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02 março 2018

Entre assédio e sedução

Não tinha planeado voltar a este assunto tão cedo, mas o que é importante, é prioritário. Começando como acabarei: os abusos de poder são condenáveis e degradantes da condição humana, independentemente da origem e destino, mas recuso-me a ver aqui uma coisa típica e generalizada de homens contra mulheres.

É sobretudo a generalização que me irrita, na medida em que a banalização retira importância ao que realmente é importante. Custa-me a acreditar nas estatísticas de que “todas” as mulheres já sofreram assédio, uma em cada duas ou três, agressão, donde que um em cada dois ou três homens são agressores efetivos… !?

Sendo consensual que assédio é condenável e tentativa de sedução não, há aqui potencialmente um desalinhamento quanto à interpretação destes conceitos. Questões culturais! Num metro de Londres pode ser ofensivo fixar olhos nos olhos, numa rua do Cairo há quem ache normal agarrar a nádega da mulher que passa sozinha na rua.

Como estas coisas das diferenças culturais não são sempre fáceis de identificar, ainda por cima em sociedades cada vez mais multiculturais, acho que de devia criar um código, não necessariamente com identificação na lapela, que definisse essa fronteira para cada um(a). Haveria pessoas para quem um olhar de mais de dois segundos de duração é intolerável, outras para quem olhar, sorrir e chamar bonita será aceitável e até simpático.

Para concluir: abusos de poder são degradantes da condição humana, independentemente da origem e destino. Historica e estatisticamente as mulheres sofreram mais, sim. No entanto, sem rigor e seriedade, não se corrige, pelo contrário: desvaloriza-se ao equiparar coisas que não são comparáveis.

12 janeiro 2018

Contra um certo tipo de feminismo


Começo por afirmar e recordar que lamento e condeno profundamente a condição da mulher constatável em muitos locais do mundo, fonte de enormes frustrações e incompatível com um mínimo de dignidade humana a que todos têm direito. Sem entrar em particularização sobre situações concretas que conheci, gostava de ver o movimento feminista a denunciar mais ativa e firmemente o que de muito grave se passa nalguns recantos do mundo, que também é o nosso – “Todas as crianças são como a tua”, J. Brel.

Sou contra um certo tipo de feminismo que simplifica abusivamente o problema. Sou contra a perspetiva redutora do elas, todas vítimas, e eles, todos agressores. Aliás, este maniqueísmo acaba por casar mal com a flexibilidade dos géneros, tema de grande destaque na atualidade. Um “trans”, que supostamente atravessa a fronteira, passa automaticamente de vítima a agressor e vice-versa?

O que está em causa, a criticar e a banir são atitudes objetivas e concretas. Nem todas as mulheres são vítimas, nem todos os homens são agressores, nem sequer potencialmente. Ao acusarem, façam o favor de serem específicas/os, sem generalizações. Numa manifestação recente sobre este assunto, vi um “bem-intencionado” exibir um cartaz: “Paremos de as matar” – fala por ti, pá!

No fundo, está em causa um abuso sobre alguém em posição de fraqueza e isso, infelizmente, não é específico de um género. O sistematizar a mulher no lado do “fraco” é estar implicitamente a assumir uma menoridade e uma fragilidade, que não ajuda nada à assimilação da igualdade teórica e prática de direitos e de estatuto.

Sou contra um certo tipo de feminismo rancoroso para quem os homens são genericamente “porcos”. Vejo nisso mais uma grosseira manifestação de misandria do que uma defesa de direitos.

Para terminar, dei-me ao trabalho de traduzir a parte inicial do manifesto das 100 francesas, incluindo Catherine Deneuve, sobre os excessos do #metoo. Leia quem quiser informar-se, já que a forma como foi noticiado em alguns órgãos de comunicação social não ajuda. Quem não quiser, pode reagir com a agressividade “religiosa” que (algumas) feministas manifestaram. O texto, ponderado, merece reflexão. A intolerância redutora não ajuda nada a questão de fundo, demasiado importante para não ser abordada racional e friamente.

Tribuna. A violação é um crime. Mas o tentar seduzir alguém de forma insistente ou desajeitada não é um crime, nem a galanteria é uma agressão machista.
Como resultado do caso Weinstein, houve uma consciência legítima da violência sexual contra as mulheres, particularmente no local de trabalho, onde alguns homens abusam de seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação do discurso torna hoje o seu oposto: somos intimados a falar de uma única forma, a silenciar o que incomoda e quem se recusa a cumprir tais injunções é considerado traidor, cúmplice!
Está aí uma característica do puritanismo, apropriar-se, em nome de um pretenso bem geral, dos argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor as prender a um estatuto de vítimas eternas, pobres pequenas coisas sob a influência de falocratas demoníacos, como nos bons velhos tempos da feitiçaria.
Delações e acusações
De fato, #metoo provocou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncias públicas e de acusações de indivíduos que, sem terem oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente ao mesmo nível dos verdadeiros infratores sexuais. Esta justiça expedita já tem suas vítimas, homens que são sancionados no exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se, etc., quando o seu único erro foi terem tocado um joelho, terem tentado roubar um beijo, falado sobre coisas "íntimas" num jantar de trabalho ou enviado mensagens sexualmente explícitas para uma mulher quando não havia atração recíproca.
Esta febre de enviar "porcos" ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a autonomizarem-se, serve na realidade os interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários…

Imagem googleada

10 janeiro 2018

Assim, tipo tiro no pé


Alguém, não importa quem, podia ser o Papa Francisco, Vladimir Putin, Jean Marie Le Pen, ou o Sr Silva quando comprava cigarros na tabacaria, declarou publicamente considerar as operações cirúrgicas de mudança sexo de “uma inaudita brutalidade”. Manifestou a sua opinião sobre o assunto e… cortar cordas vocais, extrair testículos ou retalhar um pénis não são coisas propriamente ao mesmo nível de mudar a cor do cabelo.

Outro alguém achou que essas afirmações constituem crime e apresentou queixa no Ministério Público, invocando, com uma boa dose de distorcida amplificação que “a sua mensagem é susceptível de favorecer a prática de atos de violência homofóbica e transfóbica”. Entendo que num Estado de Direito apresentar uma queixa é um direito que assiste a qualquer um. Alguém decidirá em seguida se o assunto avança ou não.

Importa neste momento precisar que quem apresentou queixa foi um organismo público, governamental, a CIG. A seguir, importa acrescentar duas coisas. A primeira é que as questões relativas à igualdade de género em Portugal devem estar num nível de excelência assaz elevado, para a referida comissão não ter nada mais prioritário a tratar; a segunda é, meus senhores, qual o vosso modelo de sociedade e de pluralismo da mesma? Pode-se achar, e até legislar, que um galanteio é crime, mas alguém considerar ser brutal cortar à faca órgãos sexuais já é assunto de polícia?

Se o objetivo é conseguir maior tolerância e aceitação na sociedade em geral para estas situações e opções, atitudes absurdas como uma acusação ridícula assim, terão efeito contrário – o chamado tiro no pé.

Por último, é de assinalar que de acordo com a ciência, que desesperadamente também tenta fazer ver aos criacionistas que o mundo não foi criado assim tal qual em sete dias por nenhuma divindade, existem efetivamente dois e apenas dois sexos, geneticamente diferenciados. Não tendo nada contra preferências afetivas e estilos de vida que cada um queira assumir, recordo que a existência da espécie humana depende da realização de atos sexuais entre homem e mulher.

27 setembro 2017

Não havia necessidade…


Faz-me bastante impressão essa coisa da teoria do género, assim como que se masculino ou feminino, ou ambos ou nenhum, fossem uma coisa mais do sentimento do que natureza. De ciência, já ouviram falar? De genética, de cromossomas e afins, que demonstram claramente que o masculino/feminino tem diferenças para lá da dimensão emocional ou cultural!? É que não me consta ter ocorrido uma mutação genética da nossa espécie, de forma a não haver mais XX e XY e agora ser toda a gente “tipo ZZ”.

Há partes do mundo em que a homossexualidade é crime castigado com pena de morte, noutros simplesmente dá direito a umas chicotadas ou vergastadas. Pelas nossas paragens, é certo que ainda é encarada com menosprezo e ironia por muitos, e assim será durante alguns tempos, mas tenho sérias dúvidas de que isso se resolva com (mais) legislação, até porque em termos de enquadramento jurídico, efetivamente, já não há muito mais a fazer.

Como me parece que a evolução que falta é mais de mentalidade do que de polícia, é mais de falar e convencer (eventualmente de envergonhar) do que de decretar, tenho dificuldade em entender como não param as iniciativas legislativas e este constante inventar, inovar e estar à frente nos chamados temas fraturantes. Temas “solidarizantes”, não, não estão “in”. O que está “in” é fraturar, assim tipo puto rico e reguila, a quem dá gozo partir os vidros do carro do papá.

