23 dezembro 2021

Uma prenda de Natal

 

Anteontem todos os portugueses de Norte a Sul, desde os de berço aos mais séniores, com rendimentos de milhões ou pensão mínima, foram todos chamados a dar uma prenda de Natal de cerca de 310 euros a uma empresa estatizada chamada TAP.

De todos os argumentos apresentados sobre a importância estratégica da empresa para o país não há um único que os fatos e os números não desmontem. Será importante para quem quer voar de Lisboa em voos diretos e não se importa de pagar algo mais. Face aos 10,3 milhões de que contribuem, são muito poucos. 

Há empregos em causa, sim, mas mal estaríamos se fossemos estatizar e financiar com dinheiros públicos todas as empresas e setores em dificuldades.

Acrescente-se que os prejuízos da TAP não nascerem com o Covid. A empresa tem uma relação crónica com os apertos financeiros e só mesmo uma enorme fé no Pai Natal pode fazer alguns acreditar que este “investimento” terá retorno e que desta vez é que vai ser.

Dispensava-se esta prenda forçada, sobretudo pensando em tudo o que se poderia fazer em alternativa com estes 3,2 mil milhões de euros.

17 dezembro 2021

Cores de fogo

Ali, pela estrada entre Barcelos e o Prado, fazem-se alguns milagres com a terra e o fogo. De várias formas, cores e temáticas.

Dentro dos vários artistas oleiros que por aqueles lados abundam, apetece-me realçar Carlos Dias. Este não pinta, ou quase não pinta. As cores são dadas pelas diferentes terras cozidas a uma temperatura mais alta do que a do barro tradicional. Associado ao talento indiscutível das suas mãos, o resultado é surpreendente e dá vontade de trazer para casa tudo.  A sua coleção de mochos já vale a visita.

Há uns tempos tive o prazer de descobrir uma nova criação, a das mulheres minhotas, que vão à feira, que trabalham, que transportam o mais variado tipo de produtos da terra…. Terá sido a primeira compra de figuras dessa coleção. E certamente a primeira de muitas.




16 dezembro 2021

Ministros ao largo


Não sei se Manuel Pinho cometeu crimes ou não, não sei se a sua detenção é abusiva ou justificada. Nesta dimensão, e para essas respostas, não sei se a justiça está a ser justa ou se chegará a sê-lo, se por excesso ou por defeito.

Agora, há uma coisa que para mim é indiscutível e independente de acórdãos e recursos. Mesmo sem eventual crime existente ou provado, é inaceitável que um responsável pela coisa pública, especialmente ao nível de ministro, possua bens “ao largo”, em offshores. Com que fim, qual a necessidade?

A possível inocência penal de Manuel Pinho e atual presunção de inocência não branqueiam algo que é inadmissível num Estado que queremos sério e dirigido por gente insuspeita. O processo nos tribunais é um assunto em curso; a condenação clara e inequívoca da conduta política é uma exigência, indiscutível para este caso e outros análogos.

10 dezembro 2021

O gato


Chega sempre muito calmamente, como quem não quer a coisa, sendo óbvio que alguma coisa quer. Instala-se sem um ruído, apenas lhe sai por vezes uma respiração ruidosa dos anos que lhe pesam. E fica à espera, de uns restos que haja, ou que se arranjem.

Havendo ou arranjando-se, lá come tranquilamente no seu canto, sem nada nos dizer. Passado o tempo de efetivamente comer ou apenas esperar em vão, reparte tranquilamente, sem um som, sem um movimento mais brusco do que outro. Dignamente vai à sua vida até regressar na próxima refeição ou na próxima manhã, em busca de novas.

E regressará e esperará, às vezes exposto, outras vezes escondido. Ao detetar algo a cair na tijela, aproxima-se desconfiado, com os olhos controlando quem a enche e o nariz sondando o que lá estará. Cumprida a distância de segurança, avançará então resolutamente para trinchar e trincar o que se arranjou.

E repartirá e regressará, sem nada nos dizer. É um gato!

