. Não sendo fácil parar as dinâmicas bélicas e destruidoras é muito mais importante acusar e pressionar os seus mentores do que apelar à caridade, invocando inclusive uma certa culpabilização do cidadão comum.

Pessoalmente, não aceito essa pressão, que considero até uma forma de distração. Há gente com mais responsabilidades neste mundo a serem pressionadas em primeiro lugar. A verdadeira solução não se passa pelo paliativo, sempre parcial, da caridade.


Foto do Le Figaro

23 fevereiro 2016

Os muros de Francisco e Donald


Antes de mais e como introdução clarificadora. Genericamente aprovo a postura e as iniciativas do Papa Francisco e preocupa-me muitíssimo o cenário de um Donald Trump poder vier a ser presidente dos EUA.

Dito isto, achei de uma enorme infelicidade e despropósito o Papa ter declarado o candidato “não cristão” por querer construir um muro entre os EUA e o México.

Em primeiro lugar, muitas outras figuras públicas e poderosas possuem um currículo com atos não cristãos enormes, muito piores do que construir um muro, e efetivamente realizados, não apenas prometidos/ameaçados, sem terem sido assim diretamente repreendidas pelo Vaticano.

Em segundo lugar o Papa devia/poderia ter criticado a natureza da atitude mas não a genuinidade da crença. Seria muito mais correto.

Em terceiro lugar, e falando de muros, só conheço um Estado no Mundo completamente murado. Chama-se Vaticano. Depreendo portanto, que seguindo os preceitos e a definição de cristandade do Papa, esses muros serão derrubados e o espaço aberto de par e par a todos os pobres e desgraçados do mundo….

27 fevereiro 2015

O que faltou ao Charlie Hebdo foi o desejo de diálogo

Numa entrevista realizada ao cardeal Gianfranco Ravasi, responsável da Santa Sé para a Cultura, li a frase que serve de título a este texto. Não sei se um caricaturista tem o dever de dialogar com o caricaturado, mas é de recordar que, antes do atentado, o Charlie Hebdo era um pequeno jornal, de tiragem modesta e, para muitos, de gosto discutível. Não tinha uma influência relevante na sociedade. Apontar a suposta falha de o jornal não ter “dialogado” como causa para as consequências conhecidas, é uma carga demasiado grande para coisa tão pequena. Mal andaríamos se sentíssemos necessidade de desenvolver considerações destas por cada piada de mau gosto publicada sobre o Papa.

A mensagem da entrevista é curiosa e, nalguns pontos, preocupante. Sinceramente, esperava mais de alguém naquele nível. Cito: “Para haver diálogo, é preciso haver dois rostos. Nós temos um Islão que avança, que tem um rosto, pode ser até um rosto violento, mas é bem definido. Nós, os ocidentais, perdemos os nossos traços distintivos”. O senhor Cardeal engana-se. Primeiro, fala em um (1) rosto do Islão e isso é abusivo. Entre outras coisas, ignora as tensões geoestratégicas que se apropriam e manipulam a fé de alguns, sendo elas, em larga medida, as responsáveis pela violência que hoje corre o mundo, carregando a bandeira do Islão. Depois, ao evocar a nossa perda de traços, parece sentir-se a nostalgia do tempo em que esses traços eram desenhados em Roma.

É possível ter uma sociedade com valores, com identidade bem definida e sem credo religioso? Penso que sim. É a salada de frutas multicultural que alguns defendem? Penso que não. Está tudo bem e no bom caminho? Não. É um caminho que custa muito a construir. Não nasce espontaneamente, nem por criação divina, nem por decreto laico. Passa certamente por confrontação, mas fundamentada e saudável. Os registos básicos de “o Islão é assim, os muçulmanos são assado”, “deve ser proibido, ou não”, “se dizes aquilo, levas um murro”, ficam num nível primário e nada acrescentam. É preciso mais, mais…

