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17 março 2016

Inovação


A inovação não é um tema reservado a uns senhores de bata branca dentro de laboratórios sofisticados (embora possa também passar por isso). A inovação começa na atitude de cada um que, no seu perímetro de ação e responsabilidade, certamente bem definido, tenta sempre que cada hoje seja melhor do que o ontem.

Inovar é ter coragem de arriscar e a organização ter cultura para saber lidar com os erros. Convém não errar 9 em cada 10 vezes, nem perto, mas infalíveis são apenas os que nada arriscam ou que, quando algo corre mal, se descartam (“eu já sabia, eu tinha avisado, ninguém me ouve…”). Uma organização de infalíveis é uma organização deficiente, sem iniciativa e/ou sem frontalidade.

Inovar é ter humildade para ouvir, largura de espírito para projetar, alegria de acreditar, capacidade para motivar e resiliência para aguentar.

Inovação com frutos não nasce da vontade simples e/ou lúdica de inovar, de um experimentar a ver o que dá. Nasce da necessidade de sobreviver. A gestão de recursos, se bem que em moldes diferentes, não é menos exigente do que para as atividades do dia-a-dia habitual. São novos caminhos, não para serem percorridos na ligeireza do turista curioso, mas com método, determinação e disciplina.

21 novembro 2014

DDT ou PDT?

Chamar a Ricardo Salgado “Dono Disto Tudo” era um grande exagero. Os activos geridos por ele, se bem que com algum significado, estavam muito longe de serem “isto tudo”. Aliás, entre o que o GES geria e o que tinha mesmo, ia uma diferença muito grande, graças ao efeito de alavanca das participações em cascata. Se eu tiver 51% de A, quem tem 51% de B, que tem 51% de C, eu controlo C, apesar de no fundo não possuir mais do que o equivalente a 13% seu capital (0,51 x 0,51 x 0,51).

Uma expressão melhor adequada seria PDT : “Patrão Deles Todos”. De facto, Ricardo Salgado não era dono do país. “Apenas” mandava nos seus mandatários. No fundo, era também uma espécie alavancagem. Não é preciso ser dono do país, basta mandar em quem nele manda. A coutada do GES albergava e alimentava uma boa parte dos políticos passados, actuais e mesmo futuros.

A história o dirá, mas esta falência do país e consequente intervenção da troika, para lá de tudo que já se sabe e se berra, terá tido um efeito positivo. Não há dinheiro, não há vícios. O PDT deixou de ter dinheiro para os pagar a eles todos. Durante algum tempo ainda aspirou tudo que podia da PT, bem alavancada, e escandalosamente saqueou as poupanças de muito boa gente, para quem um banco e uma família centenária de banqueiros eram um garante de seriedade. Veremos como ficará tudo no fim.

Sou optimista e quero acreditar que algo mais limpo será.

15 setembro 2012

Teremos sempre Setembro


"Setembro é o meu mês. Gosto de Setembro e do início do Outono, muito mais do que da Primavera das flores em botão, passarinhos e de todas as outras delicadezas que despertam e secam, sacudindo bolores, à saída do Inverno.

Não temos os campos pintalgados de papoilas e infestados de pólens, mas temos o pastel das cores ocres e o cheiro forte das vinhas e das figueiras. É muito mais intenso e muito mais premente.

Se a Primavera é a esperança ingénua, o Outono é o momento dos balanços e da maturidade. Em Abril aguardamos o fruto da floração. Em Setembro os frutos estão maduros e serão colhidos ou perdidos e, oxalá, haverão de retornar. Em frente da Primavera está a simplicidade de um desenvolvimento linear; à frente do Outono está a realidade complexa do como renovar.

A Primavera solicita-me e cansa-me nos seus dias crescentes; o Outono aconselha-me. Anuncia o encerrar de um ciclo que nos confronta com a nossa finitude e com a necessidade de renascer e recomeçar.

Não há fins de tarde mais belos do que os do fim do Verão. Não há mês mais belo do que o mês de Setembro."

Eu sei que é repetido, sim, mas apateceu-me. E com informação adicional sobre o local da fotografia: Rio Coa junto ao local onde a Ribeira de Piscos o encontra.

06 julho 2012

Etiquetagem em curso

Conforme referi atrás, resolvi etiquetar o Glosa Crua e não está a ser fácil nem rápido. Vejamos. Primeiro tratei em off cerca de 100 dos 1000 posts e defini as etiquetas, agregando-as em : Pessoas individuais, Pessoas/entidades colectivas, Lugares, Eventos, Doenças (terminadas em “ite” e não só), estados de espírito e, finalmente, qualidades gerais que, infelizmente foi a mais representada. Depois fiz alguma consolidação e homogeneização e arranquei para a actualização no blog desses 100 posts. Terminado, passei aos 100 seguintes procurando minimizar a introdução de etiquetas adicionais. Em seguida suspendi a fase vertical e passei à horizontal, que não quer dizer a dormir.

Para cada etiqueta procurei todos os posts em que a palavra aparecia para verificar se já lá estava e, caso negativo, se faria sentido inclui-la. Para os posts encontrados e não etiquetados ainda, fiz-lhes a etiquetagem completa.  

