24 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (I)


 

1)   1- Até parece mentira

Há 40 anos, mais dia, menos dia, sentava-me para o meu primeiro dia de trabalho, após sair da universidade. O professor Marques dos Santos, por quem tinha e tenho muito apreço, lançara-me o desafio. Depois de 17 anos em salas de aula, entendi que não faria muito sentido por continuar esses locais, mesmo mudando de posição relativa, e aceitei ir viver o “mundo real”.

Sentei-me, pensei e disse: - Então como é que se começa a trabalhar? Puseram à minha frente um manual do microcontrolador (microprocessador com algum recheio adicional) Hitachi 6303, baseado na família Motorola 6800. Vou deixando algumas referências técnicas para enquadrar melhor o tema a quem conhece, mas não demasiadas, a ponto de tornar o texto intragável aos não iniciados.

Tratava-se de um bicho com 64 patas, em torno do qual eu desenhei um circuito e que após uma industrialização básica, me regressava como uma placa eletrónica. Do ponto de vista da arquitetura era um pequeno computador, com tudo o que deveria ter, só que completamente virgem de software. Comecei por mapear a memória, definir os interrupts, configurar a stack (… e já chega de palavrões). Sendo a primeira utilização daquele processador na empresa, não havia biblioteca de nada e tudo devia ser programado em linguagem máquina, passado para uma Eprom, ficando-se a ver até onde corria como previsto.

Por essa altura, quando coçava a cabeça com uns 5C teclados por C5 e alguns FFs à mistura, li algo a primeira vez sobre os vírus informáticos. Uma “coisa” que se incrustava, se escondia por uns tempos, depois se propagava sem controlo, parecia-me do domínio da ficção. Convém recordar que nessa altura não havia internet e um PC comunicar com um vizinho era algo muito árduo.

Tive sensação análoga agora ao ler notícias sobre agentes de IA que escapam ao controlo dos seus criadores e ganham vontade própria. Sabendo que no fundo, lá no fundo da programação está sempre um “Se isto, faz aquilo”, estas liberdades cibernéticas parecem-me algo incongruentes.

Mas esta IA tem mais que se lhe diga…

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