21 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (I)


Leio na imprensa que a Ford está a pontos de vender a sua fábrica de Almussafes, Valência, à chinesa BYD. Todo um símbolo, depois de acabar com os convencionais e históricos Fiestas e Focus e de fazer acordos com outros construtores europeus para produzir os seus elétricos. A seguir ao Capri com a VW, sem grande sucesso, agora passará para Renault. Basicamente significa que não vêm potencial para investir numa fábrica própria e .. a Renault terá espaço para aceitar outras marcas nas suas linhas. Ainda, todo um símbolo.

Isto lembrou-me uma visita que fiz a essa fábrica espanhola da Ford, algures por 1993 ou perto e no meio de outra crise da indústria europeia. Estava em curso a construção da Autoeuropa, na altura uma parceria em que a VW desenvolveu o veículo e a Ford as instalações. Eu estava baseado na Bélgica e saiu o concurso para um pequeno armazém automático, para a fábrica de Palmela. Destinava-se a ferramentas e consumíveis, materiais não integrados no veículo, mas era muito importante para nós, pelo símbolo de estar naquele investimento e naquele sector.

Como as compras estavam a ser coordenadas a partir da histórica fábrica da Ford de Colónia e de Bruxelas a lá eram 220km, fiquei encarregado de acompanhar a proposta. Vroumm e fui reunir com o comprador responsável pelo concurso. Não me recordo do nome, mas vou chamar-lhe Schmidt, combina com o perfil de que tenho memória. Uma curiosidade no parque de estacionamento do pessoal da fábrica. Numa altura em que a indústria europeia estava sob enorme pressão pela oferta asiática, ver automóveis japoneses ali pareciam-me ser uma incoerência.

O Schmidt explicou-me o procedimento. As propostas recebidas eram analisadas, validadas tecnicamente e a mais barata adjudicada. Não havia segunda hipótese nem negociação. Tínhamos interesse em apresentar o melhor preço logo na primeira e única oportunidade.

O caderno de encargos técnico era muito detalhado e especificava opções técnicas que não utilizávamos, algumas interessantes e que até posteriormente adaptamos como standards. Sendo portugueses, para um projeto em Portugal apresentamos o preço em escudos.

Submetida a proposta e decorrido o tempo de apreciação, vroumm, lá fui visitar o Schmidt que me disse que estávamos validados e éramos os mais baratos. Abri um sorriso de orelha a orelha e disse: Então, ganhamos! E ele respondeu… Não !

Continua...

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