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02 abril 2023

É crime, digo eu


Recordo-me de uma época em que havia edições dos Lusíadas censuradas, nomeadamente quanto ao relato do encontro dos bravos navegadores com as Ninfas da Ilha dos Amores. De facto, passagens como a seguinte podem chocar puritanos zeladores de almas inocentes:

De uma os cabelos de ouro o vento leva

Correndo, e de outra as fraldas delicadas;

Acende-se o desejo, que se ceva

Nas alvas carnes súbito mostradas;

Uma de indústria cai, e já releva,

Com mostras mais macias que indignadas,

Que sobre ela, empecendo, também caia

Quem a seguiu pela arenosa praia.

Entendo que hoje não deve passar pela cabeça de ninguém censurar desta forma a genialidade e a beleza do grande poeta. Isso seria um crime. Não faltam, no entanto, zelotas de outras causas e pudores que já não se limitam a cancelar e a procurar limitar e proibir produções culturais e artísticas “incorretas”. Chegaram ao ponto de “corrigir” obras de outros tempos, em profundo desrespeito pelo público e pelos autores. Coloquem lá uma bolinha vermelha, preta, rosa ou outro sinal qualquer, mas deixam a obra como foi criada. Ou então, escrevam claramente na capa “Edição objeto de censura ideológica”. Caso contrário, é crime, digo eu!

16 março 2021

Um novo apartheid


Tempos e países houve onde se separavam as pessoas pela raça, por exemplo, escolas para uns e outras escolas para os outros. Houve quem tivesse sonhado e lutado por um mundo onde direitos e oportunidades não dependeriam da cor da pele; onde essa ideia de dividir seres humanos por uma coisa chamada cor ou raça seria um anacronismo a eliminar.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e vemos hoje polémicas quanto a quem pode ou não traduzir o poema de Amanda Gorman, pronunciado na tomada de posse de Joe Biden. A tradução de um texto literário e especialmente de um (bom) poema, onde há duplos sentidos, imagens evocadas e uma elegância de frases a cumprir, não é como ser um figurante porta-estandarte. Requer um bom conhecimento da língua origem e um excelente domínio da língua destino. A escolha de um tradutor deve ser determinada pela capacidade e mérito e não pela cor da pele ou o género.

Depois do tempo em que se aplaudia quem tinha belos sonhos, passamos a um tempo em que nos querem fazer mergulhar num pesadelo triste e sombrio: o de um apartheid cultural.

11 fevereiro 2021

Importações e contrafações ideológicas


 Os States são um grande país que influencia meio mundo (mais de 3/4?) de várias formas e feitios e não apenas pelos jeans, filmes de cowboys e a coca-cola. Inevitavelmente há inúmeros produtos e ideias que são importados e adaptados, preocupando-se eles muito pouco com o tal crime de apropriação cultural, pelo contrário, até o fomentam.

Uma ideia made in USA que foi importada para o mundo ocidental em geral com tradução deficiente é o mea culpa ad-eternum pela escravatura e tráfico associado e o correspondente crédito infinito que tais crimes atestam à comunidade de cor (mesmo estas expressões têm hoje de ser usadas com pinças). Vamos por partes.

A escravatura não é invenção nem exclusivo ocidental, como os dois livros acima representados, que li recentemente bem documentam. Se a escala do tráfico Atlântico foi enorme, o equivalente no Médio Oriente e no Norte de África, só para falar de realidades mais próximas, não foi quantitativamente irrelevante nem diferente no princípio nem na brutalidade.

A partir do século XIX a Europa e especialmente a Inglaterra desenvolve um esforço enorme para acabar com a escravidão e respetivo tráfico no Mundo. Sim, com a máquina a vapor do lado deles o fim da mão de obra escrava era do seu interesse económico, mas independentemente da motivação, a ação foi essa.

O tráfico de escravos em África só acabou após a colonização europeia em larga escala do continente, durante o século XIX. Sem menorizar todos os males desse processo, neste campo particular foi decisivo. Portanto, por motivações e meios questionáveis, o facto é que a Europa está há dois séculos a lutar contra a escravidão e a erradicá-la dos territórios por ela controlada.

Passemos aos States. Foram os grandes “beneficiários” do tráfico Atlântico, mas também no século XIX o poder central aboliu a escravatura, de forma veemente e decidida, provocando uma séria guerra civil (1861-1865). O que há a acrescentar sobre isto é que os Estados do Sul, perderam a guerra, foram vencidos, mas não convencidos. Após a retirada das forças do Norte, arranjaram forma de contornar a “igualdade” constitucional formal e implementar uma coisa muito feia, que se chama segregação racial, grosso modo o equivalente do apartheid sul-africano. Este processo vergonhoso entrou pelo século XX, muito apoiado pela comunidade branca pobre e rural, que aí via uma oportunidade de promoção automática (a tal supremacia branca). Já não é escravatura, mas há uma continuidade na recusa de conceder plenos direitos aos descendentes de africanos, misturando-se os dois conceitos na mesma acusação.

