07 julho 2026

Guerras e lágrimas


Em 1981 Desmond Morris publicou o livro muito interessante, “A tribo do futebol”, onde compara o fenómeno deste desporto e dos seus rituais a uma recriação de comportamentos tribais ancestrais. Em 1980 Peter Gabriel cantava que os Jogos sem Fronteiras eram uma guerra sem lágrimas, onde os olhares só não matavam porque não podiam.

Quando há um grande campeonato de futebol ao nível das nações, como atualmente o Mundial, entra em jogo o espírito da tribo nação. Muita gente que durante o ano não liga de todo ao futebol, não deixa de se envolver, interessar e apoiar a seleção da sua nação. Globalmente, dentro de certos limites de respeito e de reciprocidade, considero positivo que as populações se identifiquem com uma nação. Estranho seria um português alegrar-se com as derrotas da equipa nacional (por acaso conheço uma pessoa que o afirma, mas esse tem contexto e desculpa 😊).

Seria também positivo que essa identificação se alicerçasse em algo mais do neste tribalismo da bola, mas, apesar de todas as modas das integrações e fusões culturais a qualquer preço, é claro que um português se identifica como português, de alguma forma diferente de um espanhol (mesmo sem ser necessário passar pelo futebol para o marcar).

Faz parte do ritual festejar as vitórias nas guerras. A lógica diria que devem ser celebrações de alegria, mas frequentemente vão para lá disso. Parece que a exaltação no estádio não são suficientes para sublimar o potencial belicoso de alguns adeptos e as ruas das cidades tornam-se campos de batalha. Existem dois enquadramentos típicos. Uma é de algumas comunidades imigradas, especialmente quando o vencido é o seu anfitrião, noutros casos é pura guerra civil.

Recentemente, para minimizar os estragos subsequentes às “celebrações” das vitórias da sua seleção, muitas cidades em França aplicaram um recolher obrigatório para menores de 16 anos desacompanhados, entre as 22h e as 5 da manhã nos dias dos jogos. Esta necessidade e o perfil de aplicação diz algo de muito preocupante. Que fazem menores de 14 anos sozinhos na rua depois da meia-noite e mandá-los para casa reduz significativamente o potencial de destruição!?

Não é o futebol em si que está na origem destes distúrbios, provavelmente que se ele não existisse outra “razão” se levantaria.

No dia em que nos despedimos da participação de Cristiano Ronaldo em eventos internacionais de alto nível, será bom recordar o seu exemplo de atingir a excelência pelo trabalho, empenho e disciplina, assim como a sua dimensão humana e solidária.  Sim, apesar de tudo o resto, podemos encontrar no futebol bons exemplos.

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