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23 julho 2024

A Inapa


Esta empresa, prestes a fechar as portas, para muitos será uma empresa como outra qualquer, a sofrer da lei natural das coisas, para mim é um pouco mais do que isso.

Nos finais da década dos 80, a Inapa, contratou-nos um projeto pioneiro, um dos mais arrojados da nossa equipa na altura. Uma empresa que acreditou na capacidade da engenharia nacional, em domínios por nós nunca dantes navegados. Nos finais dos 90, uma atualização desse projeto foi dos maiores geradores de insónias que já experimentei.

Podemos questionar o racional estratégico de abandonar a componente industrial e de se centrarem na simples distribuição, quando o papel de impressão e escrita está já há muitos anos em declive descendente, sem perspetivas de inversão. Também não acompanhei a evolução da situação acionista e aprendi agora que o Estado, via Parapública, é o principal acionista.

Não parece ser difícil concordar que neste momento os milhões que faltam não serão uma ponte para um futuro risonho, mas antes um adiar do problema e quanto mais tarde, mais caro.

Agora, o que se pode questionar é o sentido de o Estado direta ou indiretamente ser acionista de referência de este tipo de empresa. Por este “tipo” refiro-me a empresas que não funcionam em meios protegidos e estáveis. Refiro-me a empresa que precisam de lutar e de se reinventar. Parece lógico que um acionista “normal”, dono e responsável pelos seus fundos, teria forçado algo com tempo, quanto mais não fosse a alienação da empresa antes de chegar a estes pontos. Assim, é um pouco o “não faz, nem deixa fazer” (há uma expressão menos polida para esta imagem…).

Se dúvidas houvesse, é mais um exemplo que isto não são missões para o Estado.

26 fevereiro 2021

Empresas, nascem e morrem


O livro acima representado, que li recentemente, é uma vista sobre a génese, desenvolvimento e desaparecimento da indústria de papel no estado do Maine, nos EUA, ao longo de mais de um século.

Com o devido respeito pelas distâncias, diferenças e diversidades, apetece-me desenhar um ciclo típico, que poderá não ser assim tão específico daquele contexto.          

Fase I – Os fundadores. A empresa é criada por alguém e segue dentro da família, com dono próximo, personalizado e extraordinariamente ligada à comunidade. Mais do que um emprego para a vida, a empresa é o sustento de famílias inteiras, em sucessivas gerações. Sem muitas obrigações legais que a forcem a tal, oferece um conjunto enorme de infraestruturas e serviços sociais à comunidade. Os trabalhadores, apesar de tudo o que falta, sentem-se orgulhosos em participar no projeto e no sucesso do seu trabalho.

Fase II – Os seguidores - Esgotada a participação da linhagem original, a empresa passa a ser dirigida por quadros aí nascidos. Se bem que a propriedade possa estar já dispersa e parcialmente longe da “terra”, não têm exigências apertadas sobre o retorno do seu investimento. Assim, mantem-se na gestão local uma visão de longo prazo e uma pressão moderada sobre os resultados. Para os trabalhadores o espírito não muda muito e sindicalização não é sentida como necessária.

Fase III – A degradação – Por falta de enquadramento e/ou de caráter o ambiente é envenenado por nepotismo, pequenos reis em cada esquina e iniquidades insuportáveis. Entram os sindicatos.

Fase IV – Gente de fora – A empresa é comprada, vamos supor neste cenário, para já, por outra do mesmo setor. É submetida a concorrência interna, os processos são comparados e questionados, produtos são deslocados e os que agora mandam ainda falam a mesma língua, mas com outro sotaque. A guerra com quem lá está, já sindicalizada, e quem chega e quer mudar é total. A empresa pode ser fechada, por excedentária na nova carteira, redimensionada ou mesmo melhorada. Não remam já com todos na mesma direção, mas antes se confrontam internamente, uns de um lado e outros de outro. As decisões de investimento são algo travadas pela incerteza do clima de litigância.

Fase V – Gente mesmo de fora – Diretamente ou indiretamente os donos são investidores financeiros, que colocam como objetivo prioritário absoluto a sua retribuição e a curto prazo. Nomeiam diretamente equipas de gestão, com esse objetivo, vindas sabe-se lá de onde, que não são minimamente consideradas nem reconhecidas pela antiga organização de cima a baixo. Aqui, tudo pode acontecer e o ambiente não é nem nunca virá a ser o da família. A empresa pode acabar por fechar, como uma grande maioria neste caso, ou não.

Algo que na minha opinião falha no livro em questão é a ligação e a influencia do meio externo e do mercado. Num cenário protegido a fase II, onde as pessoas são certamente mais felizes, pode ser viável, mas tornar-se inviável se o ambiente concorrencial apertar. As empresas necessitam de capitais para investir e sobreviver; quem os disponibiliza espera naturalmente resultados, dentro das melhores expetativas. Dificilmente apenas com legislação se conseguirá proporcionar e forçar um justo equilíbrio entre resultados, sustentabilidade, respeito pelas comunidades e manutenção de valores sociais básicos. Depende das pessoas, valores e … cultura. Entre irredutíveis sindicatos fechados em direitos adquiridos e predadores financeiros que não se preocupam em matar a empresa desde que o seu retorno a curto prazo seja o pretendido… há empresa que morrem e pessoas que sofrem. Depende da … cultura.

 

16 agosto 2016

A pólvora e os rastilhos

Se vivêssemos com um barril de pólvora aberto em cada esquina era muito provável que mais tarde ou mais cedo, por acidente ou vandalismo, alguns fossem explodindo. Podíamos reforçar a vigilância, aumentar as penas para os vândalos e os distraídos, investir em meios para apagar incêndios, mas nunca teríamos uma situação segura.

A pólvora dos nossos incêndios de verão chama-se biomassa: o mato e os ramos secos altamente inflamáveis que por ali andam. Podem ser usados para gerar energia! E se se criasse uma rede de centrais de biomassa para produzir energia com a biomassa florestal ao longo do país? Uma ideia que não é nova. Tentou-se implementar há 10 anos, abrindo-se um concurso para licenças para 15 centrais de biomassa, de norte a sul do país, totalizando 100 MW. Tanto quanto sei, das 15 apenas avançou a construção de 2 ou 3 e ignoro se ainda estão em produção. Sobre as razões da falha, será interessante começar por analisar o perfil e a experiência no sector dos vencedores dos diferentes lotes do concurso.

Entretanto, a mal amada indústria da celulose, investiu, construiu e opera centrais de biomassa. Qual a diferença entre os papeleiros e os felizes contemplados do concurso das 15 centrais? Apontaria duas principais: têm um local industrial onde a central é uma extensão, aproveitando evidentes sinergias e reduzindo custos fixos, e conhecem a floresta e o respetivo mercado.

Se existe um problema de viabilidade económica com a cadeia de valorização energética da biomassa florestal, ele também não se resolve aumentando o preço de compra dessa energia, porque aí ainda iriamos ver castanheiros e carvalhos a servir para lenha. Na minha opinião, a solução passar por analisar essa cadeia com todos os intervenientes e considerando todos os custos que o não retirar a biomassa potencia. Quem entende de floresta como a indústria de papel e da madeira e alguns serviços públicos de terreno, pode certamente ser parte importante da solução.