19 agosto 2019

Mínimos e máximos, veraneantes e pacientes

Acabou, ou está suspensa para já, a famosa greve dos camionistas de matérias perigosas. Terá sido das mais noticiadas e seguidas antes, durante, veremos ainda o depois, e, ao mesmo tempo, com uma secundarização enorme do que estava mesmo em causa: quais as reivindicações exatas, qual a parte “justa”, qual a parte abusiva e desproporcional, se o processo de negociação estava bloqueado ou não, etc.

O importante foi até que ponto a greve afetaria as intenções de voto no partido no poder e a vontade de ir à praia do povo em geral. É óbvio que existem uma série de serviços fundamentais a precisarem de serem garantidos, mas a fasquia foi colocada bem acima, para não perder os votos de quem queria ir à praia. Assistimos a um esforço enorme do governo para, na prática, evitar que a greve afetasse efetivamente os eleitores, perdão os cidadãos. Pode-se discutir se faz sentido ou não, se tamanha anulação do seu efeito põe em causa os fundamentos do conceito e o exercício do seu direito ou se há sectores em que não pode haver greves a sério.

Uma coisa que eu teria gostado era de ver esta determinação aplicada às greves cirúrgicas, dado que, ainda por cima no estado de saturação do SNS, adiar intervenções cirúrgicas é bastante mais grave do que o pessoal não ter combustível para ir à praia. Aparentemente haverá mais votantes veraneantes do que pacientes.

26 julho 2019

Fazer de conta


Há muitas situações em que a parecer conta e até pode ser suficiente, outras não. Basta imaginar um automóvel cujos travões apenas aparentam travar… Isto é capaz de ser a minha costela de engenheiro a dar prioridade ao ser/funcionar face ao parecer. Para mais detalhe consultar o brilhante Scott Adams e o seu Dilbert quando descreve as idiossincrasias dos engenheiros.

Por estes dias ficou a saber-se que a nossa brilhante Proteção Civil, que parece ter maior prioridade em proteger os seus boys do que a população em geral, mandou fazer e distribuir golas “anti fumo” que podem servir para alguma coisa, eventualmente para proteger os pulmões do frio no inverno, mas que a última coisa que devem fazer é estar em cenário de fogo. E foram distribuídas às populações das aldeias identificadas com alto risco de incêndio.

Lógica disto? Alguém se enganou? Não…! Colocada face ao ridículo a agência que faz de conta que protege esclareceu que efetivamente não se trata de equipamento de proteção, mas apenas de sensibilização de “boas práticas”. Aparentemente não parece ter sido essa a história contada aos felizes contemplados.

Ainda bem que a ANPC não especifica nem concebe automóveis, que teriam coisas parecidas com travões mas que não travam, volantes que não dirigem… enfim, ainda bem. Mas não é por acaso que este país anda um pouco descontrolado!

27 junho 2019

Memórias e Liberdade


Aljube, em Lisboa, uma antiga prisão de má memória. Entre outros espíritos livres aí esteve preso Miguel Torga, pelo gravíssimo crime… de ter escrito um livro! Em 2015 foi transformada em espaço de memória da resistência e liberdade. É importante ter memórias claras e entender o nascer e o porquê da liberdade e da sua falta… de forma honesta.

Infelizmente, naquele local, o revisitar da história nacional do século XX, não é séria, não ajudando assim à causa da liberdade. Começa pela sequência dos malefícios da Monarquia, das boas vontades da Primeira República, sendo o maio de 1926 obra de uns malandros que apanharam o povo distraído, ignorando a ajuda dos erros dos primeiros anos republicanos no aparecimento e implantação do Estado Novo.

Depois, e pior, é 1975. A palavra usada para caraterizar o resultado das eleições para a Constituinte é “desilusão”!

Conta ter ocorrido um confronto entre forças “avançadas” e outras que defendiam uma “democracia mais moderada”, saldado por uma “derrota”. Gostava que me explicassem em que consistia exatamente esse “avanço” e como se distinguem e classificam as democracias quanto ao seu nível de “moderação”.

Pelos verdadeiros lutadores da verdadeira liberdade, esta narrativa faciosa e sem vergonha é insultuosa. Se não queremos entender e enfrentar porque a liberdade aparece e desaparece, estarmos sempre à mercê de novos aljubes.



Ariane


Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades…

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

Miguel Torga
(aquando da sua passagem pelo Aljube)

26 junho 2019

O terminal neoliberal


Um destes dias, no terminal 2 do aeroporto de Lisboa, ao ver as dezenas de voos lowcost planeados e os milhares de passageiros que iriam viajar para uma cidade europeia pelo mesmo preço, ou mesmo inferior, ao de bilhete de comboio Porto-Lisboa, pensei…

Andariam por lá alguns dos que rasgaram as vestes pela importância estratégica da não privatização da TAP? É que mesmo após a pressão da concorrência, os preços da TAP são significativamente mais elevados. Do antes, da altura do monopólio das companhias públicas de bandeira, nem se fala…

Presumo que os que as vestes rasgaram pela manutenção da TAP pública seguramente repudiarão aquele terminal, onde apenas operam companhias privadas que buscam o lucro. Certamente nenhum andará por ali. Pela importância estratégica do nacional, nosso, deverão preferir pagar 5 ou 10 vezes mais para voarem na TAP. Questão de princípio, não?

Aquela malta no T2 são todos uns incorrigiveis neoliberais – deviam ter vergonha!

24 junho 2019

Coisas de Raças !?


Aparentemente foi decidido que nos próximos Censos não será incluída uma questão sobre a origem étnico racial da população. Aqueles que são contra a discriminação racista estão revoltados. Eu tenho muita dificuldade em compartimentar a humanidade em raças e julgava mesmo que no século XXI essa tentativa de divisão, sem base científica, já não deveria sequer existir. Atentemos à segmentação sugerida:

— Branco/Português branco/De origem europeia
— Negro/Português negro/Afro-descendente/De origem africana
— Asiático/Português de origem asiática/De origem asiática
— Cigano/Português cigano/Roma.

Provavelmente que alguns/muitos não teriam grande dificuldade em escolher onde colocar a cruzinha, mas… os de origem mista, de pai negro vindo de Angola e mãe branca nascida em Bragança? E os berberes do norte de África que podem ter a pele mais branca do que a maioria dos portugueses de gema? E a Ásia, onde começa – um libanês não será mais próximo da tal dita suposta raça europeia do que da chinesa? E os índios e seus descendentes? E desde quando cigano é uma raça – não será antes uma cultura/modelo social? 

Desculpem lá, mas esta coisa de querer saber quantos brancos, pretos e amarelos há por aqui, esquecendo os vermelhos e acrescentando a cultura cigana porque fica bem, parece-me caricatural, redutor e retrógrado. Tentar segmentar a humanidade em função do pantone da pele, diâmetro do crânio ou grossura do nariz é… o princípio do racismo.

05 junho 2019

E acabar de vez com o Siresp?


Quando inicialmente o Siresp foi pensado poderia fazer sentido construir uma infraestrutura dedicada para aquelas funções, com aquela tecnologia. Na altura em que foi finalmente contratado e implementado, haveria já muitas dúvidas sobre a pertinência dessa opção e passemos ao lado da atipicidade do processo do concurso, com uma única proposta recebida, e o ziguezague da adjudicação/anulação/readjudicação.

Nas tragédias de 2017 ficou patente que o sistema tinha bastantes deficiências e limitações. Que para lá das atipicidades do negócio era necessário e fundamental que funcionasse mesmo e bem. Daí para cá muito se fala em investir/gastar dinheiro para melhorar o seu desempenho e disponibilidade.

Se há 15 anos era questionável a necessidade de construir uma rede dedicada, hoje, com o enorme desenvolvimento posterior das redes móveis, dúvidas não há. Parece-me que por mais euros que lá se coloquem, nunca fica resolvido o problema da obsolescência tecnológica e dos custos crescentes que ela acarreta. Não fará mais sentido acabar de vez com uma coisa que, ainda por cima, já nasceu velha?


- Incluindo versão impressa no "Público" de hoje.

04 junho 2019

O silêncio

O silêncio de uma manhã pode não ser de morte. Depois do silêncio nasce o novo, vem a notícia. 30 anos. Depois do silêncio não pode ficar outro silêncio. Pelos silenciados definitivamente no momento, pelos silenciados continuamente no tempo e pelos silenciados na ignorância dos fatos apagados da história que lhes ensinam.

Um momento de não silêncio pelo que vale a pena noticiar, uma homenagem possível aos silenciados. Há 30 anos.

30 maio 2019

Enquanto eram parafusos…


Tempos houve em que o antigo império do meio, começou a fazer parafusos. Eram baratos, o controlo de qualidade um desafio, mas quando os senhores que sabiam bem de parafusos lá se instalaram, as coisas ficaram melhor organizadas e evoluíram. Hoje é muito mais do que parafusos e já se dispensam senhores de fora para muitas competências.

Nenhum equipamento conectado é uma ilha, havendo cada vez mais coisas que se conectam e sendo cada vez mais fácil fazê-lo. Uma “coisa conectada”, seja um telemóvel, um automóvel, um frigorifico ou uma casa, tem uma ponte e uma porta de entrada para o mundo exterior. E aqui não tenho dúvidas… garantias de inviolabilidade não há. É apenas questão de esforço e habilidade.

Sempre, e hoje ainda mais, a informação é fundamental, a informação é poder. E aqui também não tenho dúvidas … poucos ou pouquíssimos resistirão à tentação de aspirar toda a informação a que tenham acesso, caso isso lhes traga alguma vantagem. Sabemos que cada passo nosso de cada dia é aspirado por quem saber o que somos, para depois vender essa informação a quem quiser comprar, servindo tanto para nos impingir bugigangas como propaganda política.

Na atual crise EUA – China, a separação entre a Google e a Huwaei é a crónica de um divórcio anunciado. Quem viaja à China, já sabe que Google, e outros, lá não existem por questões de segurança nacional. As diferentes ambições e projetos de sociedade tornam inevitáveis o estalar desta desconfiança, que, recorde-se, é recíproca.

Assim, está em curso a construção uma nova cortina de ferro, que não sendo física, não é menos significativa. Hoje o ecossistema da internet na China é já substancialmente diferente do ocidental. A continuar por este caminho, atingindo as bases de hw e sistemas operativos, o mundo dos sistemas de informação vai mesmo partir-se em dois e anuncia-se uma batalha feroz pelo controlo de territórios, da mesma forma como durante a guerra fria, as superpotências disputavam o controlo de países terceiros.

Para lá dos estragos imediatos que a perda da concorrência e redução de escala provocarão, fica uma questão especulativa. Até que ponto o ocidente será competitivo sem poder contar com as bases de produção e o mercado na China e como esta reagirá a não poder aceder à evolução e a inovação tecnológica ocidental e respetivo mercado. Não necessariamente quem ganha, mas quem perderá menos?

16 maio 2019

Bacalhoa basta!


Há cerca de dois meses atrás, personalidades como George Clooney e Elton John apelaram ao boicote dos hotéis e outros investimentos que o bárbaro e milionário sultão do Brunei tem neste nosso mundo civilizado, na sequência da brutal legislação aprovada para vigorar naquele canto longínquo deste mundo e não me perguntem por quem os sinos dobram. Acho bem e muita gente achou bem, considerando que o fundo da questão ia para além dos empregos diretos, diretamente ameaçados.

Bom, Portugal não é o Brunei e… outras analogias mais não marcham, mas face à lata descarada do ainda comendador, parece-me obviamente lógico e oportuno apelar, como outros já o fizeram, a que mais nenhum euro e cêntimo entrem na conta daquela ….. (pessoa?)

Ok. Está bem. Ele é apenas um. Alguns dos outros que hoje se indignam com o desplante do indivíduo foram coniventes no passado. Mas, ok, por algum lado é preciso começar. O importante é começar!

PS: Parece que além da marca JP, Bacalhoa, há a Aliança e a Quinta do Carmo. Cada qual verifique como entender.

