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04 janeiro 2020

Não sabe o que faz ?



O general iraniano Qasem Soleimani não seria certamente uma flor que se cheirasse e a lista de crimes e atrocidades cometidos pelas estruturas por ele lideradas não é leve nem pequena. De todas as formas, ao ler a notícia da sua morte por ação deliberada da administração Trump, é impossível deixar de pensar que isso não vai resolver nada, muito pelo contrário.

O carisma e a admiração a ele devotadas no Irão eram e serão enormes. O seu desaparecimento físico pode provocar algum enfraquecimento, mas ele era “apenas“ a cabeça de uma organização sólida e consolidada, que não vai desaparecer e a galvanização gerada pela raiva suplantará largamente essa perda.

Se, segundo a administração americana, a ação visava evitar a realização de atentados que custariam a vida a milhar de americanos (?!), podem ficar seguros de que as ameaças e ataques aos interesses americanos serão a partir de agora muito maiores do que antes.

Pela sua história e forte identidade, a Pérsia não irá abdicar de joelhos, por muito sofrimento que lhe inflijam. Fico mesmo com algumas dúvidas sobre até que ponto a repulsa pelo assassinato não será mesmo condenado por uma parte da rua árabe sunita, tradicionais e figadais inimigos do Irão.

Sabemos que a paz no Médio Oriente não é um problema exclusivamente importado por influências externas, mas, esta ação que nada ajuda nem resolve, mostra que a administração Trump não sabe o que faz, ou, o sabe… e isso é ainda mais grave.

16 abril 2018

Sem vencedores


Por muitos intervenientes que existam num conflito, o habitual é, mais tarde ou mais cedo, agruparem-se em dois blocos, que se defrontam até um deles vencer. Muitas vezes os alinhamentos são apenas de conveniência, podendo-se desfazer rapidamente logo a seguir ao fim da guerra e surgir uma nova confrontação entre antigos aliados. EUA e URSS durante e depois da II Guerra são um bom exemplo.

No caso da Síria, isso não está a acontecer, mesmo depois de 7 anos de guerra. É certo existirem duas linhas principais, motoras do conflito, que são o eixo vertical sunita, do Golfo à Turquia, contra o eixo horizontal xiita, do Irão ao Mediterrâneo. No entanto, o conjunto de intervenientes é tão diversificado que não se conseguem arrumar em dois blocos – ver exercício de identificar o (des)alinhamento atual na imagem acima. Por outro lado, uma vitória clara de uma potência regional, Golfo/Turquia ou Irão, seria dificilmente aceite pela outra parte.

Numa zona sensível como esta, os “big boys” nunca ficarão alheados, num jogo onde obviamente não há inocentes. Se numa primeira fase “toda a gente” era contra o Estado Islâmico, esse alinhamento inicial nunca passou por uma intervenção global e assumida no terreno. Provavelmente pela memória das desventuras iraquianas, das quais a situação atual acaba também por ser consequência, os EUA em especial mantiveram-se sempre a alguma distância. Esse vazio foi aproveitado pela Rússia, cuja intervenção musculada foi fundamental para o progresso do “regime”, enquanto a Turquia aproveita para ajustar contas com os curdos.

A ação desencadeada pelos EUA e aliados em 14/4 é uma bofetada contra um excesso do regime e um sinal amarelo à Rússia e ao Irão. Foi um aviso, pontual, não o início de uma operação de grande escala, visando derrubar o regime. Estando Trump muito mais próximo dos sunitas do que Obama, não é previsível que Macron alinhe em “cantigas” como o Sarkosy fez na Líbia, motivado pelo Qatar.

E, se não parece fácil vermos claros vencedores, irá esta guerra tornar-se crónica?

21 março 2018

E depois…


O que está a acontecer com N. Sarkosy, ex-Presidente francês, detido para interrogatório, já se estava a desenhar no horizonte há uns tempos. Como dizem por lá “On le voyait venir…” Tem aspetos positivos, porque, pior do que existir crime, é existirem intocáveis. Em muitos países com responsabilidades importantes no concerto das nações, isto nunca aconteceria. Até poderia ser bastante pouco saudável para jornalistas ou magistrados avançarem com investigações nestes campos.

Apesar da presunção de inocência e de o que se poderá formalmente provar ou não, a Justiça Francesa não terá chegado aqui com muitas dúvidas. Este prostituído … empochou (até com um toque de francês na origem da palavra) uns 50 milhões do Khadafi para a sua campanha eleitoral. É grave e especialmente chocante, se pensarmos no perfil do patrocinador, mesmo não sendo tão diabólico como na altura nos foi vendido.

Depois disso, Sarkosy foi “convencido” pelo Qatar a desencadear uma guerra para depor o seu antigo patrocinador. Que motivação terá existido? Será que, eventualmente, algum dia, um juiz lá chegará? Para lá de procurar impor um regime islâmico mais próximo da sua influência, terá sido relevante o facto de o país do Golfo possuir uns bons depósitos líbios nos seus bancos, que, entretanto, ficaram sem dono para os reclamar…?

A Líbia, depois de ser salva do seu ditador, por estes altamente motivados intervenientes, tornou-se o caos que todos conhecemos e não sabemos como ou quando um dia normalizará.

E, depois, o populismo é um problema.


Foto: Patrick Kovarik/AFP 

10 agosto 2017

Laicidade e laicofobia


Voltando à questão dos abusos, que começou aqui e depois divergiu para um “podemos não estar de acordo” aqui, achei por bem, eventualmente sendo de novo abusivo, transcrever um texto, algo provocador, de Amine Zaoui, jornalista argelino e muçulmano, publicado recentemente no jornal argelino “Liberté”. Certamente não faltará quem o insulte de várias formas e feitios. Não vou dizer que estou de acordo e tudo subscrevo, mas é assunto que vale a pena questionar e um ponto de vista que merece ser analisado/discutido.