07 dezembro 2021

A liderança e a covardia

Pode o cidadão Eduardo Cabrita ser criminalmente inocente no famoso caso do atropelamento mortal do trabalhador na A6. Mas a um líder, e um ministro deve ser um líder exemplar, exige-se muito mais do que o básico cumprimento da lei. Entre outras coisas exige-se integridade e coragem. Obviamente que um simples passageiro de um táxi não é responsável por um atropelamento que o condutor provoque; agora se este for sistematicamente a infringir o código da estrada, já qualquer cidadão que o aperceba, mesmo sem ser o ministro que tutela a segurança rodoviária, tem obrigação de reagir.

Sabendo que é prática corrente as comitivas ministeriais viajarem a velocidades largamente acima dos limites legais, custa a crer que o mesmo não seja feito a solicitação ou, pelo menos, concordância tácita dos senhores ministros. Se for assim é uma enorme covardia Eduardo Cabrita resguardar-se no “não tenho nada a ver com isso”. A outra hipótese de serem os motoristas que por sua livre e espontânea vontade decidem conduzir à velocidade que lhes dá na gana e os senhores ministros não se apercebem/não reagem, há aqui gente a dormir na forma e dormir tanto e tantas vezes não é credível.

Obviamente que com lideranças a darem estes exemplos a viagem do país não segue por bons caminhos.

PS: Demorarmos quase 6 meses para conhecer a velocidade do veículo; quantos tempo mais será necessário para saber quantas pessoas iam no veículo? Vergonhoso e indigno.


29 novembro 2021

A Grande Guerra


Por um destes dias de novembro celebrou-se mais um aniversário do armistício da Grande Guerra de 1914-18. Para muitos tem como particularidade ter sido uma enorme barbaridade começada por um simples episódio nos Balcãs, em Sarajevo, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, e a guerra das trincheiras, da lama e dos gases.

Não tem/teve a projeção hollywoodesca da seguinte, com a barbárie do monstro nazi, do holocausto, nem dos bombardeamentos massivos de alvos civis, mas a I Guerra Mundial tem algo que arrepia.

O assassinato de Francisco Fernando acendeu o rastilho do barril de pólvora e que, se não fosse por aí, certamente por outro lado teria sido ateado, mas é arrepiante a desumanização do ser humano, a banalidade das baixas, que os seus incompetentes condutores demonstraram. Verdun, Somme, Ypres e outros são apenas nomes de locais em que uma tentativa de avançar algumas centenas de metros, significava milhares de mortos, por vezes num único dia e tantas vezes para nada.

Certo que a seguinte também teve movimentos desesperados muito pesados, com muitas baixas, mas penso que com bastante menos barbaridade em causa própria. A facilidade com que os estrategas da Grande Guerra repetiam sempre as mesmas manobras infrutíferas de tentar furar a linha da frente, tantas vezes com milhares de baixas diárias do próprio lado é arrepiante. Aliás o próprio conceito de “baixa” tem algo de curioso. É um número que deixou de estar disponível. Se morto, ferido por uns tempos ou estropiado para sempre, é irrelevante e equivalente, do ponto de vista da “estratégia”.

Os tanques e os aviões mudaram muito e mais do que isso mudou o mundo. Acho que hoje, pelo menos na Europa, não se aceitariam 4 anos deste tipo de ofensivas e chacinas. Evoluímos… ainda bem!

20 outubro 2021

Prioridades e critérios no SNS


Os hospitais públicos do SNS têm previsto um enquadramento e uma classificação em função de vários critérios como os serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e, particularmente, a população que servem. O CHVNGE - Centro Hospitalar Vila Nova Gaia Espinho serve uma população direta de 350.000, indireta de 700.000 e em áreas específicas de 1,2 milhões habitantes, cumprindo todos os critérios do nível III há 20 anos.

A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não foi ainda reclassificado não se sabe.

O mais curioso é que após uma visita ao CHVNGE do primeiro-ministro, ministra da Saúde e presidente da Câmara de Gaia á Instituição em junho deste ano, estes terão prometido a respetiva reclassificação para breve. A mesma acabou por ser concretizada a 1 julho, mas não integralmente. Abrangeu apenas os vencimentos dos gestores, que passaram a ser remunerados em função da importância efetiva do hospital.

Quanto aos 1,2 milhões de cidadãos que necessitem de acudir ao CHVNGE, podem ter o consolo de saber que a gestão do mesmo é reconhecida de topo. Quantos aos meios necessários, paciência…

21 setembro 2021

Sobre Homens e Humanidade


É relativamente fácil elogiar os mortos. São previsíveis e não há ricochete possível. Sobre os elogios póstumos a Jorge Sampaio, julgo, no entanto, que muitos não teriam tido dificuldade em o ter dito em vida do mesmo, sem receio de surpresas ou de golpes baixos. O Presidente da República, dentro dos seus defeitos e qualidades, incluía elevação e respeito por todos.

