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20 agosto 2025

Os incêndios não chegaram ao Algarve


Está certo que políticos e governantes têm direito a férias. Está certo que provavelmente estarem num ministério em Lisboa ou nas areias do Algarve, poucos efeitos diretos teria no efetivo combate aos incêndios. Está certo que a Ministra da Administração Interna pode ser ou ter sido muito competente noutras funções, mas, atualmente, quando fala, parece-me mais ouvir um “Tirem-me daqui!”, em vez de um “Eu estou aqui!”.

Evidentemente que as oposições aproveitam para tirar dividendos e fazer comparações com a presença dos anteriores governantes no passado em teatros semelhantes (e que não foram em agosto).

Enfim, para lá das questões objetivas e responsabilidades a apurar, aquelas imagens de “beautiful people” a gozar a praia, intercaladas com o desespero e impotência face aos fogos devastadores vai ficar gravada. Podia o PSD ter feito um “encontro”, mas não uma festa. E, por muitos entusiastas que o desporto automóvel em geral e a F1 tenham no país, não era momento para promover entusiasmos, nem esses nem outros. Insensibilidade e assustador alheamento do resto do país, o “real”.

Atualizado em 21/8 com a publicação no "Público"


21 agosto 2024

Brincamos


A imagem acima é um pouco “mazinha”, mas justifica-se pela falta de seriedade com que se tem tratado a questão do risco de incêndio nos automóveis elétricos.

São referidas estatísticas evidenciando que os automóveis tradicionais de combustão têm um risco até 60 vezes superior ao dos elétricos, mas a questão é que essa estatística é baseada apenas em número de incidentes e todos sabemos que quanto a quantificar riscos e acidentes, há um índice de frequência, número de ocorrências, e um índice de gravidade, considerando os seus efeitos.

Um dia em que há dois despistes que acabam com os carros num campo de batatas não é pior do que um dia em que um único despiste terminou numa paragem de autocarro em hora de ponta.

O contexto e os efeitos dos incêndios nos automóveis de combustão são muito diferentes do dos elétricos. Se compensa a “desvantagem” numérica das 60 vezes é outra coisa, mas ignorá-lo não é sério.

Tipicamente um automóvel convencional incendeia em funcionamento, com alguém ao volante ou perto, que facilmente encosta e, se tiver a previdência de ter um extintor à mão talvez consiga apagar o incendio, e, no pior dos casos, sem arder mais do que o veículo em causa e algumas ervas à volta.

Um elétrico detona frequentemente estacionado e abandonado, a carregar ou não, e não é bem um simples incêndio, é uma brutal explosão alimentada a partir da parte inferior do veículo. Não se apaga, confina-se, e ocorrendo frequentemente em zona densamente ocupada, dificilmente esse confinamento fica pelo veículo inicial.

Daí que o balanço final de cada ocorrência seja potencialmente muitíssimo mais pesado no caso dos elétricos.  Vai uma aposta em que, apesar de todas as mensagens tranquilizadores e estatísticas favoráveis, iremos acabar a ver estações de carga com distâncias mínimas entre veículos regulamentadas ou até muros individuais corta-fogo…?

09 abril 2024

As alterações das causas


 Citando, disse-se hoje que:

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) decidiu nesta terça-feira que o caso dos seis jovens portugueses contra Portugal e outros 31 Estados é inadmissível relativamente à jurisdição extraterritorial dos restantes Estados mencionados no processo no combate às alterações climáticas…

Se é indiscutível que por várias razões devemos ter atenção e frugalidade relativamente à utilização dos recursos do planeta, já começa a ser irritante a facilidade com que se invocam as “alterações climáticas” para justificar tudo e mais alguma coisa.

Relativamente ao caso acima citado, do TEDH, os jovens portugueses terão atribuído às ditas cujas os brutais incêndios de 2017 e respetivas vítimas. Que me lembre, há incêndios florestais desde a década de 70 e a floresta/mato abandonada, limita-se a acumular matéria combustível até arder um dia e não é por um grau a mais ou a menos que as labaredas avançam ou recuam.