O muçulmano, todo o muçulmano em qualquer parte do mundo, é alérgico ao conceito de "laicidade". A palavra "laicidade" assusta-os! Magoa. Angustia. Aos seus olhos, "laico" é equivalente a comunista. Semelhante a "ateu". Igual a "irreligioso". Sinónimo de imoral. Ou ainda, um laico é um judeu. Um judeu é um laico. Um laico é um cristão. Um cristão é um laico. Qualquer laico é um não-muçulmano. E todo muçulmano é um não-laico, um laicofóbico. Um muçulmano não pode imaginar outro muçulmano laico. Na ausência da laicidade como um estilo de vida social, como uma forma de pensar, como cultura política, o mundo muçulmano tornou-se um mundo islâmico. Consumido pelo fundamentalismo. Mesma a laicidade na Turquia é ameaçada pelo islamismo fanático apoiado pelo projeto político da Irmandade Muçulmana. A "laicidade" assusta os muçulmanos desde Meca até Nouakchott, assusta o político muçulmano tanto de direita como de esquerda, assusta os "doutores" das universidades e assusta o cidadão normal.

A laicidade é um monstro! Mas porquê essa "laicofobia" no muçulmano? A escola é a fonte fundamental dessa doença chamada laicofobia. A escola, qualquer escola no Magrebe e no mundo árabe-muçulmano, do jardim de infância à faculdade, ensina aos seus alunos que a laicidade é um perigo para a religião islâmica. Que "laicidade" é o inimigo número um do Islão. Ela é uma armadilha armada pelos judeus aos muçulmanos! Ela é o isco do anzol colonial. Depois, porque o cidadão se afoga num grande vazio intelectual, onde a história das ideias filosóficas universais é banida. Os muçulmanos vivem fora, sem História e fora da História. Ou fazem a História à sua maneira, para se vangloriarem! Porque não existe nenhum pensamento crítico. Porque o fanatismo se impõe nas escolas e nas universidades, o muçulmano é apanhado pela laicofobia. Porque o religioso é um destino comunitário imposto. Porque não há nenhum debate intelectual livre e racional, o muçulmano tem medo de laicidade. Porque não existem partidos políticos reais com programas da sociedade, todos eles são de criados ou alimentados por correntes nacionalistas de tempero islâmico ou pelas ideias da Irmandade Muçulmana.

A fobia islâmica face à laicidade criou uma cultura de ódio em toda a sociedade muçulmana. Esta fobia islâmica generalizada em direção à laicidade reforçou a mentalidade de rebanho, impediu o muçulmano de poder cultivar uma liberdade individual. Esta laicofobia criou um sentimento de medo do outro, de recusa de viver com os outros. Esta laicofobia ergueu barreiras face àquele que não é semelhante, na religião ou na forma de pensar. Esta doença que é a laicofoboa é a consequência de tudo o que o povo do Magrebe e do mundo árabe-muçulmano viveram em deceção política, social e cultural, e isto dura desde as independências desses países. Se um muçulmano não se liberta desta doença psico-intelectual que é laicofobia, ele permanecerá condenado a viver no medo, ódio e violência, contra si mesmo e contra o outro.

Nunca se explicou ao crente muçulmano simples, com clareza e coragem intelectual e política, o significado da laicidade. Nunca se ensinou às crianças das escolas muçulmanas que a laicidade é o único caminho que garante o respeito pelas religiões, por todas as religiões. Que só a laicidade garante o respeito do ser humano, com as suas convicções religiosas, filosóficas e políticas. Que o caminho da laicidade é o garante da possibilidade de convivência, entre o muçulmano e outras pessoas pertencentes a outras religiões ou outras não-religiões. Que a laicidade permitirá o florescimento em todo o respeito das diferentes culturas e línguas que vivem no Magreb ou neste mundo árabe-muçulmano. Todas as guerras declaradas no mundo muçulmano, ou noutro lugar, em nome do Islão contra outras religiões, contra outras culturas, outras línguas são resultado desta laicofobia, desta doença que corrói o muçulmano, onde quer que ele se encontre.

Sem respeito pela laicidade como cultura, pensamento e como modo de vida social e político, a própria existência do Islão permanecerá ameaçada no mundo. E a laicofobia gera a islamofobia.

16 julho 2016

Porque não acaba

Os avanços militares contra o designado Estado Islâmico na Síria e no Iraque parecem sugerir que o apogeu desta organização ficou para trás e ser agora uma questão de relativamente pouco tempo até essa barbaridade passar a ser passado.

Poderá ser verdade, concretamente para este rebento do fundamentalismo islâmico, mas as sementes lá estando, é outra questão de tempo até vermos novo protagonista. Donde vêm essas sementes e quem as rega? Para lá de algumas particularidades na génese do Islão, a sua visão hegemónica e de superioridade face às outras religiões do livro, o registo bélico da fase de Medina e a concentração da liderança religiosa e temporal na mesma figura, particularidades que podiam ter sido resolvidas com o tempo, é necessário ir ver mais perto, a 100 anos atrás.

No final da Grande Guerra de 14-18, o império otomano, herdeiro dos califados históricos, está de rastos e cai. As razões da sua decadência são tema para muitos estudos, questionando-se nomeadamente qual a influência da religião nesse declínio. Kemal Ataturk irá fundar uma Turquia moderna, laica, entendendo que o futuro passa pela separação da religião da política.

