27 janeiro 2014

A praxe no fundo

Muito se tem comentado sobre os excessos da praxe a agora ainda mais depois da tragédia do Meco. Eu acho, que para lá dos excessos, há um problema sério de fundo, no princípio. “A praxe prepara-nos para a vida onde vamos encontrar chefes e regras”, dizem. Comecemos pelas regras. Elas devem existir quando há um propósito claro e têm uma finalidade útil. É importante estar definido que se circula na estrada pela direita. Agora, um conjunto complexo de regras delirantes sem sentido e sem utilidade que não seja, eventualmente, demonstrar o poder de quem as decreta, não ensina nada de positivo, muito pelo contrário. Depois, a parte dos chefes. Na vida real, correcta, as hierarquias são ocupadas por quem demonstra ter mérito e capacidade para o ser. Há uma zona muito negra quanto ao poder nas tais comissões da praxe, por muito pomposa que possa ser a sua designação oficial. Como funcionam? Foram um dia criadas, assumiram a liderança do processo e ao longo do tempo o testemunho foi sendo transmitido conforme regras internas, sabe-se lá quais… Daí que se possa e deva questionar qual a legitimidade e a representatividade destas comissões para imporem regras aos demais. Vamos lá a ver friamente: um grupo que se estabelece dentro de uma comunidade, com organização interna fechada e que subjuga o resto da comunidade a regras arbitrárias, humilhantes e mesmo agressivas, não se enquadra num cenário de “tradição” e muito menos “académica”. Está mais próximo de um gangue de bairro!

E, para acabar, meninos: fazer caixinha para ninguém dizer quem atirou o avião de papel nas costas do professor é uma coisa; prejudicar deliberadamente a investigação da morte de 6 colegas não é solidariedade de grupo: além de vergonhoso é, para todos os efeitos, criminoso.

24 janeiro 2014

Uma análise deficitária

Ao que parece, o défice das contas públicas em 2013 vai ficar melhor do que a última previsão e há quem julgue que isso pode ser uma oportunidade para reduzir a “austeridade”. Ora bem, 1% menos do que o previsto é bom mas 4% negativo continua a ser mau, continuamos a afundar, apenas a um ritmo mais lento.

Em números muito redondos, com uma dívida pública que supera largamente o PIB, uma taxa de crescimento prevista para 2014 inferior a 1% e juros a 5%, é fácil entender que continuamos a empobrecer e que a probabilidade de sairmos deste buraco é tudo menos garantida.

Presumir que os 4% de défice são um “alívio”, uma “folga” que pode permitir relaxar o esforço de consolidação orçamental é um sinónimo triste de que sem uma tutela e uma disciplina imposta pelo exterior não nos governamos nem nos deixamos governar. Se esta austeridade é a correcta isso pode e deve ser discutido. Agora, no cenário actual, achar que 4% de défice já permite abrir os cordões à bolsa é de uma irresponsabilidade e/ou ignorância assustadora.

Já agora, a propósito dos juros, porque é que o governo não consegue captar directamente as poupanças nacionais, oferecendo uma remuneração inferior à que suporta nos mercados e superior às aplicações disponíveis, dispensando o sistema financeiro intermédio para uma parte da dívida? Propostas nesse sentido não são muito visíveis, mas também, se calhar, um cidadão tem mais confiança num contrato que faz com um banco do que com o Estado…

22 janeiro 2014

Os recolectores do alheio

Num passado longínquo o ser humano era recolector. Passava e apanhava o que a natureza tinha para dar. Há um processo evolutivo posterior em que passamos a viver do que plantamos e a usufruir do que construímos. Esta organização social, que nos permite viver com uma qualidade muito, muito superior à desses tempos de recolectores, deixa pouco espaço para andarmos por aí a apanhar coisas na natureza.

Esta reflexão vem a propósito de duas notícias que me passam à frente dos olhos. O caso da China em que funcionários e próximos do aparelho do poder deitaram a mão a uns largos milhares de milhões e os aconchegaram em oportunos paraísos fiscais. Outro caso mais próximo e mais comezinho, passa-se na casa Fernando Pessoa, em Lisboa, que encomenda serviços directamente a uma empresa que tem sede na residência da sua directora artística. Em ambos os casos, local e dimensão à parte, há aparentemente um ponto comum: aproveitar uma oportunidade para ficar com uma maçã que está ali à mão, mesmo sem ter direito a ela. Há ainda outro ponto comum: não ocorrem em meios tipicamente capitalistas. Um dos casos ocorre num país/partido comunista/popular; o outro num meio artístico/cultural. Isto presume que o fenómeno é certamente muito transversal e abrangente e, quem sabe, herança dos genes recolectores que subsistam.

