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22 maio 2011

Continua... sim, mas como?



Marraquexe 21-5-2011, Praça Yamaa el Fna, menos de um mês após o atentado de 28 de Abril, que causou 17 mortes.

O café Argana está parcialmente tapado por uma estrutura coberta por um plástico opaco, como se houvesse umas simples obras em curso. Na frente um simples ramo de flores seguramente trazido por um particular familiar ou amigo de alguma vítima. Ao lado as bugigangas do costume e os negociantes que oferecem tudo o que se quiser. As motoretas ziguezagueiam por entre aquela mistura de locais e turistas. Tiram-se fotografias às serpentes e àquele pitoresco pouco espontâneo e algo forçado.

Certamente seria pior que a praça estivesse morta e vazia, significaria que o objectivo duplo tinha sido alcançado: matar pessoas e a amedrontar de forma permanente… mas ignorar e banalizar aqueles mortes assim também não…

28 março 2010

Gama dinâmica



Uma das maiores limitações que encontro na fotografia é a limitação da gama dinâmica. Ou seja, quando há uma cena com muita amplitude de iluminação e que a sensibilidade do filme/sensor não consegue abranger há que optar. Ou uma parte fica preta, não registando luz nenhuma, ou outra parte fica branca “queimada”, para lá do limite de saturação.

A tecnologia tenta melhorar essa resposta, intrinsecamente por aumento da gama de resposta do sensor, e por “truques e manipulações”. Os “truques” passam por tirar várias fotografias, com níveis de exposição diferentes, que depois são combinadas conseguindo definição em toda a imagem. Começou por ser feito em software externo e agora há algumas máquinas que já o fazem internamente como as Alpha 5xx. À partida a ideia pareceu-me muito interessante. Achei curioso que numa análise crítica com origem em Inglaterra se questionasse o campo de aplicação. Como lá não há grande sol, poderá ser por isso...!

Em busca de uma compacta “satisfatória” peguei numa Fuji F200 EXR que para lá de outras inovações trazia integrada a tal extensão da gama dinâmica. Das fotos acima, a da direita beneficia dessa facilidade. Efectivamente o escuro é menos escuro, vê-se melhor o que está na sombra, mas não gostei. De repente lembrei-me de uma história que me contaram há muitos anos. Um coro gravava para a televisão. E tinha registos altos e baixo, conforme a composição pedia. Só que os técnicos “corrigiram” para se ouvir melhor. Subiram o volume para as partes baixas e cortaram as altas. E a máquina estava a fazer o mesmo: a trazer tudo para a média, destruindo contrastes. Devolvi-a.

E lembrei de outras situações em que artificialmente se apagam os escuros e se evita a luz forte, ficando simplesmente “plano” (in english flat). Cada qual tem a gama dinâmica que tem, com limites seguramente, mas é melhor ir ao limite, por penoso que seja, do que filtrar a sensibilidade.

20 março 2009

E o mal é ou não é banal?

A expressão “Banalização do mal”, “criada” por Hannah Arendt após assistir ao julgamento de Adolf Heichmann é muito facilmente citada. Eu mesmo não resisti a evocá-la no último texto a propósito do massacre de Winnenden. Coincide ainda com o julgamento do monstro de Amstetten, o tal que sequestrou e violou a filha durante 24 anos, e que também teve direito a esse carimbo.

Não me apercebi na altura em que li o trabalho da autora mas, ao olhar agora de novo para a expressão, parece-me algo infeliz ou imprecisa. Enquanto houver bem, haverá mal e o mal é muito frequentemente banal, no sentido de trivial; não é necessária ou habitualmente transcendente. Ou seja, a motivação para provocar mal raramente é excepcional ou grandiosa. Muitas vezes é até bem mesquinha e vulgar. E isso não é equivalente a banal? E é bem certo que a máquina nazi era tudo menos banal.

Hannah Arendt fica siderada porque esperava ver ódio na motivação dos assassinos e algum tipo de carga emocional. Quando um funcionário nazi diz friamente que executar uma ordem para carregar um comboio com judeus destinados a uma câmara de gás não é diferente de executar uma outra ordem qualquer, como mandar limpar a sala e parecendo acreditar no que diz, não podemos deixar de ficar estupefactos.

Este mal não é “quente”, mas sim “frio”. E aqui, sim, reside a particularidade e a monstruosidade. Por muito ou pouco condenável ou justificável que seja, fazer mal deve ser intencional. Assim, poderá ser avaliado, questionado e combatido. Provocar mal conscientemente mas sem intenção ou percepção de o fazer é… desumano ou demente.

