Tempos houve em que as diferenças ideológicas existentes nos
partidos do arco do poder eram mínimas. Pouca gente estava interessada numa
mudança radical do modelo político e social e as opções eram tomadas em função
da competência pressentida nos candidatos. O voto de protesto consistia em alternar
o inquilino de S. Bento entre o PS e o PSD.
O mundo mudou, entretanto, e esses inquilinos não entenderam
que precisavam de mudar práticas, mais práticas do que princípios, para
continuar a merecer a confiança do eleitorado. O protesto deslizou então para
extremos, mais radicais, que numa primeira fase foram ignorados pelos
estabelecidos, já que traziam propostas irrealistas e mesmo perigosas para
valores sociais fundamentais e “consensuais”.
No entanto, a rejeição dos extremos, os famosos cordões
sanitários, foi sempre muito mais exigida à direita do que à esquerda. É crime
louvar Hitler, e bem, enquanto admirar Estaline será apenas uma exótica
demonstração de coerência.
Em Portugal, o jogo mudou com a geringonça Costista. Com o
objetivo de alcançar o poder, decretou-se uma fraternidade de “Esquerda”, mesmo
quanto relativamente a temas tão fundamentais como projeto europeu, moeda
única, defesa e Nato muito pouco havia em comum entre os supostos “irmãos”. Os
custos desta aliança ainda estão a ser pagos, no buraco da TAP, no tempo de
trabalho da função pública e no descontrolo migratório, este último o grande
combustível do populismo de extrema-direita.
“Não é não”, dizia então o PSD quanto a eventuais acordos
com o Chega, entre aplausos e desconfianças. O cordão sanitário à direita tornou-se
uma exigência dramatizada e um suposto bloco de “Direita”, de que se começou a
falar depois das legislativas de 2025, era coisa (ainda?) algo clandestina. As
razões para essas reservas são naturais. Para lá dos toques xenófobos e
racistas do Chega, os seus programas concretos são altamente incompatíveis com
os da AD e da IL. A reclamação de Ventura de liderança da direita, no âmbito
das presidenciais, é um sem sentido, sendo que insensatez não parece ser
argumento que o perturbe.
Hoje não podemos falar numa divisão simples
direita-esquerda. É mais complexo, há mais dimensões. O que continua e
continuará a ser relevante será a personalidade e seriedade dos líderes. Aqui
André Ventura tem várias deficiências. Continua a ser o “puto reguila” que diz
o que bem lhe apetece, que o que disse ontem pode não contar para hoje, em
permanente autopromoção despudorada, para quem a indignação desculpa todas as
imprecisões factuais, para quem a premência de alguns temas pontuais dispensa
apresentar um projeto global coerente. Enfim, falta-lhe integridade e integralidade.
Enquanto não o conseguir, lidera o megafone, mas não é suficiente para ir mais
longe com um mínimo de eficácia. Certamente que isto não é razão para o
restante espetro político esperar poder continuar tranquilamente num “mais do
mesmo”.

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