20 novembro 2022

Uma vergonha mundial


A próxima suposta festa mundial do futebol, irá desenrolar-se num país que não a merece. O Qatar não respeita minimamente os direitos humanos e quem se sentar naqueles estádios deveria sentir o suor e a dor dos milhares dos quase escravos que os realizaram em condições desumanas, alguns com o preço da própria vida. Há mais tristes detalhes sobre o que se passa nesse país, facilmente acessíveis para quem quiser saber.

Lembram-se da África do Sul do tempo do apartheid e do boicote desportivo a que foi sujeita, por não respeitar os direitos humanos? Nessa altura a comunidade internacional era menos “esqueçamos isso e vamos à bola”, como muito pragmaticamente o nosso PR agora expressou?

O que vai acontecer no Qatar não é nem pode ser uma festa. O respeito pelo sofrimento e dignidade alheia deveria impedir a celebração de qualquer golo ou vitória. Sejamos coerentes e menos hipócritas e/ou básicos (para não usar outra expressão mais bruta).

18 novembro 2022

Governantes e governados


O recente livro de Carlos Costa, “O Governador”, promete tornar-se um caso sério de polémica. Em primeiro lugar, estou muito curioso por conhecer os desenvolvimentos, averiguações e testemunhos, que o anunciado/ameaçado processo de António Costa poderá desencadear.

Depois, muitos dos que clamam por contenção e respeito pelas instituições, não me parecem ser do grupo “não sabe, nem quer saber”, mas sim do grupo que “sabe e não quer que os outros saibam”. Um pouco ao estilo das famílias que guardam cuidadosamente no seu interior os episódios menos edificantes, evitando que cheguem à rua.

A diferença, neste caso, é que os outros, que supostamente não precisariam de saber, não são consumidores de revistas cor-de-rosa. São cidadãos de pleno direito e o “grupo” cioso de discrição não é uma família, nem uma “famiglia”. É a elite que nos governa e que nos deve contas pelo que fazem com a procuração que lhes passamos para governar.

Venham mais livros, sérios, com um mínimo de rigor e objetividade. Queremos conhecer a fundo o detalhe do que por cá se passa e o carater daqueles em que precisamos de confiar.

10 novembro 2022

Concretize, por favor

António Costa foi fazer um bonito à cimeira do clima no Egito. Antes de mais, gostaria de conhecer a pegada de CO2 daquele evento, com todas as deslocações associadas.

Diz brilhantemente o nosso PM que o nosso país antecipa para 2045 a meta da neutralidade energética. E que também não iremos reativar as centrais a carvão como uma cambada de burros e inconscientes estão a fazer pela Europa fora. Não, nós somos tesos e … eventualmente importamos e pagamos energia elétrica, mesmo que produzida a partir do carvão.

Eu sei que quando chegarmos a 2045 ninguém pedirá contas a A. Costa pelo eventual incumprimento e, se pediram, ele arranjará facilmente trinta e um responsáveis alheios, mas, se ele a agora o afirma e assume, que concretize. Certo que os atuais 2/3 de energia elétrica a partir de fontes renováveis são um bom ponto de partida, mas, para a chegada, como vai evoluir o consumo, devidamente acrescentado pela imposta generalização de veículos elétricos, como e onde vai ser feita a geração correspondente? Números, números concretos com datas, por favor. Senão, é apenas cuspir para o ar e não é bonito. 

09 novembro 2022

Quando eu vim para esse mundo…


Uma certa franja de idades saberá completar facilmente a frase em título acima: … eu não atinava em nada. Gabriela, a telenovela que foi “a telenovela”, tinha a beleza e a exuberância da atriz, Sónia Braga, e tinha também o calor e a beleza da voz de Gal Costa.

A sua carreira não fica por aí. Na minha modesta opinião, Gal Costa tinha uma voz e uma interpretação das mais marcantes e expressivas daquela geração de ouro da MPB. Um exemplo

Obrigado por ter passado por este mundo e por cá ficar!

02 novembro 2022

Porque falham as nações


Depois de mais de 500 páginas sobre o tema e com vastos exemplos históricos, entendi claramente a mensagem: o sucesso ou o fracasso de uma nação dependem de esta ter políticas e instituições “inclusivas” ou “extrativas”. Em português mais comum dir-se-ia haver quem governe ou quem se governe.

Nos modelos inclusivos o poder e a influencia no poder envolve uma larga maioria dos interessados, dispondo estes de meios, canais de comunicação e capacidade de reivindicação, garantindo-se que o governo alinha pelo interesse geral e que pode ser facilmente substituído quando se desviar desse objetivo.

