26 julho 2026

O sistema Toufik

Durante algum tempo acompanhei de perto o que se passava na Argélia e até aí residi uma temporada. A sua vida política tinha a particularidade de ser duma misteriosa simplicidade. Simplicidade porque pouca coisa acontecia que mudasse algo de relevante e, ao mesmo tempo, quase nada se sabia do que acontecia nos bastidores do poder. De vez em quando transpirava alguma suposição, mas sempre coisa pouca e pouco documentada.

Uma figura representativa deste estado de coisas era o general Mohamed Mediène, de alcunha Toukif, que chefiou os serviços de informação do país durante 25 anos, de 1990 a 2015. Ele não se via em sítio nenhum, tampouco se expressava publicamente dalguma forma. As fotografias dele eram raríssimas. Qualquer noticia era frequentemente ilustrada sempre com a mesma, acima.

Num país em que as práticas dos agentes do poder não eram exemplares, os serviços de informação (DRS) tinham acumulado um álbum com registos comprometedores para todos, ou quase. Qualquer tentativa de abalar o senhor era travada pela ameaça da abertura do armário e exposição da gaveta correspondente.

As ações do DRS não se limitavam ao “soft-power”. Alguns opositores mais determinados foram vítimas de acidentes infelizes e muitos crimes imputados ao terrorismo islâmico levantam algumas dúvidas, já que beneficiaram mais o poder do que os islamitas.

A informação é uma arma terrível, sobretudo em meios pouco saudáveis. A suspeita de que uma polícia a utiliza em beneficio de interesses obscuros é fatal para a confiança dos cidadãos no regime e quanto mais alto for o nível, mais dramático será.

Isto vem a propósito do que se passa atualmente com Luís Neves. Certamente que a PJ portuguesa não tem paralelo com a DRS argelina, mas as contemporizações, as desculpas esfarrapadas, tudo isto transpira a manobras de bastidores e a guerras de influência. Uma polícia e a PJ em particular não pode ser arma de jogadas secretas.

PS: A teoria de que por trás disto existe uma “cabala” do Chega é só mais uma dessas tentativas de projetar cortinas de fumo. A haver cabala, ela estará noutro quadrante.


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