Em tempos acampei “selvagemente” junto ao mosteiro de Pitões
das Júnias. Agora é proibido. No entanto, dado o estado de degradação do local
e de vários monumentos históricos, decidi protestar e manifestar-me por essa causa.
Proponho-me exercer um direito humano e consagrado na nossa constituição,
montar uma tenda e ficar uns dias e noites em vigília junto às ruínas do
mosteiro. Nenhum tribunal me deverá impedir, já há precedente. Montar uma tenda
e pernoitar num local de protesto parece ser algo perfeitamente normal, onde quer
que seja!
Sim, que há um problema com a habitação em Portugal e que se
alguém acha que se resolve a votar “legislação” por braço no ar, está enganado.
Certo que podemos questionar as intervenções da polícia. Certo que os partidos
saem todos mal na fotografia. Certo que faltam casas, mas elas não estão guardadas
num bolso do Estado, prontas a serem libertadas de um momento para o outro, sob
pressão da “rua”. Certo que se tivéssemos a geringonça no poder, o movimento
teria outro eco. Muita coisa certa e muita coisa errada.
Agora, se para cada causa pela qual um cidadão se queira
manifestar, seja saúde, educação, justiça, legislação laboral, defesa, política
externa, etc. isso lhe dá direito de organizar um acampamento selvagem em cada
canto ou esquina, que país queremos ver? Haja decência. Protestar é uma coisa,
mas a liberdade e o direito de manifestar não deveriam ser salvo-conduto para prolongadamente
descivilizar e degradar o espaço público.
Vou-me repetir: se esse direito e esse efeito generalizasse
a todos os protestos, com que se assemelhariam as nossas cidades?
PS: Quanto a Pitões, se algum pastor pensar em passar por lá
com as suas ovelhas, como eventualmente costuma fazer, deverá coordenar-se previamente
comigo e, mais tarde, com todos os que posteriormente por lá vierem a
protestar. Há direitos a respeitar.