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27 junho 2016

A roleta russa tinha balas

Mais ou menos na altura da primeira trinca na primeira sardinha lembrei-me: - É verdade, já se sabe o resultado do referendo no Reino Unido? – Não, só depois das 22h, responderam-me. Continuaram outras sardinhas e outras conversas sem mais me lembrar do assunto. Pareceria que o lógico “remain” ganharia, mesmo por pequena margem. No dia seguinte de manhã acordei com a surpresa do “exit”. A EU tem problemas, em parte simplesmente devidos à fraca qualidade geral dos políticos. É por estar a ser mal interpretada que deve ser destruída?

David Cameron resolveu dramatizar e jogar à roleta russa, esquecendo-se de que podia sair bala. Muitos eleitores votaram por protesto sem mediram o real resultado e a irreversibilidade do seu voto. Pagou-se também a fatura de anos de desresponsabilização ligeira, não exclusiva do UK, de políticos, mesmo pró-europeístas, do “não podemos fazer mais por causa das regras de Bruxelas.”. Temos ainda os populistas de esquerda e de direita para quem o caminho do poder passa pelas alternativas destrutivas.

Curiosamente, nos países ricos um argumento principal do contra é deixar de financiar os preguiçosos do sul enquanto os países pobres pedem “de Bruxelas que venham verbas e esqueçam lá as regras”. Está-se mesmo a ver uma roleta russa com muitas balas.

Eu ainda posso entender ser fácil os do norte comprarem a argumentação “vamos deixar para trás este lastro e andaremos mais depressa …”. Agora nós, do sul, queremos voltar ao “orgulhosamente sós”, por favor. Já vivemos esse filme e não foi bonito.

A Europa é um projeto fantástico. Provavelmente sem uma bárbara guerra anterior, nunca teria nascido. É triste e desrespeitoso vê-lo ameaçado por calculismo, demagogia e falta de visão.

08 abril 2016

De atentados, não tenho medo…

Os recentes atentados em Bruxelas apanharam-me na Argélia, onde, no passado, já ouvi explosões idênticas (apenas ouvi). A mesma Bruxelas em que, há cerca de 20 anos, todas as manhãs eu subia a Rue de la Loi, onde se encontra a estação atacada de Maelbeek. Talvez por isso acompanhei as notícias … com uma atenção especial, que procuro não chamar doentia.

Devo dizer, no entanto, não recear particularmente os atentados e não prevejo mudar um milímetro dos meus hábitos por causa dessa ameaça. Pragmaticamente falando, a probabilidade de ser um dia atropelado ao circular pela estrada de bicicleta é bastante mais elevada e não irei deixar de o fazer por isso.

Preocupa-me, sim, outro tipo de ameaça. De num belo fim de tarde sentar-me numa esplanada em frente ao mar, pedir uma cerveja e ser informado que não a podem servir. Proibido mesmo não é, mas há um novo local de culto próximo e o proprietário do estabelecimento não quer confusões. Face ao meu olhar desolado, propõe-me servir a cerveja numa caneca opaca, desde que eu prometa ter cuidado para não ficar com espuma visível nos lábios.

Estando o tempo tão agradável, decido organizar um churrasco para o dia seguinte. Ao passar no meu talho habitual e pedir salsicha fresca, carne entremeada e essas coisas do costume, sou informado de que já não vendem carne de porco. Proibido mesmo não é, mas como todos os talhos da cidade decidiram não a vender, este também não teve outra opção, para não perder uma parte significativa da clientela. Face ao meu olhar desolado, o talhante lá toma nota do pedido e, passado alguns minutos, regressa com as salsichas e afins bem embrulhadas, tudo convenientemente identificado com uma etiqueta falsa. Pela segunda vez, em pouco tempo, estou a sentir-me estranhamente clandestino.

