31 dezembro 2025

As imagens de 2025

 

Neste dia de balanços o Público apresentou uma galeria com as imagens selecionadas do ano.

Um pouco intrigado sobre a representatividade das mesmas, resolvi fazer uma pequena estatística sobre temas e geografias. O resultado está acima.

Fora de questão fazer aqui uma análise detalhada do assunto, até porque imagino que a seleção das imagens envolve uma componente técnica e estética, para lá do conteúdo temático. No entanto…

Avassaladora a dominância da estética da guerra e em particular, previsivelmente, do Médio Oriente. A China tem uma referência tecnológica, combate de robots, nada mais a assinalar para esta grande potência e a sua política, por exemplo as ameaças a Taiwan. África também conta muito pouco. A religião é muito ajudada pela mudança de Papas. A arte e cultura ficam por um concerto de Ariana Grande.

Em resumo, não está em causa menorizar as desgraças e sofrimentos, mas gostaria de ver um retrato do mundo com um pouco mais de exemplos positivos e de mérito, assim como uma visão das guerras no mundo menos concentrada. 

30 dezembro 2025

Se o ridículo matasse, este país estava morto

No boletim de voto das Presidenciais de 2021 constava um senhor chamado Eduardo Nelson da Costa Batista, um candidato fantasma, já que quando o TC chumbou a sua candidatura os boletins de voto já estavam impressos.

Seria previsível que depois de tão ridículo falhanço, tivessem sido tomadas medidas para evitar repetições. Parece que não. Para 2026, as eleições seguintes às de 2021 parece que vamos ter não um, nem dois, mas três candidatos fantasmas nos boletins.

Coisas que acontecem quando a incompetência e impunidade são muitas. E fico por aqui, para não entrar pelos palavrões! Não criem uma cultura de meritocracia no aparelho do Estado, que estamos bem. Tudo funciona da melhor forma possível, dadas as (podres) circunstâncias.

Nota adicional: Aqui, há 5 anos eu esperava ingenuamente que não seria repetível...

27 dezembro 2025

O este e o aquele


Para quem não assistiu, cá vai um resumo da principal discussão no último debate das Presidenciais, por acaso até envolvendo dois candidatos com fortes probabilidades de chegarem à final.

- Você é um “este”!

- Não sou, não!

- É sim!

- Não sou!

- Sim, é!

               - Justifique porque me chama um “este”!

- Não preciso. Você é que tem de provar que não é!

               - Mas você saiu-me cá um “aquele”!

- Não, não sou!

               - É, sim senhor!

- Você é que é um “este”!

               - Você é que é um “aquele”

 Só faltou para manterem o nível (presidencial, recorde-se) encerrarem com um

- Quem o diz é quem o é!

- Tens cara de chimpanzé!!

E os verdadeiros primatas que me desculpem a imagem! 

24 dezembro 2025

E Natal


É fácil desejar Bom Natal, faz todo o sentido dizê-lo e não é preciso acrescentar muitas considerações adicionais. Depois de tantos anos e tantos Natais será também difícil encontrar coisas para dizer que ainda não tenham sido ditas…

Gosto do Natal, do calor humano e das luzinhas. Nos campanários das igrejas, nos arcos improvisados sobre as ruas, nas varandas e nas janelas das casas, até mesmo em jardins e em escolas (ainda se pode). É muito difícil objetivamente maldizer o Natal. Certo que alguns o vivem um pouco demasiado consumista e superficial, mas não vamos matar o todo por causa de uma parte.

Tem uma matriz religiosa, se não quisermos recuar a considerações sobre celebrações pagãs de solstícios, mas, e isto sou eu a achar, toca positivamente muita gente não crente, não havendo absolutamente nenhuma razão para afetar negativamente outros crentes… está para lá disso. Quem assim não achar, é livre para tal, mas não mate nada, porque o Natal não tem nada a ver com mortes.

Feliz Natal

21 dezembro 2025

Parabéns, Pink Floyd

O álbum “Wish You Here” dos Pink Floyd lançado em 1975, teve uma reedição que agora, 50 anos depois, voltou a alcançar o primeiro lugar no top das vendas do UK. É obra.

