13 março 2017

“Muita giro!”


Foi por acaso que este domingo segui o acontecimento mediático informativo fundamental semanal da paróquia, a “entrevista” a Marques Mendes, e achei “muita giras” algumas considerações dele sobre a atividade do PR.

“Fala demais?” – pontualmente sim, mas globalmente não. Quando eu um dia for apanhado em excesso de velocidade, tentarei explicar ao polícia que foi uma transgressão pontual, mas que globalmente cumpro os limites.

Que o PR não foi um catavento, como alguns previam. Por exemplo, sobre o sistema financeiro, sempre defendeu a necessidade da estabilidade do mesmo … pois, também era o que faltava...

Outra observação engraçada foi acerca do estilo e a "descrispação" (ou lá como se diz) e o otimismo e os afetos e essas coisas todas ótimas para as fotografias. Dizia MM que o estilo do PR até estava a fazer escola, porque agora também se vê o PM a dar beijinhos e a fazer selfies. Pouco depois lá alfinetou Passos Coelho, sugerindo que ele contactava pouco com a população. Lamentável é que na altura e no sítio onde devem decorrer as discussões sérias, os estilos passem para o trauliteiro.

Estamos num país porreiro onde o PR e o PM dão muitos beijinhos e estão sempre disponíveis para selfiar… se isso contribui para a nossa felicidade, sustentada, já é outra conversa, mas que é “muita giro”, é sim senhor.

11 março 2017

Perdões



Não sei mais que dizer como introdução a mais um belíssimo texto descoberto, deste grande senhor, Jacques Brel. E penso que este Cupido e Psique, vistos no Louvre, ficam bem na ilustração do mesmo, quanto mais não seja por antítese.


Perdão por aquela rapariga que se fez chorar
Perdão por aquele olhar que abandonamos rindo
Perdão por aquele rosto que uma lágrima mudou
Perdão por estas casas onde alguém nos espera
E depois por todas estas palavras que dizemos de amor
E que utilizamos como moeda
E por todos os juramentos mortos ao nascer do dia
Perdão pelos nunca, perdão pelos sempre

Perdão de não ver mais as coisas como elas são
Perdão por ter querido esquecer os nossos vinte anos
Perdão por termos deixado esquecidas as lições
Perdão por renunciar às nossas renúncias
E depois por nos enterrarmos a meio das nossas vidas
E depois por preferir a paga de Judas
Perdão pela amizade, perdão pelos amigos

Perdão pelos lugares que nunca cantam
Perdão pelas aldeias que já esquecemos
Perdão pelas cidades onde ninguém se conhece
Perdão pelos países feitos de sargentos
Perdão por ser daqueles que não querem saber de nada
E por não ter cada dia ainda tentado
E perdão ainda e depois perdão sobretudo
De nunca saber quem nos deve perdoar.

07 março 2017

A Europa auto


Enquanto uns curiosos se entretêm com o desenvolvimento de veículos autónomos, que por um motivo obscuro qualquer costumam ter um design evocativo da ficção científica dos anos 70, o grupo francês PSA (e também um bocadinho chinês), comprou as operações da General Motors na Europa, mais conhecidas pelas suas marcas Opel e Vauxhall (no UK).

Penso que esta notícia merece ser destacada e alguma reflexão. A General Motors foi durante muito tempo o líder mundial da produção automóvel, atualmente é terceiro, ultrapassado por um japonês, Toyota, e um europeu, VW, e a sua presença na Europa tinha 88 anos. O grupo PSA, atualmente Peugeot e Citroen, esteve muito débil ainda há poucos anos e foi salvo com uma polémica injeção de capitais chineses. Os seus últimos anos de sucesso foram liderados por um português, Carlos Tavares, mas vamos esquecer os nacionalismos bacocos e pensar em termos europeus.

A GM vendeu porque perdia sistematicamente dinheiro com a operação há vários anos e, certamente, não acreditava ser possível inverter a situação. Conseguirão os europeus ter sucesso onde os americanos falharam? E se também falharem, significa que a Europa como plataforma industrial e mercado perdeu importância e a GM fez bem em sair desta zona decadente. E se a PSA tiver sucesso significa que a Europa tem qualquer coisa, um saber fazer, superior ao dos americanos?

O impacto deste resultado é muito mais do que simbólico. Sem indústria não há emprego nem estabilidade social e a indústria automóvel é um barómetro fundamental. Por falar em social, os sindicatos já estão nervosos. Enquanto se manteve o status quo e as perdas contínuas estavam calmos; agora que se perspetivam mudanças, já “são contra” ou, no mínimo, estão desconfiados. Não, não sou a favor do vale tudo, mas uma empresa que não ganha dinheiro não mantém empregos, fatalmente acabam todos. A menos que os contribuintes contribuam e, aí, o problema fica apenas mais largo…


Foto retirada do Le Monde

04 março 2017

E a culpa será do Trump?


Não faltam, nem faltarão, vozes de protesto, de condenação e até mesmo pedidos de expulsão do cargo dirigidos a Donald Trump. Não o apoio, não me inspira nenhuma simpatia, mas, se quisermos ser objetivos, uma boa parte do “problema” está mais no estilo do que nas ações. Anda meio mundo escandalizado com o muro na fronteira com o México, quando este até já está construído a metade ou a um terço, sem ninguém na altura ter achado escandaloso. O senhor é provocador e sabe que isso funciona. Por outro lado, ele foi eleito democraticamente, segundo regras eleitorais consagradas há muito tempo, e, estranha-se, está a procurar fazer o que prometeu em campanha. Se aqui há algo errado, será com ele?

Supondo que, enfim..., longe vá o agoiro, o nosso Tino de Rans fosse eleito, de que serviria crucificar depois o senhor na praça pública? Quanto mais o “sistema” tentar ostracizar e ridicularizar estas aberrações, mais sucesso elas terão junto dos “desiludidos do sistema”.

Vejamos o caso das próximas Presidenciais francesas, onde Marine le Pen tenta apanhar a onda, para grande preocupação da elite do costume. O seu adversário natural direto, à direita, é François Fillon. Ora bem, este senhor já está enterrado com o que se descobriu sobre os empregos públicos faz de conta, que arranjou para a mulher e filhos. De que serve demonizar a senhora, com tanta fragilidade nos telhados próprios? É de realçar que isto não é uma especificidade francesa; do que vai pelas nossas terras nada cito, dado que, para ser justo e minimamente abrangente, o texto depois não caberia no espaço habitual de uma crónica.

Estes fenómenos democráticos combatem-se com exemplos, princípios e seriedade e, infelizmente, porta-vozes credenciados para a função são coisa muita rara. E quando os desiludidos do sistema se desiludirem de novo com estas supostas alternativas, o que se seguirá será mais grave do que uma simples desilusão.

24 fevereiro 2017

A Susan, a Maria e a Amira

Dentro daqueles fenómenos epidémicos, acertadamente também chamados virais, que se propagam pelas redes sociais e atingem até colunas de opinião de quem tem por missão opinar e, às vezes, nem sabe bem sobre o quê, está o caso do assédio sexual de Susan Fowler na Uber.

Antes de mais, e para começar claro e cristalino, tudo o que seja um ser humano utilizar alguma forma de poder para forçar outro a fazer o que este não quer nem a isso é obrigado, constitui um grave desrespeito pela condição humana e um atentado à dignidade da mesma. Quando o assunto envolve questões sexuais e o poder está no âmbito da hierarquia profissional, aí é especialmente execrável e acrescentem os adjetivos que entenderam. Eu até repetia o parágrafo duas ou três vezes, para ficar bem marcado. Aliás, mesmo sem entrar sequer nesse campo, as relações afetivas em contexto profissional são bastante delicadas, dada a dificuldade em conseguir separar eficazmente os sobressaltos e os humores que os afetos têm com a objetividade e o rigor que os relacionamentos profissionais exigem.

Voltando à Susan, ele foi vítima de assédio sexual dentro da Uber, o assunto ganhou visibilidade e a Uber, que depende muitíssimo da imagem, decidiu envolver um famoso ex-procurador geral na investigação, fazer um generoso mea culpa e por aí fora. Não sei se para pôr alguém no seu devido lugar seja necessária tanta artilharia. Dentro do chorrilho de leituras e comentários que o caso proporciona, vejo ser evocada a ligação com a natureza e a especificidade da Uber. E, aqui, é que o erro é grave. Não será um problema específico da Uber e, dentro do mal que lhe aconteceu, a Susan teve muita sorte em isto ter acontecido numa empresa assim exposta.