Jorge Sampaio não teria sido provavelmente um bom Primeiro-Ministro. Àquela do “Há vida para além do déficit” faltava “Sim, há, e chama-se falência e troika”. Como qualquer humilde contabilista doméstico sabe, gastar mais do que se ganha, acaba mal.

Apesar disso, há um nível de respeito por todos e de todos para ele, que não encontramos na geração seguinte dos, chamemos-lhe, líderes partidários, que nem dentro do mesmo partido se respeitam. Será que um ambiente de repressão, censura e de luta pela liberdade gera personalidades mais ricas e humanas do que a luta pela liderança na juventude partidária? Pois… E a solução passará por um novo período de ausência de liberdade?

Apesar de todos os sinais em contrário e de toda a pobreza intelectual e humana, carência de dignidade e princípios que vemos nas estrelas (?) ascendentes que nos anunciam, quero acreditar que não. Quero acreditar que o respeito por todas as opiniões e posições é e deverá continuar a ser um alicerce e pilar deste edifício em que vivemos. Falta sempre juntar a capacidade de gerar riqueza e de sustentabilidade económica, social e ambiental. Ter que passar por novo período de trevas para tal (re)afirmação seria triste.

20 agosto 2021

Tinha que ser assim?


 A imagem das centenas de afegãos partindo no avião militar americano vai certamente ficar para a história. Este retrato tem dois tempos. Um é o da transição catastrófica que obviamente não tinha que ser assim e que demonstrou uma enorme impreparação e capacidade de previsão por parte de quem por lá andava há 20 anos, aparentemente com visão exclusiva de drone.

O outro tempo é o que agora começa e todo o sofrimento e humilhação que sofrerão daqui para a frente afegãos e afegãs, elas muito mais do que eles. Para os meninos e meninas excitados com as desventuras do imperialismo ianque, consultem a história e respeitem quem sofre.

Para a história ficará também o discurso de J. Biden de que aquela guerra não era a deles, que só lá tinham ido neutralizar uma base terrorista e, quanto a isso, missão cumprida. Todas as promessas e expetativas legitimas criadas aos afegãos e afegãs… “não é o nosso problema”. De um cinismo revoltante. Pode ser a mais pura verdade, mas a imagem dos EUA como, apesar de tudo, patrocinadores e garantes de um mundo livre e justo morreu e não foi Trump que o matou, quem diria…

Tinha que ser assim? 20 anos de banho de mundo livre, ao menos muito melhor do que o anterior, não podiam ter deixado uma marca um pouco mais perene?

O que faltou/falta para consolidar o respeito básico pelos direitos humanos neste país e noutros? Quando se vê a enorme quantidade de gente que desses países quer migrar para o “Ocidente”, o que falta para nas suas pátrias se conseguir implementar e consolidar um regime “Ocidental”. Certamente algo mais do USDs (e rublos) e drones (e tanques). A questão é toda … evolução cultural, sem preconceitos, remorsos, ignorância nem arrogância. Demora tempo, sim. Mais de 20 anos, não sei. Desistir é que não serve.



11 agosto 2021

Fim (do desenvolvimento?) dos motores de combustão


Há cerca de 4 anos, Carlos Tavares, na altura com as rédeas da PSA, Opel e Vauxhall, surpreendia meio mundo no salão de Frankfurt ao afirmar que evoluir para exclusivamente veículos elétricos, era um sinal de que “o mundo está louco” e que os políticos estavam a tomar decisões sem pensar em todas as consequências e sem equacionar toda a preparação que tal mudança exige.

Recentemente, agora acrescentadas a Fiat e a Chrysler na Stellantis (estes novis grupis têm sempre nomis assim sonantis), veio dizer que o grupo vai mergulhar a fundo nos eletrões, a DS sem motores de combustão em 2024, a Alfa em 2027, a Opel em 2028 e a Fiat a 2030. É certo que a “Europa” decretou o fim dos motores de combustão para 2035 e nestas coisas é inglório tentar ser salmão e nadar contra a corrente.

