26 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (III)


3) O fim de qualquer coisa

Anunciar apocalipses face a disrupções não é uma reação inédita, nem nova. Já Camões nos Lusíadas nos apresentava um velho do Restelo que, face à inovação e à ousadia dos navegadores, daí previa que a consequência não seria menos do que o fim do mundo.

Voltando à tecnologia, recordo-me da febre da “robotização” dos anos 80. Em termos de substituição de mão de obra um robot era proporcionalmente bastante mais caro do que um trator, mas o fato de ser antropomórfico dava-lhe um simbolismo muito mais intenso. Hoje os robots e a automatização estão por todo o lado; não olhamos para eles como quem olha para tratores, mas quase… (e já nem falo da polemicazinha com a 5G)

O curioso aqui é os inovadores, os líderes das grandes empresas de IA, se apresentarem preocupados com a inovação. Como se Vasco da Gama falasse em sintonia com o velho do Restelo.  

Como se Henry Ford defendesse a limitação da indústria automóvel por um modelo T ter atropelado umas pessoas ou os promotores do caminho de ferro no século XIX, propusessem o abrandamento dos projetos por uma locomotiva ter abalroado uma vaca. Na altura havia até quem defendesse que o corpo humano não estava preparado para suportar velocidades superiores a 40 km/h.             

Fico com o palpite de que a preocupação destes homens de negócios será talvez mais o seu negócio do propriamente o fim da humanidade. A IA envolve investimentos colossais. O modelo atual permite retorno satisfatório ou será melhor alto e parar o baile por uns tempos?

Sem comentários: