30 setembro 2013

Fuga dos partidos

Como é habitual, em maior ou menor escala, o poder foi “castigado” e a oposição reclama uma leitura política nacional e exige mudança. É assim em todas as autárquicas e, se nestas esse castigo está bem presente, a leitura dos resultados pode e deve ser muito mais rica. Refiro-me obviamente ao sucesso dos imprevisíveis independentes. A sua origem não é toda idêntica. Há políticos de carreira em ruptura com o aparelho central e há particularmente o caso do Porto, que é uma novidade absoluta nesta escala: um movimento de cidadãos organiza-se para tomar o destino da cidade nas suas mãos. Certamente uma especificidade fruto da personalidade muito particular da cidade. Independentemente da motivação das candidaturas independentes, o seu sucesso tem uma leitura clara. As populações rejeitaram os candidatos dos partidos e não vêm o futuro da sua terra nas mãos dos “Marcantónios” e à mercê das suas tácticas.

É mais um sinal de descrédito nos aparelhos partidários, nos seus modos de funcionamento e valores. A sua preocupação prioritária em gerir o poder no seu interior, deixa-os cada vez mais afastados e estranhos às populações. Se nas autárquicas é relativamente fácil aos cidadãos organizarem-se e criarem alternativas com sucesso, será muito difícil acontecer a nível nacional, numas legislativas, o mesmo que aconteceu no Porto. Isso, no entanto, não deveria ser motivo de descanso para os partidos e é muito mau atribuírem a culpa da sua derrota à simples existência de independentes.

28 setembro 2013

Solidariedade e moralidade

Começo por esclarecer que não sofro de nenhuma alergia generalizada a funcionários públicos. Algumas das suas funções são essenciais à sociedade e muitos são excelentes profissionais. Agora, o que me choca nestes tempos recentes é o seu estatuto de “casta” diferente e devidamente confirmado pelos tribunais competentes. Por um lado, o Tribunal Constitucional entende que como cidadãos não podem ser tratados de forma diferente de todos os outros, depois descobre que afinal não podem ser despedidos… Formalmente pode estar correcto, mas moralmente não está. Temos agora as providências cautelares para bloquear o aumento do horário de trabalho. Se está em causa uma alteração contratual, e se afinal estes contratos são iguaizinhos aos outros, entende-se que não possa ser decidida unilateralmente. No entanto, nós não estamos num período normal! Já sem falar naqueles que simplesmente ficaram desempregados, quantos nestes últimos meses tiveram um aumento da carga de trabalho, obrigando a horas adicionais não remuneradas; quantos tiveram duma forma ou de outra uma redução de remuneração, quantos entrarem em situação de precariedade acrescida? No momento em que escrevo isto tenho presente um caso de um amigo que após estar desempregado foi contratado sem prazo e com período experimental de 8 meses. Pouco tempo antes do fim desses 8 meses, o contrato foi rescindido pela entidade patronal para lhe ser proposto outro, a prazo, e com redução de vencimento.

Algumas destas alterações e reduções que tantos sofreram são fruto da necessidade desesperada de sobrevivência das empresas, outras serão oportunismo abusivo das entidades patronais, no entanto o que fica é que, escudados numa legislação simpática e em tribunais amigáveis, há uma grande maioria dos funcionários públicos que não está a participar de forma proporcional no esforço de ajustamento em curso. A viabilidade económica de uma empresa ou de um país não se decreta em acórdão, alcança-se por esforço solidário. A sensação de não equidade na repartição dos esforços é um veneno que mata…

25 setembro 2013

E eu pensei que tinha visto tudo

De há uns tempos para cá tornou-se moda, para não dizer praga, colocarem-se aloquetes (ou para quem preferir cadeados) nos gradeamentos das pontes como símbolo da união, da paixão, etc e tal…

Em Argel há uma ponte na zona de Telemly chamada ponte dos suicídios, de tal forma que lá se colocou uma grade para dificultar a tarefa. Ora bem, há cerca de duas semanas, três jornalistas lançaram o desafio de mudar a imagem da ponte para ponte do amor e convidaram os apaixonados da cidade a lá irem colocar o cadeado da sua paixão. A ideia é bem recebida e a as autoridades locais até decidem mandar pintar a tal grade.

Isto estaria bem se não se contasse com uns tais de fundamentalistas, salafistas que, “naturalmente”, consideraram que andar por aí em público a falar e a recordar o amor é uma heresia e um sortilégio. Vai daí, lá vão eles rebentar com aquilo, em nome da pureza e da recusa das influencias ocidentais nefastas.

