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08 agosto 2017

O Qatar é fixe?


Antes da polémica com a atribuição do Mundial de futebol de 2022 e com as condições desumanas nos estaleiros, muita gente teria dificuldade em distinguir o Qatar do Bharein ou até poderia presumir tratar-se de mais um emirato dos associados/reunidos.

Quem acompanhou o processo das primaveras árabes pela rama, terá ficado surpreendido por esse país ter participado ativamente e militarmente no derrube de Khadafi. Parecia estranho, num contexto supostamente meio fraterno. Quem viu de mais perto, identificou que o Qatar e o seu braço mediático, a Al-jazira, simplesmente cavalgaram a onda de contestação inicial, para ajudarem a derrubar os regimes “laicos” da região. Aqueles onde o Islão político, fundamentalmente inspirado e patrocinado pela Irmandade Muçulmana, estava severamente condicionado. Não foram os únicos, mas tomaram bastante protagonismo, muito graças à “compreensão” e aos “favores” de França, na altura liderada pelo Sr Sarkosy. As bombas caíam na Líbia e os petrodólares em França.

A influência do Qatar foi crescendo e isso, naturalmente, incomodou os Sauditas, guardiões dos lugares santos de Meca e Medina e putativos e pretensos líderes da comunidade muçulmana mundial. O boicote recentemente decretado por estes e pelos seus acólitos é inesperado e brutal. A propósito de brutalidade, podemos referir que a destruição inconsequente em curso no Iémen é também brutal e, neste caso, sobre a vida e a condição humana, bastante mais grave do que a diplomática e económica.

Neste mundo, onde tantos gostam de se posicionar entre amigos e inimigos, o facto de os Sauditas estarem nas boas graças do Mr Trump, traz alguma simpatia ao Qatar… e um certo crédito de modernidade, para já não falar do glamour de dar 200 milhões de euros por um miúdo famoso, para o pôr nuns retratos.

A acusação de suporte ao terrorismo, ou mais suavemente, de proximidade e apoio a fundamentalistas, cheira um pouco a de roto para rasgado. Incluir o fecho da Al-jazira no pacote das exigências, tem uma leitura clara: é um foco de influencia do Qatar no mundo, muçulmano e não só, que faz uma sombra incómoda para os Sauditas.

Desenganem-se os românticos, anti-trumps ou fans de qualquer coisa glamorosa. O Qatar faz sombra, sim, mas, no fundo e na copa, as árvores são muito parecidas, para não dizer iguais …


Foto da Reuters

21 novembro 2016

A responsabilidade dos políticos, revisitada

Este texto meu, de fevereiro de 2004, foi publicado no Público do dia 10 desse mês. Hoje, Alain Juppé, que afinal não morreu, é notícia por ter passado à segunda volta das primárias de direita para as presidenciais francesas.

Caso seja ele a ir a votos, é muito provável que se encontre face a face com Marine le Pen. Depois, o pessoal surpreende-se com as “Trumpices”.

A responsabilidade dos políticos.

A França está em “estado de choque”. O brilhante Alain Juppé, delfim e potencial sucessor de Chirac e presidente do partido no poder foi condenado a 18 meses de prisão com pena suspensa e 10 anos de inelegibilidade. As reacções são curiosas: 10 anos de inelegibilidade para um “eleito” são equivalentes a uma morte cívica e mesmo quase a uma morte civil. A sentença é desproporcionada. Os juízes têm demasiado poder; deveriam ser antes um “serviço público de justiça”. A juíza é de esquerda e é casada com um americano!

Os juízes foram pressionados. Os seus gabinetes foram visitados por empregados de limpeza super-diligentes que, face a uma porta fechada, entraram pelo tecto falso. Mas, se houve pressões, talvez seja motivo para anular o julgamento. É a estupefacção num país em que os políticos têm tradição de inimputabilidade. Que acusa Berlusconi de “fazer leis de auto-protecção” mas que se recusa o tocar no seu próprio presidente da república. O curioso é que por detrás dos comentários parecem não existir dúvidas sobre o facto de a lei ter sido efectivamente violada e que, aparentemente, a responsabilidade deveria chegar ao próprio Chirac. Ao mesmo tempo ignora-se que os juízes se limitaram a aplicaram uma lei votada quase sem discussão pela actual maioria para disciplinar o financiamento dos partidos. […]

Por trás de toda esta problemática, em França e não só, está e continuará a estar o cancro da democracia que é o financiamento dos partidos e o tráfico de influências associado. Que o estado nunca será pessoa de bem enquanto este assunto não for encarado, legislado com isenção, a lei aplicada com rigor e a justiça feita com objectividade. Até lá continuaremos a viver em estados podres.

18 outubro 2012

Uma nova era

De uma forma geral a Europa não possui recursos naturais significativos. O nível de vida na Europa, desproporcionado face a outros países intrinsecamente mais ricos, foi e é baseado em “saber mais e fazer melhor do que os outros”. Se às vezes sem grande preocupação quanto a padrões éticos, como, por exemplo, na exploração dos recursos minerais africanos ou nos grandes negócios de aviões, fragatas e outras coisas gordas, na maior parte das vezes a vantagem veio mesmo da genuína capacidade de inovar e de valorizar a criatividade. Parece-me, no entanto, estarmos a chegar a um ponto de exaustão nessa “liderança”. O porquê é uma longa história bastante condicionada pelo império do meio, mas agora falo apenas da evidência e sem sequer referir o caso de Portugal que vai de mão estendida a Angola.