É também certo que à velocidade a que estas tecnologias evoluem, muito pode acontecer até deixarmos de ver pistões nestas marcas, mas isto parece-me um pouco pôr o carro à frente dos bois. Se na bela Europa ainda não se consegue garantir toda a mobilidade de forma elétrica, que dizer do resto do mundo onde muitas vezes o fornecimento de energia elétrica para necessidades básicas não está assegurado, nem ninguém pode prever se/quando ficará resolvido.

E é ainda certo que, para os pequenos citadinos, o elétrico carregado à noite faz todo o sentido. Mas, por curiosidade, ao consultar a página da Fiat, um grande especialista de pequenos carros dentro do grupo Stellantis, encontrei um Fiat Panda (até com um toquezinho de hibridação), desde 11 470 Eur e o mais barato do outro lado que vi foi o novo 500 Berlina Action… desde 23 800 Eur. Uma certa diferença. Quando não houver mais pistões, o Panda elétrico ou o seu sucessor vai andar porque preço? Em termos de custo total de utilização, pode-se acrescentar que o Panda atual tem um tempo de vida, custo de manutenção e desvalorização bem balizados, enquanto do outro lado, a bateria… traz algumas incógnitas…

Daqui para a frente só dá para especular, mas palpita-me que poderão eventualmente aliviar os apertos progressivos às emissões dos motores de combustão. - Se são para acabar, não nos peçam para continuar a investir em novas gerações de motores Euro X+1 !

E ainda, a Alemanha negocia com a Rússia a construção de uma novíssima conduta de gaz natural… será para “descarbonizar” a mobilidade… ou isso!

E ainda, como reagirá o nosso orçamento de Estado ao fim dos impostos sobre combustíveis? Se já na aflição atual eles não largam nem um cêntimo e preferem legislar sobre as margens … dos outros. Logo se verá, não é?

07 agosto 2021

A maldição da bazuca?


Fala-se em “maldição do petróleo” para descrever situações concretas de países que, supostamente abençoados por largos e fastos recursos naturais, acabam por comprometer o seu desenvolvimento a prazo e a criação de riqueza e conhecimento de forma sustentada, soçobrando no fácil vem/fácil vai (a ausência de dificuldades não aguça o engenho) e com todo um rol de más práticas e de irresponsabilidade, eventualmente criminais, na gestão da riqueza que chega sem esforço.

Felizmente Portugal não tem recursos naturais próprios, mas talvez desde a pimenta da India e do ouro do Brasil que criamos um pouco o hábito de gastar sem ter que nos esforçar muito em criar. A questão neste momento não é, no entanto, atirar as culpas a D. João II. A questão é que a famosa bazuca europeia, que se já pode começar a ir buscar ao banco, mesmo sem kalachnikov, é mais um dinheiro fácil que corre sérios riscos de partir de forma fácil.

Independentemente de alguma utilização racional, séria e geradora de riqueza sustentável, quase apetece dizer… deixemo-nos de viver de donativos e passemos a fazer pela vida com as nossas próprias mãos e cabeça. O histórico da procurada e falhada convergência europeia sugere que a receita não funcionou como se esperava. Fazer o mesmo, esperando resultado diferente, não é inteligente.

06 agosto 2021

Talibans e o resto


 Em 2001, os EUA entraram no Afeganistão para controlar o país que albergava os terroristas do 11/9. Hoje, 20 anos depois, deitam a toalha ao chão e retiram. Os ditos talibans, que já antes tinham dado água pelas longas barbas à URSS, avançam rapidamente, retomando o controlo de grandes partes do país, deixando em maus lençóis todos os que de uma forma ou de outra colaboram com os EUA e acreditaram numa sociedade mais aberta. Muito especial e dramaticamente as mulheres.

Por muito profundas que sejam as raízes tribais desse movimento, a sua eficácia e subsistência não depende apenas dos calhaus da montanha. Ao que parece é/foi o Paquistão, ali ao lado, que de uma forma mais ou menos assumida lhes serviu de apoio. Um bocadinho acima do mesmo lado, está a zona problemática da China, dos uigures, onde existem movimentos terroristas, ETIM e outros, que parecem gozar de algumas facilidades no Paquistão e nas zonas controladas pelos Talibans.