Quanto às vítimas, que o envergonhado e sumariamente detalhado monumento acima representado evoca, todos sabemos que há mais de falta de Proteção Civil, Siresp, coordenação e outras razões do que graus a mais.

Não misturem, por favor….

21 agosto 2023

Boa vontade e escrutínio

É indiscutível o enorme esforço e dedicação que abnegada e voluntariamente muitos bombeiros dedicam a causas humanitárias e solidárias. Merecem, sem dúvida, o nosso respeito, reconhecimento e agradecimento.

No entanto, os bombeiros e respetivas associações não são certamente um corpo único e homogéneo. Como em todos os setores haverá pessoas com diferentes valores e princípios. Os elementos e corporações sãos terão todo o interesse em ver separado o trigo do eventual joio. Por isso custa a entender as reações generalizadoras de “virgem ofendida”, cada vez que é evocado algo que potencialmente pode não estar correto no meio.

O seu mérito não invalida o poder/dever questionar a forma como são financiados e como gerem os seus fundos. O fato de serem dedicados e voluntários não deve constituir blindagem ao escrutínio.

O problema recorrente que temos com os incêndios florestais, deve fazer questionarmos se estamos a fazer tudo corretamente em termos de formação, utilização de meios, estratégias de prevenção, etc

Quem não deve, não teme; quem tem espírito aberto ouve e aprende… e de virgens ofendidas está o inferno cheio.

     

13 agosto 2023

Não há pachorra..

 

Tiago Oliveira, reconhecido como técnico competente e não comissário político, presidente da AGIF (Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais) disse no Parlamento que “os corpos de bombeiros receberem em função da área ardida”, constituiu um “objetivo perverso”.

É verdade ou não? Se for mentira ele deve retratar-se. Sendo verdade, é evidente que há algo de perverso no esquema, sem isso significar que os bombeiros deixem arder para faturar.

É óbvio que os incentivos e os investimentos devem estar na prevenção, em gerar dinâmicas económicas “positivas” e não pagar os estragos ao metro.

A reação da Liga dos Bombeiros Portugueses de virgem ofendida a exigir a demissão de Tiago Oliveira por estarem “ofendidos e chocados” é muito típica e já que não corro o risco de ser demitido por isto:

- Há necessariamente uma enorme dedicação e boa vontade solidária em milhares de bombeiros voluntários por este país fora

- Esse mérito não invalida o poder/dever questionar a forma como são financiados e como gerem os seus fundos. O fato de serem dedicados e voluntários não deve constituir blindagem ao escrutínio.

- Em termos de prevenção o que fazem neste momento os bombeiros? Divulguem e explicam, porque ouvir não se ouve muito falar

Sejam objetivos e concretizem. De virgens ofendidas está o inferno cheio


27 agosto 2022

Podia ser pior


Partiu um braço? Poderia ter sido os dois! Foram os dois? Poderia ter sido também as pernas! Foram também as pernas? Poderia ter ficado paraplégico! É sempre possível face a algo que corre mal imaginar um ainda pior e assim conseguir fraco consolo.

Relativamente à calamidade habitual dos incêndios, ficamos a saber, segundo uma secretária de Estado, que podia ter sido pior. E não se baseou em palpites ou sentimentos, mas num mui científico algoritmo. E quem governa, apenas mede os resultados nos algoritmos ou procura antecipadamente melhorar? E este tomará em consideração a competência, a organização e os meios? E se, por exemplo, em vez de gastarmos milhares de milhões a manter os Airbus da TAP no ar, houvesse mais Canadair a voar e a apagar incêndios? Aposto que esta o algoritmo não apanha!

Por outro lado, depois de ter ardido 1/4 do Parque Natural da Serra da Estrela, a ministra vem dizer que vai ser realizado um plano de recuperação e revitalização que deixará o Parque melhor do que o que estava. É pena então não ter ardido todo! Portanto, vamos lá ao Gerês, Sintra, S. Mamede, Montesinho, etc, toca a passar as chamas para no final ficarem melhor do que o que estão! A ministra saberá o que é uma floresta?! Já agora, o ardido pinhal de Leiria, cinco anos depois, como vai em termos de recuperação?