A proposta de lei apresentada de qualquer um, aos 16 anos, poder escolher, por si próprio sem mais, o género que quiser, como quem escolhe a cor do cabelo, parece-me de uma irresponsabilidade e de uma ligeireza atrozes, isto para não usar palavras mais fortes. Andamos a brincar com o quê, pessoal?!

12 fevereiro 2015

Questão de género?

A senhora que se vê na fotografia junta participa numa acção de protesto das “femen”, aquando da chegada de Dominique Strauss-Kahn (DSK) ao tribunal de Lille. O antigo director do FMI, que já foi notícia por um suposto assédio a uma empregada de quarto de um hotel em Nova Iorque, está agora a ser julgado por ter participado numas festas “à Berslusconi”. Enquanto o italiano teve problemas com a justiça por causa da idade das participantes, DSK está acusado “apenas” de proxenetismo agravado, incorrendo numa pena máxima de 10 anos de prisão e 1,5 milhões de euros. Não tenho nenhuma simpatia pelo senhor, nem sequer pelos seus opositores políticos, suspeitos de terem aproveitado a sua “fraqueza” e acredito que França tem leis justas e equilibradas e juízes sérios e competentes. Veremos o final.

Já estas manifestações, parece-me misturarem coisas. Prostituição implicar um problema de condição feminina falha e logo em dois sítios. Num artigo recente do “Le Monde”, feito de vários testemunhos, várias mulheres confessavam terem uma vida à partida “decente”, mas o “vender favores”, de vez em quando, lhes permitir ter mais e fazerem-no por sua livre vontade e iniciativa, sem constrangimentos. Há certamente casos dramáticos de seres humanos em situação degradante, mas não são cenário único. Depois, este contexto não é restrito ao género feminino e aqui está a segunda falha. Tenho uma imagem gravada de um adolescente humilde tunisino a almoçar com um francês maduro e sebento num restaurante “chique” de Tunes, que ainda me incomoda só de a recordar.

Estas senhoras de tronco nu, muito eficazes a chamar fotógrafos, criam imagens com muito impacto. No entanto, acho-as “fora de foco”, pelo menos neste caso. Cada vez mais, os problemas da condição humana não se separam entre géneros. Estas acções até me parecem cheirar um bocadinho a misandria...

09 dezembro 2013

Ímpetos de decreto

Em França acaba de votar-se uma lei em que, à semelhança do que se passa na Suécia, irá penalizar os clientes das prostitutas. A argumentação de defesa passou bastante pela defesa da dignidade da mulher, do combate ao tráfego dos seres humanos e por aí fora…

Ora bem, deixando de lado o filosofar se é um decreto que extingue na prática a chamada mais velha profissão do mundo, foi muito interessante um artigo publicado no Monde sobre a prostituição … no masculino. O artigo está aqui e é curioso como com ele se desmonta completamente a argumentação que defende a lei. Não se trata de mulheres, mas sim de homens e não há nenhum tráfico nem escravidão. Fazem-no porque querem e porque acham simpático o valor que recebem. Não acham que “vendem” o corpo porque no final até ficam com ele inteiro. Ou seja, o argumento de base da legislação não se aplica de todo a este caso, como não se aplicará a outros, mesmo no feminino.

Se ninguém pensa em proibir a apanha de morangos devido às condições de recrutamento e de trabalho de alguns desgraçados que por lá são apanhados, será que proibir a prostituição é a forma de acabar o outro tráfico? Tenho sérias dúvidas, assim como tenho uma solene irritação com estas posturas feministas redutoras. A dignidade a defender é a do ser humano e no fundo, não na rama.