Neste momento, alguém pensará que devo estar maluco. Não estar preocupado com poder tornar-me carne picada e sim com uma simples etiqueta falsa? Não, não estou maluco. A cerveja e a carne de porco serviram apenas de ilustração simples. Há outros aspetos mais significativos como, por exemplo, a liberdade de expressão e a condição feminina em que pode estar em causa uma mudança radical da nossa sociedade. Existe uma dinâmica com origem no Médio Oriente, buscando estabelecer uma cultura medieva arcaica, dominante, de submissão, cujo impacto vai para lá de um simples ataque terrorista. Nem todos os muçulmanos aderem a esse projeto e alguns serão apenas vítimas de uma manipulação feita em cima da sua identidade comunitária, explorando desencantos de origens várias Mas que tenho medo disso, tenho…

23 março 2016

Silêncio


Por todos aqueles que hoje deveriam estar vivos, como nós.
Silêncio, nada mais...

(porque nem um insulto nem um palavrão a pena valem)

Imagem extraída do site do "Le Soir"

22 março 2016

Covardia


Já vivi em Bruxelas. O meu local de trabalho ficava a escassas centenas de metros do local onde foi identificada a presença de Abdeslam no passado dia 15/3, em Forest. Todos os dias entrava em Bruxelas pela Rue de La Loi, onde se encontra a estação de Maelbeek, alvo de um dos ataques de hoje. Não é que isso tenha um significado especial. Talvez tenha apenas contribuído para passar a manhã sem me conseguir afastar muito das notícias que iam caindo, um hábito destes dias, que ganhei quando vivi na Argélia, onde, por acaso, até me encontro neste momento. É difícil não repetir as mesmas reflexões das situações anteriores, sentir a mesma revolta e, felizmente, continuar a achar que isto tem que acabar.

Obviamente que a mediatização da perseguição e da captura de Abdeslam foi um espetáculo acessório, uma celebração tragicamente curta. A sua aparente permanência clandestina, no seu bairro durante 4 meses, é por si só suficiente para justificar que não estamos em presença de um lobo solitário e, muito provavelmente, a ação de hoje não terá sido levada a efeito por um comando chegado na véspera do Médio Oriente.

Há uma parte, grande ou pequena, da comunidade imigrada cúmplice e encobrindo a presença destas redes. A outra parte, supostamente bastante maior, não pode simplesmente dizer “nada comigo”. Todas as frustrações, as discriminações racistas, que as há, não deveriam permitir nenhum tipo de contemporização com estes atos ignóbeis e covardes, sob pena de agravar e tornar irreversível o processo.

Não sei se iremos ainda a tempo de termos na Europa um espaço comum onde a comunidade muçulmana esteja integrada e percecionada como respeitadora da convivência pacífica. Sei que esta frase é politicamente incorreta e algo injusta no seu fundo. Mas é pertinente. Não sei se iremos a tempo. Sei que bater na tecla do costume, da exceção, dos “mas” e “também”, vai levar a isso certamente. Denunciem-nos por favor!


Foto extraída do "Le Soir"

24 junho 2015

Julie e Melissa

Para quem esteve ou passou na Bélgica entre 1995 e 1996, estes rostos com 8 anos de idade nunca deixarão de nos ser familiares. Vimo-los por todo o lado. Foram raptadas em 24/06/1995, exatamente há 20 anos, e acabariam por morrer em março do ano seguinte, supostamente abandonadas numa cave prisão, de desidratação e desnutrição. Seguem-se, sempre aos pares, An e Eefie, também mortas. Finalmente Laetitia e Sabine são salvas no desfecho do processo.

Uma inexplicável ineficácia da polícia belga e muita confusão e perturbação com os magistrados de instrução sugerem que pode haver outro tipo de implicados, para lá de Marc Dutroux, principal autor material, e seus cúmplices próximos. Numa busca à sua casa, quando já é bem conhecido como pedófilo, os polícias, ouvem gritos das crianças mas convencem-se de que é algo no exterior. O juiz Jean-Marc Connerotte, o único que pega no assunto a sério e que salva as duas últimas crianças, vê o caso ser-lhe retirado por ter participado num jantar de solidariedade com as vítimas.

É desestimado um testemunho pormenorizado de uma antiga vítima, incriminando claramente o sinistro Michel Nihoul como suposta figura de proa duma organização pedófila. Não é chamada ao julgamento e Nihoul sai ilibado das principais acusações.