18 julho 2022

O gosto de proibir


Neste espírito de só nos lembrarmos de S. Bárbara quando troveja, também só pensamos na floresta e nas matas quando elas ardem e aí lembramo-nos que é necessário fazer alguma coisa. Dentro dessas coisas e meios, que nunca são os suficientes, podemos lembrar-nos do belo negócio dos helicópteros Kamov, há anos inoperacionais e sem atar nem desatar.

É importante regulamentar as atividades nas áreas florestais quando o risco é elevado, mas o proibir eventos que podem ser bem enquadrados e monitorados, parece mais um fazer para dizer que se fez do que uma significativa redução de risco. Quantas ignições foram registadas em tais contextos? Vamos fechar todos os parques de campismo não urbanos?

Se um dos problemas de fundo é o abandono do interior e respetiva inatividade económica, certo que não serão os festivais de verão que os irão revitalizar estruturalmente, mas retirar de lá os palcos e trazê-los em Lisboa é simbólico qb.

Regras são necessárias, mas não precisam de ser proibições cegas. A menos que os confinamentos e outras restrições decretadas nos últimos tempos tenham desenvolvido o gosto pelo proibir. É sempre fácil proibir; se isso é construtivo, é outra questão.

26 julho 2019

Fazer de conta


Há muitas situações em que a parecer conta e até pode ser suficiente, outras não. Basta imaginar um automóvel cujos travões apenas aparentam travar… Isto é capaz de ser a minha costela de engenheiro a dar prioridade ao ser/funcionar face ao parecer. Para mais detalhe consultar o brilhante Scott Adams e o seu Dilbert quando descreve as idiossincrasias dos engenheiros.

Por estes dias ficou a saber-se que a nossa brilhante Proteção Civil, que parece ter maior prioridade em proteger os seus boys do que a população em geral, mandou fazer e distribuir golas “anti fumo” que podem servir para alguma coisa, eventualmente para proteger os pulmões do frio no inverno, mas que a última coisa que devem fazer é estar em cenário de fogo. E foram distribuídas às populações das aldeias identificadas com alto risco de incêndio.

Lógica disto? Alguém se enganou? Não…! Colocada face ao ridículo a agência que faz de conta que protege esclareceu que efetivamente não se trata de equipamento de proteção, mas apenas de sensibilização de “boas práticas”. Aparentemente não parece ter sido essa a história contada aos felizes contemplados.

Ainda bem que a ANPC não especifica nem concebe automóveis, que teriam coisas parecidas com travões mas que não travam, volantes que não dirigem… enfim, ainda bem. Mas não é por acaso que este país anda um pouco descontrolado!

05 junho 2019

E acabar de vez com o Siresp?


Quando inicialmente o Siresp foi pensado poderia fazer sentido construir uma infraestrutura dedicada para aquelas funções, com aquela tecnologia. Na altura em que foi finalmente contratado e implementado, haveria já muitas dúvidas sobre a pertinência dessa opção e passemos ao lado da atipicidade do processo do concurso, com uma única proposta recebida, e o ziguezague da adjudicação/anulação/readjudicação.

Nas tragédias de 2017 ficou patente que o sistema tinha bastantes deficiências e limitações. Que para lá das atipicidades do negócio era necessário e fundamental que funcionasse mesmo e bem. Daí para cá muito se fala em investir/gastar dinheiro para melhorar o seu desempenho e disponibilidade.

Se há 15 anos era questionável a necessidade de construir uma rede dedicada, hoje, com o enorme desenvolvimento posterior das redes móveis, dúvidas não há. Parece-me que por mais euros que lá se coloquem, nunca fica resolvido o problema da obsolescência tecnológica e dos custos crescentes que ela acarreta. Não fará mais sentido acabar de vez com uma coisa que, ainda por cima, já nasceu velha?


- Incluindo versão impressa no "Público" de hoje.

14 janeiro 2019

Estranheza?


Em outubro de 2017 o país assistia atónito e angustiado a um enorme descalabro na plantação de naus a haver, raiz simbólica de sonhos e aspirações nacionais. O pinhal, de pinheiro, de Leiria sofria um incêndio de enormes dimensões.