A tentação de ficar agarrado ao poder e evitar riscos com reformas ou inovações é também uma caraterística dos “extrativos”, provocando dessa forma o definhamento económico e social.

Mesmo com uma perspetiva histórica alongada, fiquei com a impressão de me estarem a contar um filme a partir do meio. As razões de fundo, porque nalguns países se estabelece e se mantem quem governe e noutros quem se governe, não podem residir apenas nos aleatórios da história.  Porque é a “revolução gloriosa” inglesa de 1688, no fundo uma contestação e limitação do poder real absoluto teve sucesso e se consolidou, permitindo a futura revolução industrial, enquanto, por estes lados, mais tarde, a revolução liberal de 1822 e a correspondente lenta mas concreta evolução para um modelo de limitação de poderes reais, não nos fez sair da cepa torta?

A forma e a força como a população tem vontade e poder para travar trajetórias nocivas ao interesse geral, tem, acho eu, uma componente cultural. Certo que, em situações díspares de meio, entre uma fértil e generosa terra ou um árido e inclemente solo, os requisitos para a sobrevivência são diferentes e assim também serão as exigências quanto à governação. Mas, entre Portugal e a Inglaterra as diferenças não serão assim tão grandes.

Essa coisa da cultura não se mede apenas pelo número de pessoas que vão aos museus e teatros… ou também?

30 outubro 2022

Robin do Paço ++


Recapitulando: Tirar aos ricos para dar aos pobres é uma ideia simpática e aparentemente justa, especialmente quando a riqueza é usurpada e a pobreza desmerecida. No entanto, atualmente, já existem vários mecanismos fiscais e de apoio social que fazem uma importante transferência dos mais ricos (pelo menos dos que declaram rendimentos), para os mais necessitados.

A situação a que assistimos quanto à valorização dos combustíveis fosseis é “extraordinária”, mas não inédita. Porque é que desta vez a taxação adicional veio à baila, não sei.

O nosso governo, que até começou por ter uma atitude prudente, entusiasmou-se e agora fala mesmo em taxar a distribuição. Pode ser uma perspetiva excitante para os tradicionais inimigos dos pecaminosos lucros, mas, convém pensar que esses recursos, supostamente em excesso, nos bolsos da distribuição saíram dos bolsos dos consumidores e não foram para os dos produtores.

Qual deveria ser o papel do governo? Criar condições e ter supervisão e fiscalização para o mercado funcionar corretamente e retificar eventuais excessos. Seria muito melhor do que consolidar preços elevados que o consumidor paga e depois o Estado confisca. Seria menos fácil, mas mais justo. E já nem falo em reduzir o IVA em função da inflação para a receita fiscal correspondente não ser acrescida.

Nota final: Discricionariedade na governação não rima com desenvolvimento.

29 outubro 2022

Nordstream Cluedo


Já passou um mês sobre as explosões nos gasodutos que ligavam a Rússia diretamente à Alemanha e para lá de algumas considerações sobre a extensão dos estragos e o seu carater definitivo, muito pouco se sabe sobre o contexto e detalhes das explosões.

Vou especular… quem teria o maior interesse em colocar aquela infraestrutura fora de serviço irreversivelmente? A Rússia, penso que não. Têm mão na torneira, para fechar o fluxo não precisam de explosões e num futuro, um destes dias, teriam sempre interesse em continuar a vender o seu precioso gás por esse canal. Os EUA para forçar isolar a Rússia e forçar a compra do seu? Talvez não

De notar que a Rússia não ficou sem possibilidade de enviar gás para a Europa, não o pode fazer é diretamente para a Alemanha. Tem que atravessar outros países, que, aliás, na altura se mostraram muito incomodados, quando o projeto foi anunciado, por ficarem fora do caminho. Países que hoje até se estarão a sentir ameaçados como possíveis próximas vítimas da loucura de Putin. Países que passaram agora a ter no seu território uma válvula que podem fechar e muito incomodar a Rússia. Que passaram a ter um importante argumento do lado deles caso amanhã a Rússia decidir atacá-los.

Vamos olhar para o mapa e jogar ao Cluedo?

28 outubro 2022

Há, mas é verde


O anúncio do gasoduto “verde” entre Barcelona e Marselha é uma história mal contada e se foi calculada ainda não o vimos. Em primeiro lugar estamos sem saber porque foi abondando o projeto anterior Midcat, para transportar gás natural pelos Pirenéus, sendo certo que as interligações energéticas na Europa são necessárias e que muita água ainda irá passar por pontes e barragens antes de o gás natural ser banido, como muito bem comportadamente já fizemos com as nossas centrais de carvão.