Há teorias da conspiração segundo as quais Dutroux era apenas um “caçador” alimentando uma rede de pedofilia que chegaria muito alto. Segundo outras, a vontade da polícia de apanhar na rede peixe graúdo deixa rédea solta ao raptor durante demasiado tempo.

É difícil ir muito mais longe a desenvolver especulações, mas é bastante plausível que com um bocadinho mais de eficácia da(s) polícia(s) Julie e Melissa poderiam ter sido salvas. Certo mesmo é que morreram e que sofreram muito. Pensar que gente influente pode ter participação ativa e influencia encobridora é arrepiante. Para todos os efeitos a Bélgica não encerrou o assunto.

24 março 2014

A ressaca da democracia

O resultado das eleições autárquicas em França e o crescimento espectacular da extrema-direita assusta muita gente. Não tenho nenhuma simpatia pelas ideias da FN (Frente Nacional) mas não podemos deixar de respeitar a opção democrática do eleitorado. De recordar que já nas presidenciais de 2002 Jean Marie le Pen chegou a disputar a segunda volta, para grande surpresa e escândalo. E se é certo que a FN de hoje é diferente da de há 12 anos, o problema de fundo é igual, ou pior.

O simplesmente lamentar este resultado, com cara de enjoo, recordando que os “valores” do FN não se identificam com os da democracia, deixa algo por dizer. É que os “valores” dos partidos tradicionais “valem” apenas na teoria. Na prática os negócios e negociatas e a falta de ética dos seus políticos estão muito longe do que seria expectável e minimamente aceitável.

Quando no final da década de 90 a extrema-direita racista e xenófoba crescia na Bélgica, os partidos “sérios”, para a impediram de aceder ao poder, criaram uma grande coligação a que chamaram “cordão sanitário” e o mesmo deverá ser tentado agora na segunda volta destas eleições m França. O problema é que isso vale pouco se não estiver limpo o interior do dito cordão.

Tenho sérias dúvidas se, a prazo e após a experiência do poder, a prática da FN será diferente da dos outros, mas este fenómeno do eleitorado recusar os partidos tradicionais e embarcar em experiências mais ou menos radicais, como a do palhaço italiano, é um caminho muito perigoso e com uma ressaca imprevisível.

08 abril 2013

Mal amados

Dentro da minha tradição de não referir efemérides exceptuado as excepções, descobri recentemente que este ano se cumprem 100 anos sobre o nascimento do grande Albert Camus, de quem já falei aqui várias vezes… E no artigo que li referiam o seu enquadramento com a sua terra natal, Argélia, e da forma como ele é pouco reconhecido pelos valores oficiais dos seus compatriotas. Esclarecido, ele tentou dar o seu contributo ao processo de independência mas afastou-se impotente face a um rumo que estava a ser seguido, segundo ele errado. Criticou o colonialismo e denunciou a pobreza em que vivia uma grande parte da população, mas a solução para ele não passaria por uma autonomia com exclusão dos europeus. Achava que se podia viver e partilhar o país sem o maniqueísmo em vigor e não lho perdoaram.

E daqui lembrei-me de uma outra grande figura humana, para a qual tanto quanto sei não está nenhuma efeméride em curso, e que também foi mal amado pelos seus: Jacques Brel. Na pequena Bélgica, o grande Brel achava que se podia ser flamengo de alma e coração exprimindo-se em língua francesa. Os pequenos flamenguitos não o entenderam e também não lhe perdoaram tamanha heresia.

Com um mundo de distância entre os dois, ou talvez não, dois mal-amados e pelas mesmas razões profundas: por não venderam a alma, por não alinharem em coros superficiais, por não aligeirarem o valor das convicções, por terem e manterem um espírito livre. Bem hajam!

