08 agosto 2026

Não sei que lhe diga…

Depois de Camilo, Júlio Dinis e Alexandre Herculano, chegou naturalmente a vez de Almeida Garret. Ele foi um cidadão com uma enorme participação e contributo na vida política e cultural do país, mas esse não é o tema aqui. Apenas o que achei da sua produção literária que li. Pela introdução já dará talvez para entender que não me entusiasmou muito e que tenho alguma dificuldade em sintetizar num traço caraterístico. Pode ser da seleção de obras que fiz...

As duas peças de teatro são interessantes, mas não a ponto de deslumbrar. Talvez seja da escola da época, as personagens são estáticas, acabam como começaram, não se apercebem subtilezas nem evoluções. Custa-me a entender o carácter quase mítico atribuído ao “Ninguém” do Frei Luís de Sousa.

O Arco de Santana é um romance histórico que tem a particularidade notável de tudo acabar em bem. Até a velha judia se converte voluntariamente no final, para nada destoar. O prato principal, que ficou para o fim, foi o Viagens na Minha Terra, cujo saltar da leitura integral muito me tinha trocado as voltas no secundário.

A história entrelaçada é “mais” uma narrativa romântica em que como seria obrigatório, a donzela acaba em morte súbita, suicida, demente ou, no melhor dos casos, em clausura. Tem duas exceções, a inglesa Georgina tem mais força e determinação do que o habitual e Carlos acaba por não ser o garboso cavaleiro irrepreensível que a receita da época prescrevia.

Se já tinha achado que Camilo saltava demasiado da narrativa para se dirigir ao leitor, neste livro Garret ultrapassa-o de forma gigantesca. Os comentários e apartes não se ficam pelo enredo e personagens, mas vão sobre tudo. Algumas reflexões são certamente muito pertinentes, mas gostaria de as ver mais agrupadas e estruturadas e não despejadas a granel, sendo que por vezes parece ser alguém que faz mais garbo em expor da sua enorme cultura geral do que em desenvolver o que pensa.

Para não acabar em negativo, cá vai uma citação:

Fica, é verdade, o direito salvo para chorar depois o erro, lamentar a precipitação do momento e conspirar cada um contra a sua própria obra; mas é tudo o que fica.

 E não obstante isso, assim se fez sempre, assim se há-de sempre fazer, porque o povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há-de vir, senão pelo mau e insuportável do que é. Por outras palavras: nenhum demagogo fez nunca uma revolução com os seus programas, por mais artigos que eles tenham; todas as fazem os governos, todas as concita o poder por seus abusos e insolências.

 

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