No mundo muçulmano em geral este fim de ciclo e o desaparecimento do califa é sentido como uma perda e uma grande desilusão. O que é correu mal? Algumas vozes, principalmente no Egito, vão proclamar que se na “origem” foram poderosos e agora enfraqueceram, isso aconteceu por se terem afastado dos fundamentos religiosos. A solução é o regresso às origens: o salafismo. Tudo que é “influência ocidental” é mau. É necessário islamizar o individuo, a família, a sociedade, o país, o mundo; se for necessário lutar, lute-se; se essa luta tiver que ser violenta, seja; se for preciso morrer nessa luta, isso é uma obrigação e uma honra. Esta cartilha criada nos anos 20 está por trás de quase todo o ativismo político islâmico atual, interpretado de forma mais “hard” ou mais “soft”, conforme o contexto.

Estes salafistas vão estar inicialmente aliados aos independentistas “progressistas” face ao colonizador, inimigo comum. Após as independências o casamento de conveniência desfaz-se, porque as conceções de sociedade dos dois são incompatíveis.

O salafismo ativista vai encontrar terreno fértil nas desilusões do pós-independência, a partir da década de 80. De fato, os regimes no poder falham as expetativas de desenvolvimento e de bem-estar que a expulsão dos colonizadores prometia. As sementes no terreno fértil serão regadas pelas monarquias do golgo pérsico, substancialmente enriquecidas após o choque petrolífero da década de 70. Lideradas nessa fase pela Arábia Saudita, guardiã dos principais locais santos e seguidora de uma versão do islão fechada e intolerante, encontrarão assim uma forma de expandir e aumentar a sua influência no mundo muçulmano. As chamadas “Primaveras Árabes” e, principalmente, os seus desfechos devem ser lidos neste enquadramento.

Não afirmo que os petrodólares pagaram diretamente as kalashnikov que massacram em nome do Islão. É claro, no entanto, pelo menos no norte de África, que a radicalização dos jovens, muitos deles agora a lutar na Síria e amanhã sabe-se lá onde, tem a marca das escolas, mesquitas e associações patrocinadas pelo “golfo”. É muito importante realçar que não estão em causa movimentos pontuais que nascem e morrem isoladamente. Há um processo de base, estruturado e com um longo histórico.

Enquanto houver terreno fértil, sementes e irrigação, os rebentos continuarão a brotar.
 

01 julho 2015

O dia de semear a bonança?


No mesmo dia do atentado na praia de Sousse, há outro menos mediatizado mas não de somenos importância, e não me refiro ao de França.

O atentado contra a mesquita xiita no Kuwait demonstra que mesmo as monarquias do Golfo Pérsico não estão a salvo. A ser verdade o que alguns dizem, que estes regimes apoiam de uma forma mais ou menos direta uma versão mais radical do islão, que com alguma facilidade degenera nestas catástrofes, estarão a sofrer um efeito boomerang. Não sei se é verdade, mas sendo indiscutível que quem semeia ventos, colhe tempestades, talvez este atentado venha evidenciar a necessidade de semear aquilo que há-de trazer a bonança.

Haja discernimento para o entender e determinação para o realizar.

27 junho 2015

Pobre Tunísia

Das poucas vezes que estive na Tunísia, ainda no tempo de Ben Ali, ficou-me a imagem de um país extremamente policiado. No rescaldo das “primaveras árabes”, parecia ser o único país onde um regime democrático se conseguiria consolidar, ultrapassando a radicalização e a confrontação pós-revolução e evitando também (re)cair no autoritarismo militar.

Se na nova Tunísia democrática, existia um reduto de militantes islâmicos radicais nos montes Chaambi, isso parecia ser apenas isso mesmo: um reduto confinado. Com a colaboração da Argélia fechando do outro lado, seria uma questão de tempo até neutralizar os guerrilheiros. O atentado no museu do Bardo de Março deste ano foi um golpe duro – no pleno centro da capital e num dos principais locais turísticos do país. Podia-se entender ser um caso isolado, uma infelicidade que não se repetiria.

O ataque desta semana na praia de Sousse parece ser agora um golpe fatal. Efetivamente, os serviços de segurança tunisinos demonstraram serem incapazes de acompanhar e controlar estes acontecimentos. Longe estão dos tempos de Ben Ali e existe também a novidade da Líbia ali ao lado, completamente descontrolada e infestada (já se lembraram de fazer o balanço da guerra patrocinada pelo exterior que derrubou Khadafi?).

Dificilmente o turismo no país, que tem um peso enorme na sua economia, retomará deste choque, pelo menos a curto prazo. A Tunísia ficará mais pobre e os tunisinos pior. Não o merecem. Numa guerra existem soldados, generais e banqueiros. Nos jornais estamos a ver apenas os soldados…

15 abril 2015

Os bons e os maus rebeldes

Há cerca de 4 anos um movimento de contestação e de revolta armada na Líbia foi abertamente apoiado, mesmo militarmente, pela chamada comunidade internacional. Para já, passemos ao lado das consequências da queda do regime de Khadafi e dos tempos sombrios que o país vive e viverá.

Hoje, um movimento de revolta na Iémen, sequência duma grande cisão comunitária do país, que inclui um histórico recente de guerra civil, está a ser bombardeado pelos vizinhos, acusado de desestabilizar o regime “em vigor”. Há, portanto, bons rebeldes que devem ser ajudados e maus rebeldes que devem ser combatidos.

