Entre “Os Lusíadas” de Luís de Camões e a “Mensagem” de
Fernando Pessoa, fica a “Pátria” de Guerra Junqueiro. Em contextos e estilos
muito diferentes, há algo em comum nestas três magnificas obras poéticas. O
amor dos seus geniais autores pela sua ditosa Pátria, numa declaração inquieta
e pujante, face a uma realidade decadente.
Em Camões temos a epopeia e o heroísmo, em Pessoa o
fantástico e o misticismo, em Junqueiro o desespero e a loucura. O pano de
fundo da “Pátria” é o do momento da aceitação do ultimato inglês de 1890 e a
respetiva gestão por um rei, D. Carlos, apresentado como mundano, socialmente
insensível, incompetente e irresponsável.
Este episódio tem características únicas e irrepetíveis.
Participamos em poucas guerras, muito menos saindo delas como perdedores, pagando
por isso humilhações deste tipo. Ocorre também num momento de esgotamento do
regime monárquico. D. Carlos era muito diferente do seu tio Bem Amado, D. Pedro
V. Os republicanos aproveitaram para capitalizar o descontentamento provocado e
mobilizar vontades para a mudança de regime.
Guerra Junqueiro acreditava que a sorte do país seria
diferente sob um regime republicano e na teoria teria razão. É potencialmente
mais seletivo ao mérito, mais justo e assim, supostamente, mais próspero. Lutou,
com a pena, por esse ideal, mas o resultado da Primeira República, muito
diferente do modelo cívico de elevação moral que ele imaginara, rapidamente o
desiludiu. As lutas partidárias, corrupção e violência, a começar pelo regicídio,
amarguraram-no a ponto de refazer uma nova versão mais macia da “Pátria”, esta
sem interesse.
Hoje não corremos o risco de receber ultimatos humilhantes e
as teorias disruptivas de mudança de regime também não estão muito pujantes
com uma revolução possível ao virar da esquina. No entanto, a incapacidade de a
liderança do regime ser um modelo cívico de elevação mantém-se, somando-se os
casos desde Primeiros-Ministros a Presidentes de Junta de Freguesia.
Como a ditosa Pátria vai sair e para onde irá, não sabemos,
mas corre o risco de enlouquecer à imagem do “Doido” de Junqueiro e sabe-se lá
o que pode fazer um louco.

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