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27 janeiro 2014

A praxe no fundo

Muito se tem comentado sobre os excessos da praxe a agora ainda mais depois da tragédia do Meco. Eu acho, que para lá dos excessos, há um problema sério de fundo, no princípio. “A praxe prepara-nos para a vida onde vamos encontrar chefes e regras”, dizem. Comecemos pelas regras. Elas devem existir quando há um propósito claro e têm uma finalidade útil. É importante estar definido que se circula na estrada pela direita. Agora, um conjunto complexo de regras delirantes sem sentido e sem utilidade que não seja, eventualmente, demonstrar o poder de quem as decreta, não ensina nada de positivo, muito pelo contrário. Depois, a parte dos chefes. Na vida real, correcta, as hierarquias são ocupadas por quem demonstra ter mérito e capacidade para o ser. Há uma zona muito negra quanto ao poder nas tais comissões da praxe, por muito pomposa que possa ser a sua designação oficial. Como funcionam? Foram um dia criadas, assumiram a liderança do processo e ao longo do tempo o testemunho foi sendo transmitido conforme regras internas, sabe-se lá quais… Daí que se possa e deva questionar qual a legitimidade e a representatividade destas comissões para imporem regras aos demais. Vamos lá a ver friamente: um grupo que se estabelece dentro de uma comunidade, com organização interna fechada e que subjuga o resto da comunidade a regras arbitrárias, humilhantes e mesmo agressivas, não se enquadra num cenário de “tradição” e muito menos “académica”. Está mais próximo de um gangue de bairro!

E, para acabar, meninos: fazer caixinha para ninguém dizer quem atirou o avião de papel nas costas do professor é uma coisa; prejudicar deliberadamente a investigação da morte de 6 colegas não é solidariedade de grupo: além de vergonhoso é, para todos os efeitos, criminoso.

10 outubro 2011

A praxe e o sistema


Nos meus tempos académicos a praxe era uma coisa algo tímida a renascer com alguma tensão da proscrição a que tinha sido votada nos calores dos anos 70. Recordo uma recepção ao caloiro com aulas forjadas e uns carimbos na teste e recordo os desfiles da queima. Usar traje académico não seria directamente equivalente a ser betinho, mas todos os betinhos o usavam e quem não o usava certamente não o era. Não sei comparar se a alegria era mais genuína ou menos do que agora, mais regada ou não, mas uma coisa tenho a certeza: das regras académicas a grande maioria conhecia apenas a cor dos cursos e as insígnias do ano.

Uma geração após, ao ouvir falar do “sistema” da praxe e das “tradições” académicas, fico siderado com tão pomposa e fútil complexidade. Um caloiro para ser integrado (e respeitado?) tem que aprender rapidamente e prestar vassalagem a uma organização tortuosa, complexa e, sobretudo, sem mérito subjacente, considerando que não se pode considerar meritório passar muitos anos sem concluir o curso. Se eu fosse hoje caloiro gostaria de mandar directamente àquela parte os “doutores” que me coagissem a entrar em “brincadeiras” que não aprecio. Poderia? E da mesma forma que me vejo na vida sem padrinhos, gostaria de dispensar o apadrinhamento. Da mesma forma que qualquer regra ou lei que tem que ter um objectivo que a justifique, não gostaria de obedecer a prescrições arbitrárias, gratuitas, inconsequentes e, já sem entrar por aí, tantas vezes vexantes.

O sistema da praxe e respectivo “poder” não são legítimos nem saudáveis numa sociedade em que os valores de base devem ser clareza, justiça, respeito, iniciativa e mérito. Em grande parte são até mesmo o oposto do que a universidade deve incutir.

08 maio 2009

Notas corridas de uma ausência

1. Primeiro de Maio. Que podia ter sido diferente pelas circunstâncias actuais e que foi, mas não pelo que devia. Revindicações de aumentos salariais importantes! As empresas em lay-off devem aplaudir com ambas as mãos… e pés. Agressão/interpretação violenta de Vital Moreira : Carvalho da Silva numa primeira reacção diz que lamenta mas entende; Jerónimo de Sousa não viu, não comenta. Quando será que esta gente começa a entender e a ver? E não se entende que desculpar/desresponsabilizar arruaceiros é o primeiro passo para o abismo?

2. Depois, temos a valsa dos pedidos de desculpa. O pedido de desculpa quando justificado deve ser genuíno e imediato. Quando se prolongam exigências de desculpas é porque estão a falar em planetas diferentes de ética e valores.

3. Uma reportagem sobre os túneis de Gaza. Os contrabandistas donos dos túneis são os que mais beneficiam com o embargo da faixa. Seguramente até nem se importariam de enviar uns rockets de vez em quando para o território Israelita, de forma a ser mantido o embargo e a não perderem o negócio. Negócio é negócio e cada qual faz o marketing que pode, conforme os valores.

4. Que valor terá morrer com 22 anos em Coimbra de “doença prolongada” fulminante no momento, mais minuto menos minuto, em que arranca a serenata e a semana da queima das fitas?

5. E que valor terá esta queima das fitas actual, para lá da cerveja entornada para dentro das gargantas e por cima das cabeças? Esforço de decoração mínima mesmo por quem devia apresentar “créditos”, como um curso de arquitectura. Não questionam, nem desafiam o “mundo à frente”, que bem o merecia. O mundo é uma brincadeira barata. Até que altura?

6. A propósito de questionar, por pura coincidência, pouco vejo de televisão e muito menos a TVI, vi a reportagem desta sobre o processo do centro de valorização de resíduos da Cova da Beira. Mesmo descontando o tempero adicional que o acerto de contas em curso entre a estação e o primeiro-ministro actual implica, é mau. Se isto é verdade e se esta país funciona assim, sem exclusividade para este caso particular, há um problema de … valores.

7. Alexandre Litvinenko – muito sofisticadamente assassinado por uma substância radioactiva rara. Livro de Alex Goldfarb e Marina Litvinenko (viúva). Esta Rússia tinha mesmo que dar grandes romancistas com tanta “grandiosidade” e “brutalidade” e “ingenuidade” e sei lá que mais. E Putin, vindo da rua, onde manda o mais forte, com todos os músculos que tem, parece mandar na Rússia com todas as armas de que dispõe, e que ainda são muitas, tendo por valor... a força.

E, em conclusão, é necessário muito mas mesmo muito esforço para manter um mínimo de valores neste mundo e não cair na bestialidade. A não esquecer, porque a tendência natural é no sentido que não interessa.