Numa análise simplificada o regime de Khadafi era hostil ao sunismo waabita das monarquias do golfo; os rebeldes houthis do Iémen são xiitas e aparentemente apoiados pelo Irão, o grande inimigo das tais monarquias árabes. Portanto, o critério para a distinção entre o bom e o mau rebelde será muito claro, quando visto assim a partir de Riad ou Doha. Que o conselho de segurança da ONU tenha autorizado o uso da força em favor dos rebeldes líbios e agora vote um embargo de armas aos houthis, é que me faz alguma confusão. Não que eu tivesse/tenha alguma simpatia por Khadafi ou pelos houthis. Apenas não consigo entender a lógica subjacente… !

17 dezembro 2014

Sidi Bouzid - 17 / 12 / 2010


Nos primeiros dias de Dezembro de 2010 eu estava na Tunísia. Se alguém me tivesse dito nessa altura: - Sonhei que daqui a um mês isto vai estar tudo a ferro e fogo, palácios saqueados, o presidente a fugir e o regime deposto; eu teria respondido a esse suposto interlocutor: - Deves ter comido algo que te fez mal! Neste país, pode até o povo sair para a rua, mas antes de aquecerem as solas na calçada, já alguém lhes estará a aquecer as costas com um bastão. Cerca de duas semanas depois, em 17 de Dezembro, o vendedor de fruta de Sidi Bouzid, acossado e humilhado pela polícia, imolava-se, desencadeando a revolução, na qual, à partida, ninguém acreditava.

Razões para ter ido até o fim:

- a primeira dama e respectiva família, o clã Trabelsi, tendo passado de ilegítima a legítima, tratava o país como um bem pessoal. Que quem governa se governa é condenável, mas até certo ponto tolerável – isto não.

- o wikileaks tinha revelado muitos detalhes e dado uma maior e insuportável visibilidade a esses saques e abusos.

- as autoridades reagiram com bastão nas costas, sem entenderem que essa resposta já não servia.

- a Tunísia não é um país inventado um dia, a milhares de quilómetros de distancia. É herdeira do império cartaginês e a história e identidade contam muito.

- uma ajudinha da cadeia de TV do Qatar, Al Jazira, muito popular na altura, que deu uma enorme cobertura e destaque, mostrando os acontecimentos como uma epopeia empolgante.

Hoje, exactamente 4 anos depois, a Tunísia é o único país das “primaveras” onde a consolidação de um verdadeiro regime democrático parece ainda possível. Porquê? Devido à sua forte identidade… e, apesar de tudo, por ter sido pouco “ajudado”. A democracia não pega de enxerto e muito menos empurrada à força.

04 agosto 2013

O que o Povo quer

Quando há vários processos simultâneos com algumas semelhanças, é tentador fazer comparações e procurar paralelos e divergências nas causas e nas formas. O que pode haver de comum entre alguns movimentos de contestação em curso actualmente, como as primaveras árabes, a contestação na Turquia ou até no Brasil? A utilização de redes sociais é um ponto comum, é certo, como também o será serem usadas ruas e praças para os protestos, sendo que nada daí se conclui de muito relevante. Recordar ainda que Taksim em Istambul e Tahrir no Cairo começam ambas por “Ta” é … disparate.

No caso das chamadas primaveras árabes há certamente um contexto sociocultural com bastantes semelhanças nos vários países e, sobretudo, houve uma Al-Jazira, canal de televisão do Qatar, que ajudou a difundir e a propagar as contestações. Curiosamente no amigo Bahrain, ali mesmo ao lado, a ajuda foi outra. A Arábia Saudita foi apoiar militarmente o regime instalado, objecto de contestação popular. Se excluirmos estas e outras causas externas do xadrez geopolítico mundial que como, por exemplo, na Síria transformaram um movimento inicial genuíno de contestação num “simples” confronto sunita/shiita, penso que o traço comum nestas e em muitas outras revoluções passadas e futuras é simplesmente a população querer viver melhor. E este “melhor” declina-se em diferentes dimensões conforme os valores de cada um.

Para uns o melhor é haver mais liberdade, mais justiça, mais oportunidades, igualdade de acesso às mesmas, mais valorização do mérito e outras coisas desse género. No entanto, para muitos e muitos o “melhor” é simplesmente materialmente melhor como terem casa, carro e férias. Terem tudo aquilo que vêm nas imagens do mundo que lhes chegam lhes pela televisão e pela internet e a que eles acham terem direito.

Haverá países em que colocar uma parte da população a viver melhor é relativamente fácil. Basta actuar na válvula repartidora dos rendimentos dos recursos naturais que jorrem, como naturalmente a do petróleo, quando este existe. Noutros casos, essa mudança só se consegue com maior criação de riqueza e esta nascerá a partir do contributo esforçado de muitos (de preferência todos), criadas que estejam as condições para tal. Aqui pode surgir um ponto comum e fatal. Num país em que o sistema de valores não é são, em que a distribuição da riqueza, pouca ou muita, não obedece a critérios justos, pode instalar-se um entendimento generalizado de que não vale a pena contribuir mais porque a retribuição nunca dependerá da contribuição.

O facto de a população querer viver melhor e entender que isso se alcança apenas com a redistribuição dos recursos existentes, poucos ou muitos, não importando se justa ou injusta, o fundamental é estar-se individualmente do lado dos beneficiários, dá muito mau resultado.

Infelizmente este risco não é exclusivo do Magrebe, Médio-Oriente ou América Latina. Aqui mesmo, o grande desafio é manter na maioria da população a convicção de que a retribuição é função da contribuição e não de outras coisas mais, diversas, mas sempre injustas. Só com essa fé e consequente empenho se constrói um futuro melhor. E essa é uma das funções básicas de um Governo.

