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25 julho 2016

Le petit bonhomme



Esta fotografia correu as redes sociais e, para lá do ridículo evidente, recorda-me uma cena de “O Grande Ditador” de Chaplin, dos dois ditadores disputando a primazia da altura nas cadeiras do barbeiro...

Antes de continuar, afirmo não ter nenhuma simpatia ou admiração por Durão Barroso. Quando ele foi presidir a Comissão, até pensei ter sido escolhido por pretenderem alguém de rasgo limitado e suficientemente maleável.

François Hollande veio dizer que achava mal Durão Barroso ir para o Lehman Brothers, pela responsabilidade deste banco na crise de 2008 e pelo mal que ela provocou na Europa. Um pouco caricato e incoerente, mas vamos por partes.

Dizer que o Lehman Brothers foi responsável pela crise é como o bêbado que aponta a culpa ao último copo… Pretender que se não tivesse havido essa crise, de origem externa, a Europa estaria muito melhor… é anedota. Acredito tratar-se de uma mensagem para amansar a esquerda francesa, mas algo atabalhoada…

Já agora, o sucessor do Sr Barroso, o Sr Juncker que enquanto governante do Luxemburgo ajudou multinacionais a não pagarem impostos “justos” na Europa e concretamente prejudicando a própria França, não tem direito a umas considerações moralistas? Não será mais grave esta nódoa direta de quem está em exercício do que a outra, de quem saiu há mais de um ano?

01 janeiro 2006

E ainda Chaplin...



Para começar o ano, acho que não ficará mal um excerto do famoso discurso final de "O Grande Ditador"...

Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.

O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desviámo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de ódio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgraça e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A máquina que produz a abundância empobreceu-nos. A nossa ciência tornou-nos cínicos; a nossa inteligência, cruéis e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de máquinas. Se temos necessidade de inteligência, temos ainda mais necessidade de bondade e doçura. Sem estas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.

O avião e a rádio aproximaram-nos. A própria natureza destes inventos é um apelo à fraternidade universal, à união de todos. Neste momento, a minha voz alcança milhões de pessoas através do mundo, milhões de homens sem esperança, de mulheres, de crianças, vítimas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes. Àqueles que podem ouvir-me, digo: Não desesperem. A desgraça que nos oprime não provém senão da cupidez, do azedume dos homens que têm receio de ver a humanidade progredir.
[…]

Hannah, estás a ouvir-me? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos a sair das trevas para a luz! Vamos entrar num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

24 dezembro 2005

Charlot, Património Mundial

No dia 25 de Dezembro de 2005 passarão 28 anos sobre a morte do Grande Chaplin. Eu acho que Charlot deveria ser considerado património cultural da humanidade. Em qualquer época, em qualquer lugar deste mundo, aquele vagabundo é entendido e adorado. Sobretudo por quem tiver olhos e coração abertos, como as crianças. O pobre frágil e ágil, vencendo o bruto poderoso e tosco e, ainda por cima, ganhando no fim a menina bonita, é receita certa. Talvez por isso alguns intelectuais o achem sentimentalão e lamechas. Isso só pode, no entanto, vir de quem está distraído ou nauseado consigo próprio.

Uma leitura atenta dos filmes e, já agora, da sua biografia, permite ver muito mais. Charlot tem fome. Charlot luta pela comida, luta pela sobrevivência, obstinadamente. A comida tem uma presença quase obsessiva na sua obra. No topo está, naturalmente, a fabulosa cena da bota na “Quimera do Ouro.”

A mesma “Quimera do Ouro” produzida pela sua United Artists, frágil e ágil contra todo o poder das grandes produtoras apostadas em o ver falhar. E um dos filmes mais belos que eu já vi.

De novo a partir da “Quimera”, a dimensão coreográfica da deslumbrante dança dos pãezinhos. Mas não só. O movimento de Charlot em cena é muitas vezes pura e simplesmente um bailado.

Para os distraídos, Charles Chaplin, já sem Charlot, sem máscara, deixa em dois dos filmes finais uma nota explicativa da sua obra: “Luzes da Ribalta” e “Um Rei em Nova Iorque”. No primeiro está lá a dança explícita, a fugaz fronteira entre o sorriso e o esgar e a tenacidade da sobrevivência sem renuncia da beleza. No segundo, da mesma forma como o vagabundo batia no bruto sem piedade, Chaplin bate com elegância mas sem piedade numa América hipócrita e oca que o tinha envolvido na caça às bruxas por “actividades anti-americanas”.

Quem ainda o achar sentimentalão e lamechas, só pode estar mesmo muito distraído. Charlot é, de facto, com ou sem formalismo, património cultural da humanidade.