06 fevereiro 2013

Mais um Parlamento perdido

No âmbito da discussão da legalização do casamento homossexual em França, o respectivo Parlamento encontrou um problema muito bicudo de resolver: qual o critério para o nome da família da criança adoptada. Para quem não sabe, nome de família em França só pode ser um e é o do pai – sim, é assim por lei e em França, não é na Arábia Saudita nem num desses países esquisitos de direitos, liberdades e igualdade entre géneros. Só se o pai for um pé rapado e a mão tiver alto pedigree, é que pode haver uma excepção para a criança receber o nome da mãe. Eu próprio o comprovei quando ao registar o meu filho nascido na Bélgica, com legislação idêntica, em que precisei de à pressa declarar nomes de família como nomes próprios para o rapaz pode ficar com mais do que um único nome de família. Voltando às famílias homossexuais, é bastante óbvio que a solução simples é ficar com os dois nomes de família. Só que, igualdade por igualdade, isso também teria que ser aplicado a toda a gente, destruindo então essa pedra basilar da identidade francesa. Como ilustração dos problemas que isso traz, foi referido o caso português dos nomes de família que nunca mais acabam. Lá chamam-lhes “nomes mala”, em português será talvez um “comboio de nomes”. Mas, se para evitar nomes comboio é necessário estabelecer por legislação uma coisa tão desigual e retrógrada, é estranho. Por outro lado, é incrível como parece ser mais fácil discutir a família homossexual do que simplesmente anular essa regra arcaica e machista. Para que conste: os adultos têm o direito de viverem como entenderem na sua esfera privada e por isso acho bem que possa aplicar-se-lhes a instituição/contrato casamento. Como uma criança não é um animal de estimação eu acho mal que tenham pai-pai ou mãe-mãe. Mas esta é a minha parte retrógrada.

10 janeiro 2013

Patetices

Naquela postura de que os impostos são um direito de saque inquestionável e ilimitado sobre os cidadãos, o governo francês pôs a hipótese de cobrar uma taxa especial de 75% sobre os grandes rendimentos. Gérard Depardieu potencialmente lesado reagiu e manifestou vontade de sair de França e de se instalar na Bélgica. O primeiro-ministro Francês classificou a atitude de “assez minable”, que significa “bastante patético”. Um deputado chegou mesmo a propor que se retire a nacionalidade francesa a estes exilados fiscais, subentendendo que essa excomunhão da pátria de Moliére seria um pesadelo inconcebível para qualquer pessoa de bem.

Depardieu considera-se insultado e recordando que trabalha desde os 14 anos e os milhões em impostos que entregou ao Estado ao longo da sua vida, devolve o passaporte francês por sua iniciativa e coloca a França em estado de choque! Na cultura daquele país, que alguém queira deixar de ser francês é no, mínimo, uma insanidade.

Na confusão Putin oferece um passaporte russo ao actor, este aceita e agradece com públicos e lautos elogios ao seu novo chefe de Estado! Se calhar não havia necessidade de ser tão efusivo, mas não esqueçamos que ele é actor. O escândalo em França sobe de nível e o homem é atacado de todas as formas e feitios. De realçar que uma boa parte das grandes fortunas francesas, incluindo vários grandes patrões muito respeitáveis, já têm residência fiscal fora de França e até hoje ninguém lhes chamou patéticos. E, só para acabar, sabe-se que o ministro das Finanças, o tal que teve a ideia dos 75%, está a ser investigado pelo fisco francês por supostamente ter possuído uma conta secreta na Suíça, entretanto transferida para Singapura via offshores. Afinal, quem é o minable/patético?

14 agosto 2009

Eu sei que eles se lavam pouco, mas....

Quando vivi na Bélgica notei que os hábitos higiénicos locais são um pouco abaixo dos nossos padrões. Olhos arregalavam-se ao ouvir contar que há quem tome banho diariamente e num dia, raro, de canícula acima de 30º, alguém comentava: “Não há hipótese! Com este calor tem mesmo que se mudar de camisa todos os dias”. Não questionei qual seria o limite a partir do qual a camisa lavada diária se tornava indispensável. Pode até mesmo existir uma curva com o número de dias em que se aguenta a mesma camisa em função da temperatura. Eventualmente no Inverno durarão a semana inteira.

