22 julho 2026

O motor do atrelado


Os primeiros episódios do folhetim com as obras no monte de Luís Neves parecem incluir irregularidades várias. Se bem que sendo transgressões habituais em muito cidadão comum não são aceitáveis no comportamento de um ministro.

O episódio do atrelado leva o caso para outra dimensão e até podemos nem dar relevo ao contexto da apreensão do veículo e ao fim a que se destinavam os produtos químicos.

A Marinha não queria continuar com a guarda dos mesmos pelo risco latente, a PJ não tinha verba (!?) para os neutralizar e o polivalente empresário de Barcelos apareceu e ofereceu-se para ajudar…

Em primeiro lugar, se os produtos eram potencialmente perigosos, que garantias de segurança foram precavidas para a sua armazenagem em Barcelos? Não é preciso ser muito instruído para saber que não se armazenam produtos químicos perigosos sem um estrito enquadramento de segurança, uma enorme panóplia de procedimentos obrigatórios e, dependendo das quantidades, respetivo licenciamento. De quem seria a responsabilidade caso um acidente grave tivesse ocorrido?

Depois, não existem almoços grátis. Qual a motivação do empresário para oferecer este serviço à PJ? Esta aceitou, um pouco como se aceita a ajuda de um amigo para guardar temporariamente na sua garagem alguns móveis, atravessando-se com enorme ligeireza a fronteira entre a esfera pública e a privada.

Uma coisa é certa. Se isto fosse o enredo de uma ficção, a mesma seria desacreditada por excesso de inverosimilhança. Qual o motor (e o combustível) que proporcionou ao atrelado e ao seu conteúdo tão singular viagem?

Como ainda há quem consiga alinhar umas palavras de tolerância e indulgencia para com Luís Neves, é outro mistério.

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