Depois, vimos uma bonita cerimónia oficial de replantação, bastante parcial, está claro, mas de sobreiros, que são uma árvore “melhor”. É que o pinheiro, apesar de não ter o estigma do eucalipto, também não é assim mesmo o que deve ser. Sobreiro é politicamente mais correto e ficamos na dúvida sobre se aquele seria um primeiro passo para vermos a prazo um montado de Leiria ou outra coisa.

Aparentemente foi outra coisa, já que as tais arvorezitas simpáticas, se não morreram todas, pouco falta. Parece que não são adaptadas àquele solo e quem organizou a cerimónia catita, com representação governamental ao mais alto nível, não sabia e não terá dado ouvidos a quem sabe. Politicamente correto e tecnicamente errado, não é grande novidade, pois não? Será de estranhar que este país ande um pouco pior do que todos gostaríamos?

Podem ter um pouquechinho de vergonha e de humildade para acabarem com estas encenações absolutamente caricatas e trabalharem a sério?


Foto Daniel Rocha/Público

20 dezembro 2018

E porque não se calam?


Já referi aqui atrás a bacoca autossatisfação do Secretário de Estado sobre a conformidade legal da ação da proteção civil, na operação de socorro ao helicóptero do Inem acidentado, cujos destroços e vítimas esperaram 6 horas para serem encontrados. Para não ficar atrás, o Ministro da Defesa aproveitou e veio dizer que a intervenção da sua Força Aérea tinha sido impecável. Depois soubemos que a prontidão de 15 minutos do seu helicóptero afinal passou para uma hora, porque o mesmo estava avariado e foi preciso ir buscar o de reserva. Não teve consequências porque o acidente tinha já feito todos os estragos possíveis e a meteorologia nem sequer permitiu a intervenção da Força Aérea. No entanto, chamar a isto “impecável” …

Quem já deve ter aprendido a não fazer declarações simpáticas a quente é o Presidente da República, depois de em Pedrogão ter afirmado num primeiro tempo que tinha sido feito todo o possível. A propósito, o senhor de Tondela, o da fotografia simbólica com o PR, morreu sem recuperar o perdido, eventualmente prometido na altura. Falta de amigos na autarquia, eventualmente.

Entretanto, no Parlamento fala-se de proibir provérbios com animais, coisa importante e de uma nova lei de base para a saúde. E porque não se, em vez de pensarem em novas leis, tentassem fazer funcionar as que existem e se em vez de inventarem novas necessidades, assegurassem a disponibilidade das básicas?

05 setembro 2018

Não era futebol


A degradação e o descuido que levaram ao brutal e devastador incêndio que destrui uma boa parte do Museu Nacional no Rio de Janeiro não foi consequência do governo dos últimos dois anos, como alguns tribalistas se apressaram a dizer.

É uma história de longos anos. Consequência de cortes/austeridade e desinvestimento, certamente, mas também de desinteresse geral. Não haver água disponível para combater as chamas quando era necessária será mesmo e apenas questão de orçamento?

Sobre orçamento e cortes, convém recordar que este país organizou um campeonato do mundo de futebol há quatro anos, com tudo o que de enorme investimento perdido estes eventos implicam.

Portanto, se estivesse em causa o futebol e não 200 anos de história e de memória do país e até património único da humanidade, talvez o edifício tivesse tido mais atenção. Apenas por lá ?


Foto: Globo.com

02 setembro 2018

Ai Portugal

As denúncias dos desvios e abusos na utilização das verbas disponibilizadas para as reconstruções de Pedrogão Grande não devem ser tribalizadas. É pouco relevante a cor política dos intervenientes. Creio que, infelizmente, a “chico espertice” do vale tudo para deitar a mão ao que está ali a mão, seja simples dinheiro público de todos nós, seja uma coleta solidária em favor de quem foi vítima de uma desgraça, não tem cor dominante. É caraterística de uma falta de princípios e de vergonha, transversal na horizontal e na vertical. Podem até dizer os beirãos: se os excelentíssimos senhores deputados aldrabam a sua declaração de residência para receberem mais umas massas, porque não o posso fazer eu também para ver o meu palheiro transformado em casa?

Efetivamente, a doença é a mesma e o pior que podemos fazer é relativizá-la pela família política dos protagonistas. Enquanto assim fizermos, continuaremos bons a “discutir futebol”, mas não é por aí que sairemos da cepa torta.

09 agosto 2018

Insensível ou pior

Terei sido um dos muitos que ficou de boca aberta quando o nosso PM, no contexto de uma análise ao incêndio de Monchique, utilizou a palavra “sucesso”. É um pouco como, face aos destroços de um acidente aéreo, dizer aos familiares das vítimas que as melhorias na segurança aérea são um caso de sucesso.

Por um lado, há a questão objetiva de se faz sentido falar agora em sucesso. O que sabemos é que o clima tem sido muito favorável, mas bastaram uns dias de calor para vermos já um enorme incêndio descontrolado. Seria prudente esperar pelo final do verão, antes de tirar conclusões.

Depois, há o contexto. Na situação catastrófica e dramática que se vive por aqueles lados, e drama não é apenas a perda de vidas humanas, usar a palavra sucesso é de uma enorme insensibilidade ou pior.

Ainda, sobre o que está a acontecer, para lá das imagens da facilidade de apagar velinhas de aniversário, dos grandes planos dos desesperos e da inflação no número de especialistas que nesta altura brotam, gostava de ver informação objetiva. Onde começou, onde se atacou, por onde circulam os meios, onde se reacendeu, por onde evoluiu, tudo isto documentado com números concretos. Ou seja, ter informação objetiva sobre o que se está mesmo a passar. Não sendo assim, ficamos reduzidos aos shows: o dos media e das suas entrevistas emotivas no meio da fumarada e o das comunicações oficiais sempre iguais, proporcionando especulações, muitas dúvidas e fáceis manipulações.

Se, quando se estiver já na fase da cinza, se concluir terem existido falhas graves na coordenação, haja sensibilidade para tirar conclusões e assumir responsabilidades.

06 agosto 2018

Tecnologias de proteção


A nossa Proteção Civil, a quem convinha fazer algo de excelente para limpar um pouco a imagem da vergonha do ano passado, resolveu ser moderna. Decidiu enviar SMSs a avisar quando há risco de incêndio, a dar um número de contacto e a pedir para as pessoas ficarem atentas. Dá uns títulos engraçados e quantificados como convém: Proteção Civil envia 7 milhões de SMS… grande trabalho, sim senhor. Convém apenas melhorar um pouco as 12 horas que o processo demora.

Sábado passado, seis jovens ameaçados por um incêndio na zona de Estremoz ligaram para o 112 e, na impossibilidade de explicarem onde estavam exatamente, ficaram a saber que não era possível enviarem a sua localização GPS para nenhum recetor. Ou seja, a Google certamente saberia onde eles estavam, mas para a Proteção Civil isso era impossível. Ficaram os seis feridos e dois com gravidade.

É mais fácil despejar SMSs de pertinência discutível do que poder receber a localização GPS de quem liga para o 112? Aparentemente seria, mas não foi o caso, dado que o primeiro SMS saiu com o número errado. Lapsos ...

21 fevereiro 2018

E o meu carvalho?


Como muitos portugueses, recebi um folheto governamental com as recomendações e obrigações relativas à prevenção dos incêndios florestais. A parte que diz respeito à proteção das casas, aqui reproduzida, é pouco clara.

Por um lado, define a obrigação de limpar mato e cortar árvores num raio de 50 metros em redor das casas. Por outro lado, em letra pequena em baixo, diz “cortar árvores e arbustos a menos de 5 m da edificação…”. Como ficamos, 50 ou 5? Mesmo com o critério dos 5 metros, o meu carvalho estaria incluído. Sou mesmo obrigado a cortá-lo?

A limpeza das copas está mal definida, além de representada de forma pouco precisa. Presumo que no que diz respeito à altura, o objetivo será ter o tronco limpo até 4 metros de altura. Para qualquer espécie, para qualquer idade? Se formos limpar a maior parte das árvores de fruto até 4 metros, sobrará pouco… Na horizontal, os 4 metros são entre copas de árvores contíguas? Nas situações onde isso não ocorre, é necessário abater as árvores em “excesso”? A ser rigoroso com estas instruções, cheira-me que não sobrarão muitos pomares incólumes pelo país. Não faria sentido isto ser um pouco mais contextualizado, conforme espécies, tipo de exploração e zona?