Mas os apaixonados não desistem. Regressam na semana seguinte e deparam-se com a polícia que lhes pede uma “autorização administrativa” para lá fecharem o cadeado…

E eu pensei que já tinha visto de tudo!


Foto roubada

22 setembro 2013

E vão três !

Num curto espaço de tempo ocorreram dois factos relevantes, pelo menos para mim. A Microsoft comprou a divisão de telemóveis da Nokia por “tuta e meia”, relativamente à valorização passada desta, e eu, relutantemente, tive o meu primeiro iCoiso.

Sobre o descalabro da grande referência da modelar Finlândia, uma das únicas marcas europeias de tecnologia de grande consumo, pode dizer-se que sofreu de fartura mal digerida. Quando para muitos, esta era a “sua” marca inquestionável de telemóvel, eles não viram chegar os “dual-sim” que atiraram muitos dos seus fiéis para os braços da Samsung, mesmo a contragosto. A investida da Apple, abrindo o mercado para cima, também lhes passou ao lado. Possivelmente os seus últimos gestores “nasceram” ricos e que não tiveram iniciativa nem visão suficientes para enfrentar com sucesso o desafio de existir – um problema muito frequente.

Quanto à Apple, confesso que até tenho alguma simpatia pelo seu histórico de teimosia e coragem, e que após quase desaparecer, acabou por proporcionar um sucesso estrondoso. No entanto, este novo iCoiso faz-me torcer um pouco o nariz – parece querer mandar em mim mais do que eu gostaria Porque não recebe um cartão normal, porquê o cabo é específico e não USB standard? Felizmente não precisei de apresentar numero de cartão de crédito para o activar como já vi no passado, mas o estar fechado sobre um “ecosistema” próprio, por muito excelente que esta seja, enfim… e, talvez um dia descubra que o fechado “facetime” é superior ao aberto “skype”. Para já, ainda não descobri. Ainda por cima, poucos dias depois de o ter já tinha actualizações de sistema e de aplicações “obrigatórias” a fazerem-me nervoso miudinho.

Da Microsoft tenho uma herança de anti-corpos. Tiveram um enorme sentido de oportunidade, aproveitaram bem, mas nunca foram uma empresa de inovação nem de despertar o mínimo entusiasmo. Limitaram-se a espremer os seus clientes cativos sem grandes contemplações. Lembram-se que quando faziam novas versões de aplicações, cujo principal efeito parecia ser obrigar a comprar uma máquina nova…?

Hoje a Micrsoft, em queda, desdobra-se em esforços, nem sempre conseguidos, de fazer coisas bem-feitas. Será que vou passar a ter mais simpatia por eles, do que pela Apple? Será que tenho uma propensão doentia para ficar do lado dos mais fracos? Não, acho que não, é apenas uma questão de lidar mal com arrogância e muitas vezes é necessário passar pela mó de baixo para mudar de atitude. Infelizmente, demasiadas vezes, é esse o caso…

04 setembro 2013

Incêndios e descontrolo

Recordo-me de há uns anos largos atrás um importante incêndio florestal ter ocorrido em Maio e o ministro da tutela se ter desculpado pelo facto de este ter vindo antes da época oficial. Atendendo ao que se passa este ano, fico com uma certeza muito firme de que a época de incêndios se inicia na realidade quando a comunicação social pega assunto e começa a passar imagens sugestivas. Aí a coisa multiplica-se de forma assombrosa. Julgo que vale a pena reflectir e regulamentar algum tipo de restrições à divulgação das imagens dos fogos.

Sobre os bombeiros mortos, este ano, há algo de estranho. Os casos fatais anteriores de que me recordo são passados com “grupos” de bombeiros apanhados de surpresa. Esta situação actual de serem individualmente vitimados é nova, estranha e merecia alguma reflexão. O que há/houve de novo este ano para tal ocorrer? A formação que receberam foi a adequada? Há uma diferença entre voluntariado e voluntarismo. A complexidade do combate aos fogos florestais justifica certamente um alto grau de profissionalismo e, também, se existe uma instituição encarregada e paga para defender o país, este é provavelmente um campo que justifica a sua intervenção.