Pensemos nas Marias diariamente humilhadas nos Silvas e Silvas, sem nunca poderem sonhar em ver o seu caso mundialmente exposto e com direito a investigação por um famoso ex-procurador; pensemos nas Amiras para quem dois palmos de cara ou formas onde a natureza foi generosa são motivos impeditivos de conseguir uma carreira profissional séria e a independência e a dignidade que tal permite. E, insisto um pouco sobre a Amira. Nunca terá um ex-procurador geral a investigar o caso, nem o mais básico polícia sequer e, provavelmente, nem sequer a sensibilização e a solidariedade da sua opinião pública. Dos que se escandalizam com o caso da Susan, quantos admitem alguma compreensão para com as especificidades culturais “do outro”?

23 fevereiro 2017

O que está em causa

Na gincana “política”, habitual, da discussão do caso Centeno, há um cheiro de tribalismo, que não ajuda nada a iluminar o fundo da questão. Não é relevante se o défice foi bom ou mau, se se trata de, no fundo, defender uma CGD privada ou pública, ou de qualquer outro detalhe secundário neste contexto, por mais relevante que o seja noutro campo.

O que está em causa é que o governo quis contratar um profissional, não político, para uma dada função. Como em qualquer situação habitual em que o contactado não é um pau mandado, este terá dito “sim, nestas condições”, sendo irrelevante se essas condições apresentadas eram lógicas e justificadas ou inviáveis e estapafúrdias. Foram livremente apresentadas e, ao que tudo indica, aceites. Não passa pela cabeça de ninguém que A. Domingues tivesse avançado e assumido o cargo com esse ponto em aberto.

Aqui começa o verdadeiro problema. Sendo essas condições conflituosas com a moral púbica e a legislação em vigor, a reação foi: vamos cozinhar qualquer coisa, a ver se passa. Não passou e, em vez de singelamente assumir a falha, Centeno, não necessariamente o líder desta comandita, e companhia acharam por bem enganar o patego e atirar areia para os olhos de quem fez perguntas. E isso, chateia-me… (e o homem até podia ser prémio Nobel).

20 fevereiro 2017

E a Sra Le Pen agradece


Emmanuel Macron, o candidato da esquerda às próximas eleições francesas foi à Argélia, antiga colónia, e achou por bem afirmar que a colonização constituiu um crime contra a humanidade. Não sei se acreditará mesmo no que disse ou não; os políticos têm por hábito dizer o que acham por bem ser dito.

Se a história da humanidade está cheia de crimes e as guerras por si, para mim, serão todas criminosas, independentemente das causas e motivações, essa colagem direta da etiqueta é abusiva. Devo dizer que, como português, agradeço bastante a colonização que os Romanos por cá fizeram.

Se falarmos de África e de tempos mais recentes, poder-se-ia questionar se as lutas foram mesmo pela libertação ou apenas pela mudança da tutela e se, no pós-independência, há mais ou menos crimes contra a humanidade do que antes, mas aí estaríamos a fugir à discussão do princípio.

Citando o que alguém disse no “Le Point”, em outubro passado: ”… que a colonização na Argélia tinha trazido a tortura, mas também o nascimento de um Estado, a criação de riquezas e de uma classe média. Houve elementos de civilização e elementos de barbárie”. Quem afirmou isto, bastante razoável e equilibrado? O Sr Macron, o mesmo!!!

À sombra da falta de razoabilidade, incoerência e oportunismo descarado destes senhores, cresce a Sra Le Pen. Depois, se ela ganhar… podem organizar manifs.


Foto do France24

14 fevereiro 2017

Dia perigoso

Hoje é um dia perigoso… para ir a um restaurante. Há um sério risco de ser confrontado com uma ementa de S. Valentim; pior do que isso, numa sala decorada à S. Valentim ou, mesmo muito pior ainda, viver uma situação muito deprimente, caso coincida com um jantar junto com um colega de trabalho. Acho que desta última, pelo menos, estou safo.

Saindo um pouco deste merchandising da data (e uso o english mesmo de propósito), se houver um sorriso de alguma forma que gere outro sorriso, já chega.

E para esquecer, ou recordar, que não há nada de mais maravilhoso do que um olhar que tenta conquistar outro e nada mais, mais menos, do que um olhar que considera o outro conquistado.

13 fevereiro 2017

Nada de novo

Realmente não parece acontecer nada de novo por aqui, nesta grande paróquia. As coisas vão e vêm assim como as ondas na praia; limpam a areia de umas coisas, trazem outras, algum lixo, bastante, mas no fim fica tudo mais ou menos igual.