14 julho 2013

A História não se repete

Era uma vez um país em que após décadas de regime fechado a pressão popular o obriga a abrir-se e que realiza eleições abertas, multi-partidárias. As eleições são ganhas por islamitas mas os militares impedem-nos de governar. Será o Egipto de hoje? Pode ser, mas eu estava a pensar na Argélia de 1992 e onde o resultado dessa exclusão foi uma década negra com cerca de 200 000 mortes. Para lá da guerrilha tradicional e atentados cegos em zonas urbanas como mercados e transportes públicos, houve listas de gente das letras e das ciências eliminados um a um, houve aldeias inteiras isoladas e os seus habitantes degolados e um sem número de outras atrocidades. Irá o Egipto cair num caminho idêntico? Esperemos que não, até porque o contexto é diferente. Na Argélia a segunda volta das eleições legislativas foi suspensa pelos militares e os islamitas nunca chegaram a governar, tendo saltado para a clandestinidade com toda a força e “legitimidade”. No Egipto eles fizeram a experiência do governo e parece haver uma parte importante da população que apoia a recente acção do exército.  

Num país árabe que se abre ao multi-partidarismo, é previsível serem os islamitas a ganharem as primeiras eleições – eles conseguem apresentar uma proposta concreta e diferente com a qual uma grande parte da população se identifica: “a nossa religião, os nossos valores”. No entanto, para muitos, o objectivo principal não é a democracia em si, mas simplesmente viverem melhor. Se o novo governo não conseguir responder a esse anseio com brevidade, rapidamente se desencanta. Terá ainda que procurar um compromisso dificilmente praticável entre a facção islâmica mais conservadora para quem a Sharia pode e deve servir de Constituição e uma parte da sociedade, mais moderna, que até participou na revolução buscando um país mais moderno, e que se assusta enormemente com alguns (des)propósitos como, por exemplo, no que diz respeito à condição feminina.

O primeiro-ministro turco, islamista, Recep Erdogan, disse uma vez, distraído ou não, que a democracia é como um comboio que se apanha e donde se sai quando se chega ao destino pretendido. Morsi no Egipto estaria a tentar por em prática o mesmo princípio. Como se ironizava na Argélia na altura, democracia seria um homem, um voto… uma vez! Sendo o Egipto um país fulcral no mundo árabe pelo seu peso demográfico e localização, o que lá acontecer é de extraordinária importância para meio mundo.

Numa grande encruzilhada está também a Tunísia, que apesar de uma dimensão muito inferior ao Egipto tem um peso não negligenciável. Foi lá que tudo começou em Janeiro 2011. Esta semana iniciou-se o Ramadão. São 30 dias em que entre o nascer e o pôr-do-sol, para lá de outras restrições, não se come e não se bebe. Em 1964, há quase 50 anos, Bourgibga, o líder forte e pai da Tunísia moderna, na altura pouco democrática, bebeu um sumo de laranja em directo na Televisão, em pleno dia durante o Ramadão, argumentando que o jejum podia ser quebrado em caso de guerra e que na Tunísia estava em curso uma batalha pelo desenvolvimento. Por muito menos há hoje gente levada a tribunal, acusada do crime de muito largo espectro de “atentado ao sagrado”.

Presumir como muitos o fizeram há dois anos, que bastava registar partidos, organizar eleições e contar votos para ter um país firme no caminho do desenvolvimento é obviamente uma enorme ingenuidade. Esperemos, e se possível ajudemos, que corra bem. Por meio mundo, que é também o nosso, e muito especialmente pelos seus homens e mulheres, muito principalmente estas, que merecem viver em dignidade com paz, respeito e com oportunidades.

14 junho 2013

Ainda a Síria

No Iraque descobriram armas de destruição maciça, aqui finalmente descobriram utilização de gás sarin pelo governo sírio, que era mesmo o que faltava para justificar uma ajuda aos “bons rebeldes”.

E recordei-me da ajuda aos talibans do Afeganistão quando eles combatiam os russos que deveria ter ensinado que nem sempre o inimigo do meu inimigo, meu amigo será.

28 maio 2013

Primavera ou isso

Quando o processo começou na Tunísia, todos assobiaram para o lado assumindo que com mais ou menos esforço Ben Ali colocaria ordem na casa. E Ben Ali caiu. Quando começou no Egipto as reacções já foram mais ambivalentes: é importante a democracia, é importante a legitimidade… E o regime caiu. Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas Khadafi vai pelo mesmo caminho e vamo-nos colocar do lado certo do vento da história. Enganaram-se de novo. Khadafi só caiu pela preciosa ajuda dos que quiserem activamente estar do lado “certo”.

Temos agora a Síria. Há quem ache que está em causa a simples luta entre um mau ditador e uns bons rebeldes, mas devido à má experiência da Líbia, tem havido muito mais prudência na entrada/ajuda ao conflito. No entanto, e acrescentados os ingredientes da situação geopolítica actual na zona, não é difícil concluir que o que está em confronto na Síria não é certamente a democracia contra a ditadura. É muito simplesmente uma nova declinação do histórico conflito entre sunitas e shiitas que tem quase tanto tempo quanto a religião muçulmana.