A China tem interesse no Paquistão, o corredor até ao Índico da sua BRI atravessa todo o país. Os terroristas uigures atacam aqui interesses chineses e estes puxam as orelhas aos paquistaneses.

Um destes dias uma comitiva taliban foi recebida oficialmente em Tianjin (foto) e um dos objetivos, teoricamente alcançado, foi de obter um compromisso da parte dos novos futuros líderes afegãos em como deixariam de apoiar os separatistas uigures. Quem conhece o terreno, o histórico e as culturas tem dúvidas de que a prática corresponda.

Entretanto, há gente no Afeganistão a voltar às trevas.

Sem querer particularizar excessivamente nos atores concretos desta realpolitik, é uma vergonha para a humanidade assistirmos a estes retrocessos brutais nos direitos humanos, caucionados por países e regimes representados nas instituições internacionais e supostamente comprometidos com os princípios básicos de respeito por esses direitos humanos. Seria mais útil e mais interessante que a opinião pública se interessasse por isto e deixasse o Vasco da Gama em paz.

17 julho 2021

Mau ambiente


Escassas semanas após o atropelamento mortal de um trabalhador numa autoestrada pela viatura de um ministro, em circunstâncias ainda objeto de inquérito (que demora a ver se esquece?), mas onde a velocidade parece ter sido tudo menos razoável…

Escassas semanas depois, outro ministro é apanhado a circular alegremente a 160 km/h em estrada nacional e a 200 km/h em autoestrada.

Inquirido sobre o fato, o ministro afirma não ter “qualquer memória de os factos relatados terem sucedido”. É preciso ter muita insensibilidade/amnésia para não se aperceber/recordar de circular a 160 km/h numa estrada nacional. E, se isso aconteceu, não lhe ocorreu ir inquirir o motorista? Não lhe ocorreu esclarecer se havia motivos válidos para a pressa? Não lhe ocorreu que em termos de impacto ambiental, o seu pelouro, não é bom exemplo?  Apenas lhe ocorreu dizer que vai “estar mais atento”. Nós continuamos calmos e serenos e eles continuam a queixarem-se do crescimento dos populismos.

14 julho 2021

A Cresap, escolher ou não escolher


No que seria digno da mais bananeira das repúblicas, leio que numa enorme maioria dos processos de seleção para cargos superiores na função pública é escolhido o previamente escolhido, que ocupava já o lugar provisoriamente, em regime de substituição, sem concurso, sendo que a experiência acumulada nesse período é determinante para ficar em primeiro lugar na avaliação. A sério, não há um mínimo de vergonha nem de decência?

Tenho uma sugestão. Porque não impedir a candidatura a quem ocupou o cargo interinamente, por nomeação, sem escrutínio nem avaliação aberta? Parece-me uma eficaz forma de cortar o mal pela raiz. Haja vontade! Há vontade? O crescimento dos populismos é um problema?

13 julho 2021

Florentino Ariza


Quis o azar ou a sorte que um destes dias me tenha passado à frente dos olhos uma versão cinematográfica do “Amor nos tempos de cólera” do imortal Garcia Marquez, um dos destaques da minha biblioteca, um daqueles autores que cabe nos dedos de uma mão do topo das minhas preferências.

O filme, entendo que bem feito e agradável de ver, não transmite a intensidade, a exuberância e o génio narrativo de Gabo, mas isso seria provavelmente missão impossível. O enredo está lá e no final reencontramos algo de único e de todos na figura de Florentino Ariza, que espera determinado mais de 50 anos para atingir o seu sonho, neste caso o amor de Fermina.

Acho que um bom livro se pode ler de trás para a frente e também, por vezes, para o lado. E esta determinação em atingir algo, custe o que custar, demore o que tive que demorar é um desígnio que pode não ser exclusivo do amor. Recordo-me, por exemplo, do Quixotesco “sonhar o sonho impossível” de Jacques Brel, não desconsiderando obviamente o original cavaleiro da triste figura.

Será patético e absurdo passar a vida na esperança de um improvável que apenas parece viável ao próprio? Será um desperdício? Talvez sim, talvez não. A ânsia e a busca da beleza, da verdade, da perfeição são uma excelente melodia para o despertador matinal.

Se para a persistência resultar e se atingir o supremo desígnio, é necessário declarar uma situação de cólera e colocar um pequeno mundo em quarentena é outra questão. Há doenças e doenças.