06 fevereiro 2013

Mais um Parlamento perdido

No âmbito da discussão da legalização do casamento homossexual em França, o respectivo Parlamento encontrou um problema muito bicudo de resolver: qual o critério para o nome da família da criança adoptada. Para quem não sabe, nome de família em França só pode ser um e é o do pai – sim, é assim por lei e em França, não é na Arábia Saudita nem num desses países esquisitos de direitos, liberdades e igualdade entre géneros. Só se o pai for um pé rapado e a mão tiver alto pedigree, é que pode haver uma excepção para a criança receber o nome da mãe. Eu próprio o comprovei quando ao registar o meu filho nascido na Bélgica, com legislação idêntica, em que precisei de à pressa declarar nomes de família como nomes próprios para o rapaz pode ficar com mais do que um único nome de família. Voltando às famílias homossexuais, é bastante óbvio que a solução simples é ficar com os dois nomes de família. Só que, igualdade por igualdade, isso também teria que ser aplicado a toda a gente, destruindo então essa pedra basilar da identidade francesa. Como ilustração dos problemas que isso traz, foi referido o caso português dos nomes de família que nunca mais acabam. Lá chamam-lhes “nomes mala”, em português será talvez um “comboio de nomes”. Mas, se para evitar nomes comboio é necessário estabelecer por legislação uma coisa tão desigual e retrógrada, é estranho. Por outro lado, é incrível como parece ser mais fácil discutir a família homossexual do que simplesmente anular essa regra arcaica e machista. Para que conste: os adultos têm o direito de viverem como entenderem na sua esfera privada e por isso acho bem que possa aplicar-se-lhes a instituição/contrato casamento. Como uma criança não é um animal de estimação eu acho mal que tenham pai-pai ou mãe-mãe. Mas esta é a minha parte retrógrada.

18 agosto 2012

Escrita em sicronização lenta

Na sequência da publicação anterior, lembrei-me de um belo texto de uma grande autor: “Ne me quittes pas” de Jacques Brel. Para lá da beleza, delicadeza, emoção e força tremendas, que fazem a obra de Brel uma espécie de património cultural da humanidade, pode-se discutir se faz sentido um homem (ou uma mulher) reduzir-se assim por amor, para não perder um amor, a ser uma sombra da sombra, sombra da mão, sombra do cão. Mas essa leitura na qual há um interlocutor concreto, de quem só falta referir o nome próprio, é a simples e imediata, a da fase do flash.

Se deixarmos o obturador aberto um pouco mais, pode-se ver outra coisa, na minha opinião. Jacques Brel pode não estar a falar a um amor mas sim ao amor. A quem ele pede para não o abandonar não será uma Mathilde, Marieke ou Isabelle concretas. Pode estar a referir-se à capacidade de se emocionar, de se apaixonar, de se recriar e de, amanhã, encontrar uma Mathilde, Marieke ou Isabelle. De umas entrevistas suas que vi, com a visão dele sobre o amor e amantes, não me parece nada improvável que isso estivesse presente quando o escreveu. Como leitor tenho toda a liberdade de o ler desta forma e é também isso que distingue as boas histórias dos relatos. E, sendo assim, aceita-se melhor aquela história de fazer tudo, mesmo tudo, até passar a ser sombra da sombra, não será?

12 junho 2012

Mulheres....

Já me disseram que a diferença entre homens e mulheres é apenas uma e, por sinal, bem pequena. Jacques Brel dizia que a mulher era o pior inimigo do homem, mas um maravilhoso inimigo… enfim. Que as mulheres são diferentes dos homens é verdade e que a adopção por casais homossexuais não deixa de ser um pouco um cappucino apenas com café ou apenas com espuma de leite, mas, enfim, o tema hojte não é esse.
François Hollande, presidente de França, tem como companheira actual Valérie Trierweiler (à esquerda na foto acima). Antes houve Ségolène Royal (à direita na foto), com quem teve 4 filhos. Ségolene foi a candidata presidencial do PS Francês em 2007, derrotada por Sarkosy, e daí para cá tem tentado reconstruir a sua vida e relevância política, com alguma dificuldade. No passado fim-de-semana ocorreu a primeira volta das legislativas francesas em que ela caiu de pára-quedas em La Rochelle. O PS’ista local, Olivier Falorni, empurrado pelo aparelho, apresentou-se como independente, ficou em segundo, e ameaça a eleição de Ségoléne na segunda volta. Todo o aparelho do partido saltou para a arena para apoiar a candidata oficial, incluindo o Presidente da República.
Tudo normal… até entrar em jogo o factor feminino…! Que foi, no seu Twitter, a companheira actual do Presidente, escrever uma mensagem de apoio ao independente, adversário da outra. A estupefacção foi tal que até pensaram que a conta tinha sido pirateada, mas a senhora prontamente esclareceu: Não, foi ela mesma quem escreveu o twit…
E aqueles (aquelas?) que afirmam que a diferença entre homem e mulher é apenas física e pequenina… enganam-se!

