Todos os cidadãos que de uma forma ou de outra esperaram e desesperaram por um atendimento no SNS certamente se questionam em que país vivemos ou queremos viver. É fácil recordar que os recursos são limitados, porque isso é sempre verdade. No entanto, quando vemos o aumento do orçamento do SNS ao longo dos anos e algumas pontas de icebergue, como o caso do dermatologista do Santa Maria, a faturar dezenas de milhares de euros num único dia, não parece que tudo se resuma a limitações orçamentais. Não faltam vampiros que beneficiando da cumplicidade ou incompetência do pastoreio, chupam gulosamente os impostos da manada.
Há quem argumente que os governos querem destruir o SNS,
entregar o negócio a privados e que a saúde não deve ser comércio. A medicina
atual e respetiva economia é diferente da dos tempos de João Semana, felizmente.
Continuam a existir muitos profissionais dedicados, altruístas e imbuídos de
vontade de fazer o bem ao próximo, mas, se entrarmos num hospital público e virmos
os equipamentos e os consumíveis presentes, eles foram comprados e pagos a
empresas privadas.
Para um doente que necessita de extrair um tumor maligno, o fundamental
é a operação ser realizada depressa e bem; para os governantes gestores dos
nossos impostos o importante é haver racionalidade na utilização dos mesmos. A
placa de identificação do edifício onde a intervenção é realizada será de
importância secundária. Soluções extremas de tudo privatizar terão também
potenciais efeitos secundários indesejáveis, mas o que não faz sentido é o
doente esperar o dobro do tempo, com eventual fatalidade, e desperdiçar-se receita
de impostos por posições “religiosas” e não racionais.
Voltando ao país onde queremos viver, e já sem falar em
rotundas cibernéticas, festanças e fogos de artificio, precisamos mesmo de
espetaculares novos aeroportos, linhas de alta velocidade e outros
investimentos públicos vistosos? Talvez precisemos, mas a saúde dos cidadãos é
e tem que ser uma prioridade máxima. Mais do que verbas é necessário liderança,
competência e integridade. Enquanto lá não chegarmos, deixemos de armar aos
ricos para “ingleses verem” e amigos faturarem.

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