Qual o propósito de o Ocidente apoiar declaradamente uma das partes quando o registo das acções e barbaridades cometidas parece ser relativamente bem distribuído? Porque é que quando se fala do eventual uso de gás sarin pelo governo sírio é um escândalo que justifica sair a terreiro e quando parece que é antes/também usado pelos rebeldes, se assobia para o lado? Se o popular canal de televisão Al-Jazira (Qatar – Sunita) trata de uma forma diferenciada os conflitos nos diferentes países conforme o seu alinhamento com a península arábica, sede do sunismo, porque é que temos que os acompanhar nessa discriminação?

Enfim haverá interesses e razões que justificam tudo isto, como também há gente inocente que sofre e que morre, mas por favor não pintem o cenário com as cores da liberdade e da democracia. Estas merecem muito mais respeito.

18 outubro 2012

Uma nova era

De uma forma geral a Europa não possui recursos naturais significativos. O nível de vida na Europa, desproporcionado face a outros países intrinsecamente mais ricos, foi e é baseado em “saber mais e fazer melhor do que os outros”. Se às vezes sem grande preocupação quanto a padrões éticos, como, por exemplo, na exploração dos recursos minerais africanos ou nos grandes negócios de aviões, fragatas e outras coisas gordas, na maior parte das vezes a vantagem veio mesmo da genuína capacidade de inovar e de valorizar a criatividade. Parece-me, no entanto, estarmos a chegar a um ponto de exaustão nessa “liderança”. O porquê é uma longa história bastante condicionada pelo império do meio, mas agora falo apenas da evidência e sem sequer referir o caso de Portugal que vai de mão estendida a Angola.

Uma grande parte da riqueza mundial nasce no subsolo nos países naturalmente ricos, com largo destaque para petróleo e afins e ia-se lá recuperar algo do que se lhes pagava pelo ouro negro vendendo produtos sofisticados, luxos e às vezes apenas imagem a preço de ouro amarelo. Apareceram entretanto alguns magnatas do ouro preto que não se limitam a passar grossos cheques, são mais finos e têm uma visão empreendedora. O exemplo mais recentemente e de eficácia notável tem sido o Qatar. Para quem não sabe é de referir que muito do que a rua árabe diz e grita é a Al-Jazira que o dita. Deixemos de lado outros sucessos do Qatar e voltemos ao tema.

Ainda no tempo de Sarkosy o Qatar ofereceu à França uns milhões para investir nos subúrbios desfavorecidos das cidades francesas. A campanha e as eleições suspenderam o tema mas agora parece regressar na figura da “parceria” entre estados. Que França venda as suas jóias da coroa económicas (até mesmo parte da indústria de defesa) ou um símbolo desportivo como o PSG não deixa de ser apenas uma venda. Agora, que precise do Qatar para melhorar as condições de venda das suas populações mais desfavorecidas, é incrível como cenário e assustador como potencial consequência! Virá aí mais uma espécie de primavera, desta vez na margem norte do Mediterrâneo? Se conseguem, não sei, mas que alguém gostaria de o tentar fazer, disso não tenho a mais pequena dúvida.

21 agosto 2012

Nem tudo é mau


Comecemos pelo mau. A atleta acima à esquerda, Habiba Ghribi, é Tunisina e foi a primeira mulher do país a ganhar uma medalha olímpica, neste caso a prata nos 3000m obstáculos. Grande polémica no país, nomeadamente por mostrar o umbigo. Acho muito bem que protestem, que o digam e que o assumam para se ficar a saber quem são e o que são. Na Tunísia livre e democrática está a ser preparada uma nova constituição que dá à mulher um estatuto de “complementaridade” face ao homem. O ditador Bourguiga deve andar às voltas no túmulo. No mesmo país umas “brigadas” salafistas resolveram ser polícias, e violentos, dos ataques ao sagrado, perante alguma moleza das autoridades. Atacar e destruir obras de arte de uma exposição “moderna”, como aconteceu em Cartago em Junho passado, em que algumas tinham algum carácter provocador, é muito condenável mas mais ou menos previsível. Mais recentemente impediram a actuação de um grupo musical iraniano, por considerarem um “atentado ao sagrado” eles serem muçulmanos…. mas chiitas !! Fica claro quem está a alimentar este fogo.

Passemos ao bom. No norte do Mali controlado por islamitas, onde um casal foi morto por apedrejamento por terem filhos sem estarem casados, estava previsto o decepar em público a mão de um ladrão. Não aconteceu porque a população se mobilizou e o impediu. Podem tê-la cortado em privado mas o facto de a execução pública da sentença ter sido anulada é fantástico de significado. Em cima à esquerda está Rita Jahanforuz, provavelmente a cantora israelita actualmente mais popular e que … nasceu no Irão. No seu trabalho não renega as raízes e inclusive canta versões de temas tradicionais persas, como este. É adorada pelas pessoas dos dois países que se odeiam.

01 agosto 2012

Mais uma estação...

Quando começou na Tunísia, toda a gente assobiou para o lado, é um acesso de febre que passará rapidamente. Enganaram-se todos e, imodéstia à parte, até eu… e Ben Ali caiu mesmo. Apesar da generosa exposição mediática proporcionada pela Al-Jazira, a causa principal foi mesmo a pressão popular interna.

Quando começou no Egipto, todos foram mais prudentes e, face à incerteza sobre o desfecho, apareceram os discursos públicos ambivalentes. E Moubarak caiu.

Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas, Khadafi iria seguir o mesmo caminho. No entanto a mobilização popular não foi suficiente para levar o processo até ao fim, mesmo com a fortíssima pressão mediática da Al Jazira, do Qatar. E então, Onus, Natos, States, Franças e Qataris tiveram mão pesada, teoricamente a proteger civis e na prática a garantir que Khadafi caía mesmo.