Já há 20 anos, eu dizia aqui que por anos e anos, eles est(ar)ão aqui. Não me enganei, mas a suposição era também de baixo risco.

Adicionalmente curioso é esta obra nem ser das mais “fáceis” de ouvir, pelo menos dentro dos padrões “populares” habituais. Logo o primeiro tema “Shine on you crazy Diamond” dura mais de 13 minutos e é necessário esperar 8 minutos até ouvir uma voz, depois da guitarra de David Gilmour cantar antes.

Alguém me consegue identificar uma obra criada recentemente que dentro de meio século consiga voltar ao topo das vendas? Não sei, mas, pode ser da idade, não estou a ver (nem a ouvir…) 

 

20 dezembro 2025

Nuno Rodrigues


Há poucos dias deixou-nos Nuno Rodrigues. Talvez os mais novos apenas o associem à polémica e processo com o plagiador Tony Carreira. Tudo terá começado quando a vedeta proibiu a editora de Nuno Rodrigues de vender “covers” das suas músicas, apesar de tudo ter sido tratado conforme as normas dos direitos de autor. Daí azedou e foram para tribunal pelos 11 “sucessos” que o Tony pouco inspirado copiou…

Não é por isso que o devemos recordar hoje. Para lá de um enorme trabalho de criação, edição e produção de muito da boa música que foi feita em Portugal, acho relevante assinalar a originalidade da “Banda do Casaco”, que ele criou e alimentou com António Avelar Pinho. O grupo foi (e é) um verdadeiro caso sério de música feita em Portugal, ultrapassando estilos e viajando por uma enorme diversidade de mundos musicais, excelentemente acompanhados de músicos, técnicos e interpretes.

Em 2013 a CNM, editora de Nuno Rodrigues, reeditou a discografia remasterizada. Um verdadeiro tesouro, do qual sou um dos felizes proprietários. Vale a pena revisitar, apreciar e valorizar.

“A loucura cura
Quando é tão pura.
E dura toda a vida,
Que só é pouca
Se pouca louca”

Amo Tracinho-te
Contos da Barbearia

16 dezembro 2025

Obrigados a jogar na Bolsa?


É bem conhecido o problema da sustentabilidade e do futuro do sistema de pensões e daí ouvirmos apelos à constituição de planos de poupança individuais, já que no futuro pode não haver dinheiro que chegue para cumprir as expetativas.

Uma primeira reflexão sobre constitucionalidade. Quando na dureza da troika se procurou tocar no estatuto dos funcionários públicos, o TC chumbou a proposta, invocando, entre outros argumentos, “direitos constituídos” e o famoso “Princípio da Confiança”. Diz este que o Estado, sendo de Direito, não pode trocar as voltas aos cidadãos à sua bela mercê, traindo expetativas legitimas existentes.

Nesta base, a alguém que trabalhou e contribuiu durante 40 anos com a expetativa de usufruir de certas condições de reforma, dizer-lhe na última hora, que afinal não vai ser assim, não se enquadrará no mesmo contexto? Ou os funcionários de Estado são uma casta à parte?

Portugal não é a Suíça. Todos aqueles para quem é tão duro chegar ao fim do mês, irão criar poupanças com vista a melhorarem a sua reforma daqui a umas boas décadas? Não será prioritário. Assim, parece que Bruxelas se prepara para tornar essa poupança obrigatória. Esses fundos serão aplicados, com riscos é claro e geridos por quem? Por gente competente, não nomeada por favores e pouco comprometida com os Ricardos Salgados deste mundo…? Jogo na Bolsa se quiser, não por obrigação.

Penso que o mais lógico e justo por parte do Estado e das obrigatoriedades legais será sempre um espírito de redistribuição síncrona. Quem trabalha desconta para quem já não o faz, eventualmente ajustando a data de transição conforme necessário, o que parcialmente já é feito. Se há algo que o Estado possa fazer aqui é proporcionar oportunidades de contribuição para quem ainda tem idade para criar valor e dificuldade em encontrar uma oportunidade no mercado de trabalho atual. 