Vem isto a propósito de um artigo que li no último número da “Jeune Afrique”, uma espécie de crónica, em que o autor se insurge contra a quantidade de calçado usado oferecido pelos Belgas a ONG’s e que vão calçar africanos descalços. Acrescenta que sendo usados em particular e logicamente nos pés, se trata quase de exportação de um produto tóxico, podendo provocar doenças nos pés dos africanos que os recebem: micoses, eczemas e mesmo a peste! Um escândalo!

Oh pá! Eu sei que ele se lavam pouco, mas daí a ser perigoso a esse nível vai uma distanciazinha e um bom bocado de ridículo! É que nisto de doenças, as da “casa” são sempre mais toleráveis. Tudo o que pode acontecer, e pode acontecer muita coisa ,ao andar descalço numa rua africana é normal; o facto de no meio de uns milhões de sapatos poderem vir algumas sandálias “tóxicas” é que é absolutamente inaceitável!

20 março 2008

O Desgosto dos Belgas

A notícia tocou-me a vários níveis. Hugo Claus, doente de Alzheimer, morreu de eutanásia, a seu pedido, consciente. E a palavra que salta para o primeiro plano é coragem.

Hugo Claus escreveu sobre o seu país com muita coragem. Sendo Belga e Flamengo, escarafunchou fundo na tacanhez das mentalidades desse pequeno país, tão cheio de pequena gente. O seu livro “O Desgosto dos Belgas” é um testemunho e um retrato terrível daquela Flandres que, como Brel tinha acusado meia dúzia de anos antes, era “nazi durante as guerras e católica no intervalo delas”. E escreve de uma forma tão lúcida e incisiva, só possível a quem está muito próximo e o vive e o ama e o sofre.

Depois, o fim. Face ao Alzheimer, aquela coisa que faz partir o espírito à frente do corpo, Hugo Claus disse não, que queria partir todo de uma vez, no momento que ele escolheu. Não sei se ele se cruzou com Brel, mas não posso deixar de evocar mais uma vez esse outro flamengo tresmalhado: “Morrer, isso não é nada, agora envelhecer, ó envelhecer...”

27 julho 2007

E depois, não querem ser gozados!


Yves Leterme, indigitado para formar o próximo governo belga e quase certamente o futuro primeiro ministro, democrata cristão flamengo, teve um admirável desempenho no dia da festa nacional do seu país.

Para lá de achar aceitável atender o telemóvel durante o “Te Deum”, demonstrou desconhecer o que se celebrava no dia e, quando lhe foi provocadoramente perguntado se conhecia a versão francesa do hino nacional Belga, não hesitou e atacou: “Allons enfants de la patrie, le jour de gloire est arrivé" !!!

E não foi ironia, foi mesmo engano ! Argumentou que, como trabalhava muito, no bom estilo de formiguinha flamenga de cabeça baixa que só a consegue levantar quando escondida ou quando o adversário está de costas, não tinha tido tempo para aprender todas as versões do hino. Em flamengo sim, conhecia-o bem! Onde quer que esteja, J. Brel estará repetindo, “les larmes aux yeux: ik ben van Luxemburg”, envergonhado por tamanhos espécimes que gerou a sua Flandres.

Há mesmo países e países! Haverá alguém com um mínimo de responsabilidade em Portugal que desconheça o significado do 10 de Junho ou os primeiros versos da “Portuguesa”? Evidentemente que nem sequer coloco a questão de a confundirem com a “Marcha Real” Espanhola! E até acho que mesmo o Deco deve conhecer pelo menos o princípio do hino do seu novo país!

E depois acham que são perseguidos pelos fazedores de anedotas.
Foto extraída do site do "Le Monde"

25 março 2007

O macaco nu e os macacões

Escrevia Desmond Morris, nos anos 60, no seu interessante livro “O macaco nu” que os desafios de futebol apelam a instintos primitivos e são hoje em dia uma espécie de sucedâneo das guerras tribais do passado. O comportamento dos hooligans, entretanto aparecidos em força, só lhe dá razão.

