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12 julho 2026

Aqua e Circus


Na Roma Antiga a população era entretida e satisfeita oferecendo-lhes pannus (pão) e circus (diversão). Hoje já não é necessário passar pela farinha, oferecem-se subsídios, isenções e outras benesses. Acabo de ler que a câmara do Porto vai tornar os transportes públicos gratuitos na cidade, mas apenas para os habitantes da mesma, por acaso os seus eleitores. Um prospero burguês da Foz viaja gratuitamente e um arrabaldino da Afurada, que vem à cidade ganhar o salário mínimo, paga!

Também tem sido notícia a situação terceiro-mundista em Almada com a falta de abastecimento de água. Parece que alguém se esqueceu de planear a prazo, sendo que tudo o que fica para lá do horizonte de um mandato é esforço sem retorno (eleitoral). Em contrapartida, se formos ver o programa das festas nesse burgo, vê-se que não falta circus. Isso não pode falhar e gastos desproporcionados em festas, espetáculos, iluminações natalícias, pirotecnia e outros entretenimentos vistosos são uma realidade recorrente pelo país fora. Pode a prazo a água faltar, mas circus é que nunca se pode dispensar.

Sabemos como acabou Roma. Na barbárie.

PS: Se um dia faltar o abastecimento de água em Vimioso, a Ministra do Ambiente também lá irá solidária…?

19 dezembro 2024

A falta de um Olimpo


Em contexto cultural fortemente monoteísta, seja de base cristã, judaica ou muçulmana, algum tipo de invocação dos méritos do politeísmo é quase crime. No passado foi mesmo crime e objeto de pesadas penas.

Efetivamente, na construção da relação do ser humano com a transcendência, estamos habituados que o Deus único seja um dos pilares fundamentais e inquestionáveis (e não me confundam com a Santíssima Trindade).

Se a religião serve para dar uma visão alargada da existência, uma dimensão metafísica, elevar comportamentos e promover valores mais altos do que os dos instintos básicos, … será que o mais “eficaz” é acreditar e temer um Deus único, coisa simples de explicar e assimilar?

Sobre o deserto ser monoteísta e a floresta, eventualmente, politeísta, já especulei ali atrás e uma boa parte desse texto encaixaria neste, mas não o vou repetir.

A panóplia de Deuses Gregos (e posteriormente traduzidos pelos romanos), dá múltiplas dimensões e motivações. Mais ricas, menos castradoras…?

A função reguladora de instintos, que a religião promove, obriga a disciplina e, consequentemente apresenta a ameaça de castigos terrenos ou divinos. Mas não haverá algum exagero redutor e pobreza intelectual derivados de tanta simplicidade, rigor e severidade…?

Acredito que para muitos a religião e a fé têm uma dimensão dogmática que vai muito para lá destas especulações racionais e heréticas. Acredito também que outros se possam sentir perdidos e ter dificuldade em definir uma hierarquia entre Atena e Baco…

Mas também acredito que o esforço para conseguir um mundo melhor tem dimensões e fontes de inspiração múltiplas, divinais ou naturais, dogmáticas ou racionais que irão para lá do receio do castigo.

Será pecado às vezes visitar o Olimpo e valorizar o que por lá anda?

26 junho 2018

Local de sabedoria


Quiseram a sorte e o azar de uma desprogramação de última hora que eu pudesse visitar longamente a basílica de Santa Sofia em Istambul. Na prática não foi bem visitar, foi tentar vivê-la.

Já lá tinha passado há uns anos, mas apenas entrando num pé e saindo no outro. Agora foi diferente. Atravessei-a lentamente, explorando todos os cantos e esquinas acessíveis, com a sensação e a emoção de estar a pisar um lugar histórico único. Em mais de quatorze séculos por ali passaram imperadores romanos, papas, patriarcas ortodoxos, sultões e califas. Num local ímpar da bacia deste mar nosso a quem batizaram de centro da Terra. Ali, no promontório do “Serralho”, condensam-se e cruzam-se tantos caminhos, guerras, impérios, riquezas, artes, saberes e desgraças, que é impossível não sentir um peso enorme nos ombros, por maior que seja a leveza com que se procura colocar os pés naquelas pedras desgastadas pelos séculos.

A basílica é maciça, maciça no aspeto exterior, maciça no espaço interior e na sua história de sobrevivência. Os quatro minaretes que em tempos a mesquitizaram, fazem uma espécie de cerco, circunscrevendo-lhe o espaço e, se é certo que ela não cresce para lá daquele perímetro, em nada perde de dimensão e pujança. Gostaria apenas que lhe retirassem os escudos verdes arabizantes descaracterizadores, da mesma forma como apreciaria que a antiga mesquita de Córdova fosse libertada dos adicionais cristãos lá colocados.

As figuras, temporariamente escondidas durante os séculos em que foi local de culto do Islão, resistiram mais ou menos e vamos vendo-as assim, enquanto pudermos, já que não faltam tentações e intenções de fazer o edifício retomar essas funções.

Sofia significa sabedoria, certo…? Oxalá!

23 abril 2007

Baelo Claudia




E ainda os Romanos...
Depois do registo anterior sobre o legado romano, era quase inevitável para mim esta referência a Baelo Claudia.

A chamada “Costa da Luz” entre Cadiz e Tarifa é um das poucas zonas de Espanha em que o mar ainda toca a terra sem encontrar grande fulgor urbanístico. O vento forte e a existência de largas zonas militares ajudam a explicar o fenómeno. Tão tranquilo que chegou mesmo a servir de refúgio para alguns alemães no pós 1945.

Zona de caça ao atum, dos descendentes dos náufragos da batalha do cabo Trafalgar e de povoações deslumbrantes como Vejer de la Frontera, mas já chega de divulgação turística.

Lá para baixo, próximo de Tarifa, quase no extremo sul da Península, está um dos sítios mais bonitos que jamais visitei. A praia de Bolónia com a língua da sua enorme duna, bem identificável mesmo de um avião em altitude de cruzeiro, e as ruínas de Baelo Claudia. Tudo isto num quadro de, chamemo-lhe, paisagem protegida. Tudo isto com tanta luz, ou não fosse esse o nome da costa, que não consegui apanhar a duna brilhante sem queimar a imagem.

O meu amigo PC, natural de Tarifa, contava que tinha herdado uns terrenos ali mas que era proibido construir o que quer que seja. Animava-o dizendo que sentar-se lá numa cadeirinha a ver as ruínas, as praias e, com bom tempo, Tanger do outro lado valia muito, muito dinheiro.

Líndissimo e ponto final! (e esta do ponto de exclamação a seguir ao “ponto final” é uma figura de estilo...)