Alguém sabe como ficou ou como vai ficar aquela coisa do salário mínimo com TSU bonificada? Pois é, não tinha nem tem jeito nenhum. O salário mínimo devia ser um limite e não uma norma. De tanto batalhar essa causa, acordaram em subi-lo, mas com subsidio. Bendito país que mãos tão largas tem para satisfazer todos os chorões. A discussão ficou pela gincana tática e, nisso, nada de novo.

A Caixa Geral de Depósitos precisa de ganhar a vida como banco bem gerido, pelo menos deixar de a perder como instrumento do partido do poder. A trapalhada que viveu (ainda vive?), durante meses e que agora fatalmente se decanta, prova o seguinte. O estatuto de gestor público não permitia (permite?) contratar os profissionais necessários e os políticos mentem, para cima, para baixo e para o lado, o que for preciso para flutuarem na porcaria que fazem. Nada de novo e muito menos o facto de o PM vir garantir a pés juntinhos que ninguém mentiu. A novidade é o Presidente querer ver uma evidência assinada (com registo notarial?) e até lá ninguém tem culpa.

Os juros da dívida pública estão a subir. É uma novidade. O que não é novidade é não parecer ser preocupante para ninguém. Ah! Há outra novidade, é o Presidente garantir que, globalmente, a coisa está bem e a melhorar.

Os transportes públicos, de privatização suspensa ou revertida, continuam em degradação, mas isso é ainda culpa da troika. Até à próxima, a culpa será sempre da anterior. Nada de novo.

De resto, reformas e políticas de fundo, coisas feitas e pensadas um bocadito para lá dos títulos da imprensa de amanhã… não vejo. Infelizmente, nada de novo e nós, neste campo, precisávamos mesmo de algumas novidades.

Novidade talvez seja um Presidente que ainda não descobriu que quem muito fala, pouca acerta… ou talvez nem isso seja novidade.

31 janeiro 2017

A infância por Brel


O Senhor Jacques Brel, que eu aprecio há muito tempo, de quem tenho a obra completa há vários anos, continua, de vez em quando, a aparecer e a conseguir surpreender-me.
Para falar assim da infância, é preciso ser-se um grande adulto ! 

A infância, quem nos pode dizer quando acaba, quem nos pode dizer quando começa, não tem nada a ver com a imprudência, é tudo o que ainda não está escrito.

A infância que nos impede de a viver, de a reviver infinitamente, de viver a retornar no tempo, de arrancar o fim do livro.

A infância que pousa nas nossas rugas, para fazer de nós velhas crianças. Eis-nos jovens amantes, o coração cheio, a cabeça vazia. A infância, a infância.

A infância é ainda o direito de sonhar e o direito de voltar a sonhar. O meu pai era pesquisador de ouro; o problema é que o encontrou.

A infância, é meio-dia cada quarto de hora e quinta-feira cada manhã. Os adultos são desertores, todos os burgueses são índios.

Se os pais conhecessem a infância, se os mais pequenos amantes soubessem, se por acaso eles conhecessem a infância, nunca mais haveria crianças, nunca

25 janeiro 2017

O que há


Este texto sai descaradamente fora da linha editorial do blogue, mas é por uma boa causa. Considero fazer sentido o esforço e a heresia, se ajudar alguém na doença do “à” e do “há”:


1) O “à”

Eu vou a + o monte = eu vou ao monte
Eu vou a + a praia = eu vou à praia


2) O “há”

Forma do verbo haver, equivalente de existir. Na dúvida substituir pela conjugação equivalente de existir e ver se faz sentido
Hoje há festa = hoje existe festa – correto
Vamos há (?) praia = vamos existe praia - incorreto


3) O plural

Nas suas conjugações “simples” o verbo haver não tem plural (pelo menos por enquanto):
Não “haverão” razões – há razões
Não “hão” coisas – há coisas
Como auxiliar pode estar no plural
“Havemos de ver as razões; hão de ser feitas coisas”

24 janeiro 2017

E um Almaraz blues?

Estávamos nos inícios da década de 80 e correu a notícia de que Espanha planeava construir um cemitério nuclear em Sayago, lá em cima, junto ao nosso Nordeste. É uma prática habitual os projetos nucleares serem realizados junto às fronteiras; em caso de acidente, metade do problema é imediatamente exportado.