Nesta perspectiva, os “conflitos” entre as selecções nacionais estarão quase ao nível de uma guerra entre nações e, talvez por isso, as selecções mobilizem bandeiras como poucas outras coisas mais.

Um país complexado, que se acha superior a outro, põe em jogo, nessa partida, a sua honra. Perder com a Alemanha pode ser uma derrota honrosa, mas perder contra os anões Portugueses é, sem dúvida, uma vergonha nacional.

O facto de um “petit belge” ter anunciado que a estratégia do jogo passaria por pôr o C. Ronaldo numa maca em 2 minutos, demonstra nervosismo extremo pela perspectiva da desonra; limitação intelectual e perspicácia nula por não conseguir antecipar os efeitos de semelhante afirmação pública; tacanhez e mesquinhez por, em seguida, em vez de corrigir humildemente o “tiro”, ainda conseguir mostrar sorrisinho irónico e, em resumo, ausência de espelhos: se se conseguissem ver ao espelho, entenderiam claramente porque são eles os “petits”; mesmo quando insistem em chamar “anões” aos outros.

Como é evidente, ver o dito cujo a apalpar o ar atrás da bola e esta ir ter à cabeça do C. Ronaldo, para este a fazer aterrar nas redes, foi uma enorme satisfação. Pelo golo em si e pela desonra infligida à arrogância pobre.

Para concluir, uma ressalva para pôr fora do saco alguns belgas correctos que conheci e um abraço ao FC e ao RM em memória das lutas gloriosas na TA!

22 janeiro 2007

Âncoras de identidade (II)

Podem as roupas expostas nas montras das lojas serem iguais por todo o lado, assim como o prato de comida rápida e os filmes em cartaz. No entanto, cada cultura terá sempre as sua âncoras de identidade específicas, porque se as não tiver apaga-se. E uma boa parte da atitude colectiva depende da natureza dessas âncoras.

Vejamos. É fácil entender que a Bélgica seja complexada. Que âncoras pode ter um país que foi criado ad-hoc por terceiros para servir de terra de ninguém nos conflitos bélicos frequentes da altura e com duas comunidades tão homogéneas como uma mistura de água e azeite?

Curioso é a França ancorar-se tanto no famoso trio da “liberdade, igualdade e fraternidade” e lembrarmo-nos que a prática da revolução, raiz dessa referência, esteve nos antípodas desses mesmos princípios. Ainda, em situações de crise, como a ocupação alemã ou a guerra da Argélia, o seu comportamento no terreno tende a afastar-se muitíssimo da grandeza dos discursos. Decididamente, são mesmo bons é em marketing.

Um jovem país/regime terá tendência a focalizar-se no heroísmo do processo de independência/revolução contra os malefícios do colonizador/opressor. Esquece que ao ficar cristalizado nesse momento está a adiar o futuro porque essa é uma âncora que se desvaloriza e esfuma com o tempo. Não se pode passar toda a vida à sombra de uma batalha ou de uma revolução!

Quanto a Portugal, a primeira âncora que adoptei foram os Descobrimentos. Quem não tem prazer em dizer que um dia o mundo foi cortado em dois, nós ficámos com uma das metades e, ainda por cima, escondendo informação aos espanhóis para nos apropriarmos do Brasil? Numa fase posterior achei que essa referência tinha o prazo de validade ultrapassado e desvalorizei-a.

(continua...)

06 outubro 2006

Para que serve este sinal... ?



O trânsito é uma das melhores caracterizações da forma de ser, de conviver e da importância da formalidade em cada cultura. Em cada país, para lá do código da estrada que existe formal e escrito, há um código implícito, mais ou menos específico, que só a prática ensina.

Ido de Portugal para a Bélgica, achei perigosíssima a condução deles para os meus hábitos. É que ali seguem as regras e não há condescendência. Queimar uma prioridade ou facilitar uma ultrapassagem não tem tolerância. Foi-me muito mais fácil adaptar-me a Itália. Aqui as regras escritas não são muito respeitadas mas as interacções informais entre condutores são mais próximas das nossas...