Para lá do enquadramento legal, policial e penal que se pode dedicar a estes fenómenos com mais ou menos empenho e eficácia, há um aspecto fundamental. O aproveitar uma situação/oportunidade para deitar a mão ao que não é nosso, destrói o fundamento da nossa sociedade e é um retrocesso civilizacional. A tentação é grande e não parece conhecer restrições quanto ao meio em que se desenvolve mas, no entanto, a qualidade de vida que todos queremos depende do que construímos. São os valores que estão na base da criação da riqueza que se destroem e isto é pior do que o prejuízo material associado.

17 janeiro 2014

Orgulho e vergonha

No passado, na escola primária, falavam-nos tanto das glórias passadas, 500 anos atrás, que até chegávamos a questionar: mas de que serve isso hoje?!? Materialmente pode servir de pouco e não é muito construtivo caminharmos para a frente com a cabeça voltada para trás. No entanto, sabermos de onde vimos ajuda a saber quem somos e uma rica identidade é um factor valioso no presente. Vem isto a propósito de outro pormenor da história do meu país de que me orgulho muito.

“Está pois a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande história. (...) Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfrutai de antemão essa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos”.

Esta saudação é do escritor francês Victor Hugo, que já no seu romance “ O último dia de um condenado” de 1829 fazia uma pungente interrogação do sentido da pena de morte e um veemente apelo à sua abolição.

A abolição para crimes civis em Portugal ocorreu em 1867. Hoje, efectivamente, toda a Europa seguiu o pequeno país, assim como quase todo o mundo. Dentro das excepções encontra-se inexplicavelmente um grande país e com grandes responsabilidades no concerto das nações chamado Estados Unidos da América. Infelizmente, para lá de não desistir de executar condenados, demonstram ainda não saber matar como aconteceu no passado dia 16/1, com a execução de Dennis McGuire no Ohio. Face à impossibilidade de obterem os químicos habituais por parte dos fabricantes europeus que se recusam a fornece-los para esse fim, resolveram experimentar uma nova combinação. Tanto quanto entendo, a execução química deve ter uma fase inicial de anestesia antes da fase letal, que não deve ser sentida pelo executado. Desta vez, e não é caso único, correu mal. O desgraçado demorou 24 minutos a morrer tendo estado mais de 10 a arfar e em convulsões, não se sabendo bem se morreu asfixiado, aterrorizado ou por outro motivo qualquer!

Dois séculos após o romance de Victor Hugo e 150 anos depois do exemplo do pequeno país, há ainda quem agonize não só psicologicamente mas também fisicamente às mãos de um estado de direito. “Shame on you! “

08 janeiro 2014

Futebol, Fátima e Fado

Eram estes os 3 F’s que numa época triste simbolizavam a identidade nacional e mobilizavam o país. Para cada um deles, havia uma figura correspondente representante: Eusébio, Lúcia e Amália. Com o desaparecimento físico desses três símbolos, Lúcia a caminho da beatificação acelerada, Amália no Panteão, reivindica-se que Eusébio siga o mesmo caminho da fadista, apesar de isso não se enquadrar na legislação existente, que define quem deve ser homenageado no local.

Parece-me mal que isto seja debatido e até decidido a quente, assim como penso que estes assuntos deve ser definidos por princípios de base gerais e não em função de casos concretos. Se a legislação alterada levar Eusébio ao Panteão, que dizer nos dias, esperemos que longínquos, de Carlos Lopes ou Rosa Mota? Com todo o respeito pela figura e vida de Eusébio, fica um certo aroma de haver uma rentabilização excessiva da sua morte, de se estar ainda e sempre a sobrevalorizar os famosos 3 F’s.

Mesmo considerando que o horizonte temporal dos presentes no Panteão nacional é apenas da segunda metade do século 19 para a frente, estarem lá, além de Amália e Humberto Delgado, 4 escritores e 4 presidentes da República, é pouco representativo de todos os notáveis da pátria dos últimos 150 anos. Ou seja, este “Pan” não é muito abrangente e fazê-lo sede do Futebol e Fado também não o irá engrandecer.

No fundo, o importante não é onde ficam os ossos, é o que resta da vida. Mais importante do que o material morto é o imaterial vivo. Como dizia muito sabiamente um grande, dos maiores: “A minha pátria é a língua Portuguesa”.