Uma grande parte da riqueza mundial nasce no subsolo nos países naturalmente ricos, com largo destaque para petróleo e afins e ia-se lá recuperar algo do que se lhes pagava pelo ouro negro vendendo produtos sofisticados, luxos e às vezes apenas imagem a preço de ouro amarelo. Apareceram entretanto alguns magnatas do ouro preto que não se limitam a passar grossos cheques, são mais finos e têm uma visão empreendedora. O exemplo mais recentemente e de eficácia notável tem sido o Qatar. Para quem não sabe é de referir que muito do que a rua árabe diz e grita é a Al-Jazira que o dita. Deixemos de lado outros sucessos do Qatar e voltemos ao tema.

Ainda no tempo de Sarkosy o Qatar ofereceu à França uns milhões para investir nos subúrbios desfavorecidos das cidades francesas. A campanha e as eleições suspenderam o tema mas agora parece regressar na figura da “parceria” entre estados. Que França venda as suas jóias da coroa económicas (até mesmo parte da indústria de defesa) ou um símbolo desportivo como o PSG não deixa de ser apenas uma venda. Agora, que precise do Qatar para melhorar as condições de venda das suas populações mais desfavorecidas, é incrível como cenário e assustador como potencial consequência! Virá aí mais uma espécie de primavera, desta vez na margem norte do Mediterrâneo? Se conseguem, não sei, mas que alguém gostaria de o tentar fazer, disso não tenho a mais pequena dúvida.

10 dezembro 2007

A segunda descolonização ?

N. Sarkosy visitou recentemente a Argélia e o tema quente nos meios de comunicação social locais foi uma espécie de exigência: a França deveria apresentar um pedido de desculpas pelo seu passado colonial e pelos crimes cometidos nesse período. O presidende Francês ousou considerar publicamente o processo colonial injusto mas não apresentou desculpas. Em seguida, Khadafi diz em Lisboa que os colonizadores devem pagar pelo mal que fizeram. (Já não bastavam os pedidos de pedido de desculpa pela escravatura...)

Poder-se-ia procurar fazer um balanço do que a colonização trouxe de positivo e de negativo e da evolução pós-independência, mas acho que não é esse o objectivo. Uma boa parte dos actuais líderes africanos afirmou-se na luta contra os colonizadores. Aliás, muitos deles empoleiraram-se nessa altura e ainda não desceram. Hoje o que se constata, passados 30 ou 40 anos, é a falência do seu projecto e a sua incapacidade para tornarem os seus países minimamente justos e equilibrados. A maioria das belas promessas associadas à autodeterminação estão por cumprir e não se vê jeito de para lá caminhar.

Por curiosa coincidência, o disparar do preço do petróleo e de outros recursos naturais que abundam em África, tornou financeiramente ricos muitos desses países e esses já não podem argumentar que é a pobreza material que trava o desenvolvimento. Qual a resposta? Recuperar o capital histórico da campanha da autodeterminação e voltar a facturar aos colonizadores a origem de todos os males. Se quando a história se repete da segunda vez é uma farsa, este será seguramente um desses casos.

As novas gerações esclarecidas nesses países estão muito menos preocupadas com as desculpas do que se passou antes de eles terem nascido do que em exigir aos seus governantes que transformem os seus países em lugares bons para viver, o que é mais difícil do que ficar parado no tempo a olhar para trás e a solicitar pedidos de desculpa.

10 novembro 2005

Crónica de uma fractura 1

Ainda é cedo para entender tudo o que se passa em França mas algumas notas podem ser alinhadas.

O terrorismo “islâmico”. Pela lógica, a França seria um dos últimos países alvos na Europa. Em parte pela sua postura de desafio face aos EUA, a França sempre foi muito “cúmplice” dos países árabes. Khomeini regressou ao Irão num avião da Air France. A França vendeu um reactor nuclear a Saddam Hussein (Instalação que os israelitas se encarregaram de arrasar rapidamente sem se preocuparem com a autorização do conselho de segurança da ONU). Estes são apenas alguns exemplos para dizer que a França é bastante “amiga” do mundo árabe.

A questão social. Poucos países na Europa terão um sistema social tão generoso como o francês. Há cerca de 2 meses estive em Limoges. Uma pequena cidade do sudoeste, em tempos famosa pela porcelana aí produzida. O maior empregador é o hospital, o segundo a autarquia. Existia em curso um programa oficial de sensibilizar as empresas para recrutarem 1000 jovens. Se as empresas não correspondessem, seriam admitidos pelo hospital. Pano de fundo: próximas eleições presidenciais.

Nas últimas presidenciais passou à segunda volta, assustadoramente, um tal senhor Le Pen, sob um registo xenófobo e agitando a bandeira da insegurança. Nicolas Sarkozy apresenta-se como sensível a essas preocupações, raiando, por vezes, o populismo. Aliás, a política francesa tem tido como assunto prioritário qual o candidato da direita às presidenciais de 2007. Entre o “popular” Sarkozy e o “fidalgo” Villepin. Se “Sarko” cair, é a factura exposta e o caminho aberto para um Le Pen qualquer.


Continua...