A afirmação de um responsável do sector, aparentemente suportada nas tais imagens da televisão, de que para evitar mortes é melhor deixar arder, é também muito estranha. Em primeiro lugar, é óbvio que em certas situações é necessário deixar arder uma parte para confinar o incêndio, sem que isso configure abandonar o fogo. Mas, se os bombeiros se expuseram onde não deviam, a culpa é do Ministro? Em segundo lugar, traduz uma lógica de valores no mínimo incompatível com a floresta. Uma boa floresta perdida pode ter muito mais valor e ser muito mais difícil de repor do que uma casa.

Com o devido respeito pelo esforço de quem lá está e os pêsames pelos perdidos, há aqui coisas que não estão bem e que não estão a ser devidamente analisadas. E, se não for pedir muito, que se pense no assunto antes da próxima época mediática de fogos.

02 setembro 2013

Venha mais uma guerra?

O Presidente dos EUA decidiu intervir militarmente na Síria, na sequência da constatação da utilização de armas químicas pelo regime. Se não há dúvidas sobre terem sido realmente usadas, a respectiva responsabilidade pode não ser tão clara e não são certamente as certezas oficiais dos funcionários de Obama que me convencem. Por trás dos rebeldes está, entre outros, o Al-Qaeda. Imaginar que eles próprios possam ter recorrido a essas armas contras os “seus”, para obterem o efeito que se perspectiva não é nada de improvável, atendendo ao histórico e aos valores de tal organização.

Agora, se até for verdade que a responsabilidade foi do regime, qual a base legal para a tal intervenção? Não pode ser obviamente uma decisão do presidente dos EUA, eventualmente validada pelas suas câmaras de representantes. E não pode ser porque isso dará argumentos a qualquer país para intervir em qualquer sítio, bastando-lhe uma decisão interna. É certo que os EUA não são um país qualquer, mas isso só lhes traz responsabilidades acrescidas. Se a Síria ultrapassou uma linha vermelha em direito internacional, a resposta teria que vir por direito internacional e não por iniciativa de um justiceiro solitário…

Finalmente há a questão de para que serve e o que mudará com essa intervenção. Enviam-se uns mísseis, fazem-se uns estragos, assusta-se os maus da fita e depois…? Radicalizam-se os ódios ao Ocidente, eventualmente cai um regime para um novo Iraque ou uma nova Líbia… consegue-se imaginar um balanço final positivo?

05 agosto 2013

Ter ou não ter GPS: Eis a questão!

Em tempos idos, ao palmilhar caminhos, mais concretamente para os lados do Gerês Oriental, havia um colega do grupo que tinha uma mania terrível. Qualquer caminho que aparecesse, à direita ou à esquerda, largo ou estreito, com cara de uso ou nem por isso, ele sugeria: “E se fossemos por aqui?”. A resposta era invariavelmente a mesma, ou uma de várias: “Esse caminho não tem cara de ir dar a lado nenhum, vai-nos desviar do nosso objectivo, fazer-nos perder tempo, qual o interesse de ir por aí à toa?” Ele, invariavelmente, respondia: “É capaz de ir dar a um sítio giro!”

Recordo-me disso quando agora, ao circular de bicicleta pelo monte, em cada encruzilhada me questiono: “E se eu fosse por ali?” E tento “cheirar”, procurar adivinhar qual a dinâmica e o destino daquele caminho, pensando: “Se tivesse um GPS, seria mais fácil”. Poderia com mais segurança tentar novos caminhos, minimizando o risco de chegar a um local sem saída no fundo de um vale e que exigisse muita energia adicional para de lá sair. E é que com a bicicleta a energia disponível tem limites!

Assim, até já seleccionei o modelo que me parece mais adequado, e vou seguindo nos sites de compra o respectivo preço para ver quando me aparece com um bom desconto para o agarrar. Ainda não encomendei, e por três razões: em primeiro lugar ainda não me apareceu a tal proposta tentadora, em segundo lugar porque os tempos que correm e que aí vêm sugerem contenção máxima… e falta uma razão.

Uma coisa é andar de cabeça erguida, tentando adivinhar, cheirando, estudando o mapa antes e depois e ir descobrindo e interiorizando o espaço explorado. Outra coisa é descarregar tudo, mapas e caminhos, para a maquineta e olhar para o seu visor, apenas. Afinal o G. tinha alguma razão quando insistia no desafio de  “E se fossemos por aqui… ?”. Se na altura houvesse GPS era mais fácil responder-lhe, mas não era a mesma coisa!