15 fevereiro 2012

And I will always love you

Claro que não, claro que não há sempre, como o triste fim da menina bonita desta fotografia ilustra. Não há sempre, nem nunca, nem tudo nem nada. Mas, mesmo sendo pieguice, é bonito de ouvir.

E.. como diria um “outro”:

- Se não há nada de mais maravilhoso do que uma mulher que nos tenta conquistar;
- também não há nada de mais ……… do que uma mulher que nos considera conquistados.

E, parece mal para um dia de namorados ?!

13 dezembro 2011

"Afectos" com preço

A Assembleia Nacional Francesa votou unanimemente um documento de princípio tendente a abolir a prostituição e, a exemplo da Suécia, criminalizar os clientes. Uma das vantagens de ver estas notícias nas páginas abertas a comentários, como neste caso no Le Monde, é que, apesar de algum primarismo e chutos ao lado, há sempre uma grande latitude de pontos de vista que acabam por enriquecer o tema. Aqui não faltou: “É um puritanismo hipócrita; será válido apenas para os pequenos, os grandes como o DSK acabarão sempre por encontrar esquemas; é uma espécie de “lei seca” com as consequências conhecidas, é importante para a dignidade da “mulher”.. e etc.

Se o proxenetismo e o tráfico de seres humanos devem ser crime bem penalizado, e acho que já são, o cobrar pelos “afectos” simplesmente pode ser algo mais delicado de caracterizar. Vejamos no limite: se uma menina vai de férias com um homem (para já não pensemos no vice-versa para não criar mais confusão) em que ele paga tudo… e tem tudo… isso pode ser considerado um negócio e penalizado? E se simplesmente fazem um programa em que ele paga um bom jantar, tendo já subjacente o passo seguinte? Ainda é crime? E quando ela casa sem afecto e sem amor, apenas pela recompensa material, não estará também a vender a sua dignidade? E, aqui, a ser crime, é a vítima que é condenada…?

27 janeiro 2011

Qual o código?



As pontes pedonais do parque central de Riga estão pejadas de aloquetes fechados nas suas grades.
Inquirido um passante sobre o significado, explicou-me que são demonstrações de amor. Um casal de namorados fecha o aloquete na grade da ponte, que ali fica inamovível e inabalável, tal qual a sua paixão.
Entretanto, o Ferré canta que “avec le temps, avec le temps, tout s’en va…”. Vai-se a grade, fica o aloquete ?

14 setembro 2010

Agora foi o Rooney

Li, na diagonal, que o W. Rooney está a cair em desgraça por uma questão de “meninas”. E logo vem a comparação com Tiger Woods, outro que se desgraçou pelo mesmo assunto. Eu sei que é assaz delicado desenvolver algum tipo de argumentação em torno deste tema, mas vamos tentar.

Nestes casos há obviamente um comportamento social reprovável, uma falta familiar grave, mas, apesar de a mais velha profissão do mundo não estar legalizada, não é necessariamente um crime público a justificar a queda em desgraça que os média alegremente anunciam e promovem.

E isso parece-me sobretudo injusto quando compararmos com algumas figuras públicas que por aí andam alegremente, algumas de charuto na boca, que são ladrões, vigaristas, corruptos, que nunca confessam, que têm uma enorme cara de pau, que conseguem evitar as condenações formais em tribunal e que se mantêm populares com belos tempos de antena... (e alguns até ganham eleições!).

Tiger Woods casou em Outubro de 2004 com uma modelo sueca muito bonita. Tinha um acordo pré-nupcial para limitar eventuais estragos futuros. Cinco anos depois, em Novembro de 2009, rebenta o escândalo. Na tentativa de salvar o casamento ele aceita “renegociar” o acordo. Agora divorciaram-se e até parece que ela foi generosa em não querer ficar estritamente com metade do património dele. Contentou-se com 750 milhões de dólares, cerca de 600 milhões de euros. Por muito inocente e magoada que estivesse, receber 120 milhões de euros por cada ano de casamento, em que a participação dela para o capital acumulado foi provavelmente “negativa” (terá gasto mais do que ganhou) parece-me imoral. Por muito valioso que fosse o coração partido, 600 milhões de euros por um coração destroçado... nem do ouro mais puro. É claro que isto não pode ser analisado numa perspectiva economicista, mas mesmo assim...

E que dizer das meninas que receberam para fazer e que depois receberam para não contar nada e que até, às tantas, também receberam, neste caso de outra fonte, para contar o que tinham feito ? O óbvio, claro!