Depois, fazer um investimento desta natureza para algo que ainda não existe em dimensão que se veja, nem em produção, nem em utilização…!? Alguém fez as contas? E qual o papel de Portugal neste negócio? O hidrogénio verde é feito simplesmente a partir da eletrólise da água usando eletricidade de origem renovável. Por alma de quem vamos fazer isso aqui e enviar o hidrogénio a milhares de quilómetros? Não temos excedente de renováveis e a França até tem eletricidade barata a partir do seu parque nuclear. Alguém fez as contas a que custo o gás chegaria ao destino? Será economicamente viável? Ou vamos fazer as contas depois de se gastar uma pipa de massa no gasoduto?

Ou será isto apenas uma forma “esperta” de fazer um investimento em infraestrutura de gás natural, pintado-o de verde, para poder ser mais facilmente aceite e financiado? De qualquer forma, Portugal, seja pelo singelo terminal de Sines, seja pelo hipotético parque de produção de hidrogénio verde, que não existe nem se sabe como nem quando existirá, não tem nada a ganhar com isto. Apenas uma excelente oportunidade para queimar dinheiro.

20 outubro 2022

Neo-histórias de criancinhas ao pequeno-almoço


No tempo da antiga senhora diabolizavam-se os comunistas, insinuando que eles até comeriam criancinhas ao pequeno-almoço. Seria mais eficaz e responsável invocar a realidade do Gulag em vez de absurdas ficções de bicho-papão. Na mesma altura, naturalmente, quem não alinhava com a “situação” era um perigoso comunista, potencial antropófago.

Depois da revolução de abril, todos os que não aderiam ao Processo Revolucionário em Curso foram carimbados como fascistas e reacionários e sem mais discussão. Recentemente esta catalogação evoluiu para neoliberal.

O descrédito dos partidos tradicionais e a popularidade das propostas radicais não começou hoje, mas cresce a cada eleição que passa, prenunciando uma degradação dos princípios que fizeram a prosperidade, justiça social e qualidade de vida neste nosso mundo.

Obviamente que simplesmente apregoar o risco do regresso do fascismo quando há crescimento da extrema-direita é absurdo, redutor e irresponsável. O fascismo é outra coisa e invocá-lo -lo como bicho papão, cuja repulsa seria suficiente para diabolizar e travar popularidades perigosas tem credibilidade idêntica à dos tais pequenos-almoços. Descredibiliza quem o anuncia e, sobretudo, evita um escrutínio sério das origens do problema, no qual esses anunciadores levianos têm muitas responsabilidade e contas a apresentar.


12 outubro 2022

Dura lex…


 É inquestionável que a existência de regras pré-definidas e aplicadas sem arbitrariedade é fundamental para a prosperidade e o sucesso. Já diziam os romanos que a lei, desde que exista, é para respeitar, por mais dura que seja, sem favores ou castigos discricionários. Todas as situações em que as sentenças são ajustadas e aptadas conforme o perfil do réu, são sinónimos de um sistema podre e condenado ao fracasso.

Isto vem a propósito das recentes polémicas com os negócios paralelos e familiares de ministros com o Estado, do qual o mais recente, com Pedro Nuno Santos, não deveria levantar a mais pequena dúvida. Conjuntamente com o pai ele detém mais de 10% da empresa, isso proíbe a celebração de contratos públicos e, segundo a dura lex, o ministro devia ser demitido. Qual é a dúvida? Não são necessários pareceres encomendados ou voluntários, frescos ou ressessos, para lançar uma névoa e acalmar o assunto até as primeiras páginas serem tomadas por novo “caso”. De notar que até já quase nem se fala do marido da ministra, associado de um cidadão chinês, anteriormente condenado por corrupção, a receber fundos comunitários, tutelados pela mulher, com o objetivo fantástico de desenvolver produtos de uso veterinário com água termal. Espírito inovador não falta!

E, sem dúvida, o crescimento dos populismos é um problema!

30 setembro 2022

O que falhou?


Quando um produtor ou distribuidor sofre um aumento significativo nos seus custos, tentará repercuti-lo a jusante nos seus clientes, com maior ou menor dificuldade, conforme a natureza dos seus contratos e a dinâmica do negócio. Poderá passá-lo completamente, parcialmente, se o mercado não aceitar, ou com amplificação se houver margem para “espertezas”.