02 janeiro 2014

Eu e a música tradicional portuguesa - Da teoria à prática

Fruto de um conjunto de circunstâncias, eu e um grupo de amigos assumimos a direcção de um grupo folclórico nos anos 80 – “A Rusga de Arcozelo”. O grupo tinha já na sua carta de intenções que folclore era mais cultura do que espectáculo, que não se devia limitar às danças e cantares, nem estes se restringirem aos palcos.

Do ponto de vista musical deveria obviamente procurar o rigor e a riqueza que, de uma forma geral, são procurados para os trajes (embora por vezes mais para os femininos). Na altura em que assumimos o grupo, a tocata compunha-se de um acordeão (executante remunerado) e dois ou três instrumentos de corda, apenas a fazerem acompanhamento. Uma das vantagens do dito cujo é que, para o bem e para o mal, ele pode assumir sozinho a festa e isto é importante quando não está em causa uma ou duas actuações, mas sim várias dezenas por ano.

Não havia executantes em quantidade e muito menos com a qualidade necessária para interpretar a melodia em cordas, permitindo assim dispensar o dito cujo de um dia para o outro. Não existiam muitas escolas de música e os poucos que aprendiam (principalmente piano… teclas…) não estavam minimamente motivados para um projecto desta natureza.

Foi procurada e nomeada uma pessoa para assumir a responsabilidade da tocata, função tantas vezes órfã; foi encontrada e preparada uma pessoa que lá passou as melodias para as cordas de um bandolim e foram formadas outras, que sem formação ou apetência musical significativas, aprenderam o estado de espírito necessário para acompanhar a função. Eu fiz parte deste último grupo.

Iniciou-se uma fase transitória em que o acordeão aprendeu a respeitar e a dar o espaço aos demais, recuando em todas as fases em que não era indispensável. Quem cantava reaprendeu a fazê-lo por sua iniciativa, deixando de ser em cópia do fole e, quando se entendeu que estava pronto, pronto ficou, e sem acordeão.

Não estávamos ao nível técnico dos grupos bem preparados, da “música tradicional em segunda mão”, mas o objectivo não era esse. O objectivo principal era respeitar a origem e, curiosamente ou não, confirmar que o resultado final além de mais correcto era mais rico e mais agradável de ouvir.

E um exemplo simples do resultado final está aqui.

Continuação do anterior "A culpa"

E acabou...!

30 dezembro 2013

Eu e a música tradicional portuguesa - A culpa

Existe claramente, na minha opinião, um responsável principal pelo empobrecimento da música tradicional, pelo menos nas Terras de Santa Maria, que são as minhas, e que se chama acordeão. Quando os grupos folclóricos são criados, nos anos 50 ou 60, mais década, menos década, o acordeão existe na música tradicional, mas é um recém-chegado. Na época de referência a que se reportam os grupos, início do século XX, não existia. A sua inclusão é um anacronismo que infelizmente não foi expurgado.

Podia ter um efeito subtil, apenas visível ao perto por especialista, como usar uma camisa de fibra sintética em vez de linho, mas não. Poderia ter um efeito apenas visual, como usar uma viola clássica amarelinha em vez de uma popular de madeira clara, e com sonoridade idêntica, mas não. O som é diferente de todos os outros.

Poderia ser um som novo mas complementar, como se, por exemplo, se acrescentasse uma guitarra de fado numa tocata e ela por lá se misturasse, mas não. A natureza é completamente diferente e não se integra. As cordas têm uma sonoridade saltitante e sincopada, o acordeão é redondo e contínuo. Tem, ainda, uma potência tal que se sobrepõe a tudo e reduz os instrumentos de corda “antigos” a um estatuto secundário e apagado.

Quando Júlio Pereira lança o álbum “Cavaquinho”, abre-se a boca toda para trás de espanto: como é possível que um instrumento assim existisse e não se conhecesse daquela forma? Sim, ele andava nos grupos folclóricos, mas muitas vezes em função pouco mais do que meramente figurativa.

E, ainda, o acordeão poderia ser tocado de uma forma equilibrada, dando espaço aos demais participantes, e, por exemplo, recuando quando alguém começa a cantar, deixando o protagonismo às vozes, que é quem o deve ter nesses momentos, mas não. Por norma, ele arranca a pleno fole, faz tudo, tudo, do princípio ao fim e quem quiser que venha atrás …

Continuação do anterior "Alguns sinais"
Continua para "Da teroria à prática"

28 dezembro 2013

Eu e a música tradicional portuguesa - Alguns sinais

Estamos nos 70, poucos anos após o 25 de Abril, o povo é quem mais ordena, povo para aqui, povo para ali e o popular ganha muita popularidade. Aparece então gente de outros meios, e com outros meios, a tocar música tradicional, indo buscá-la à fonte, directa ou indirectamente. Tradicional em segunda mão, como dizia com humor Michel Giacometti, um nome fundamental das recolhas, de quem nunca é demais realçar o quanto lhe devemos.