17 outubro 2009

Género claro



A figura ao lado, crismada Ardi, parece ser o novo mais antigo antepassado do ser humano, com 4,4 milhões de anos. Acreditando que a evolução foi contínua fica um pouco a questão de como se pode estabelecer a fronteira de daí para a frente é humano ou quase e para trás já não o é.
Mas a minha surpresa é afirmarem sem dúvidas de que se trata de uma fêmea. De uns restos de ossos com milhões de anos consegue-se apurar o género. De uma/um atleta viva/vivo sul-africano é aparentemente muito mais complicado...! Será que as autoridades desportivas terão que pedir ajuda a alguém mais especializado?

13 outubro 2009

Dizer sem falar



Berlusconi: Mas que jeitosa que ela é ! Venham daí esses ossos e mais o resto! (E onde é que ele tem fixado o olhar??)
Obama: Bom, bom.... em que é este tipo está a pensar?!Michelle: Toma lá a mãozinha porque mais do que isso não vais tu apertar!
Cena passada durante a última cimeira do G20 em Pittsburgh e publicada na Jeune Afrique de 4 a 10/10/2009

16 maio 2009

Quando chega a faca e o garfo

Afinal, ao contrário do que eu pensava, parece que o fundamento para as polémicas recomendações do Cardeal Patriarca não está no deslumbramento cego da flor da idade. Parece ser mais um problema de meia-idade. As semelhanças com uma realidade serão pura coincidência, ou não, mas imaginemos a Mariazinha cabeleireira solteirona de Aldeia Nova de Baixo e a Zeza esteticista divorciada de Vila Franca de Cima, ambas nos quarenta e muito. Conheceram o Fouad e o Sofiane na net, arranjam dos dois lados uns trocos para irem de férias à Tunísia e a coisa pega. Poderiam ficar elas sabiamente pela memória das férias bem passadas mas não: querem casar! O Fouad e o Sofiane nem sabem onde vivem a Mariazinha e a Zeza mas… pertence à zona “Schengen”! Comparado com o batel clandestino que naufraga ou é interceptado na costa espanhola é um autêntico “jackpot” e vale bem alguns sacrifícios. Daqui para a frente fica um argumento para novela trágico-cómica.

Em regresso recente de Argel via Paris vi um casal desses no avião ao meu lado. Às vezes de mãos dadas e, mais raro, trocando uns beijinhos muito ligeiros e discretos. Ele nos 30’s com umas magnificas sapateiras/chuteiras brancas com as 3 riscas pretas da Adidas e um fato de treino preto, luzidio, com as famosas riscas também, agora em branco. Tudo a combinar! Ela assaz mais idosa, pesada, loura, mais loura nas pontas do que na raiz, com grandes anéis e pulseiras e uma maquilhagem que já não aderia (impunha-se em conflito a uma pele que não a aceitava).

Se já parecia pouco equilibrado, a refeição acabou com as dúvidas. A partir do momento em que lhe puseram o tabuleiro à frente, o rapaz ligou o motor dos maxilares e não mais os parou até o tabuleiro ficar limpo. O que variava era a quantidade de comida na boca, medida pelo volume da bochecha. O triangulo de queijo numa mão e o pão na outra, abocanhados alternadamente, com trincas maiores para o segundo, naturalmente. Uma espetadela do garfo no pacote de manteiga e metade do mesmo desce pela goela abaixo. O frango deve saber melhor quando é esfiado com as duas mãos e as lascas enfiadas na boca em movimentos rápidos com indicador e polegar em pinça.

Pois é, o guardanapo, a faca e o garfo são um teste infalível e muito, muito representativo.

29 março 2009

Ainda o preservativo e o papa

Aqui atrás reagi um pouco a quente a este tema, de tal forma o assunto parecia estar a pedir. Depois de ver alguns prós e contras, apetece-me acrescentar algo.

Entendo que o Papa não condenou o preservativo cientificamente mas sim moralmente. Posso compreender que seja essa a sua posição. Para a igreja católica a actividade sexual deve ser exclusivamente dedicada à procriação, não é? Por isso, o preservativo sendo um contraceptivo, não é aceitável. Neste ponto, como com a pílula, só pode acontecer uma de duas coisas: ou Roma revê a sua posição, ou se quiser ser coerente até ao fim, o seu rebanho ficará muito, muito, muito encolhido.