Hoje a Síria parece ir pelo mesmo caminho da Líbia e já se fala na necessidade de “proteger os civis”. Independentemente de todo mal que se pode dizer e constatar sobre o regime de El Assad, o que se passa na Síria não é certamente uma luta de “bons rebeldes” pela democracia e pela liberdade do povo. É a continuação da luta que dura há séculos entre os sunitas da península arábica e os xiitas que actualmente gravitam em torno do Irão. Se o Ocidente acha que o enfraquecimento do Irão é um efeito colateral positivo e desejável desta guerra, eu não estou assim tão convencido.

Que o Qatar e Arábia Saudita sejam uns paladinos e uns patrocinadores da liberdade e da democracia é, no mínimo, irónico. Que busquem aumentar a sua influência e a islamização sunita do Médio Oriente e Magreb, está na lógica das coisas. No entanto, não lhe chamem democratização nem presumam assim tão rapidamente que esses povos irão viver melhor no novo regime.

No norte do Mali, onde foi implantado uma espécie de estado islâmico radical graças às armas que sobraram do dilúvio que caiu na Líbia para “proteger os civis”, foi esta semana morto por delapidação (isto é: à pedrada mesmo) um casal, acusados e condenados pelo crime de viverem juntos e terem filhos sem serem casados.

04 junho 2012

Tudo aqui tão perto

1- E a Espanha aqui tão perto - O que era impensável passou a ser provável – a Espanha pedir um resgate. Só que a acontecer será diferente, diz-se. Poderá ser uma ajuda directa à banca para não ficar o governo tutelado pela famosa troika. Que raio, porquê para eles e não para a Irlanda que tinha uma situação à partida tão idêntica? E se o Sr Hollande implementar as suas ideias voluntariosas e a França ficar enrascada, alguém está a ver uma troika com o FMI a entrar em França? Claro que não; o De Gaulle até ressuscitava com a raiva! Certamente que haverá outro modelo de ajuda. E isto é um dos problemas desta Europa – vai à toa arremendando soluções em função de cada caso concreto.
2 – E a Galiza aqui tão perto – Diziam-me lá este fim-de-semana que o sofrer a crise em Portugal será menos traumático do que em Espanha, porque Portugal no fundo nunca interiorizou a “nova riqueza” de uma forma tão assumida como Espanha. Ou seja, resignamo-nos mais facilmente a reencontrar as dificuldades. Será?
3 - E o Mali aqui tão perto – O norte do Mali decretou “independência”, num novo estado, islâmico a mais não poder ser, conquistado e controlado pelo Al Qaeda com as armas que sobraram da overdose bélica que choveu na Líbia nos últimos tempos. Novo Afeganistão à vista…. E aqui tão perto
4 – E o Afeganistão aqui tão perto – Multiplicam-se os casos que pareçam não deixar dúvidas sobre os autores e as intenções. Os alunos nas escolas sofrem intoxicações mais ou menos graves, por lá serem ensinadas coisas inadequadas e, sobretudo, por ensinarem raparigas que não têm nada que andar na escola. Os Américas e Cia vão desistir e abandonar o país.
5 – E a nova Primavera na Tunísia – Ghazi e Jabeur – dois jovens líbios de 28 anos diplomados e desempregados, enraivecidos e desesperados cometeram o crime que publicaram no facebook caricaturas obscenas do profeta e de se declararam ateus. Ambos julgados e condenados a 7 anos e meio de prisão efectiva. O primeiro fugiu, o segundo pode ter ainda mais problemas porque o Procurador recorreu da sentença e pede perpetuidade.

07 fevereiro 2012

Nada de novo

Depois de um longo intervalo apetece dizer “nada de novo” em jeito de desculpa. E, realmente, apenas confirmações do que se sabia… vamos por partes.

Cavaco Silva – as limitações eram conhecidas, as expectativas baixas mas agora não sobra nada. Não temos mesmo “Presidente” e por vários efeitos cumulativos – queixar-se da redução das pensões no principio, dizer que não chegam quantificando uma e omitindo a mais elevada (não sabe quanto somam mas sabe que não chegam), recusar o principio básico que a todos é pedido de ajustar o que gasta ao que ganha e referir as poupanças, sabendo que uma boa parte dessas “poupanças” foi a negociata das acções da SLN/BPN que estamos todos a pagar, é dose a mais para uma intervenção só: o homem “morreu”.

Inverno árabe – depois da Primavera de esperança tunisina, do Verão quente líbio e do Outono “democrático” egípcio dos islamistas e salafistas, temos o Inverno sírio. Se no início até se podia acreditar que na base estava um movimento genuíno e popular, a guerra na Líbia mostrou que algo mais havia para além dos cartazes, as eleições provaram que a alternativa democrática é o islamismo, mais ou menos moderado, se é que existe essa variante, e a Síria é o seguinte. Al-jazira, Qatar.. há aqui uma força “externa” que “ajuda à democracia”. O Ocidente entrou a contra-gosto neste comboio na Líbia e agora está num comboio desconfortável e não sabe que fazer… Entretanto, há centenas de sírios mortos por semana mas vítimas são apenas os pobres palestinianos…

Corolário: os mortos no campo de Port Said e o que se seguiu. Se é apenas ódio “tribal” transladado ao futebol é preocupante; se é algo mais e é mais preocupante. A solução é a democracia ?

Europa – Já perdi as contas às cimeiras e às formulações e reformulações dos “fundos”. Senhores: a Europa no seu global está mais pobre e assumam isso. Se, apesar das aldrabices gregas, os lá do Norte continuam a achar que a solução é deixar cair os membros gangrenados estão enganados e vamos definhar todos.

