07 fevereiro 2026

Depois de Mao


Diz-se que da calúnia algo sempre ficará. Ou seja, mesmo com posterior esclarecimento de que todas as acusações lançadas eram falsas, haverá sempre quem continue a “achar” que algo de verdadeiro existiria, sobretudo se tiver “vontade” de em tal acreditar. No final, a imagem do caluniado guardará para sempre alguma mancha, indelével.

O mesmo, noutro sentido, ocorre para as personalidades objetos de culto da personalidade. Mesmo que a história e respetivos factos comprovem que as qualidades incensadas eram fabricadas de ponta a ponta, é impossível anular e apagar das memórias coletivas a imagem e os méritos criados para essas figuras.

A “memória” e a visão de Mao Tsé-Tung na China entram neste segundo caso. É inútil (e perigoso) procurar evidenciar a realidade efetiva das suas ações, já que isso implicaria demolir os alicerces do regime e destruir a respetiva narrativa. Numa primeira fase, logo após a sua morte, foi julgado o “Bando dos Quatro”, incluindo a sua última mulher, Jiang Qing. Era necessário reconhecer terem ocorrido erros e culpar alguém pelos mesmos, desde que não fosse o Grande Timoneiro.

Ela terá afirmado que “Eu era o cão de guarda do presidente Mao. Eu mordia qualquer um que ele mandasse morder”. Certo que há cães que mordem por disciplina e obrigação, enquanto outros o fazem com bastante prazer.

No período seguinte, de Deng Xiaoping, ficou a figura de Mao nas paredes, sem grandes loas nem questões. A China não passou pela fase Kruschev, quando este pôs em causa as ações do “Pai dos Povos”, Estaline. O partido comunista chinês foi criado e inicialmente amamentado pelo soviético, na fase estalinista. Embora a partir de uma certa altura Mao tenha tido a vontade de “matar o pai”, sem o conseguir, sempre houve muito interesse na China em acompanhar o que se passava no vizinho do Norte.

A queda da URSS foi um aviso importante para o regime chinês, que se virou do avesso para procurar entender como as grandes potencias caíram e o que fazer para o evitarem. O novo grande timoneiro, Xi Jiping, tomou o assunto em mãos e de forma eficaz, reconheça-se.

Em primeiro lugar foi reabilitar Confúcio e a cultura ancestral. Os “comunistas” 2.0, como Putin, entenderam ser mais fácil apropriarem-se do património cultural passado, como ferramenta de poder, em vez de se darem à trabalheira de criarem “homens novos”. Se a religião (e as crenças antigas) são o ópio do povo, fiquemos donos dos cachimbos. Nada de especialmente inovador, convenhamos. Ao contrário dos comunistas que deploravam e atacavam a cultura antiga, Xi utiliza-a.

Mao, respetivo pensamento e ações, também se tornam inquestionáveis e pôr em causa o heroísmo dos fundadores da China moderna, torna-se crime. Um historiador honesto pode acabar no tribunal, ou de alguma forma desgraçado, mesmo sem ver um juiz.

A China continua a ser “comunista” (o nosso PC que o diga, detalhes aqui nesta pérola). Se as práticas maoístas foram uma aproximação muito grosseira às teorias marxistas, a abertura de Deng Xiaoping é no sentido liberal e capitalista e a China moderna de comunista terá … não sei o quê.

O regime atual, o “comunismo específico chinês” está alicerçado na sabedoria confuciana, nas teorias marxistas, nas práticas insanas e criminosas Maoístas, no liberalismo de Deng e no controlo absoluto da sociedade por Xi. Grande salgalhada!

Como esta pressão e opressão conseguirão manter o país a funcionar com eficácia é uma questão complexa. Que forças podem nascer que provoquem uma mudança de regime, quando há câmaras de vigilância em todas as esquinas e repressão brutal para cada pensamento critico tornado público? Para as gerações chinesas mais jovens, as imagens das manifestações de 1989 na praça de Tiananmen (se a elas conseguirem acesso), serão certamente do domínio da ficção científica.

Teoricamente não há desenvolvimento sustentável e riqueza sem inovação e esta não rima com proibição. A China é diferente, para sempre?

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