04 agosto 2013

O que o Povo quer

Quando há vários processos simultâneos com algumas semelhanças, é tentador fazer comparações e procurar paralelos e divergências nas causas e nas formas. O que pode haver de comum entre alguns movimentos de contestação em curso actualmente, como as primaveras árabes, a contestação na Turquia ou até no Brasil? A utilização de redes sociais é um ponto comum, é certo, como também o será serem usadas ruas e praças para os protestos, sendo que nada daí se conclui de muito relevante. Recordar ainda que Taksim em Istambul e Tahrir no Cairo começam ambas por “Ta” é … disparate.

No caso das chamadas primaveras árabes há certamente um contexto sociocultural com bastantes semelhanças nos vários países e, sobretudo, houve uma Al-Jazira, canal de televisão do Qatar, que ajudou a difundir e a propagar as contestações. Curiosamente no amigo Bahrain, ali mesmo ao lado, a ajuda foi outra. A Arábia Saudita foi apoiar militarmente o regime instalado, objecto de contestação popular. Se excluirmos estas e outras causas externas do xadrez geopolítico mundial que como, por exemplo, na Síria transformaram um movimento inicial genuíno de contestação num “simples” confronto sunita/shiita, penso que o traço comum nestas e em muitas outras revoluções passadas e futuras é simplesmente a população querer viver melhor. E este “melhor” declina-se em diferentes dimensões conforme os valores de cada um.

Para uns o melhor é haver mais liberdade, mais justiça, mais oportunidades, igualdade de acesso às mesmas, mais valorização do mérito e outras coisas desse género. No entanto, para muitos e muitos o “melhor” é simplesmente materialmente melhor como terem casa, carro e férias. Terem tudo aquilo que vêm nas imagens do mundo que lhes chegam lhes pela televisão e pela internet e a que eles acham terem direito.

Haverá países em que colocar uma parte da população a viver melhor é relativamente fácil. Basta actuar na válvula repartidora dos rendimentos dos recursos naturais que jorrem, como naturalmente a do petróleo, quando este existe. Noutros casos, essa mudança só se consegue com maior criação de riqueza e esta nascerá a partir do contributo esforçado de muitos (de preferência todos), criadas que estejam as condições para tal. Aqui pode surgir um ponto comum e fatal. Num país em que o sistema de valores não é são, em que a distribuição da riqueza, pouca ou muita, não obedece a critérios justos, pode instalar-se um entendimento generalizado de que não vale a pena contribuir mais porque a retribuição nunca dependerá da contribuição.

O facto de a população querer viver melhor e entender que isso se alcança apenas com a redistribuição dos recursos existentes, poucos ou muitos, não importando se justa ou injusta, o fundamental é estar-se individualmente do lado dos beneficiários, dá muito mau resultado.

Infelizmente este risco não é exclusivo do Magrebe, Médio-Oriente ou América Latina. Aqui mesmo, o grande desafio é manter na maioria da população a convicção de que a retribuição é função da contribuição e não de outras coisas mais, diversas, mas sempre injustas. Só com essa fé e consequente empenho se constrói um futuro melhor. E essa é uma das funções básicas de um Governo.

30 julho 2013

Níveis de segurança

Não parece haver dúvidas de que o acidente ferroviário na Galiza se deveu a excesso de velocidade na curva. Parece que o maquinista assumiu logo no momento que estava a circular muito acima do que devia. Os motivos para esse facto serão analisados e podem ser desatenção, indisposição ou outra coisa qualquer, mas escala à parte não deixa de ser equivalente a um condutor de autocarro que passou um sinal vermelho e provocou um grave acidente. Por aí deve ficar a investigação e daí sairão as conclusões.

Eu não entendo nada de comboios e posso estar a dizer um grande disparate, mas arrisco. Temos uma larga recta feita a 200 km/h e no final dela uma curva que deve ser abordada a 80 km/h. O maquinista saberia certamente disso, presumo que haveria instruções e sinalizações para o informar e avisar, mas… Para o que está em causa, faz sentido que essa operação depende exclusivamente da acção do maquinista e ser tratado de igual forma como o semáforo para o autocarro? Não era mais do que justificado haver algum tipo de segurança activa que antes da curva controlasse a velocidade do comboio e o travasse independentemente da distracção ou loucura do maquinista?

Aparentemente na zona de alta velocidade existe um sistema de seguimento e controlo da velocidade do comboio. Na zona do acidente em que ele estava na via antiga e convencional, o controlo é feito apenas por baliza pontuais, e a primeira baliza estava depois da curva…!