As lutas dos negros (e de alguns brancos) pela igualdade nos EUA (especialmente no Sul) no século XX têm todo o mérito e razão de ser. Bravo aos corajosos.

Agora, importar esse contexto para o Ocidente em geral e em especial para a Europa que há dois séculos luta eficazmente, erradicando o flagelo de onde pode… é uma contrafação, ou, digamos, um “lost in translation”!

17 agosto 2020

Isto de cativar…

 

É necessário denunciar Luis de Camões. Então, não é que em vez de condenar a escravatura, resolveu escrever poemas sobra uma bela (?) cativa que supostamente o tinha cativo – rica ironia! Um mau exemplo que perdurou. Mesmo no século XX, reputados esclavagistas como Zeca Afonso e Sérgio Godinho ainda tiveram o desplante de musicar e cantar a “bela cativa”. Obviamente, não podemos nem devemos olvidar que o poeta, despudorado esclavagista, manteve até à sua morte um escravo, Jau, trazido do Oriente. 

Os Lusíadas são pouco mais do que o exaltar de uma campanha miserável que levou a escravatura aos quatro cantos do mundo. Algo que nos deveríamos envergonhar profundamente. “Shame on you!”; queimem os livros; estátuas abaixo e toponímia corrigida! 

E não nos acusem de violência. Num passado não muito longínquo, jovens burgueses revoltados contra o seu próprio meio sociocultural, chegaram a despoletar bombas em estações de caminho de ferro. Aqui não se mata ninguém, apenas uma cultura podre, que indiscutivelmente é podre e nefasta. 

Não, ainda não chegaram ao ponto de derrubar estátuas de Camões e mudar nome de ruas e praças, mas a lógica subjacente está lá, se pensarmos, por exemplo, no Padre António Vieira. 

Sim, está em causa destruir uma cultura, a própria. Sim, é esse o objetivo destas excitações. Com todos os defeitos e virtudes, crimes e maravilhas que balizaram o seu caminho é a nossa história e raiz. O mínimo dos mínimos é construir o futuro lendo justamente o passado. As políticas de terra queimada nunca trouxeram nada de bom, especialmente no domínio cultural. Isto de cativar julgamentos e aprisionar pensamentos é muito mau sinal.


31 janeiro 2020

Essa coisa do colonialismo e racismo e os concursos de cuspidela


Recordo-me de, ao visitar o museu do Louvre pela primeira vez, ter tentado imaginar qual seria o estado de espírito de um egípcio ao ver ali a enorme quantidade de património trazido (roubado?) do seu país… Recordo-me também de, ao ter sabido dos riscos que correu o museu do Cairo aquando da famosa “primavera” de 2010, ter pensado… ainda bem que há tesouros culturais egípcios guardados em local seguro.

O tema do património deslocado não se resume a questões coloniais. Existe desde que na História há vencedores e vencidos e, inclusive, vendedores e compradores. Um tema passível de discussão, séria.

Um personagem como a deputada do Livre, famosa pela forma agressiva e pouco esclarecida como grita por “racismo e colonialismo” sem se preocupar demasiado em saber do que fala, veja-se a fotografia junto do quadro representativo da chegada de Vasco da Gama à India, vir lançar este tema em âmbito de discussão de orçamento de Estado é uma boa forma matar a discussão… Não sou racista, mas de tanto ouvir acusações generalizadas e cegas, começo a não ter pachorra para estes discursos, que já merecem um: “Porque não te calas?!”. Acusações mal fundamentadas, temperadas com fortes doses de injustificável e desnecessárias belicosidade e arrogância são um descrédito para a causa séria e uma bênção para o verdadeiro racismo.

O que André Ventura disse… é incorreto… mas não é sexista, nem racista. É uma resposta xenófoba a um irritante despropósito. E a discussão séria acaba antes de começar, até porque estes intervenientes, ungidos de uma suposta sapiência inatacável e inquestionável, não parecem verdadeiramente interessados em ouvir e discutir o que quer que seja… é mais “tipo” concurso de cuspidela!