15 dezembro 2025

Quanto o T perde o I

 

Iot significa “Internet of Things” e a designação aplica-se às coisas que se ligam à internet. Já aqui atrás falei de alguns casos em que coisas se ligam algures, mesmo sem os seus utilizadores saberem, podendo se tratar de automóveis, autocarros, pneus e outras que nem se imagina...

Outro campo é dos “gadgets” (propositadamente deixado em inglês) tecnológicos cuja conexão, controlo, atualização e respetiva app são apresentados como uma mais-valia apreciada pelos utilizadores. Podemos falar de bicicletas, sistemas de iluminação, de rega ou segurança, sensores e de todo o tipo de eletrodomésticos, como, por exemplo, aspiradores…

Recentemente a americana Roomba, criadora do popular aspirador IRobot entrou em processo de falência, submergido pela concorrência chinesa. Parece que vai ser salva pela empresa que lhe fabricava os aparelhos, a Picea Robotics, chinesa…

O drama potencial nestes processos surge quando o aparelho é tão dependente da app e dos serviços da empresa, que em caso de falência técnica e ou económica do fabricante fica órfão e inútil.

VanMoof é uma marca de bicicletas conectadas extremamente particulares, com design exclusivo e muitas particularidades tecnológicas. Chamavam-lhe a “Tesla das bicicletas”. A empresa faliu em 2023, entretanto foi retomada, mas no seu período de agonia foi um calvário para os proprietários dos brinquedos caros. As especificidades mecânicas e eletrônicas implicavam que os problemas apenas podiam ser respondidos pelo fabricante e este não conseguia dar resposta.

Em conclusão, para lá de todas as questões de privacidade e de se ter uma coisa com olhos e ouvidos em casa ou no bolso, procurem garantir que o fabricante irá sobreviver ao tempo de vida esperado do dispositivo. Se não for o caso, convém que este consiga resistir decentemente às exéquias do seu fundador.


14 dezembro 2025

Vice-Rei do Norte


Especialmente nesta altura em que ficou na moda desenvolver novas narrativas sobre o que foi e o que não foi o 25 de novembro, nada melhor do que ler quem o viveu e dele foi protagonista, melhor do que escutar o “disse que disse” de quem repete o que ouviu dizer, na parte que encaixa na sua narrativa preferida.

Esta autobiografia de Pires Veloso, onde obviamente o 25 de novembro de 1975 tem uma quota importante é obrigatória para quem se quiser informar.

O cognome de Vice-Rei do Norte, não é especialmente do meu agrado. Depende de como for pronunciado, com alguma simpatia e respeito ou com sobranceria e algum toque de desdém. Para começar não estamos em contesto monárquico, depois Pires Veloso não foi vice de ninguém. Em Lisboa é que existiam uns candidatos a vice czares. Um vice-rei presume existir algures um rei e aquele ser um personagem que com alguma autonomia governa um território distante.

E em 1975 o Norte e a cidade de Porto foram diferentes de Lisboa, mas não na perspetiva de uma terra longínqua e destacada. Pires Veloso teve sempre um olhar sobre o Portugal inteiro. Este Norte e a cidade do Porto, hostis às forças extremistas (daí catalogados de reacionários e fascistas) é o mesmo que em 1832, durante a guerra civil foi um bastião firme na defesa do liberalismo contra o absolutismo. Os genes são os mesmos. Podem contra-argumentar que esquerda-direita; revolução- contrarrevolução não estão no mesmo alinhamento, mas sim… A bandeira hasteada no Porto nas duas situações foi a mesma: Li-ber-da-de !

Pires Veloso acabou por pagar a sua coragem e integridade, mas penso que a fazer de novo, igual faria, sem se condicionar pelos golpes baixos que a corte, reestabelecida e legitimada graças a, entre outras, à sua contribuição, não hesitou em lhe aplicar posteriormente.

Sobre o conteúdo específico do seu testemunho, uma surpresa para mim foi o lugar de Ramalho Eanes. Tendo pouco ou nada intervindo no dia 25 é espetacular e oportunisticamente catapultado à primeira linha, numa encenação programada e realizada pelo grande maestro Melo Antunes.

Agora vou especular. Aviso colocado, concretizo… O Prec estava exausto, Vasco Gonçalves encostado e as reações populares, a começar no Norte, apontavam a um beco sem saída para aquele caminho; o golpe PCP do 25/11 é travado pela conjugação das forças de Pires Veloso, Jaime Neves e Força Aérea, sob o arbitragem de Costa Gomes e aí… Melo Antunes, conhecido por moderado, mas não necessariamente um democrata pluralista vai colocar a coroa de louros em Eanes que, do mal o menos, permitirá a continuação da influência comunista dentro do que era possível. O mui democrático Conselho da Revolução aguentou-se até 1982.

Dá para entender a alergia que alguns democratas de gema desenvolveram por Ramalho Eanes, especialmente Sá Carneio e em certa medida também Mário Soares.

Se houvesse uma biografia completa e detalhada de Melo Antunes, certamente muita coisa se aprenderia e melhor se entenderia o que aconteceu no país nesta época.

12 dezembro 2025

Gaia Sul


Vilar do Paraíso saltou para as notícias a propósito da localização alternativa da futura estação de TGV de Gaia. Nos anos em que vivia em Arcozelo e estudava no Porto, passei lá diariamente em transportes públicos, ao longo da velhinha estrada N1-15. Recentemente refiz o percurso por curiosidade e constatei uma paisagem deprimente. Para lá das antigas construções, algumas degradas, tudo está urbanizado de forma caótica, sem um mínimo de planeamento nem harmonia. Gaia que não é beira-rio nem beira-mar, sem pés na água, é um triste deserto quanto a planificação e qualidade urbana, pontualmente rasgado por novas autoestradas brutais, completamente desintegradas e desfigurando os locais que atravessam.

Voltando ao TGV, considerando que a estação em causa não vai servir apenas o centro da cidade de Gaia, que até tem Campanhã logo em frente, mas em boa parte o seu Sul, para estes utilizadores será muitíssimo mais fácil vir até Vilar do Paraíso do que entrar no inferno caótico de Santo Ovídio.

Abismal é que depois de tantos anos de estudos, concurso lançado, propostas apresentadas e contratos fechados, se venha discutir alterações desta magnitude, com este impacto, sobretudo considerando a densa ocupação destas zonas. Não terá sido por falta de tempo…. Planear, bem pensar antes de fazer não parece ser o forte cá do nacional burgo e os resultados estão à vista um pouco por todo o lado.

Quanto ao empreiteiro que depois de assinar o contrato, vem sugerir alterações significativas, pode não ser bom sinal. Não era possível tê-lo sugerido em alternativa ainda na fase de concurso?

10 dezembro 2025

Até onde se liga


O alarme disparou na Noruega, quando descobriram que os seus autocarros de transportes públicos de um fabricante chinês estavam “conectados” sem eles saberem… A marca em causa, Yutong, tentou tranquilizar os ânimos dizendo que os dados recolhidos não iam para a China, ficavam armazenados na Alemanha. Grande consolo!

O problema não será apenas com autocarros, nem com China, nem apenas com veículos. Cada vez mais usamos equipamentos que por facilidade de manutenção e não só, de alguma forma conversam com um mestre algures. Até os pneus Pirelli estão sob escrutínio por existirem versões conectadas e terem parte do capital em mãos chinesas… penus !!!

Há diferente dimensões. Os códigos e políticas de uma empresa estatal chinesa são diferentes (quando conhecidos) dos de um fabricante ocidental, eventualmente cotado em bolsa. Considerando que essa ligação pode servir para recolher informação, como também para passar ordens, esta última opção à mercê de uma grande potencia mundial é um risco brutal. Se eles se zangarem com um país podem-lhes parar os autocarros, metros, veículos particulares e sabe-se lá que mais… Neste momento uma situação destas é bastante improvável, até porque seria comercialmente suicida, mas isto ser possível não é nada confortável.

Quando falamos apenas na recolha de informação, de recordar que esta é hoje um ativo enorme. A fantástica IA vive de sofisticados algoritmos que correm em poderosos equipamentos informáticos, mas o seu combustível é informação/dados. Sem isso seria inútil. A recolha de dados valiosos sem o consentimento/conhecimento de quem os gera é uma espécie de roubo… que aliás já acontece cada vez que abrimos uma página na internet.

Há ainda outra preocupação sobre o acesso a esses dados. Podem as entidades que os recolhem terem todos os protocolos e procedimentos para a sua proteção, mas há sempre alguém que pode furar e lá chegar e, às vezes, nem precisa de ser um grande hacker. Um amigo meu cuja mulher trabalhava no seu banco, contava-me que por vezes ela lhe ligava depois de ele pagar à saída de uma loja, dizendo-lhe: “já que estás aí, compra-me isto”.

Em resumo, entre o espiar, e eventualmente controlar, a frota de transportes públicos de uma grande cidade e ver os movimentos bancários do marido, a diferença é enorme, mas o mundo é o mesmo.

09 dezembro 2025

Sim, é antissemitismo

 

Dois livros acima, muito distintos, mas sobre o mesmo tema. O Estado de Israel.

Sim, já estou a imaginar as reações de repulsa e de “lá vem este branquear os genocidas”. Sim, Israel tem ações condenáveis, não tenho grande simpatia por Netanyahu e muitíssimo menos pelos seus parceiros de geringonça Ben-Gvir e Smotrich. Isso, no entanto, não justifica o “interesse” especial que certas forças têm em criticar e condenar Israel de forma desproporcional. Al Assad e Putin bombardearam civis em Aleppo e não só, recorrendo inclusive a armas químicas para combater o Estado Islâmico, com um balanço final de meio milhão de mortos… enfim, vá lá. Saddam Hussein terá morto cerca de um milhão de pessoas? A islamização do Sudão conta 2 milhões mortos? Enfim… coisas que acontecem, não vale a pena protestar muito, nada adianta e mais exemplos se poderiam acrescentar. Nesta guerra em Gaza acredita-se piamente no “Ministério da Saúde do Hamas”, clamando por cada morto civil, numa guerra em que aparentemente nunca há baixas militares palestinianas.

Israel tem um padrão de reação desproporcional. Deste-me um golpe, levas dois; pensa bem para a próxima. Esta aproximação é apreciada e utilizada vantajosamente por Hamas e companhia, gente para quem quantos mais mortes, mais mártires, melhor!

Apesar de tudo o que se pode e deve criticar a Israel, este país, a sua fundação, crescimento e consolidação é um exemplo de tenacidade, de perseverança, de ultrapassar obstáculos, descobrir soluções, gerar de conhecimento e… podíamos muito aprender com eles…

A tensão na região começa com a diplomacia de guerra da Inglaterra na I Grande Guerra, que promete tudo a todos. Um lar para os judeus a troco da sua influência nos EUA para estes entrarem na guerra, uma Grande Síria aos árabes haxemitas para os motivarem a rebelar-se e combaterem os Otomanos (Lawrence da Arábia é o embaixador da causa) e, ao mesmo tempo, combinam com a França a posterior repartição da região entre os dois países. Terminada a guerra, as expetativas de todos são incompatíveis e a tensão dispara. O então Secretário Colonial, Wiston Churchil inventou dois países para os haxemitas, Iraque e Transjordânia (atual Jordania) e deixou a Palestina indefinida. De repente, em vez de se discutir a repartição do bolo inteiro, todo o Médio Oriente, passou a ser disputada apenas a última fatia, a Palestina.

Ao longo das décadas de existência do estado judeu algumas coisas óbvias podem ser apontadas e recordadas:

- Desde a primeira hora todas as guerras foram despoletadas por árabes e fações árabes, que não aceitam menos do que a sua hegemonia na região. Israel reage, defendendo-se… e contra-atacando, mas nunca deu o primeiro passo.

- Em 1948 havia 851 mil judeus nos países árabes, em 2018 estavam reduzidos a pouco mais de 3 mil. Os que saíram e seus descendentes não estão a viver em campos, financiados por uma agência especifica da ONU. Refugiado é temporário. Quando não regressam ou não se integram é por que não querem ou não os deixam e será uma forma de deixar a ferida viva. Os próprios judeus expulsos não o desejariam, mas alguém está a ver os países árabes a receber e dar cidadania plena a todos os seus descendentes?

- Desde o fim da guerra do Yom Kippur de 1973 que tem havido tentativas de estabelecer a paz entre Israel e seus vizinhos, com avanços notórios. O sucesso das mesmas é, no entanto, posteriormente dinamitado por alguém que relança as hostilidades. Hoje é o Hamas, apoiado pelos seus padrinhos Irão e Qatar.

- Institucionalmente Israel está em paz com cada vez mais vizinhos e com processos de colaboração que chegam ao domínio da defesa, concretizado aquando dos últimos ataques do Irão.

. O apoio financeiro e logístico do Qatar (Irmandade Muçulmana) ao Hamas é talvez o maior cancro atual na região. Todos que quiserem saber, sabem que daquele movimento nada de bom se pode esperar, nem sequer para os próprios palestinianos que eles reclamam defender. Qual o objetivo do Qatar em alimentar e promover estes bárbaros?!

- Mesmo que se possa discordar e criticar o que se passou em 1948, Israel é hoje um país consolidado e a História é mesmo assim. Não há marcha atrás a partir de certa fase, A reivindicação do “From the river to the sea…” é uma cantilena irrealista. Alguns até desconhecem o significado concreto da mesma, mas acham giro. Quem a canta está redondamente enganado e de forma nenhuma do lado da solução.

- A ocupação da Cisjordânia e respetivos colonatos são um entrave importante. No entanto, não são irresolúveis no âmbito de um acordo de paz, tal como foram desmantelados os existentes em Gaza, quando Israel abandonou o território.

- Uma certa opinião pública ocidental adora os lenços palestinianos, como no passado gostava das camisas à Mao, das boinas à Che Guevara e de símbolos de outras causas. O fundo da motivação tem muito em comum. O ser contra o “seu mundo”. Da mesma forma como os contestatários passados nunca iriam viver na China maoista, também os ativistas atuais nunca se instalarão no Irão (LGBTs nem se fala). Convinha ganharem a consciência de que não estão a ajudar os palestinianos, mas apenas a branquear manipuladores que os usam para causas e modelos de sociedade que certamente não querem mesmo ver implantados na sua própria casa.

Por hoje, é tudo e espero não estar a pregar no deserto (se bem que no passado alguns tiveram sucesso nesse enquadramento 😊 )


06 dezembro 2025

Não sabia, mesmo?


O nome de Afonso Camões pode não ser conhecido de todos, mas quem acompanhou a novela socrática lembra-se dele. Joker (pau para toda a colher) e general prussiano que nunca se amotina (caninamente fiel ao chefe), características especialmente relevantes quando se pede “arranjem-me um emprego”. Para quem na altura nada ouviu, os motores de busca rapidamente podem levar-lhe os detalhes dos fatos em questão.

Quando o nome de Gouveia e Melo se perspectivou como um fácil ganhador das presidenciais, não faltaram “moscas” a aproximarem-se, atraídas pelo aliciante perfume do poder. Faz parte da natureza humana.

Seria função do candidato e/ou de quem o assessoria fazer a filtragem entre os apoios que trazem currículo e os que trazem cadastro (mesmo sem condenação e transito em julgado…). Não parece ter sido muito seletivo. Logo na plateia da sua apresentação se via gente com algum cadastro.

O apoio recentemente anunciado por José Sócrates era dos que inequivocamente traziam “cadastro”. Foi repudiado pelo candidato, mas lançou algum interesse sobre as eventuais presenças de “tralha socrática” naquele navio.  E, surpresa! Entre outros nomes vem essa figura de Afonso Camões, mandatário em Castelo Branco.

Instalada a polémica, o fiel socrático recua, publicando um comunicado, prontamente copiado, “a pedido”, na página oficial do almirante. Imagem acima e disponível aqui. Além de elegâncias linguísticas como referir a “dor de corno” de quem o ataca, o pobre Camões alega estar a ser perseguido por causa de uma escuta ilegal (lá está, foi verdade, mas como não serve para condenar, ele permanece inocente) e de uma ligação de juventude ao antigo primeiro-ministro, E sei que podemo-nos sentir “forever young”, mas, nas minhas contas ele teria mais de 50 anos quando foi apanhado nessa escuta e nessas manobras…

Falta de filtragem inicial, foi distração ou pior, terem feito o favor de copiar um comunicado deste teor na página oficial é amadorismo …. ou pior

05 dezembro 2025

O candidato do partido invisível


Em 2014, quando A.J. Seguro estava prestes a ser corrido da liderança do partido por investida de A. Costa e companhia, alertou para a existência de um partido invisível na sociedade portuguesa e de haver uma parte do PS associada aos negócios e interesses. Isto da parte do ainda líder de um partido com a dimensão e importância do PS é mais do que preocupante, é potencialmente muito grave.

A ser mentira seria expetável uma reação do tipo “quem não se sente, não é filho de boa gente”, eventualmente até uma queixa por difamação, mas o assunto foi ignorado e arquivado, como se fosse apenas um episódio de uma disputa acalorada. No entanto, o fundo da questão não se deveria esgotar com o fecho daquelas primárias pela liderança do partido.

É óbvio que o partido invisível não o esqueceu, nem perdoou e agora votarem Seguro não é como os comunistas a porem a cruzinha em Soares na segunda volta das presidenciais de 1986… mas pior!

Vemos assim esgares de muita gente a repudiarem AJ Seguro porque sim ou por argumentos estapafúrdios e assumida ou sub-repticiamente a migrarem para candidaturas menos alérgicas.

O eventual cenário de termos uma segunda volta entre um candidato do partido invisível e A. Ventura é dos piores pesadelos que posso imaginar.

 

04 dezembro 2025

Mas as crianças, senhor…

 

Em poucas palavras, já que quando os fatos são claros e facilmente escrutináveis, não é necessário elaborar muitos considerandos.

Dentro das barbaridades cometidas na Ucrânia, inclui-se o rapto de crianças ucranianas e envio das mesmas para a Rússia, alegadamente algumas mesmo para a Coreia do Norte. Mesmo sem conhecer todo o quadro legal relativo aos crimes de guerra, é fácil de entender que isto não pode acontecer e é de uma crueldade enorme para as famílias e uma violência brutal para os inocentes.

A UN votou uma resolução, a A/ES-11/L.16/Rev.1, exigindo o retorno imediato das crianças. No quadro anexo, está o resultado. Sabemos que as resoluções da ONU valem o que valem, muitas vezes pouco, mas 12 criminosos votos contra e 57 covardes abstenções, incluindo China, Brasil e países do Golfo… é demais para a minha confiança na sanidade da Humanidade!


Atualizado a 7/12 com inclusão da publicação no Público



02 dezembro 2025

A exclusividade está nos resultados


A Fórmula 1 é um desporto de alta emoção (para quem gosta, claro) e as preferências relativamente aos pilotos frequentemente têm uma componente subjetiva e emotiva, que vai para lá dos frios resultados objetivos. Não é por acaso que Gilles Villeneuve com apenas 4 temporadas e meia disputadas e 6 vitórias registadas, continua a ser recordado, 43 anos após a sua morte. Muitos acham (aqui o escriba incluído) que as suas características de pilotagem, combatividade e além disso humanas não foram igualadas. Não me peçam para ser racional a suportar esta consideração.

Dentro dos campeões mais recentes nem Hamilton nem Verstappen me entusiasmam, nem suscitam empatia. Acho mesmo que a imagem cultivada por Hamilton de “amigo do ambiente”, com dieta vegan, redução do uso de plásticos, veículos elétricos, etc, é algo incompatível com a sua profissão, para não dizer que entra claramente no campo da hipocrisia. Como é possível conciliar isso com ser piloto de F1, automóveis que bebem combustível como ogres, gastam pneus a um ritmo alucinante, enormes quantidades de peças de desgaste de vida curta, sem falar em recorrentes acidentes que muito material enviam para a sucata…. acrescentando ainda o périplo geográfico mundial de equipas e demais staff. Podem tentar melhorar algo, mas para contabilizar isto como atividade amiga do ambiente é necessária muita, muita boa vontade.

Com grande impacto mediático foi anunciado no início da época de 2024 que para 2025 ele integraria a Ferrari. Esta antecipação é estranha. Por muito profissionais que sejam as equipas e os pilotos, passar a época inteira a saber que no final tudo muda é algo desconcertante para quem sai e para quem entra.

Para lá da estranheza do “timing”, parecia também pouco garantido o impacto e resultados desportivos que ele aportaria, apesar de toda a experiência e palmarés.  Não parecia possível a repetição do milagre “Schumacher” na equipa italiana dos anos 2000. Não me parecia a mim, fã dos carros vermelhos, nem a gente bastante sabedora e com muitos kms de F1, como Bernie Ecclestone e Eddie Jordan. Eles questionavam se o interesse da Ferrari seria desportivo… ou de marketing (capas de revista...) e que desportivamente a Ferrari muito mais bem servida continuando com Carlos Sainz Jr.

Numa entrevista à Time, foto acima (sim, o modelo catita é um piloto de F1), Hamilton contra-argumentou que não tinha que dar ouvidos a velhos, ainda por cima brancos. Que era o primeiro e único negro campeão de F1, que era diferente, a idade para ela corria de outra forma, etc. Enfim, eu julgava que a não discriminação racial era um caminho com dois sentidos. Acrescentava ainda que receava encontrar na Ferrari um ambiente menos diverso e inclusivo do aquele a que estava habituado na Mercedes. Uma entrevista muito à la moda.

O início da temporada de 2025 foi decepcionante. O carro não esteve brilhante, mas o seu colega de equipa foi sistematicamente superior. Falta de habituação ao carro, diziam. Quando já em agosto, na Hungria, Leclerc faz a pole-position e Hamilton fica pelo 12º lugar da grelha, este classifica-se como um “inútil”. Estão a ver Villeneuve assim resignado, ele que desde que o motor trabalhasse e o carro tivesse no mínimo duas rodas nunca baixava os braços? Ou Senna?

O final da época já cai no domínio da humilhação. No Qatar parte 17º; vá lá que melhorou e terminou em 12º, Sainz, a quem ele tomou o lugar e passou a uma equipa teoricamente inferior, acabou no pódio.

Hamilton não é um Schumacher nem um Lauda. Os grandes pilotos são os que desenvolvem e melhoram as equipas por onde passam, não os que caiem em choradinhos. Como aparecerá trajado física e mentalmente na próxima capa de revista?

01 dezembro 2025

Porto, Porto, Porto


Ir ao Porto, tirar umas fotografias. Certo, não faltarão na Invicta temas para dar o gosto ao dedo, mas…

Tantos turistas, não é? E como fotografar a cidade sem aparecer a ponte D Luís, a torre dos Clérigos ou serra do Pilar? E como colocar esta santíssima trindade iconográfica da cidade em fotos que não sejam iguais aos milhares de milhões já realizadas…?  

Parti com duas ideias alternativas e complementares. Procurar um registo a evidenciar a “overdose” turística e, antes ou depois, entrar pelos becos e quelhos supostamente menos expostos às incursões e longe do tal trio omnipresente.

Só que isto de fotografar é como caçar, ou talvez seja, dado que nunca saí a caçar. Vai-se por aí fora e logo se vê o que salta à nossa frente, a pedir o disparo.

E, pronto, lá saíram as fotos, das quais uma seleção está aqui. Se a santíssima trindade do bom Porto lá aparece, será por mero acaso.