Certamente que não deve haver responsabilização criminal para quem não se lembrou de pôr uma baliza antes da curva, mas que isso traduz uma enorme ligeireza na abordagem à segurança, é inquestionável.

25 julho 2013

Detroit, forças e fraquezas

Detroit, a capital histórica da indústria automóvel dos USA, aquela que para muitos é ainda “a Indústria”, a cidade onde foi concebido e produzido o famoso Ford T (foto da fábrica aqui), onde nasceu o conceito do automóvel tal como o conhecemos hoje, declarou-se incapaz de cumprir as suas obrigações financeiras. Por outras palavras, entrou em falência. Dizia-se em tempos que o era bom para a General Motors era bom para os USA e vice-versa. Detroit foi e é a sede da GM, assim como da Ford e da Chrysler, os 3 grandes. Significa esta quebra da cidade emblemática que a GM não está bem? A GM esteve muito mal há poucos anos, mas numa daquelas reviravoltas que infelizmente nem todo o mundo consegue realizar, recuperou e está relativamente bem. Continuam-se a fabricar automóveis nos USA mas deixaram de ser feitos em Detroit e daí este esvaziar da cidade. A indústria automóvel fugiu daquela zona e a causa tem um nome principal: UAW – United Automobile Workers – o poderosíssimo e temível sindicato da indústria automóvel. Aliás, não a totalidade mas uma boa parte dos problemas dos fabricantes históricos há 5 anos, deveu-se precisamente ao facto de a sua base industrial instalada naquela zona não ser competitiva e suportar encargos enormes, herdados dos variados direitos adquiridos pela UAW para os seus afiliados ao longo do tempo. Daí que esta zona fortemente sindicalizada foi considerada como uma peste a evitar para novos investimentos e o que lá existia ficou definhando.

Se claramente a forte tradição sindical é causa relevante, a respectiva interpretação pode variar: para uns a inflexibilidade e a intransigência dos sindicatos mataram a cidade, para outros o “dumping social” praticado noutros estados nunca deveria ser permitido. É fácil discutir longamente sobre o assunto, como é fácil constatar que a consequência é clara e está consumada.

Passando aqui para este lado do Atlântico e pensando em dois exemplos de locais históricos da indústria automóvel. Em França fecha fábrica após fábrica e a percentagem de automóveis franceses fabricados no país de origem vai diminuindo inexoravelmente. Há uma grande discussão sobre o tema mas os números são claros: os locais em França são menos competitivos. Na Alemanha onde o automóvel está no ADN do país e onde também haveria todas as condições potenciais para se assistir a uma deslocalização irreversível, encontraram-se soluções e a indústria está e lá deverá continuar. O caso alemão de diálogo pragmático e construtivo é um excelente exemplo que deveria ser interpretado e transposto para todos os locais “ricos” (ou que agem como se o fossem), no sentido de evitar “Detroits” em série. Curiosamente, ou não, na Alemanha até há sindicatos fortes, provando que o problema não está em existirem sindicatos. Tudo depende da cultura, como sempre!

19 julho 2013

Coisa de Ramadão

Entre o nascer e o pôr-do-sol, no caso concreto actual de Argel, das 3h43 da manhã às 20h09 da noite, além de outras restrições, não se come nem bebe. Portanto o pequeno-almoço está completamente fora do horário permitido. Aliás, para um muçulmano desrespeitar o Ramadão não é bem crime mas pode dar tribunal.

Nos hotéis internacionais há naturalmente pequeno-almoço para os estrangeiros, mas como eu sou poupadinho, vou para um mais barato, menos internacional e em que não há. Quando cá estou no Ramadão tenho que exigir um pequeno-almoço, só para mim, e que sai sempre algo improvisado.

Desta vez no primeiro dia correu bem: croissants, compotas, queques recheados, sumo de laranja, ovo cozido e café ! Impec! No segundo dia desapareceram os croissants e as compotas. No terceiro dia foi a razia: apenas tinha queques e café! Com um pouco de reclamação lá consegui um sumo. Felizmente era o último dia, até porque a quantidade do que sobrava também diminuía de dia para dia!

