Luís Neves está para já inocente e ainda nem sequer de nada
foi acusado. No entanto, para lá do óbvio conflito de interesses, ser amigo e
receber favores de um empreiteiro com largo cadastro de calotes às finanças e à
segurança social não lhe fica bem. Também ficam mal as trapalhadas quanto ao
pagamento das faturas e à teoria absurda de que fatura emitida é sinónimo de
fatura paga, assim como as especulações semânticas entre tanques e piscinas.
Certo que se fossemos julgar e condenar todos aqueles que,
com maior ou menor consciência da transgressão, pagaram obras ou reparações
“por fora” ou fizeram trabalhos sem autorização, no mínimo 3/4 do país ficaria
com cadastro.
Daí a menorizar este caso pela banalidade das infrações vai
um passo perigoso de transpor. Lembro-me de um ministro, Miguel Cadilhe, ter
apresentado a sua demissão por fuga à sisa, o que, sendo frequente e comum, não
deixa de ser uma fraude.
Há aqui uma questão de fundo que é o país em que queremos
viver. Se é num reino dos “espertos” que aproveitam todos as oportunidades em
benefício próprio, saltando por cima de regras e princípios, ou num Estado
efetivo de direito, onde o expetável é os cidadãos serem íntegros e
cumpridores. Obviamente que transgressores haverá sempre, mas essas práticas
não deverão ser uma norma desculpável e o exemplo tem que vir de cima. Se se
perdoa a um ministro que por função, experiência e formação não tem a mínima
desculpa para ignorar o que anda a fazer, onde iremos acabar?
Nota: Este texto foi escrito antes do episódio do atrelado, que levou o folhetim para outro nível, muito mais grave.

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