30 agosto 2026

Mulheres de Ceuta


A invasão de Ceuta e o seu posterior dia-a-dia estão a ser um laboratório, mostrando o que pode resultar de uma abertura descontrolada das fronteiras a uma população culturalmente diferente. Penso que, no que diz respeito a “politicas migratórias”, irá existir na Europa um antes e um depois destes acontecimentos.

Conheço relativamente bem o norte de África e, desculpem lá a franqueza e incorreção, mas não sou muito sensível àqueles cartazes de quem pede/exige vir para a Europa, para ter mais oportunidades. Com o devido respeito e reconhecimento pelos bons profissionais que conheci, a uma esmagadora maioria da população jovem, alguma até com formação superior, faltava-lhe atitude, compromisso e confiabilidade para assumirem responsabilidades profissionais. Mais importante do que deficiências de formação, que se resolvem com algum esforço, encontrei falta de vontade de se dedicarem seriamente aos desafios profissionais. Certo que viver num sistema em que o mérito não é necessariamente um critério de valorização não ajuda. Muitas vezes éramos obrigados a deslocar técnicos de Portugal, que devido à expatriação custavam muito mais, pela simples razão de que não se conseguia fazer trabalhar corretamente os locais.

Curiosamente a percentagem de mulheres com bom desempenho profissional era muitíssimo mais elevado do que a dos homens. Quando elas se apresentavam para trabalhar era porque o queriam fazer mesmo e encontrar realização e autonomia. Não procuravam emprego por pressão familiar ou social, muitas vezes estavam precisamente contrariando essa pressão.

Muito diferente me parece também ser o enquadramento de algumas mulheres que arriscaram a travessia para Ceuta, ato que lhes requereu uma enorme coragem. Ouvindo relatos, muitas buscam apenas segurança e tranquilidade contra situações de violência doméstica e ausência de respeito pelos direitos básicos. O ponto é o seguinte: ou ignoramos o que se passa do outro lado das fronteiras, evitando as tradições acusações de ingerência neocolonialista, ou nos preocupamos com a sorte dos seres humanos na sua universalidade.

Se entregadores de pizzas ao domicílio já devemos ter suficientes, as oportunidades deverão ser oferecidas a quem esteja pronto a assumir compromissos e procure valorização, com esforço. É mais difícil do que andar a correr pela rua e a gritar pela Europa, mas é isso que devem entender. Não é com condescendências paternalistas e prevalência de más consciências do passado colonialista, que já acabou há mais de 50 anos que, teremos bons resultados. Quanto às (muitas) mulheres, parece-me ser um caso diferente. A fragilidade e a injustiça são muito mais elevadas.

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