E o que se ouve destes novos intervenientes surpreende. Destaco um nome especial (para mim): A Brigada Vitor Jara. Assumem claramente que tocam música tradicional, com novos arranjos, sempre com instrumentos tradicionais, mas sem os restringir à sua zona geográfica original. Mais uma vez não se pode identificar directamente a música tradicional com aquilo, mas a beleza, força e diversidade dos temas, pressagiam que lá por trás andaria uma riqueza escondida.

Outra grande referência no final da década de 70 são os Almanaque e o seu álbum “Descantes e Cantaréus”, em que assumem que é mesmo, mesmo, tradicional, igual à recolha original. O disco viaja por todo o país, mas tem um significado especial para mim, pela proximidade, a “Tirana”, que tem uma beleza e uma força incríveis. O que se passava então com os grupos folclóricos e a sua estridência que nada tinham a ver com isto e quase parecem oriundos de um mundo completamente diferente?

Existe no início dos 80 um grupo que é uma “aberração folclórica” à luz dos cânones habituais: não dançam e não têm acordeão! Mas como tocam e como cantam! Recomendo o “Senhor da Pedra”, de “ir ao céu e tornar a vir…”. É o “Grupo de Cantares de Manhouce” e a senhora solista (cantadeira), nada estridente, ficará depois conhecida, atravessando outros palcos: Isabel Silvestre.

A Tirana está aqui
E o Sr da Pedra está aqui

Continuação do anterior "Antes"
Continua para "A culpa"

27 dezembro 2013

Eu e a música tradicional portuguesa - O Antes

A minha relação com a música tradicional portuguesa começa por não existir. Situando-me na segunda metade da década de 70, música portuguesa para mim era Sérgio Godinho, José Afonso, Adriano, José Mário Branco, Fausto, Trovante, Banda do Casaco e por esses lados fora…


Música tradicional era tipicamente uma senhora a cantar num registo muito alto, acompanhando um acordeão muito forte e com um tilintar de ferrinhos estridente. Estridente seria a palavra principal a aplicar. Da mesma forma como não tínhamos petróleo nem carvão de qualidade, também não teríamos música tradicional rica. A respeitar, é certo, mas pobre.

Por outro lado, nos tempos do Estado Novo, o folclore foi objecto de alguma manipulação não inocente nem decente. O “regime” da altura não se interessava muito sobre o fundo do povo e pouco valorizava a sua cultura tradicional, mas usava o “folclore” como montra de propaganda, reduzido aos estereótipos do Vira Minhoto, Corridinho do Algarve, Fandango Ribatejano, Bailinho da Madeira, Pauliteiros de Miranda, num espectáculo bonitinho e superficial …. Daí o nome ser usado nalguns meios para adjectivar qualquer coisa com mais de 3 cores e sem muita substância.

Alguns dos nomes acima citados fizeram algumas incursões pelo campo do tradicional, sendo talvez de destacar (para mim) o Zeca Afonso, o Adriano e a Banda do Casaco, mas esses trabalhos eram interpretados (pelo menos por mim na altura) como um ir buscar inspiração e não como representativos da qualidade e da riqueza do tradicional original.

Continua para "Alguns Sinais"

26 dezembro 2013

Descobri um tesouro

Há umas semanas atrás fui ver um espectáculo ao vivo do Carlos do Carmo… e não gostei muito. É uma história longa. Na infância eu detestava-o e/porque sucedia ele passar horas largas a fio, como protagonista único do leitor de cartuchos do carro do meu pai. Quando mais tarde o passei a apreciar, conhecia tudo de cor. Agora, quando o ouço cantar/dizer “Duas lágrimas de orvalho…” com um timbre algo oscilante, a fugir entre o cantar e o declamar, não deixo de recordar perfeitamente a forma cristalina e forte como aquilo saía nos cartuchos do meu pai… e a sensação de perda é enorme.

Lá no meio do espectáculo referiu os Açores, cantou “O Sol preguntou à Lua…” e soou-me muito pastoso, sem garra. Lembrei-me de que conhecia isso diferente, para muito melhor, pelo grande, de corpo e alma, Adriano Correia de Oliveira. Fui a correr ouvir para “desenjoar”!

Ao explorar um pouco mais a obra de Adriano descobri que esse tal “Sol…” além de fazer parte do álbum “Cantaremos”, que possuo, também estava integrado numa compilação/gravação que ele fez pouco antes de morrer, chamada “Cantigas Portuguesas”. Andei às voltas. Não é fácil encontrar hoje em dia produções de qualidade com alguma idade e acabei por comprar uma caixa com a obra completa, mesmo implicando alguma redundância com os 3 álbuns que eu já tinha. E, lá estavam as “Cantigas Portuguesas”, em que o Adriano, mais conhecido pelos fados e trovas, canta num registo popular extraordinário, belo e forte da Charamba dos Açores ao Vira do Minho! Aquele senhor cantava mesmo muito bem!

E isto deu-me vontade de contar a minha história com a música tradicional portuguesa. Vale o que vale, virá a seguir!

PS: E sobre Adriano, algo mais está aqui

22 dezembro 2013

Estado de Direito

É indiscutível que deve existir uma lei básica e quem fiscalize o seu cumprimento de forma rigorosa. Apesar de discordar de muito que tem sido feito em termos de governo e desgoverno recente, estes últimos acórdãos do TC sobre as alterações ao estatuto da função pública parecem-me injustos e fruto de uma interpretação do texto constitucional algo criativa e muito discriminatória. O famoso princípio da confiança aparentemente decorre do artigo 2 que textualmente é o seguinte: “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.” 

Daqui chegar aonde o TC chega, pelo caminho de que “o principio da protecção da confiança, basilar no Estado de Direito democrático, implica um mínimo de certeza nos direitos das pessoas e nas expectativas jurídicas que lhe são criadas, não admitindo as afectações arbitrárias ou desproporcionalmente gravosas com as quais, o cidadão comum, minimamente avisado, não pode razoavelmente contar”, é algo que me custa a entender. 

Se eu resolvo comprar uma casa e a seguir o Estado me sobe o IMI e me aumenta o IRS, de forma a eu já não a conseguir pagar, não está também em causa uma quebra desse princípio de confiança? Aonde acaba esta interpretação de que o respeito pelo “Estado de Direito” fica comprometido em cada mexida significativa nos bolsos dos cidadãos? E, nesta perspectiva, são apenas os funcionários públicos ou pensionistas do Estado que vivem num Estado de Direito? Onde fica a “confiança” no Estado de um cidadão que vai ter uma carga fiscal adicional como consequência directa disto? Na minha opinião, fica em causa, e gravemente, o artigo 13 da Constituição, tão ou mais importante do que o anterior, com uma leitura muito mais simples e clara, e que é o princípio da igualdade.

09 dezembro 2013

Ímpetos de decreto

Em França acaba de votar-se uma lei em que, à semelhança do que se passa na Suécia, irá penalizar os clientes das prostitutas. A argumentação de defesa passou bastante pela defesa da dignidade da mulher, do combate ao tráfego dos seres humanos e por aí fora…

Ora bem, deixando de lado o filosofar se é um decreto que extingue na prática a chamada mais velha profissão do mundo, foi muito interessante um artigo publicado no Monde sobre a prostituição … no masculino. O artigo está aqui e é curioso como com ele se desmonta completamente a argumentação que defende a lei. Não se trata de mulheres, mas sim de homens e não há nenhum tráfico nem escravidão. Fazem-no porque querem e porque acham simpático o valor que recebem. Não acham que “vendem” o corpo porque no final até ficam com ele inteiro. Ou seja, o argumento de base da legislação não se aplica de todo a este caso, como não se aplicará a outros, mesmo no feminino.

Se ninguém pensa em proibir a apanha de morangos devido às condições de recrutamento e de trabalho de alguns desgraçados que por lá são apanhados, será que proibir a prostituição é a forma de acabar o outro tráfico? Tenho sérias dúvidas, assim como tenho uma solene irritação com estas posturas feministas redutoras. A dignidade a defender é a do ser humano e no fundo, não na rama.

02 dezembro 2013

ENVC - O fim do faz de conta

Tenho uma teoria segundo a qual as empresas e as entidades económicas em geral se dividem em dois grupos Há aquelas para as quais no final da linha está um consumidor e as outras em que está um contribuinte. Para lá de várias diferenças de valores e cultura, há um ponto claro: ao produzir por 120 algo que apenas se consegue vender por 100, as primeiras têm que mudar ou morrem, as segundas esperam que o contribuinte, directa ou indirectamente, as compensem.