Quando terminar esta fase horizontal irei correr verticalmente o blog para ver se escapou algum post. Será estranho mas pode acontecer. Depois, há que identificar as etiquetas pouco representadas e tentar consolidá-las. Terei que analisar bem a cobertura dos “estados de espírito”. Por exemplo, criei recentemente um chamado “Grrr” que precisa de ter análise retroactiva e cuja identificação não se encontra por pesquisa directa do texto.

Parece complicado? Não, neste correr das etiquetas vou na letra… B.

10 julho 2009

Quando a mamã voltar...


Aquele coitado, que a luz da tarde avançada mal deixa ver, ficou tresmalhado de uma ninhada que passou clandestina pelo meu jardim. Por falsa manobra dele ou por simples azar, não partiu com o resto dos irmãos. Ficou trancado nos meus arrumos durante 3 dias sem comer nem beber. Quando ouvi o miar ontem à noite e o libertei, desapareceu, ignorando a comida que lhe ofereci.

Durante toda a noite miou chamando pela mãe. Hoje de manhã estava encostado a um canto com aspecto de não se mexer mais. Poucos seres têm tanta dignidade, mesmo e especialmente antes de morrerem, como os gatos.

Agora, à tarde, tinha tomado o leite que lhe deixei e já se mexia, escondendo-se de mim. À entrada da noite apanhei-o no limite da luz. Já quase não tem voz para miar mas insiste e continua fixamente olhando para todo o lado, esperando que a mamã há-de chegar.

24 julho 2007

Tartaristão

Já ouviram falar na república russa do Tartaristão? Eu, até há bem pouco tempo, nem sequer tinha a mínima ideia de que isso podia ser nome de terra. Ouvi-o numa curta conversa, mas não o consegui fixar na altura. É a terra donde vinham os olhos brilhantes, curiosos e muito jovens da Elsa. Só lá cheguei porque no último momento o referiu como país de origem dos “camiões do Dakar” e fui daí para trás até encontrar o nome. Animava temporariamente rebanhos de turistas na Turquia, a vários milhares quilómetros de casa. Experiência e desafio. Daquelas coisas de que se têm muitas dúvidas de como irá acabar.

E lembrei-me de há quase dois anos, algures no meio do Paraná, num jantar de recepção de um congresso, da Bianca. Tinha apenas 19 anos mas cantava como gente grande. Interpretou o “Como os nossos pais” da Elis Regina de forma verdadeiramente magistral. Terminado o jantar, ficaram todas as mesas vazias, excepto a minha em que sozinho tive direito a uma espécie de discos pedidos de Música Popular Brasileira. No final conversámos um pouco, quis saber de Portugal, se era fácil fazer carreira, tinha amigas que para lá tinham ido e não sabia mais nada delas...(?!) Tinha capacidade e ambição mas parecia asfixiada no Sul do Brasil, onde tentar ser artista não é bem visto. O país do samba não rima todo por igual.

Ignoro se a Bianca saiu do Paraná ou se a Elsa regressará ao Tartaristão. Isto de subir a um palco no grande palco do mundo não é fácil.

20 dezembro 2006

E se fosse a refazer...

Está quase a cumprir-se um ano, dia por dia, de um acontecimento que me virou a vida. Foi-me colocada uma questão que tinha duas respostas possíveis. Uma de continuidade, materialmente cómoda e intelectualmente insuportável e outra, complementar, de ruptura. Escolhi a segunda...

Após 3 meses de discussão, negociação e transição, iniciei um período de 6 meses, durante os quais não entrou um único euro na minha conta bancária. Controlei cada cêntimo que saía; cada litro de combustível consumido, cada minuto de telemóvel e cada compra de supermercado. Um custo que nunca questionei foi a assinatura ADSL que me permitiu comunicar, ler o mundo e publicar estas Glosas. Aperfeiçoei a culinária. Escrevi, li e aprendi coisas em atraso, mas sem nunca ficar em dia. Um dia por semana viajei a cantos e esquinas, enriquecendo o meu mapa mental de caminhos e a minha biblioteca fotográfica. Tive tempo inesgotável e disciplina para o usar. Semana após semana, mantive o ritmo dos contactos, reforçando os já feitos, acrescentando outro canal ou inventando outra iniciativa. Vivi uma Primavera de floração incerta com uma ponta de ansiedade e alguma insegurança mas sempre provando cada dia.

No último mês e pico, em que já tinha data para a retoma do fluxo dos euros, comprei a Transalp. Uma excentricidade em jeito de compensação das restrições anteriores. Nesse período, entre Minho, Gerês e Douro, foram 3500 km’s de cores, ventos, calores e cheiros. E foram também uns polegares quase abertos de acelerar e travar os 53 cv.

O ano completa-se por 3 meses baseado no outro lado do Mediterrâneo de gentes e costumes tão diferentes e tão próximos. E, claramente, enriquecedor. E, como dizia o poeta, “E se fosse a refazer, eu refaria esse caminho!”.