14 fevereiro 2013

O princípio, o sistema e o sorriso

Este texto é bastante especulativo, mas como se trata do Vaticano, que não prima pela transparência, acho que tenho desculpa. Quando o Cardeal Ratzinger foi nomeado Papa, para mim, e para muitos, o sentimento foi de desilusão. Representava uma continuidade da linha de João Paulo II que, arreigado a fundamentos formais, não deixava a instituição Igreja Católica alcançar o lugar que podia e devia ter na sociedade. Escrevi na altura:

Dentro dos nomes potenciais para o novo papa, havia um, para mim, que se destacava claramente pela negativa. Joseph Ratzinger. A sua acção recente tinha sido redutora e autoritária. Mais “correctora” do que “inspiradora”; mais defensora da cidadela ameaçada do que impulsionadora do seu desenvolvimento. Mais preocupada com o impor a toda a sociedade os seus princípios, do que com a promoção e adopção natural dos mesmos; mais centrada na disciplina do rebanho do que no desenvolvimento espiritual do homem.

Agora leio a corajosa resignação de um homem de princípios e nos comentários da imprensa, não aquela paroquiana que comenta os tugas que viram e conviveram com o Papa e outros seus potenciais sucessores, leio que a sua resignação é uma vitória dos conservadores. Espera aí, mas este Papa não era conservador? Sim, mas será conservador mesmo pelo princípio, tendo existido alguma incompatibilidade entre o princípio e o sistema? E, aumentando o grau de especulação, será este um sistema em que os princípios interessam apenas enquanto meios… de poder? Quando vejo a referência a uma organização poderosa chamada “Legionários de Cristo” e mesmo esquecendo a vergonhosa história de vida do seu fundador, Marcial Maciel, claramente assumida e até condenada, fico a tentar imaginar o que diria Cristo sobre esta coisa de no (seu) Vaticano existir uma coisa chamada “Legionário de qualquer coisa”!

Em resumo, e se é para termos esperança, esperemos então que possa aparecer um homem que sorri como este descrito aqui e reproduzido na imagem acima, e que sobreviva ao sorriso. Mas creio que não, não deverá ser de sorriso e nem sequer de princípios. O sistema está bem protegido 
pelos seus legionários nominais e/ou funcionais contra os princípios, e, por maioria de razão, contra os sorrisos!

11 fevereiro 2011

Estes polacos... !

O piloto de F1 polaco R. Kubica sofreu um grave acidente num rali em Itália no domingo passado, tendo ficado próximo de ver uma mão e até mesmo o braço amputados.
Para ajudar à sua convalescença, receberá uma relíquia do ex-papa e futuro santo João Paulo II que consiste num pedaço de uma veste e uma … gota de sangue!
Que mau gosto! Deve ser uma enorme fonte de força e de inspiração olhar para uma gota de sangue...
E depois o conceito de "relíquia". O que deve mobilizar são os princípios e os valores e não nenhum tipo de quinquilharia, por muito abençoada que se apregoe.
E podes voltar Eça que este mundo não mudou assim tanto..

29 março 2009

Ainda o preservativo e o papa

Aqui atrás reagi um pouco a quente a este tema, de tal forma o assunto parecia estar a pedir. Depois de ver alguns prós e contras, apetece-me acrescentar algo.

Entendo que o Papa não condenou o preservativo cientificamente mas sim moralmente. Posso compreender que seja essa a sua posição. Para a igreja católica a actividade sexual deve ser exclusivamente dedicada à procriação, não é? Por isso, o preservativo sendo um contraceptivo, não é aceitável. Neste ponto, como com a pílula, só pode acontecer uma de duas coisas: ou Roma revê a sua posição, ou se quiser ser coerente até ao fim, o seu rebanho ficará muito, muito, muito encolhido.

