22 maio 2026

Quando se desperdiça energia renovável


A energia elétrica tem a particularidade de necessitar de um ajuste permanente e instantâneo entre a produção e o consumo. Historicamente o parque produtor tinha flexibilidade suficiente para se conseguir esse equilíbrio com alguma facilidade. A produção eólica e principalmente solar vieram trazer uma fonte muito variável e de difícil controlo. Com o seu aumento, torna-se mais difícil fechar esse balanço. O apagão de abril 2025 parece ter sido a consequência de uma falha nessa gestão.

No entanto, nos períodos com excesso de produção e quando há energia a ser oferecida a custo zero e mesmo marginalmente abaixo de zero, os consumidores domésticos estão num tarifário de “pico” e a restringir o consumo. Há aqui algo que não faz sentido, já que os esquemas tarifários continuam a ser os herdados de outro século e de outra realidade.

Se as grandes empresas podem gerir dinamicamente o seu consumo e a sua fatura em função do preço real, seria lógico que a nível doméstico se criassem mecanismos e tarifas dinâmicas para que equipamentos tolerantes à intermitência como aquecimentos de água, climatizações e carga de veículos elétricos, por exemplo, pudessem estar informados e reagir automaticamente, aproveitando esses períodos de excesso de produção e esses preços baixos.

Comportaria alguns desafios técnicos e regulamentares (e de contra lóbi), se bem que a dificuldade não estará ao nível de um projeto Artemis. Permitira os produtores serem melhor remunerados, os consumidores pagarem menos e os reguladores terem uma dimensão de controlo adicional.

O que não faz sentido é estarem os consumidores a travarem consumos, porque o custo da energia é alto quando o sistema rebenta pelas costuras com excesso de oferta e são travadas e desperdiçadas capacidades de produção renováveis.



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