Onde o folheto é muito claro é na questão das multas, com a particularidade de este ano serem a dobrar! De acordo com o folheto, o meu singelo carvalho pode custar-me 10 mil euros! Como é bem possível, por outro lado, existir legislação que penalize o abate de carvalhos, tenho que me informar e avaliar qual será o prejuízo menor.

Terão mudado algumas cabeças, mas mantém-se a ligeireza, apenas acrescida de chico esperteza: quando houver a próxima vaga de incêndios, a “culpa” será obviamente de quem não cumpriu estas obrigações irrealisticamente vastas e vagas.

29 janeiro 2018

Querer cabras e o que as cabras querem


Acho muito curiosas algumas notícias com títulos que são meras declaração de intenções, do tipo: “O ministro quer…” Sim, é importante o que eles querem, querer é um pouco poder, mas a omnipotência não está ao alcance de um comum mortal, mesmo sendo ministro.

Uma dessas notícias giras que vi recentemente era a de o governo querer apostar em cabras sapadoras, para prevenir os fogos florestais. A partir daqui, vou especular, mas a culpa não é minha, já que não encontrei em lado nenhum os detalhes necessários e relevantes.
Imaginando que tenho um hectare de terreno, grosso modo um campo de futebol, talvez 2 ou 3 cabras façam a monda necessária. Só que uma coisa é esta escala, outra coisa é coisa que se veja, com algum impacto no problema em causa.

Em média têm ardido em Portugal 100 mil hectares por ano e foram bastante mais em 2017. Como nunca se sabe bem onde vai ser o fogo, a área a necessitar de proteção será certamente superior a essa. Para simplificar, pensemos nesta ordem de grandeza, para não colocar excessivas responsabilidades nos pobres animais. Assim, dentro do rácio especulativo acima, necessitaríamos de lançar na natureza umas 200 a 300 mil cabras!

Imaginando que até se arranjam os animais, mas considerando que as zonas a proteger não são vedadas e que não vão ficar amarradas, coitadas… que garantias há de efetivamente permanecerem bem distribuídas, ainda por cima um animal com bastante espírito de iniciativa e excelente mobilidade? Não preferirão saborear outras culturas mais tenrinhas e apetitosas? Não se deslocarão para zonas urbanas, com todas a perturbações fáceis de imaginar? Como se iria controlar a sua população? Como se realizaria um controlo sanitário mínimo dos animais? Qual o impacto nos ecossistemas desta sobrecarga caprina? Não iriamos ter a algum prazo algures uma praga?

Obviamente que tudo isto são detalhes que não cabem no título daquilo que “o governo quer”. Para poder não basta querer, é também necessário pensar.

28 outubro 2017

O que foi diferente?


Existem incêndios florestais significativos em Portugal há décadas. Com mais ou menos área florestal ardida, fatalidades costumavam ser muito pontuais e prejuízos materiais para lá da vegetação eram geralmente limitados a construções isoladas. Este ano foi diferente, pelo número de vítimas e, sobretudo no dia 15/10, pela extensão e natureza dos estragos, abrangendo zonas que não se imaginava expostas.

O que houve de diferente este ano? Diria que fundamentalmente as condições climatéricas de fundo, um inverno muito seco, e uma meteorologia atípica nos dias das catástrofes. Se isto foi efetivamente diferente, por si só não justifica toda a desgraça. Deficiências que poderiam passar desapercebidas em situações menos exigentes, ficaram expostas e agravaram as consequências. Incompetência dos “boys”, planeamento burocrático (as grandes catástrofes de junho e outubro não respeitaram o calendário oficial), as falhas nas comunicações, incluindo a vergonhosa história do Siresp e a falta de profissionalização e de organização no combate aos incêndios.