Ainda não tinha ocorrido Chernobyl, muito menos Fukushima, mas, independentemente da razão e do risco real, a mobilização foi enorme. Ninguém queria um Douro sob risco reativo. O protesto até ficou registado no “Sayago Blues”, da dupla Rui Veloso/Carlos Té.

Por estes dias, já depois de Chernobyl e Fukushima, Espanha tem uma central nas nossas portas a funcionar em extensão do tempo de vida e anuncia querer aproveitá-la para depósito de resíduos e… está bem, … o governo português vai protestando…, e a sociedade civil?

Nesta época em que é tão fácil manifestar indignação, em que meio mundo se levanta e solidariza com a imagem de um cão sujeito a maltratos ou abatido por mau comportamento, Almaraz, é uma palavra que deixa a malta indiferente? O pessoal anda preocupado e indignado com a eleição e a investidura do Trump; entretido a praticar o tiro ao Coelho e a quem o apoiar, a comentar, apoiar ou criticar as selfies do Presidente; a decretar juízos e valores sobre taxistas e Ubers, enfim…

Reconheçamos que riscos nucleares não são um problema do “Now!”.

14 janeiro 2017

Encruzilhadas


Ouvi falar de gente com eu, mas nunca relacionei. Fizeram um caminho para serem livres, mas descobrirem terem tomado a direção errada. Mas não vale a pena voltar para trás, porque todos os caminhos vêm ter onde estou e acredito que os percorri a todos, não importa o que planeei.

Crossroads, Don Mclean

12 janeiro 2017

É este o futuro?

Quem já assistiu a apresentações sobre o admirável mundo novo que está aí a chegar, do qual alguns totós ainda não tomaram consciência e devidas ações, que, por isso, necessitam de ir a correr contratar uns consultores para a digitalização do seu negócio e etc e etc, certamente já ouviu falar em unicórnios. Empresas inovadoras, que valem uma pipa de massa e muitas delas por supostamente terem criado um novo modelo de negócio, disruptivo.


Uma delas, bastante sexy, que o pessoal gosta muito de apontar como exemplo é a Uber. Efetivamente, a Uber tornou-se num nome omnipresente e sinónimo de uma mudança radical na mobilidade urbana.

Ora bem, vamos a factos. A Uber está valorizada em muitos milhões, conseguiu convencer muitos investidores a colocar lá fundos, mas (ainda?) perde dinheiro. Eu fico a pensar como uma empresa cujo principal ativo é uma aplicação de telemóvel, por muito sofisticada que seja, que não parece ter quadros, nem ativos de nenhuma forma proporcionais ao seu volume de negócio; uma empresa onde os clientes pagam a pronto, sem calotes, que praticamente nem precisa de investir em promoção da imagem… como é que uma empresa assim precisa de tanto dinheiro e como tem tantos e contínuos prejuízos…

Depois, aqueles que trabalham mesmo, os condutores, também não ficam ricos, muito pelo contrário. Praticam horários alargados, desregulamentados para ganharem o que calha e parece ser uma vida bem dura. Portanto, é este o admirável mundo novo: de um lado uma capitalização de milhões a perder dinheiro e do outro lado uns biscateiros esforçados que se chama pelo telemóvel…? Não faltará nada aqui?

07 janeiro 2017

Mais do que Soares, o Povo

Não é por Mário Soares ter falecido que muda a minha opinião sobre ele. Se posso marcar uma mudança, essa terá ocorrido após a leitura dos “Contos Proibidos” de Rui Mateus, um livro muito incómodo para o PS. Certamente que da sua intervenção na vida política nacional ficará como mais marcante a sua intervenção no verão de 1975 e o travar da “ditadura do proletariado”. Soares teve o sentido de oportunidade para ocupar e liderar o espaço existente por todos os aspirantes a uma democracia em liberdade, identificados com a esquerda, mas frontalmente opostos e desconfiados dos que comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Entendo que ele teve a capacidade de identificar esse movimento e de o liderar, mas a vontade de viver em liberdade estava no povo, não foi ele quem a criou. A isso juntou-se um enorme e brutal carisma e capacidade de criar empatia com o povo.

Tecnicamente, Mário Soares foi um mau primeiro-ministro; muitas vezes arrogante mais do que bastaria e, principalmente, rodeado de amigos com negócios muito suspeitos. Donde que, vejo Mário Soares como um homem de poder e não de princípios. Mas, enfim, o povo precisa de reisinhos e a comunicação social aproveita e vende.