A invasão de Ceuta e o seu posterior dia-a-dia estão a ser um laboratório, mostrando o que pode resultar de uma abertura descontrolada das fronteiras a uma população culturalmente diferente. Penso que, no que diz respeito a “politicas migratórias”, irá existir na Europa um antes e um depois destes acontecimentos.
Conheço relativamente bem o norte de África e, desculpem lá
a franqueza e incorreção, mas não sou muito sensível àqueles cartazes de quem
pede/exige vir para a Europa, para ter mais oportunidades. Com o devido
respeito e reconhecimento pelos bons profissionais que conheci, a uma
esmagadora maioria da população jovem, alguma até com formação superior,
faltava-lhe atitude, compromisso e confiabilidade para assumirem
responsabilidades profissionais. Mais importante do que deficiências de
formação, que se resolvem com algum esforço, encontrei falta de vontade de se
dedicarem seriamente aos desafios profissionais. Certo que viver num sistema em
que o mérito não é necessariamente um critério de valorização não ajuda. Muitas
vezes éramos obrigados a deslocar técnicos de Portugal, que devido à expatriação
custavam muito mais, pela simples razão de que não se conseguia fazer trabalhar
corretamente os locais.
Curiosamente a percentagem de mulheres com bom desempenho
profissional era muitíssimo mais elevado do que a dos homens. Quando elas se
apresentavam para trabalhar era porque o queriam fazer mesmo e encontrar
realização e autonomia. Não procuravam emprego por pressão familiar ou social,
muitas vezes estavam precisamente contrariando essa pressão.
Muito diferente me parece também ser o enquadramento de
algumas mulheres que arriscaram a travessia para Ceuta, ato que lhes requereu
uma enorme coragem. Ouvindo relatos, muitas buscam apenas segurança e
tranquilidade contra situações de violência doméstica e ausência de respeito
pelos direitos básicos. O ponto é o seguinte: ou ignoramos o que se passa do
outro lado das fronteiras, evitando as tradições acusações de ingerência
neocolonialista, ou nos preocupamos com a sorte dos seres humanos na sua
universalidade.
Se entregadores de pizzas ao domicílio já devemos
ter suficientes, as oportunidades deverão ser oferecidas a quem esteja pronto a assumir compromissos e procure valorização, com esforço. É mais difícil do que andar a correr pela rua e
a gritar pela Europa, mas é isso que devem entender. Não é com condescendências
paternalistas e prevalência de más consciências do passado colonialista, que já
acabou há mais de 50 anos que, teremos bons resultados. Quanto às (muitas) mulheres,
parece-me ser um caso diferente. A fragilidade e a injustiça são muito mais
elevadas.

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