Não será certamente por falta de leis. Após Pedrogão foi aprovada nova legislação, a tal do D. Dinis bis, e dois meses depois, com o relatório da comissão independente e a segunda catástrofe, novo pacote é lançado. Considerando que uma árvore precisa de décadas para ficar adulta, imaginemos quantas reformas elas verão durante o seu crescimento, caso aguentem. Há bastantes semelhanças entre este pacote de outubro e o pós-2003. Até no anunciar de novas centrais de biomassa e, já agora, onde andam as lançadas em 2006?

Vemos muitas medidas bondosas, mas esquecem uma coisa fundamental: a economia! Enquanto não houver uma perspetiva económica que viabilize a exploração das florestas, estas ficarão abandonadas a gerar biomassa. Podem somar os bombeiros, militares e aviões que quiserem: elas irão arder, será apenas uma questão de tempo.

Entretanto, uma das poucas utilizações economicamente viáveis que é a plantação do eucalipto é diabolizada, como se fundamentalmente só ardessem zonas de eucalipto e o resto, como o pinhal de Leiria, fossem simples exceções, a confirmar a regra. Para lá de outras consequências económicas, se arrancarmos os eucaliptos, reduzindo a atividade económica existente, o abandono não irá agravar? Dizem alguns que não, que vamos plantar carvalhos, são melhores e mais bonitos. São sim, mas nem toda a gente tem o carro melhor e mais bonito que gostaria de ter, pois não? É a economia...

23 outubro 2017

Quem te avisa…


O “aviso” reproduzido acima não me foi entregue na entrada de uma exibição de “A Guerra dos Mundos”, para dar ambiente. Apareceu-me na caixa de correio (física) e não nestes tempos recentes de picardias e tuitadas entre o Mr Trump e o Kim. Foi já em 2010 e eu fiquei extremamente intrigado com como e porquê alguém se deu ao trabalho de elaborar e produzir um aviso daqueles. Costuma-se dizer que “quem te avisa, teu amigo é”, mas eu, ingrato, ainda não preparei a mochila recomendada.

Isto de avisos e calamidades, fez-me pensar que entre a catástrofe de Pedrogão e a calamidade do 15 de outubro, não recebi, nem me lembro de ver física ou eletronicamente nenhum aviso com o que fazer em caso de incêndio próximo. Presumo que seria algo útil para as populações mais expostas. Estas apenas ouviram, à posteriori, que deveriam ser mais pró-ativos e resilientes. Sobre a forma da pró-atividade, essa fica no campo do autodidatismo, já que somos um povo sobejamente desenrascado. Se correr mal, aprendam para a próxima… caso cá fiquem para tentar de novo.

Porque é que em quatro (4) meses não foi possível emitir e divulgar um “manual” sobre o tema. Falta de lembrança, de vontade … ou de conhecimento?

17 outubro 2017

Sobre as naus que não haverá


Se houvesse a escolher cinco locais naturais do país a proteger a “qualquer custo”, certamente que o pinhal de Leiria estaria nessa lista. Não apenas pela dimensão, pela função de estabilização do terreno numa parte daquela longa faixa litoral arenosa, que sem vegetação pareceria um deserto, mas, obviamente e também, por “a plantação de naus a haver” ser simbolicamente cadinho e berço de sonhos e aspirações.

O pinhal não estava dividido, com um canto do Manuel em Lisboa, uma tira do António no Luxemburgo e uma leira de uns herdeiros desentendidos quanto a partilhas (também não tinha eucaliptos…). Estava todinho à disposição do Estado.

Se há sítio onde podia e devia haver uma gestão e um ordenamento florestal irrepreensíveis seria ali. Avisos tinham saído de que a falta de limpeza e tratamento podiam proporcionar uma calamidade. Agora, resta-nos esperar serenamente pelas conclusões de um mui provável inquérito “post-mortem”. As notícias de que “faltava verba” para gasóleo, a ser confirmada, é assustadora, mas, realmente, não se pode ter tudo. O cumprimento do défice implica sempre prioridades. E pode-se reverter esta calamidade, senhores?

Será certamente replantado, não sendo necessário um D. Dinis bis para isso, mas a imagem acima de Hélio Medeiros do pinhal a arder, ficará na nossa memória associada à mediocridade e incompetência do desgoverno neste país, cada vez mais incapaz de sonhar com naus a haver. Tristeza.