28 abril 2019

Sagrado ou mais?


Começo com uma declaração de interesse: sou agnóstico de matriz cultural cristã. Não possuo a tal fé, mas nascido e criado em meio católico, não sou indiferente nem estranho aos seus valores. A tragédia do incêndio na Notre Dame de Paris faz-nos recordar isso. Até que ponto as igrejas, mosteiros e catedrais são nossos e defenidores da nossa identidade.

Recordo-me de há uns anos, na discussão sobre a preambulo da chamada Constituição Europeia, muito se polemizou com a herança e a influencia cultural cristã na História deste continente. Na altura manifestei-me contra a referência, mas, e esta é que é esta, ela existe, mesmo que não esteja escrita e evidenciada em tratados.

Não, não está certo esterilizar o significado das catedrais a simples monumentos históricos; não, também não me parece certo acantonar a sua importância a templos, que só falam aos seus crentes. Bem ou mal, para mim mais bem do que mal, há algo que se sente nestes lugares e que transcende a simples dimensão de um lugar de um culto. Talvez fosse interessante que os seus guardiões vissem este fenómeno mais como uma riqueza do que uma profanação.

Não está em causa especialmente a espetacularidade de, por exemplo, os telhados de uma catedral gótica, mas mais a beleza tranquila de uma igreja cisterciense. Estes locais falam-nos.

O incêndio também nos disse e recordou a finitude, mesmo da pedra e da madeira secular. Que fique essa lição…

25 abril 2019

Abril, falta ou chega ?

Numa dada fase da minha adolescência, não muito longe de 1974, eu não tinha muita paciência para ouvir falar de glórias passadas e concretamente do período áureo da nossa História, o dos Descobrimentos, ou Navegações, ou o que quer que lhe queiram hoje chamar.

Porquê? Porque era um exagero, na minha perspetiva, bater e rebater naquela tecla, por muito brilhante que tivesse sido. “Já fomos grandes, havemos de reencontrar as glórias passadas” (eventualmente numa manhã de nevoeiro…). Falar mais do passado do que olhar para o futuro e agir no presente não é bom remédio para nada.

Hoje, ao ver recordado e celebrado este dia de 1974, fico contaminado com o mesmo sentimento. Sim foi um grande momento, emocionante de enorme alegria e esperança, indiscutivelmente há claramente no país um antes e um depois, mas … já chega. Sem desvalorizar a data, já chega de apelar ao espírito de Abril como fármaco para tratar os males atuais.

Sabemos que, se na manhã do 25 o sentimento no país não era uníssono, mas quase, também sabemos que do 26 para a frente, quando foi preciso fazer, as divergências foram enormes e o perigo de entrar em caminhos perigosos bem real.

Quando ouço os protagonistas atuais, que diariamente nos brindam com atos desonestos, displicentes, incompetentes e a lista continuaria, subiram a um púlpito e falar bonito sobre o 25 de Abril, a minha reflexão é: e se deixasses de tretas, de maior ou menor belo efeito, e apenas, somente apenas, tivesses a humildade e a coragem de ser sério?

18 abril 2019

Que tudo corra bem…

Soma e segue. Ou falta de competência, ou de empenho, ou de discernimento, ou de escrutínio, ou… mas... cada vez mais se confirma termos à nossa frente uma máquina de Estado cuja eficácia e excelência parece confinada à mui nobre atividade de cobrar impostos, além de gerir o dia a dia. Reformas, coisas pensadas a sério… mesmo um organismo privado que ousou fazer contas e apresentar umas questões sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, foi chutado para canto pelo ministro da tutela. Tudo está bem até a inevitabilidade ou as redes sociais obrigarem a fazer qualquer coisa.

A reação do governo à greve dos motoristas de matérias perigosas, não materiais, informem lá o Ministro que quis falar e se enganou várias vezes no nome, foi mais um exemplo de ir comprar as trancas depois de a casa estar arrombada. Está bem que não morreu ninguém, nenhuma ambulância ficou parada na estrada com um ferido grave, como também no caso do helicóptero do Inem despenhado em Valongo, não morreu mais ninguém, mas já houve tragédias a sério e a sensação e o amargo na boca têm o mesmo sabor: em cima do joelho e atrás do prejuízo.