Os estaleiros navais de Viana de Castelo (ENVC) são claramente uma empresa do segundo grupo. Basta olhar para os resultados dos últimos anos: o que gastaram versus o que produziram para evidenciar o descalabro. Mesmo uma boa parte do que produziram foi contratado em condições não concorrenciais, e já sem sequer referir a famosa história do navio para os Açores rejeitado pelo comprador e estranhamente sem responsabilização nenhuma.

Face à esta gestão pública calamitosa, a manutenção da actividade passava por reivindicar, e em devido tempo, uma privatização da empresa, com regras e responsabilidades claras. Se os 600 trabalhadores não se pagam e se a contribuição do contribuinte fechou, só havia duas saídas: mudar ou fechar. Os trabalhadores e todos os que lutaram pela manutenção da situação existente estiveram a defender o insustentável que, naturalmente, mais tarde ou mais cedo iria estourar. O facto de o processo de concessão implicar o despedimento prévio de todos os trabalhadores dos ENVC traz-me uma surpresa e um espanto. A surpresa é que o regulamento do concurso não tenha incluído nenhuma cláusula de retoma do quadro do pessoal existente, mesmo que parcial; o espanto é que só se descubra isso agora: foi escondido pelo governo ou não foi analisado no devido tempo pelos que agora se manifestam surpreendidos? Apenas mais um episódio fora de tempo neste processo pleno de desencontros com a realidade.

Já agora, o custo das rescisões não deve ser comparado com a renda da concessão, mas sim com o valor que o contribuinte lá teria que continuar a colocar ao manter-se este “faz de conta”

25 novembro 2013

Anarquistas, carbonários e Stravoguines

Não, não estamos bem. Temos uma terrível falta de liderança, de competência e de seriedade por parte de quem nos governa. Por acaso, no passado até vivemos algo idêntico, sem troika mas com FMI, e se é certo que com muito mais carisma, quanto a competência e seriedade… venha o Diabo e escolha! Dizem-nos então esses antigos protagonistas que estamos a entrar numa ditadura, que a violência é inevitável e que uma revolução está aí ao virar da esquina. Presumo que a larga maioria dos portugueses tem inteligência suficiente para encolher os ombros a tamanho desplante fruto de senilidade ou duma tentativa de ajuste de contas pouco digno.

Acreditar que uma solução posso passar pela bastonada é falta de discernimento e/ou de seriedade e, principalmente, brincar com coisas muito sérias e perigosas! Eu sei que os ideais e acções dos anarquistas carbonários e afins do fim do século XIX podem parecer muito românticos e excitantes vistos à distância. Só que nas revoluções há gente que morre, inocentes que são prejudicados e oportunistas que emergem. Do que precisamos é de liderança e não certamente de uma liderança que se imponha à bastonada!

Gosto muito de Dostoivesky e acho muito interessante a figura de Stravoguine, mas passando à realidade fico-me pelo pragmatismo do Fernando Pessoa: “Num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, e romantismo, sim, mas devagar...)”.

Vindo da direita ou da esquerda, com maior ou menor carisma e cultura dos intervenientes, ficou provado que realmente há vida para lá de muitos anos de défice: chama-se troika!

30 outubro 2013

Prece a um santinho digital

Tu que conheces e podes controlar algo dos insondáveis desígnios dos teus representantes na Terra, que fazem e desfazem programas e aplicações, que nós temos que usar e sofrer, peço-te uma coisa, apenas uma e apenas uma vez para exemplo. Que exista uma, pelo menos uma, daquelas actualizações que nós temos que fazer em que, simultaneamente:

- não seja obrigatória – se preferirmos a versão anterior, que a possamos continuar a utilizar simplesmente e sem problemas

- tenha uma melhoria significativa das funcionalidades e do desempenho e não simplesmente uma mudança estética, mudando as coisas de sítio, para nos entretermos a descobrir de novo, ou inundando-nos com fotografias dos interlocutores e outras funções sociais

- que utilize menos recursos do que a anterior – gaste menos espaço e não degrade a velocidade de utilização da nossa máquina.

Eu sei que estou a pedir muito. Especialmente a última condição parece-me ser absolutamente inalcançável, mas, pronto, fica o pedido feito, em jeito de desabafo.

PS: Na ressaca da instalação do Office 2010. Quanto ao Windows 8, é uma coisa na qual nem quero pensar… !