Não presenciei, obviamente, esse nem a outros testumhos mas vi entrevistas gravadas a alguns indivíduos da mesma categoria. Não estou assim tão convencido dessa indiferença. A atitude de defesa de não pensar e de não questionar não é equivalente a pensar que não é nada.

No mal frio eu não acredito. Um malévolo frio ou é louco ou é desonesto, sendo ambas as posturas duas formas clássicas de reagir em tribunal perante uma acusação grave. No fim, pode-se especular eternamente sobre a motivação e a percepção do mal na perspectiva de quem o provoca, mas, no entanto, do lado de quem o sofre, a visão é bastante mais clara.
Correcção em 21.3.2009: O julgamente em causa não foi o de Nuremberga mas sim um especial em Israel para este senhor capturado posteriormente pelos israelitas. As minhas desculpas pela confusão...

02 fevereiro 2007

Eufemismo

Se em vez de “pobreza”, se dissesse CMBS (Carência de Meios Básicos de Subsistência) ? Seria óptimo, porque acabaríamos com os pobres! E se em vez de se dizer “analfabetismo” se inventasse uma ILE (Insuficiência em Leitura e Escrita)? Deixaríamos de ter analfabetos no país!

Isto a propósito da sigla IVG. Porque não continuar a chamar-lhe mesmo o que é: “aborto”?! Porque é necessário criar e invocar este eufemismo? Para amaciar o carácter brutal da palavra? Será que, para discutir o aborto, o primeiro passo é chamar-lhe outra coisa?

Confesso que a minha posição sobre a aborto é clara quando aplicada numa perspectiva pessoal, mas pouco definida quanto a definir uma regra geral. No entanto, não posso aceitar nem entender muitos dos disparates que se dizem de ambas as partes. Por exemplo, não posso aceitar que a mulher tenha “direitos” plenos sobre a sua procriação nem que a actividade sexual só possa existir em contexto de “procriação”.

Quando os adeptos do sim dizem que é mais digno a criança não nascer do que nascer sem haver condições afectivas ou económicas para a criar, esquecem uma coisa: se uma família deixar de ter essas condições depois da criança nascer, também se aplica a mesma lógica? Claro que não! Como se define então o tempo limite para o aborto? Porquê “x” semanas e não “y” ?

Por tudo isto, nunca se poderá chamar digna a opção do aborto e a sua banalização jamais será aceitável

23 agosto 2005

A medida do optimismo

Já não é a primeira vez. Agora saiu mais um estudo intitulado «O que Compra a Felicidade?». Foi publicado pelo Instituto Alemão de Estudo do Trabalho (IZA), sedeado em Bona, e a análise assentou nos inquéritos promovidos pelo Eurobarómetro. Mais uma vez, os portugueses são colocados como um dos povos mais infelizes e pessimistas da Europa. Neste ficamos mesmo em último lugar. Eu não me conformo e acho que tem que haver um erro de medida.

Quanto mais não seja, pensemos em todos aqueles que acham que não é necessário fazer seguros para nada. Estes não podem ser pessimistas e, portanto, são já suficientes em número para nos dar uma grande ajuda no ranking.

Ironias à parte, somos seguramente um povo com um comportamento e uma atitude complexos e cheios de contradições. Veja-se Fernando Pessoa que o retratou melhor do que ninguém retratou; ouça-se o “Fado” de Júlio Pereira que não é alegre nem triste e que parece carregar todas as cores do mundo ou leia-se a “História da Cultura em Portugal” de António José Saraiva.

Independentemente das nossas várias idiossincrasias, penso que talvez tenha havido uma deriva nessa medida do optimismo.

Hoje, em certos meios, é politicamente correcto estar, no mínimo, “great”. Quem se sentir “assim-assim”, não presta; é um perdedor. Quem estiver “não muito bem” é um caso perdido e irrecuperável.

Contavam-me recentemente que, ao comunicar uma boa notícia e ao receber a expressão “terrific!!!”, o ouvinte, não muito versado em inglês, ficou “aterrado”: o que é que eu fiz de terrível?!? Nada de mal. A notícia era realmente boa; o “good” e o “very good” já eram história e como mesmo o “great” já estava desvalorizado pelo uso banalizado, foi necessário ir buscar mais vocábulos. Ficamos à espera de ver qual será o próximo superlativo para “terrific”...

Será que esta “desvalorização deslizante” dos conceitos de optimismo nos prejudicou nas estatísticas? Talvez sim, talvez não. Pela parte que me toca, cuidarei da auto-confiança e da auto-estima, estas sim fundamentais e incontornáveis e, para as quais, temos realmente um problema colectivo de comportamento. Quanto ao optimismo, sim claro, mas não no estilo barata tonta para a qual um simples “Bom dia” tem por resposta automática “Great!”