30 julho 2026

Em busca das causas perdidas


Há uma certa esquerda que na sua ficha de autoidentificação garante serem os mais bonzinhos da praça, estarem sempre disponíveis para denunciarem e combaterem coisas más e quanto mais extremistas forem, maior a respetiva bondade. Sim, fazem bandeira de valores como a liberdade, a justiça social e a igualdade, mas nos dias que correm já se torna difícil fazer uma verdadeira diferenciação por esse caminho. Especialmente no mundo Ocidental, não estamos de todo em cenários de romance neorrealista do século XX.

A esquerda perde as classes operárias e quanto mais à esquerda, maior a perda. A teoria de Marx de que as injustiças do capitalismo levariam à revolução comunista e quanto mais capitalismo mais cedo ela chegaria, falharam completamente. O sucesso do capitalismo matou o comunismo. Sim, podemos criticar o sistema capitalista, mas é nesses países que melhor se vive neste mundo.

Se há locais no mundo em que essa militância tem muitas razões para intervir é no terceiro-mundo. Muito mais injustiça social existe em Angola do que em Portugal, por exemplo. No entanto, não parece ser cómodo ir aí pregar e até se invoca com um certo paternalismo que, coitados, “tudo” é ainda herança dos malefícios da colonização, cujos herdeiros devem assumir e pagar a culpa fundamental. Certo é que se esses países fossem governados por um sistema do tipo ocidental e capitalista o seu povo viveria muito melhor e é isso o que mais conta.

Perdidos os seus clientes proletários na Europa, curiosamente em grande parte recuperados pela extrema-direita demagógica, a esquerda boazinha precisou de encontrar novas causas de práticas ocidentais mazinhas, contra as quais hastear bandeira. O capitalismo é um mal e encontrar-se-ão sempre práticas nocivas a denunciar e a combater.

As novas causas passaram a ser as minorias, sejam elas étnicas, culturais, religiosas ou de qualquer outra natureza, supostamente injustiçadas. Mais uma vez, há aqui alguma incoerência e enviesamento. Alguns exemplos: os direitos das minorias muçulmanas na Europa são comparáveis com os dos cristãos no Médio Oriente? A situação dos LGBTs no Ocidente é equiparável com o que se passa em muitos países árabes ou africanos? Querem comparar a situação dos ciganos por cá com a dos uigures na China? Já vimos esses militantes das boas causas ativamente denunciando essas situações, muitíssimo mais graves? Claro que no Ocidente há liberdade para manifestar e criticar enquanto noutras partes do mundo é menos fácil…

Um dos mais caricatos e risíveis exemplos desta militância pelos direitos das minorias ocorreu há dias no Parlamento Europeu. Ao iniciar uma intervenção, a eurodeputada irlandesa do Sinn Féin, Lynn Boylan, lamentou-se de não ser possível expressar-se na sua língua materna, o gaélico. Mais um exemplo e uma denúncia da opressão cultural e de desrespeito para com as minorias. Quando lhe informaram de que sim, de que o podia utilizar, já que havia serviços de tradução disponíveis para a sua língua, ela ficou engasgada. Disse que não estava preparada e continuou em inglês. É um pequeno episódio, mas com um simbolismo enorme.

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