Carnaval, pelos vistos. Pelos vistos a tolerância de ponto é um direito adquirido; pelos vistos a falta de disponibilidade dos funcionários públicos condena as celebrações – há assim tantos funcionários?!; e, pelos vistos, uma dia a mais ou a menos não faz diferença – claro que não, quando há gente excedentária que apenas precisa de acelerar um pouco depois para compensar.

30 novembro 2011

O alvo da Indignação

O movimento dos “indignados” provoca leituras muito díspares. Em primeiro lugar acho a palavra bastante espanhola. Mais adequado seria “desiludidos”, mas como começou num país algo orgulhoso, dos que mais fulgurantemente subiu e onde a regressão será mais sentida, “indignado” é mais altivo e assertivo do que “desiludido”.

As tentativas de comparação deste movimento “ocidental” com a chamada primavera árabe são de um absurdo que só pode vir de quem desconhece o mudo em que vive. Internet e facebook podem ser meios comuns mas isso não implica comunhão de motivações e de objectivos. Por exemplo, a dinamite é um meio que serve a fins muito variados. Sem entrar em detalhes sobre o abismo de diferença ente os contextos sociais e culturais, a rua árabe queixa-se de não sair da cepa torta enquanto o ocidente queixa-se de a cepa estar a entortar.

No entanto, e fundamentalmente, acho que estes “desiludidos” se enganaram no alvo. Os “mercados financeiros” não deveriam governar um mundo são e bem organizado. Se o fazem é por duas razões. A primeira é porque na sua ingénua crença na globalização insuficientemente regulada, os políticos de serviço não pensarem que ao ligarem em vasos comunicantes dois mundos de níveis muito diferentes, há um que desce. O ocidente está a descer e a inviabilização de uma enorme parte da indústria transformadora é socialmente fatal. Assim, os recursos financeiros que por cá sobram, em vez de serem usados para construir fábricas e proporcionar empregos sustentáveis, estão a ser usados … nos “mercados financeiros”. A segunda razão é que esses mesmos governantes entenderam que a solução seria gastar o que não têm nem geram, pedindo emprestado… aos mercados financeiros.

Não sei qual é a solução, mas entre uma classe política imberbe de vistas curtas, um eleitorado mal informado e uma comunicação social que não questiona consequentemente o poder nem forma seriamente o eleitorado... estamos de vitória em vitória até à derrota final.

PS: Ouço criticar, que com a crise, nalguns países os “políticos” estão a ser substituídos por técnicos… Pode-se chamar políticos a estes seres nascidos e criados nas incubadoras dos aparelhos partidários e cuja principal motivação e habilidade é conquistar e manter o poder dentro do dito cujo aparelho?

25 junho 2011

As primaveras árabes em curso

Dizem por ai muitos opinadores e comentadores que a “Democracia” está a chegar ao mundo árabe, que isso é fantástico e acrescentam outras teorias e baboseiras. Ora bem, eu sobre os árabes mesmo lá do Médio Oriente sei pouco, mas sobre o norte de África posso acrescentar algo. Dentro de toda a gente que mexe ou faz mexer actualmente aquela parte do mundo, identifico 4 grupos. Não necessariamente rigidamente estanques e homogéneos, mas dentro da simplificação esta divisão já é suficiente para não concluir assim rapidamente que não há “um” povo a sair à rua.

Grupo 1 – A alternativa. Aqueles que de uma forma ou de outra e com motivações distintas aspiram subir ao poder. Considerando um acesso pela via da democracia, será necessário que cheguem a uma boa camada da população. E aqui surge o primeiro problema: na maior parte desses regimes os partidos do poder podem ser um ou vários mas de nenhuma forma são projectos de mudança. Os outros, que serão mesmo de oposição, quando existem, estão desgastados numa imagem envelhecida de “pregadores do deserto” e sem conseguirem uma afirmação credível que mobilize uma larga fatia do eleitorado. Os únicos que conseguem apresentar um projecto que pode alcançar e convencer uma boa parte da população, são os de base religiosa. Aqui convém confirmar se estes se manterão democratas mesmo após subirem ao poder ou se uma vez lá e como representantes de um poder divino inquestionável trancarão as portas a qualquer outra posterior mudança.

Grupo 2 – Os esclarecidos, que querem viver num país melhor, mais justo, mais desenvolvido, que premeie o mérito, em que o poder preste contas a sério e que acreditam que a democracia é o caminho para lá chegar. Alguns desta base já emigraram e os que ainda lá estão e são mesmo esclarecidos vêm com bastante apreensão o panorama do grupo 1.

Grupo 3 - Os pobres, aqueles que simplesmente querem ter uma vida melhor. Se para viver como na Europa em que há democracia, o caminho é a democracia, eles serão democratas; se os convencerem de que essa melhoria passa pela x_cracia, eles serão x_cratas. Não estão necessariamente preocupados com a justiça na distribuição da riqueza, o mais importante é que o caminho da riqueza passe por eles. Em caso de democracia, mesmo democracia, provavelmente será da escolha deste grupo que sairá o novo poder.

Grupo 4 – Os vândalos que aproveitam a desestabilização para sair à rua e quebrar e queimar, sem uma preocupação construtiva. Destroem por instintos de maus fígados ou/e por vontade de primária de demonstrar que existem e que esta é a sua forma de afirmação.

Do peso de cada um destes grupos e da sua interacção com a realidade sócio, económica, histórico e política de cada país, nascerá uma realidade diferente e perspectivas diversas de mudança. Veremos isso a seguir.