Outro ponto de vista, e por acaso até alinhado com a posição do Vaticano, é defender que se cada um tiver única e apenas um parceiro estável, não há propagação da sida. O preservativo facilitando a promiscuidade vai no sentido contrário. Agora, será por desaparecerem os preservativos que acaba a promiscuidade e especialmente em África? Resposta óbvia: não. Aliás, face ao que sabe e ao que não se sabe, nem sequer é disparate, em muitos casos, sugerir o uso do preservativo mesmo entre pares “teoricamente” estáveis e exclusivos.

O Papa quer condenar o hedonismo e todas as religiões, de alguma forma, tocam esse ponto de recusar dar a primazia ao prazer imediato e individual. Agora tem é que saber como falar e com quem está a falar. Quando em Luanda usou a palavra “hedonismo” em frente daquela multidão, teria ele uma ideia de quantos dos assistentes sabiam do que ele falava?

21 março 2009

A história repete-se


Depois do seu antecessor, Bento XVI foi a África para voltar a criticar a utilização de preservativos. Pensava-se que tamanha gafe não fosse repetida. Mas não. A história repete-se e da segunda vez....
E afinal não foi sem razão que muita em gente em Abril de 2005 fez uma grande careta quando soube que o novo papa seria o então cardeal Ratzinger. Bento XVI está com sérios problemas de afirmação no Vaticano e na Igreja em geral. A última gafe foi o perdão aos bispos da Irmandade Pio X, fundada pelo bispo Lefévre e que querem recuar para o antes do concílio Vaticano II. E, para dúvidas não houvesse, um desses bispos, o inglês Richard Williamson, apressou-se de imediato a dizer que não acredita que tivessem existido câmaras de gás nos campos de concentração nazis.

Enfim… cada vez mais longe do homem que sorria.

30 novembro 2006

P de Papa ou de Político ?

Lembram-se daquele Cardeal Ratzinger que se opunha ferozmente à entrada da Turquia na Comunidade Europeia, chegando a dizer, instalado no quentinho do Vaticano, que se isso acontecesse, teriam sido em vão as vitórias em Viena sobre os Turcos em 1529 e em 1683?

Lembram-se desse mesmo Vaticano que lutou até à exaustão pela inclusão da referência ao Cristianismo no preâmbulo do projecto de Constituição Europeia, num espírito de identificar a Europa como “território cristão”?

Esse mesmo Cardeal, agora Papa, no frio do terreno de uma visita à Turquia, afirma que é favorável à entrada desta na Comunidade Europeia.

Evidentemente que todos temos direito a mudar de opinião e não há infalíveis, nem mesmo o Papa. Agora, dizer isto inesperadamente, para aquecer o ambiente, acho que não serve para muito. Cheira a “Política” no seu pior: dizer o que os outros gostariam de ouvir. E quando se nota que se está a ouvir algo, só porque quem o diz nos quer agradar, sem muitas preocupações de convicção, o efeito poder ser contrário.

Sem dúvida que é necessário dar grandes passos para o desanuviamento nas relações entre religiões em geral e entre o cristianismo e o islão em particular e provar que ambas podem co-existir e serem compatíveis com um modelo social respeitador da liberdade e da dignidade humana. Agora, com politiquice é que não. É que os “outros” podem ser diferentes em muitas coisas mas não são necessariamente burros.

12 julho 2006

Clero, Nobreza e Povo

A Nobreza medieval inculta, e até em parte analfabeta, apoiava-se no Clero letrado para consolidar o seu poder temporal. A Nobreza tinha a espada, o Clero os livros e o Povo era tudo o resto que deveria seguir a regra da espada de uns e a dos livros dos outros. Ao longo de vários séculos, este casamento funcionou em pleno, chegando mesmo a ter sido passado a lei escrita. A unidade da Igreja era considerada necessária para a unidade do Estado e este argumento justificou muita coisa.