O mais curioso é a forma como rapidamente nos adaptamos a cada conduta local. Inicialmente achei a Argentina completamente louca mas, passados poucos dias, conduzia exactamente como eles. Ultrapassando pela direita na autoestrada e fazendo quatro filas nos semáforos, onde teoricamente só havia duas. Neste caso, o desafio é conseguir, com um arranque fulgurante, ocupar umas das duas filas reais a seguir ao cruzamento. O problema foi no regresso ter que me re-adaptar ao padrão português!!

E para não dizer que é só o terceiro mundo que é “especial”, o pior lugar onde até hoje conduzi foi no centro de Paris. Nunca vi local mais agressivo. O truque é andar mais rápido do que vizinho do lado. Tentar ser gentil dá direito a ficar especado no meio da rotunda.

Tudo isto a propósito do sinal da imagem. Parece óbvio que se trata de um “Stop”. Sim, mas o que significa exctamente? Até em Portugal a sua leitura é contextualizada. Em muitos sítios pouca gente realmente pára. Aqui, já tinha entendido que antes duma rotunda não quer dizer nada. Tudo se resume a uma interacção bilateral procurando um equilíbrio entre atrevimento e condescendência. Em geral, a melhor forma de conseguir a prioridade de passagem é fitar o adversário nos olhos e sorrir. Funciona em 90% dos casos.

O que eu ainda não tinha aprendido é que alguém apontar de uma transversal, pela esquerda, olhar para mim e eu não reduzir, pode dar origem a que ele entre na mesma. Felizmente os travões estavam novos. Bem educado, a seguir, pediu-me desculpa! E eu já aprendi mais essa “regra”.

Entretanto, soube que a Argélia está no Top5 mundial do ranking dos acidentes rodoviários com uma média de 10 mortos em cada 100 acidentes. Ainda ontem no regresso à base passei por, acho, um desses 10. Um belo Honda S2000 encontrou na “sua” terceira faixa de rodagem um grande SUV Coreano.

13 outubro 2005

E ainda... Brel

Quando, há cerca de 12 anos, peguei em armas e bagagens para me instalar na Bélgica, para uma “comissão de serviço”de uns anos, esse país tinha, para mim, dois “B”s associados: Bruxelas e Brel.

Tendo-me instalado num meio principalmente flamengo, desde logo me surpreenderam algumas respostas à minha curiosidade sobre o significado de Brel para eles. Respostas evasivas. “Sim... Brel... pois... acho até que temos lá em casa um disco dele”. Não conseguia entender como, para a dimensão de Brel e o seu impacto na cultura do país, se podia falar dele como se de alguém datado, que tivesse tido um sucesso numa dada altura, e de quem ficou um álbum no armário.

Polémico sim, de gostar ou de detestar, ou, quando muito, de desconhecer... mas nunca de referir superficialmente. Posteriormente aprendi que a separação, sem coragem para divórcio consumado, entre Brel e alguns flamengos, se deveu ao corrosivo “Les Flamingants, chanson comique” do “Les Marquises”. Depois da anterior brincadeira sobre uma certa “limitação de vistas” do “Les Flamandes”, Brel não teve meias-palavras para arrasar um espírito mesquinho e hipócrita daqueles que eram “nazis durante as guerras e muito católicos no intervalo delas”.

A resposta a esta provocação foi o tema ter sido censurado pela rádio pública flamenga e, muitos flamengos, terem escondido os álbuns lá para a parte de trás do armário... sem coragem para os deitar fora, nem para manifestar frontalmente o seu desagrado.

Provaram que Brel tinha razão.

04 junho 2005

Onde começa a Europa?

Ainda sobre a Europa.... Saiu no Público de 15.09.2004 a minha carta, abaixo transcrita, sobre a questão da adesão da Turquia. Em 26.09, fruto da preparação para o processo de adesão à EU, o parlamento turco aprovava um novo código penal, como um enorme passo em frente, na aproximação aos padrões europeus. Nesse mesmo dia, visitei no palácio de Topkape, em Istambul, uma exposição de ciência no mundo islâmico. Entre outras coisas interessantes, descobri os astrolábios, pais dos nossos...
A principal “voz de Roma” era o então cardeal J. Ratzinger

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No próximo dia 6 de Outubro de 2004 a Comissão Europeia tomará uma decisão sobre o início do processo de negociação da adesão da Turquia à UE.

