As atrocidades cometidas pela inquisição e o seu carácter absolutamente incompatível com os princípios cristãos não são novidade para ninguém. Já em tempos tinha expressado umas reflexões aqui sobre a insanidade que se pode encontrar nos autos dos seus processos.
A obra agora lida de Alexandre Herculano, trouxe-me algo
mais sobre a sua génese. Não foi caso de simplesmente um Rei sonhar, um Papa
querer e a obra nascer. A realidade foi mais complexa e merece algumas
reflexões. Quando Gregório IX estabelece o Santo Ofício inicialmente, no século
XIII, a instituição igreja está ameaçada por heresias, muito especialmente os
cátaros no sudoeste de França e estes tinham iniciativas proselitistas, buscando
ativamente desviar ovelhas do rebanho romano. Sem menorizar a sua crueldade,
pode entender-se que Roma tinha razões para se sentir ameaçada e reagir com
brutalidade. A lógica era clara.
Em Portugal isto passa-se três séculos depois e bastante a
reboque da vizinha Espanha (não foram bons ventos). As expulsões e conversões
forçadas ocorreram em 1497, no âmbito do contrato de casamento de D. Manuel I
com a filha dos reis católicos. Estes insistiam que deveria existir um
Torquemada português. Em Espanha ela vem de 1478, instaurada pouco após a
unificação de Castela e Aragão. Pode-se entender que o novo reino, sentisse
necessidade de procurar uma entidade identificadora e agregadora na religião.
Não parece ser de forma alguma uma situação análoga à de Portugal, onde a
definição da identidade estava muito mais consolidada.
O estabelecimento do tribunal da Inquisição no nosso país vai
ocorrer em 1536, no reinado de D. João III, cognominado “Piedoso”, apesar de
piedade não ter demonstrado muita. O que nos conta Alexandre Herculano na sua
obra é que mesmo após a sua criação ocorreu um longo processo negocial (e
transacional) entre o Rei a reclamar uma inquisição com plenos poderes, sob a
sua alçada e fora da jurisdição e controlo do Vaticano e um papa, Paulo III,
muitíssimo renitente. Inúmeros braços de ferro, manobras e golpes de parte a
parte. Em termos de “defesa da fé”, D. João III foi largamente mais papista do
que o Papa.
Sobe a capa de discussões “teológicas”, existiria obviamente
disputa de poder, não sendo de menor importância o destino a dar aos bens dos
condenados. No entanto, face ao estado calamitoso do país, porque é que D João
III se encarniçou tanto em ter a “sua” inquisição e fez disso uma prioridade? Até que ponto foi determinante a influencia da rainha, Catarina
de Áustria, que, aparentemente, mais do que se ver como rainha dos portugueses,
via-se como uma Habsburgo, irmã do Imperador Carlos V? Qual o interesse de Carlos
V se empenhar tanto em advogar a causa do cunhado e se mostrar tão interessado em
ver um Santo Ofício livremente ativo (e assassino) em Portugal? Alguma relação
com o facto de a migração ibérica dos judeus de Espanha para Portugal enfraquecer
relativamente o seu reino e a fuga dos judeus portugueses para os Países Baixos
enriquecer esses territórios… governados também por Carlos V?
A inquisição é uma história de fanatismo e hipocrisia, mas
também de brutal maldade e desumanidade desmedidas. A facilidade com que se
manipulou e atiçou o “povo” e a forma como foram tratados inocentes cujo único
pecado era serem diferentes (e terem sucesso) é algo que nos deve ainda hoje
fazer refletir.
A desgraça que tocou o nosso país umas décadas mais tarde
não nasceu em Alcácer Quibir.

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