14 janeiro 2020

Tecnicamente não é branco



Neste mundo, cada vez mais discriminado e discriminatório, por razões que não deviam ser razões, por pessoas que supostamente defendem a igualdade ou a equidade, ou lá o que lhe quiserem chamar, mas que basicamente se declaram contra as discriminações… a lista de idiotices não para de aumentar e de nos fazer diminuir a pachorra para aturar ativismos patetas.

Nos States, where else?, terá sido referido pelas publicações Deadline e Vanity Fair que António Banderas era um dos poucos atores de cor nomeado para os Oscares. A seguir veio a contestação de que ele não era de cor… será eventualmente transparente? e a seguir a tentativa de correção segundo a qual os espanhóis, e presumo que para quem o disse os portugueses pertencerão ao mesmo grupo, tecnicamente não sendo considerados de cor, mas …. Estou muito curioso em conhecer a base “técnica” de tais afirmações.

Há uns anos tive uma conversa estúpida com alguém lá do Norte, segundo o qual eu não era bem branco, tendo eu argumentado que ele também não, puxava assim para o rosa. Nunca imaginei que tal nível pudesse um dia subir tão alto. Catalogar pessoas em função da sua tez… é racismo, mesmo se pretensamente com boas intenções.

Portanto, temos uma discussão de alto nível artístico, social e cultural sobre se António Banderas em particular e os hispânicos em geral, podem ser encaixados nas quotas da gente colorida… se polegar para cima ou polegar para baixo!

O ridículo não mata, mas estraga… bastante.

14 outubro 2019

Os privilégios dos "desprivilegiados"


A História tem mais do que passeios em jardins floridos. Não faltam crimes, abusos e barbaridades que nos interpelam e interrogam como, por exemplo, a escravatura e a segregação racial. Mas uma coisa é reconhecê-lo e lutar contra todas as discriminações reais atuais, outra coisa é o fundamentalismo agressivo e generalizado contra os “brancos”, desclassificados logo à partida pela cor da pele (e se for homem heterossexual, a coisa agudiza-se). Não faltam exemplos e os acontecimentos de 2017 na progressista (?) universidade de Evergreen, nos USA, por um professor ter questionado o princípio de não dever vir à escola num “dia da ausência”, são uma mostra assustadora e grotesca de onde isso pode chegar. Ver documentário aqui.

A facilidade com que alguém é catalogado de racista, humilhado, silenciado e outro alguém se arroga no direito de se dispensar do mínimo de obrigações de respeito pelo seu semelhante, pela justiça e pelo rigor dos fatos, é uma forma de discriminação. Uma discriminação feia, que não fica muito atrás daquela que se pretenderia combater. Em vez de um grupo invocar uma supremacia, baseado numa suposta raça, temos outro grupo arvorando uma suposta superioridade, justificada por um estatuto de “intocável-desprivilegiado”, infinitamente credor por algo que ocorreu há seculos atrás e desmedidamente suscetível relativamente a qualquer coisa que ouça e não goste.

Não sei se poderá chamar a isto uma religião, tem semelhanças, mas não proporciona tolerância, justiça e harmonia entre todos os humanos deste planeta. Um péssimo serviço à causa fundamental.

09 outubro 2019

Pintar a cara de …


Neste nosso mundo onde há gente morrer de fome, por falta de condições sanitários, carências nos tratamentos de saúde, onde se vivem outras privações significativas e até o futuro do planeta está ameaçado, foi notícia importante a descoberta de uma fotografia antiga de 18 anos, em que o atual primeiro ministro do Canadá, disfarçado de Aladino, aparece com a cara pintada de preto. O próprio veio apresentar as suas desculpas e a mim custa-me a entender o pecado.

Se alguém pinta a cara de negro e ao mesmo tempo, repito, ao mesmo tempo, assume um comportamento grosseiro, estúpido e/ou mal-educado, associando-o à cor da pele, sim, isso é racismo estúpido inaceitável e a condenar, mas apenas e apenas se coexistem a cor e a atitude. Se unicamente assume uma máscara/um personagem que por acaso é negro, custa-me a ver o problema.

Podem argumentar que há um código antigo que associa o pintar a cara de negro a uma atitude depreciativa e racista. Sim, mas vamos construir um futuro baseado nesses códigos caducos? Não estará na altura de assumir que pintar a cara de negro, amarelo, azul, cor de rosa, em xadrez ou às riscas, ou o cabelo de louro ou de verde é isso e apenas isso? Não será preferível ignorar e apagar essas associações, em vez de as recordar e valorizar a este ponto?

Não estará na altura de assumir que o mundo que queremos é um onde “não há cor”, não a valoriza, nem de uma forma nem de outra…? Acredito que sim.