Um pouco a propósito lá vêm umas vozes de Roma dizerem que se a Turquia vier a aderir, terão sido em vão as vitórias em Viena sobre os Turcos em 1529 e em 1683. Será o mesmo tipo de argumento que Portugal poderia ter usado contra Espanha, declarando o esforço de Aljubarrota em vão? Ou, muito mais intenso e recente, a Inglaterra e a França contra a Alemanha invocando a tragédia da II Guerra Mundial? Não, não é. Face a uma sua real/potencial perda de protagonismo, a reacção do Vaticano não é pela positiva nem pela construtiva, mas sim pela barragem dos “infiéis” e tentando ressuscitar fantasmas de guerras de há séculos.

Para Roma os muçulmanos foram e são inimigos a repelir. Como as cruzadas são do passado e não se podem repetir as bárbaras “libertações” e pilhagens por nobres aventureiros ociosos, a estratégia é outra. Passo à frente a análise do significado desta postura face aos princípios da doutrina cristã. Limito-me a mencionar que as tentativas de impor a hegemonia religiosa por decreto estiveram na origem de muita pobreza material e espiritual.

Se recuarmos ao século XVI, devemos recordar que o “bárbaro” turco Soleimão, o Magnífico, proporcionou porto de abrigo a muita boa gente escorraçada da “civilizada” Europa por perseguições religiosas, inclusive portugueses.

Não tenho dúvidas sobre o facto de que, para mim, é preferível viver num país Europeu do que num país submetido à lei islâmica. E uma pessoa “normal” como eu aí nascida provavelmente pensará o mesmo, por isso procura emigrar. Ou, melhor, preferirá viver no seu país com melhores condições de vida. As negociações relativas à aproximação com a UE serão provavelmente a forma mais eficaz de proporcionar desenvolvimento social e económico de um país como a Turquia. Fechar a porta é conduzi-los ao isolamento e aumentar a pressão migratória que tanto incomoda.

Há uma dúzia de anos, quando vivi na Bélgica, contavam-me que a presença dos magrebinos constituía um grande problema imobiliário: bastava um instalar-se numa esquina da rua para todas as casas da mesma desvalorizarem. Surpreendia-me a visibilidade deles lá, contra a absoluta integração aparente dos poucos ou muitos que em Portugal estavam. Será que a pressão de repulsão não gera um movimento de afirmação e de diferenciação acrescido?

Para aqueles que acham que a cultura árabe nos é absolutamente estranha, olhemos para o nosso vocabulário. Pensemos na expressão artística mais significativa em Portugal que é a poesia. Pensemos nas nossas trovas e cantigas. Pensemos na música tradicional, pensemos mesmo no fado. Com alguma facilidade se encontra a herança árabe nestas manifestações e nessa nossa sensibilidade. Apesar de todos os esforços de limpeza de vestígios e de todos os decretos, somos um país multi-cultural e temos responsabilidades particulares na ligação a estes “outros”.

Há uns meses, ao jantar com um amigo turco na margem do Bósforo, perguntei-lhe o que significava para eles a possível integração na Europa. Falou em livre circulação de bens e de desenvolvimento para o país. No final acrescentou que tinha grandes dúvidas sobre a perenidade da União Europeia. Que lhe faltava “cimento” para vencer o tempo.

Antes de discutirmos se a Europa termina exactamente no meridiano de Alexandria ou se pode ir mais uns graus para leste, necessitamos de reflectir sobre onde ela começa. Se a Europa for a das exclusões invocando disputas antigas, se o cimento for uma fé dominante consagrada na constituição, se os vizinhos diferentes são indesejados e a repelir, a Europa colapsará. Ou fracturada internamente ou asfixiada pelos vizinhos miseráveis.