3) O fim de qualquer coisa
Anunciar apocalipses face a disrupções não é uma reação
inédita, nem nova. Já Camões nos Lusíadas nos apresentava um velho do Restelo
que, face à inovação e à ousadia dos navegadores, daí previa que a consequência
não seria menos do que o fim do mundo.
Voltando à tecnologia, recordo-me da febre da “robotização”
dos anos 80. Em termos de substituição de mão de obra um robot era
proporcionalmente bastante mais caro do que um trator, mas o fato de ser
antropomórfico dava-lhe um simbolismo muito mais intenso. Hoje os robots e a
automatização estão por todo o lado; não olhamos para eles como quem olha para
tratores, mas quase… (e já nem falo da polemicazinha com a 5G)
O curioso aqui é os inovadores, os líderes das grandes empresas de IA, se apresentarem preocupados com a inovação. Como se Vasco da Gama falasse em sintonia com o velho do Restelo.
Como se Henry Ford defendesse a limitação da indústria
automóvel por um modelo T ter atropelado umas pessoas ou os promotores do
caminho de ferro no século XIX, propusessem o abrandamento dos projetos por uma
locomotiva ter abalroado uma vaca. Na altura havia até quem defendesse que o
corpo humano não estava preparado para suportar velocidades superiores a 40
km/h.
Fico com o palpite de que a preocupação destes homens de
negócios será talvez mais o seu negócio do propriamente o fim da humanidade. A
IA envolve investimentos colossais. O modelo atual permite retorno satisfatório
ou será melhor alto e parar o baile por uns tempos?
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