20 julho 2026

Crime e castigo

Luís Neves está para já inocente e ainda nem sequer de nada foi acusado. No entanto, para lá do óbvio conflito de interesses, ser amigo e receber favores de um empreiteiro com largo cadastro de calotes às finanças e à segurança social não lhe fica bem. Também ficam mal as trapalhadas quanto ao pagamento das faturas e à teoria absurda de que fatura emitida é sinónimo de fatura paga, assim como as especulações semânticas entre tanques e piscinas.

Certo que se fossemos julgar e condenar todos aqueles que, com maior ou menor consciência da transgressão, pagaram obras ou reparações “por fora” ou fizeram trabalhos sem autorização, no mínimo 3/4 do país ficaria com cadastro.

Daí a menorizar este caso pela banalidade das infrações vai um passo perigoso de transpor. Lembro-me de um ministro, Miguel Cadilhe, ter apresentado a sua demissão por fuga à sisa, o que, sendo frequente e comum, não deixa de ser uma fraude.

Há aqui uma questão de fundo que é o país em que queremos viver. Se é num reino dos “espertos” que aproveitam todos as oportunidades em benefício próprio, saltando por cima de regras e princípios, ou num Estado efetivo de direito, onde o expetável é os cidadãos serem íntegros e cumpridores. Obviamente que transgressores haverá sempre, mas essas práticas não deverão ser uma norma desculpável e o exemplo tem que vir de cima. Se se perdoa a um ministro que por função, experiência e formação não tem a mínima desculpa para ignorar o que anda a fazer, onde iremos acabar?

 Nota: Este texto foi escrito antes do episódio do atrelado, que levou o folhetim para outro nível, muito mais grave.

Sem comentários: