17 agosto 2026

Deus quer?


As atrocidades cometidas pela inquisição e o seu carácter absolutamente incompatível com os princípios cristãos não são novidade para ninguém. Já em tempos tinha expressado umas reflexões aqui sobre a insanidade que se pode encontrar nos autos dos seus processos.

A obra agora lida de Alexandre Herculano, trouxe-me algo mais sobre a sua génese. Não foi caso de simplesmente um Rei sonhar, um Papa querer e a obra nascer. A realidade foi mais complexa e merece algumas reflexões. Quando Gregório IX estabelece o Santo Ofício inicialmente, no século XIII, a instituição igreja está ameaçada por heresias, muito especialmente os cátaros no sudoeste de França e estes tinham iniciativas proselitistas, buscando ativamente desviar ovelhas do rebanho romano. Sem menorizar a sua crueldade, pode entender-se que Roma tinha razões para se sentir ameaçada e reagir com brutalidade. A lógica era clara.

Em Portugal isto passa-se três séculos depois e bastante a reboque da vizinha Espanha (não foram bons ventos). As expulsões e conversões forçadas ocorreram em 1497, no âmbito do contrato de casamento de D. Manuel I com a filha dos reis católicos. Estes insistiam que deveria existir um Torquemada português. Em Espanha ela vem de 1478, instaurada pouco após a unificação de Castela e Aragão. Pode-se entender que o novo reino, sentisse necessidade de procurar uma entidade identificadora e agregadora na religião. Não parece ser de forma alguma uma situação análoga à de Portugal, onde a definição da identidade estava muito mais consolidada.

O estabelecimento do tribunal da Inquisição no nosso país vai ocorrer em 1536, no reinado de D. João III, cognominado “Piedoso”, apesar de piedade não ter demonstrado muita. O que nos conta Alexandre Herculano na sua obra é que mesmo após a sua criação ocorreu um longo processo negocial (e transacional) entre o Rei a reclamar uma inquisição com plenos poderes, sob a sua alçada e fora da jurisdição e controlo do Vaticano e um papa, Paulo III, muitíssimo renitente. Inúmeros braços de ferro, manobras e golpes de parte a parte. Em termos de “defesa da fé”, D. João III foi largamente mais papista do que o Papa.

Sobe a capa de discussões “teológicas”, existiria obviamente disputa de poder, não sendo de menor importância o destino a dar aos bens dos condenados. No entanto, face ao estado calamitoso do país, porque é que D João III se encarniçou tanto em ter a “sua” inquisição e fez disso uma prioridade? Até que ponto foi determinante a influencia da rainha, Catarina de Áustria, que, aparentemente, mais do que se ver como rainha dos portugueses, via-se como uma Habsburgo, irmã do Imperador Carlos V? Qual o interesse de Carlos V se empenhar tanto em advogar a causa do cunhado e se mostrar tão interessado em ver um Santo Ofício livremente ativo (e assassino) em Portugal? Alguma relação com o facto de a migração ibérica dos judeus de Espanha para Portugal enfraquecer relativamente o seu reino e a fuga dos judeus portugueses para os Países Baixos enriquecer esses territórios… governados também por Carlos V?

A inquisição é uma história de fanatismo e hipocrisia, mas também de brutal maldade e desumanidade desmedidas. A facilidade com que se manipulou e atiçou o “povo” e a forma como foram tratados inocentes cujo único pecado era serem diferentes (e terem sucesso) é algo que nos deve ainda hoje fazer refletir.

A desgraça que tocou o nosso país umas décadas mais tarde não nasceu em Alcácer Quibir.

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