Fica, e só como exemplo, o anedótico da forma como foram decretados os serviços mínimos para o abastecimento de combustíveis: 40% para a grande Lisboa e o grande Porto. Em primeiro lugar, como depois se corrigiu, 40% não é suficientemente específico. Seria necessário definir, de preferência estar pré-defiido, os pontos específicos e as regras de acesso, restrições e prioridades. Depois a limitação às duas grandes metrópoles diz muito sobre o conceito de “país” que vai naquelas mentes.

Que tudo corra bem, já que cada vez que algo corre mal ficamos entre a tragédia e o caricato.

11 abril 2019

E agora Argélia ?


Durante várias semanas o “povo” sai à rua na Argélia para exigir a não recandidatura do presidente vigente, coisa que atendendo ao contexto expetável dessas eleições seria mais uma recondução garantida do que mesmo uma eleição. Desde que sofreu um AVC em 2013, Bouteflika está fortemente debilitado e muito desaparecido da cena pública, levantando sérias dúvidas sobre quem efetivamente mandaria no país. De acrescentar que a Constituição estipulava um limite de dois mandatos consecutivos, entretanto oportunamente alterada, e este seria o quinto … Mesmo o quarto, face à situação clínica do senhor na altura, que praticamente já nem falava foi um abuso.

A contestação, abrangendo largas camadas sociais, várias localidades do país e curiosamente, até agora, madeira toque toque, foi extraordinariamente pacifica. Um exemplo para o que se tem passado no outro lado do Mediterrâneo, onde os coletes amarelos com muito menos capital de queixa vão quebrando e incendiando o que lhes apetece.

Por vezes, diz-se que a história se repete, com diferenças. Há cerca de trinta anos, uma forte contestação popular, fortemente reprimida, com centenas de mortos, fez abalar o regime, forçou o multipartidarismo e a realização de eleições, ganhas pelos islamitas e oportunamente anuladas pelos militares. Na altura, foram buscar um histórico não contaminado, Mohamed Boudiaf, largamente reconhecido e apoiado pela população, que arregaçou as mangas para arrumar a casa. Aguentou 4 meses, até lhe rebentar uma granada aos pés, durante uma sessão pública.

Neste momento, para já há uma diferença. O poder não está a usar a força para contrariar os protestos, como o fez brutalmente na década de 80. De novo os militares mostram querer tomar conta da situação, “recordaram” a necessidade da aplicação do artigo da Consituição que prevê a substituição interina do Presidente, se for considerado incapaz…

Haverá um novo Boudiaf, nomeado ou eleito, que sobreviva mais de 4 meses e realize a transição que desesperadamente o país necessita?

09 abril 2019

O mano também fez!

Imaginem que o Joãozinho, ao ser recriminado por ter jogado à bola de forma imprudente em local pouco apropriado e de ter partido alguns vidros, tem como resposta: o ano passado o mano fez igual e até hoje ninguém me disse que era proibido jogar ali à bola. Obviamente que o mano o ter feito, com maior ou menor frequência ou antiguidade, em nada altera a responsabilidade do Joãozinho, assim como a prudência e a razoabilidade não se decretam exaustivamente, são princípios.

Isto vem a propósito das nomeações familiares no Estado e das respostas/desculpas que vamos ouvindo. Os outros também o fizeram no passado… Não entendem que não está em causa um ajuste de contas entre partidos, mas sim responder ao país, que exige e merece decência? Acrescentam que, pelo menos até hoje, não era proibido… Venha lá uma nova lei e só daí para a frente se poderá condenar. Para lá da dificuldade em legislar clara, justa e eficazmente neste domínio, tudo o que não for decretado proibido é automaticamente permitido? Não há princípios nem ética, especialmente para quem deveria ser exemplar nesse domínio?

Mais do que o mal original, é chocante esta reação desculpabilizadora. Ou são de discernimento muito limitado ou imaginam que nós o seremos …