16 julho 2013

Insuportável cheiro a urina

Todos sabem que é característico dos canídeos levantar uma das patas de trás e deixar cair umas gotas de urina aqui e acolá para marcar o seu território. Não é por necessidade de urinar, é apenas questão de deixar uma marca que sinalize a sua passagem e existência aos seus pares. Como muito muitos, creio eu, decidi não acompanhar em detalhe esta chamada crise política actual. Que haja divergências e tensões é normal e correctamente gerido até pode ser salutar. Agora que isso seja tratado na praça pública da forma como foi é indecoroso e muito irresponsável.

Com tanta confusão, faz e desfaz, diz e desdiz, avanço e recuo, considero tarefa inglória e inutilmente desgastante seguir o assunto passo a passo. Espero pelo desenlace final, para ver como ficaremos e na altura farei o balanço. Até lá, o que me incomoda realmente é este insuportável cheiro a urina, que torna o país muito pouco saudável!

14 julho 2013

A História não se repete

Era uma vez um país em que após décadas de regime fechado a pressão popular o obriga a abrir-se e que realiza eleições abertas, multi-partidárias. As eleições são ganhas por islamitas mas os militares impedem-nos de governar. Será o Egipto de hoje? Pode ser, mas eu estava a pensar na Argélia de 1992 e onde o resultado dessa exclusão foi uma década negra com cerca de 200 000 mortes. Para lá da guerrilha tradicional e atentados cegos em zonas urbanas como mercados e transportes públicos, houve listas de gente das letras e das ciências eliminados um a um, houve aldeias inteiras isoladas e os seus habitantes degolados e um sem número de outras atrocidades. Irá o Egipto cair num caminho idêntico? Esperemos que não, até porque o contexto é diferente. Na Argélia a segunda volta das eleições legislativas foi suspensa pelos militares e os islamitas nunca chegaram a governar, tendo saltado para a clandestinidade com toda a força e “legitimidade”. No Egipto eles fizeram a experiência do governo e parece haver uma parte importante da população que apoia a recente acção do exército.  

Num país árabe que se abre ao multi-partidarismo, é previsível serem os islamitas a ganharem as primeiras eleições – eles conseguem apresentar uma proposta concreta e diferente com a qual uma grande parte da população se identifica: “a nossa religião, os nossos valores”. No entanto, para muitos, o objectivo principal não é a democracia em si, mas simplesmente viverem melhor. Se o novo governo não conseguir responder a esse anseio com brevidade, rapidamente se desencanta. Terá ainda que procurar um compromisso dificilmente praticável entre a facção islâmica mais conservadora para quem a Sharia pode e deve servir de Constituição e uma parte da sociedade, mais moderna, que até participou na revolução buscando um país mais moderno, e que se assusta enormemente com alguns (des)propósitos como, por exemplo, no que diz respeito à condição feminina.

O primeiro-ministro turco, islamista, Recep Erdogan, disse uma vez, distraído ou não, que a democracia é como um comboio que se apanha e donde se sai quando se chega ao destino pretendido. Morsi no Egipto estaria a tentar por em prática o mesmo princípio. Como se ironizava na Argélia na altura, democracia seria um homem, um voto… uma vez! Sendo o Egipto um país fulcral no mundo árabe pelo seu peso demográfico e localização, o que lá acontecer é de extraordinária importância para meio mundo.

Numa grande encruzilhada está também a Tunísia, que apesar de uma dimensão muito inferior ao Egipto tem um peso não negligenciável. Foi lá que tudo começou em Janeiro 2011. Esta semana iniciou-se o Ramadão. São 30 dias em que entre o nascer e o pôr-do-sol, para lá de outras restrições, não se come e não se bebe. Em 1964, há quase 50 anos, Bourgibga, o líder forte e pai da Tunísia moderna, na altura pouco democrática, bebeu um sumo de laranja em directo na Televisão, em pleno dia durante o Ramadão, argumentando que o jejum podia ser quebrado em caso de guerra e que na Tunísia estava em curso uma batalha pelo desenvolvimento. Por muito menos há hoje gente levada a tribunal, acusada do crime de muito largo espectro de “atentado ao sagrado”.

Presumir como muitos o fizeram há dois anos, que bastava registar partidos, organizar eleições e contar votos para ter um país firme no caminho do desenvolvimento é obviamente uma enorme ingenuidade. Esperemos, e se possível ajudemos, que corra bem. Por meio mundo, que é também o nosso, e muito especialmente pelos seus homens e mulheres, muito principalmente estas, que merecem viver em dignidade com paz, respeito e com oportunidades.