Tempos houve em que um poder dominante classificava de comunistas todos aqueles que de alguma forma dele discordassem. Vade retro Satanás e que Nossa Senhora de Fátima nos livre destes anticristos. Falo do antes de abril de 74, naturalmente.
A seguir, houve uma fase em quem não fosse de esquerda era
fascista e que o puro esprito de abril nos proteja destes perigosos reacionários
infectos.
Quando foi necessário ao Estado fazer contas à vida,
bem-feitas, e descobriu que a vida depois do défice se chamava troika, foi
decretada a sanha dos neoliberais. O prefixo “neo” dá até um toque científico à
caraterização, mas confesso que não sei como se distingue um neoliberal de um “paleoliberal”.
Hoje ficamos pela extrema-direita. Para uma certa esquerda,
carimbar opiniões ou propostas como de extrema-direita é o novo “vade retro” e,
como sempre, de largo espetro. Quem não concorda comigo é de extrema-direita,
ou, insinuação mais benévola, eventualmente sem o saber está a fazer o jogo da
extrema-direita. Se o objetivo é desacreditar e sugerir: “se não queres ficar
com essa etiqueta vergonhosa, muda de opinião”, o efeito real pode ser o
contrário.
Face a tanta insistência, gente eventualmente menos
esclarecida quanto a ideologias, mas convicta das suas ideias pode concluir: “Se
efetivamente as minhas opiniões são catalogadas de extrema-direita, então, se
calhar sou mesmo de extrema-direita e não o sabia”
Está bonito, está. Depois queixem-se!

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