Um exemplo eloquente pelo princípio e pela prática foi a Inquisição. Além da forte promiscuidade, em muitos processos, entre os argumentos espirituais e os interesses seculares, era curioso que a Inquisição não matava ninguém. Apenas julgava e, eventualmente, condenava. O “braço secular” é que se encarregava de usar a “espada”.

Evidentemente que esse tempo já passou. Apesar de todos os defeitos de quem nos governa, já não são nobres analfabetos que necessitam de quem lhes leia os livros. E, por isso, também já não legislam de acordo com as vontades da Igreja. Chama-se a isto separação entre Igreja e Estado.

O protesto público e veemente do Vaticano pela ausência do primeiro ministro espanhol da missa celebrada pelo Papa em Valência no passado fim de semana, parece um lamento de quem foi abandonado por um parceiro que não assumiu as suas obrigações. A atitude de Zapatero terá colocado mais alguma pressão nesta Espanha à beira da ebulição. No entanto, lembrou claramente que já não estamos nessa época do famoso e simplório triângulo Clero/Nobreza/Povo.

17 maio 2005

Sinais exteriores de fé

Neste momento de transição é natural questionarmo-nos sobre o papel que o novo Papa e o Vaticano em geral poderão desempenhar no mundo actual. Em primeiro lugar, esclareço que sou agnóstico, criado em ambiente culturalmente católico. E isto é impossível de ignorar. Por muito que, por exemplo, quisesse agora converter-me ao hinduísmo, jamais o sentiria e entenderia da mesma forma que alguém criado nesse meio. Dentro desta matriz moral e ética, tenho sérias dúvidas quanto ao enquadramento do Vaticano. Exemplos: a opulência ostentada e as finanças opacas.
Qual o grau de liberdade do Papa? Age de acordo com a sua fé e coerente com a doutrina, ou é refém da teia de interesses políticos e económicos globais? Quando se refere a grande qualidade de peregrino de João Paulo II, recordo um caso próximo de nós que foi a sua visita a Timor-Leste ocupado pela Indonésia. Quando todos os portugueses e timorenses esperavam uma simples palavra de denúncia da tragédia em curso, o seu silêncio foi atroz e inexplicável. O que teria sido preferível? Ter criticado abertamente no Vaticano ou ter ido a Timor sem falar?
Dentro dos nomes potenciais para o novo papa, havia um, para mim, que se destacava claramente pela negativa: Joseph Ratzinger. A sua acção recente tinha sido redutora e autoritária. Mais "correctora" do que "inspiradora"; mais defensora da cidadela ameaçada do que impulsionadora do seu desenvolvimento. Mais preocupada em impor a toda a sociedade os seus princípios do que na promoção e adopção natural dos mesmos; mais centrada na disciplina do rebanho do que no desenvolvimento espiritual do homem.
Quando o Vaticano discute a "abertura" de permitir a comunhão aos divorciados "não culpados", mostra que está fora do tempo (...). Quase apetece ironizar e perguntar se não irá criar um tribunal próprio para julgar os cônjuges e condenar/absolver os culpados/inocentes e, já agora, certificar os cristãos puros como aqueles cuja actividade sexual é feita única e exclusivamente na perspectiva da procriação.
Como pode aconselhar e entender a família, se recusa a mulher como ser humano de pleno direito e os seus clérigos estão proibidos de a constituir e, por isso, de a conhecer?
De uma forma ou doutra, com maior ou menor intensidade, todos temos símbolos espirituais que nos escoram nas contrariedades, onde nos refugiamos nas incertezas e que nos abrem um horizonte para lá do evidente e trivial. No entanto, nas demonstrações de "popularidade" vistas em torno da figura do Papa não consigo descortinar mais do que manifestações exteriores de fé baseadas em aparências. Reconheço mais espiritualidade num respirar profundo e nuns segundos de silêncio na colina do Endovélico, num penedo sobre o Douro, frente a um simples castanheiro centenário ou ao fechar um grande livro do que no agitar excitado e frenético de bandeirinhas à passagem do "papamóvel".