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28 junho 2022

Os meses sem “R”

Dizem que pode ser arriscado comer bivalves nos meses sem “R”. Parece que hoje com a evolução da análise e acompanhamento da toxicidade das águas, já nos podemos deliciar com umas ameijoas à Bulhão Pato em pleno verão sem risco.

Como novo risco temos o bacalhau à Brás, que poderá ter salmonelas se não for bem cuidado. Julgo que os riscos de intoxicação alimentar vão bem para lá deste, mas a novidade é ficarmos também a saber que devemos evitar adoecer nos meses sem “R”, porque, ao contrário do das ameijoas cujo riso está controlado, o nosso SNS descontrola-se nessa época.

Enfim, coisas da natureza e, no caso do SNS, duma natureza organizativa deficiente. O verão é um período diferente, onde a maior parte das pessoas goza férias, onde as organizações que necessitam de manter continuidade para isso se preparam e onde, naturalmente, as rotinas de cada um serão diferentes. Obviamente que se já em situação normal o SNS está deficiente, nesse período é ainda mais complicado. Um cidadão lambda pode afirmar que é melhor não adoecer no verão; agora que quem tem (i)responsabilidade apele à população para não ficar doente nos meses sem “R”, é surreal. Falta aqui algo mais do que os “R”.


22 setembro 2020

De Portugal e dos Algarves


 

Se desde Afonso III e a conquista definitiva de Silves passou a existir rei de Portugal e dos Algarves, se hoje o antigo ocidente do Andaluz é simplesmente uma província do país, aquela terra, para lá dos montes de Monchique e Caldeirão, continua a ter algo de diferente. 

Não sou do tempo do Algarve virgem, das pequenas aldeias e portos de pesca, sem as urbanizações e demais aflições. Sou do tempo em que a viagem, no verão, pois claro, incluía uma travessia árdua de longas searas escaldantes em estrada nacional e sem climatização para amenizar. Era muito longe, reforçando o exotismo e o exorcismo dos arrepios das ondas e vagas do atlântico mais a norte. 

Não sou daqueles para quem verão e Algarve são sinónimos, pelo contrário, mais facilmente me ouvirão dizer, “Tudo menos Algarve”. Apenas para Sol e praia não me mexo. 

Ao contrário do restante ex-Andaluz, o património histórico é bastante limitado. Para lá de uns pequenos cantos reservados e umas ruínas em Sines ou Aljezur, nada disto tem paralelo com a exuberância do outro lado e descontando já de caras o Alhambra. 

No entanto, de vez em quando, por lá passo, indeciso entre a espetacularidade natural do barlavento e a tranquilidade do sotavento. Dois qualificantes geográficos exclusivos do pequeno reino. Ficam sentimentos misturados. Se, por um lado, a devassa urbanística e de frequentação são impossíveis de ignorar e de facilmente aceitar, por outro lado, aquele ar, aquelas águas, têm um embalo e um encanto que se colam. 

No momento do regresso, quando se aponta o Norte, para vencer a serra, agora com as novas facilidades da autoestrada e do ar condicionado, há um sentimento de realmente deixar qualquer coisa de diferente. Entre “Tudo menos Algarve” e a qualquer coisa que por lá fica na partida, nem sei que diga.