Outro ponto de vista, e por acaso até alinhado com a posição do Vaticano, é defender que se cada um tiver única e apenas um parceiro estável, não há propagação da sida. O preservativo facilitando a promiscuidade vai no sentido contrário. Agora, será por desaparecerem os preservativos que acaba a promiscuidade e especialmente em África? Resposta óbvia: não. Aliás, face ao que sabe e ao que não se sabe, nem sequer é disparate, em muitos casos, sugerir o uso do preservativo mesmo entre pares “teoricamente” estáveis e exclusivos.

O Papa quer condenar o hedonismo e todas as religiões, de alguma forma, tocam esse ponto de recusar dar a primazia ao prazer imediato e individual. Agora tem é que saber como falar e com quem está a falar. Quando em Luanda usou a palavra “hedonismo” em frente daquela multidão, teria ele uma ideia de quantos dos assistentes sabiam do que ele falava?

04 maio 2007

Tensões e contradições



Era feriado, dia de passeio e, como em todo o mundo, famílias e grupos, grandes e pequenos, saíram à rua aperaltados. E, como em todo o mundo, este “procurar ser bonito” conjuga-se sempre com mais intensidade no feminino do que no masculino.

Mas, aqui, havia uma particularidade. É que segundo os cânones religiosos e sociais locais a mulher não se de deve mostrar nem ser bonita em público. Deve esconder o cabelo, o corpo e, no limite, o rosto. Esta postura não é compatível especialmente com as faixas etárias mais jovens que, no exercício de descoberta do corpo e da sexualidade, querem e devem, saudavelmente, mostrarem-se bonitas e atraentes. Como é possível assumir isto num meio em que em cada esquina está um desocupado que se sente com direito de ser polícia de costumes e insultar uma mulher que fume em público?

O rosto tapado é bastante raro e quase inexistente nas jovens. O corpo dissimulado em vestes largas já se encontra, mas em minoria. A grande maioria tapa o cabelo e o pescoço com o famoso véu mas a seguir vem uma túnica apertada e até umas calças justas e com tudo a combinar.

Se este assumir da feminilidade é claro, porquê então, e ainda, o véu? Por hipocrisia? Por pragmatismo para não serem incomodadas pelos “polícias de costumes”? Não entendi. Qual a coerência de esconder do cabelo e, ao mesmo tempo, exibir a curva das ancas? O certo, é que existe aqui um conflito não assumido e não resolvido. E, evidentemente, fonte de tensões.

Com mais ou menos disfarce fui tirando fotografias, muitas de enquadramento e focagem incertas. A truncagem da última imagem não foi premeditada mas acabou por sair representativa e interrogativa.

31 outubro 2006

Questão de género - parte II

Segundo estatísticas não muito antigas, que não sei se serão ainda rigorosas, 70% dos estudantes do ensino superior na Argélia são do sexo feminino. Segundo os preceitos “sociais médios”, e a média vale o que vale, a mulher não deve trabalhar depois de casar. Não vale a pena sorrir com desdém porque não é necessário recuar muitos décadas para este princípio ter sido “válido e actual” em Portugal. E, no entanto, continuam a querer estudar: que se contentarão de fazer com o curso?

A poligamia é legal desde que o marido tenha condições para a suportar. O limite é quatro mulheres, conforme regula o Corão. Uma pequena evolução legislativa recente obriga um juiz a pronunciar-se sobre o assunto.

Muita discussão sobre o véu. Há dois, o que tapa o cabelo e o que o tapa também o rosto. Em nome da liberdade uns apelam à sua proibição e, em nome da mesma palavra, outros defendem a sua utilização sem restrições. A Tunísia quer travar mesmo o que só tapa o cabelo; na Grã-Bretanha corre grande polémica com a comunidade muçulmana porque não se aceitou que uma professora falasse com um pano à frente da boca.

Na Argélia o véu está com utilização crescente. Em frente às universidades é visto a par de cabelos soltos e ombros nus. No entanto, na maior parte das vezes, não é aquela coisa encafuada e assexuada como se vê nas freiras. Tem estilo, combina com a saia comprida, com os tacões altos e mesmo com uns óculos de sol da moda. Não sei bem se é esta a intenção dos islamistas quando recomendam o seu uso...

Se juntarmos a tudo isto a proliferação de parabólicas que trazem todo o mundo a toda a gente... será que “Revolução” e “Mudança” vão ser mesmo palavras do género feminino?