Num mercado aberto a concorrência encarrega-se de encontrar novo ponto de equilíbrio, mas há situações em que a natureza do produto/serviço e a limitação no número ou na facilidade de mudar de fornecedor, obriga a alguma regulamentação e supervisão. Uma coisa é mudar o local onde se toma o café matinal, outra coisa é o fornecedor de energia.

Os aumentos recentes no custo do petróleo e o do gás, deveriam estar a colocar pressão nos distribuidores, desde que corretamente enquadrados contratualmente e supervisionados. A montante, os produtores beneficiam certamente, mas aqui falamos de estruturas multinacionais e de contabilidade não facilmente escrutinável pelo fisco de cada país.

Assim, estes aumentos de custos de energia “excessivos” e excitação com taxar lucros “extraordinários” traduzem algo que falhou. A disparidade na evolução/aumento dos custos para os diferentes cenários contratuais, também é inexplicável. O preço do petróleo tem um longo e amplo histórico de ioió, mas nunca vimos tamanha disparidade e volatilidade no preço dos combustíveis.

Em vez de se discutir o “castigo”, de taxar, sendo que os Estados já estão a beneficiar de aumentos extraordinários da sua receita fiscal, era importante entender o que falhou no enquadramento e supervisão dos mercados de energia. Há algo aqui que não bate certo e os consumidores certamente preferirão pagar menos do que gerarem mais base para impostos

07 setembro 2022

Quem vem e atravessa o rio


 “Vê um velho casario que se estende até ao mar”. Assim contava a bela canção sobre o Porto, sentido. Quem atravessava o rio, na Arrábida, não junto à serra do Pilar, via de um lado o casario e do outro a bela foz do rio.

Hoje essa vista está conspurcada por uma construção que vem de lá de abaixo até uma altura pornográfica. Que é isto, que mais parece um pesadelo, é real? E não se pode demoli-la?

03 setembro 2022

A transição a chegar mesmo


Lembram-se dos tempos em que os grandes líderes mundiais viajavam em jatos privados para se reunirem e discutirem as ações a tomar para salvar o planeta? Ou quando ambientalistas iam de Lisboa a Madrid para manifestarem pela sua causa? Lembram-se do tempo em que era consensual a necessidade de travar a utilização dos recursos do planeta, mas poucos efetivamente alteravam os seus hábitos e confortos?

A guerra na Ucrânia e o que por aí se adivinha como consequências, talvez venha a ter mais impacto real do que todas as cimeiras e manifestações organizadas até hoje. É que quando não há, não há mesmo. E se aplicássemos os mesmos princípios sancionatórios à Arábia Saudita pelo que têm feito no Iémen e não só…

Somando-se a esta crise energética a seca e a escassez de água, frugalidade deveria ser a palavra-chave e a ter em conta ao antes de acionar um interruptor, abrir uma torneira, avaliar um saldo ou promoção, carregar no acelerador ou planear as próximas férias. Em França. E. Macron, dramatizou anunciando o “fim da abundância”. Na teoria já sabíamos que vivamos de forma insustentável, mas as renúncias voluntarias são limitadas.

A ser concretizada esta travagem, para lá dos efeitos nas comodidades de cada um, haverá repercussões sérias em muitas fileiras de atividade. Se se deixar de gastar, vai sobrar capacidade produtiva, da qual muita gente depende. Esse será um grande problema a gerir, muito maior do que a perda dos confortos consumistas.

31 agosto 2022

DesTAPando o aeroporto


Na discussão sobre a necessidade e as alternativas possíveis para o novo aeroporto de Lisboa, onde uma opção a Sul do Tejo tem implicações e um investimento em infraestruturas enorme, há uma variável que não se costuma colocar na equação e já sem referir o impacto que a limitação das emissões de CO2 e a utilização de combustíveis fosseis terá nos hábitos de mobilidade.

Uma boa parte do tráfego em Lisboa é consequência da existência da TAP e do seu “hub” estar aí baseado. Se a companhia desaparecer essa intermediação entre vários destinos irá desaparecer e o movimento reduzirá de forma significativa.

É certo existirem uns fundamentalistas que juram e prometem que nunca a “nossa” companhia irá desaparecer, que haverá sempre uns milhares de milhões, desviados de outras necessidades, para a manter no ar…

Para mim não é de forma nenhuma garantido que uma companhia desta dimensão e com este histórico e cultura tenha viabilidade a prazo. Nesta eventualidade, as premissas para o novo aeroporto mudam bastante. Será descabido equacioná-lo neste momento?